MACHADO, Dyonelio. Deuses econômicos. Porto Alegre: Editora Garatuja, 1976.
Índice
## ...lhe impusesse silêncio a clepsidra... (Plínio J.) 19
## Dispôs, através da Itália, postos militares em número maior do que o habitual (Suetônio) 40
# TESSALÔNICA (TERMA) - A ARDENTE 50
## Incriminavam-se os atos, as palavras eram ditas impunemente. (Tácito) 50
## ... com extrema licenciosidade, tanto homens como mulheres. (Estrabão) 107
## A César apelaste? A César irás. (Vulgata) 131
##, em verdade, vida é vigília. (Plínio) 151
## A todos vós que estais em Roma, amados de Deus, santos chamados. (Paulo) 167
## Que é que ocorre, suplico-te, com a nossa Ática? (Cícero) 177
## Mas, na verdade, a Fortuna domina em todas as cousas. (Salústio) 232
Por várias razões, que ao público não interessam e que só iriam enfastiá-lo se fossem enumeradas, no decurso dum trabalho destes assalta à gente às vezes uma espécie de desalento. Assim, ele precisa de amigos, - que acompanhem as suas vicissitudes e lhe infundam esperanças.
Felizmente ele teve amigos. Muitos. Tantos, que a sua lista, uma vez levantada, tomaria muito lugar. Eu os resumo todos eles em Vocês, que levaram a benevolência aos limites mesmos duma simpatia... entusiástica. Isso se compreende com facilidade, quando se conhecem os laços que nos unem. Mas, mesmo assim, esta tentativa singela duma volta ao passado pertence-lhes.
O passado contamina. Donde, o perigo.
O primeiro - e o mais grave - é o alheamento da época em que se está e uma projeção num mundo que há de receber o intruso como um corpo estranho, eliminando-o fisiologicamente pela granulopexia, e lançando-o fora da vida. - Fora, por isso que, tendo recusado um mundo e não tendo sido aceito no outro, ficou sendo um clandestino.
Igual àqueles pobres diabos, de quem ainda haverá gente que se recorde, que furtivamente embarcavam (era o tempo dos navios) e viam-se repelidos em todos os portos da escala. Houve caso em que o indesejável cumpriu uma verdadeira pena de reclusão, tão longo foi o tempo em que permaneceu a bordo. Qual o crime? A medicina, em particular a medicina mental tem um nome para esse extravio original, causa primária de todo o drama. Mas, de que vale um nome?
Meu Velho Sanches não está fora dessa verdade, trate-se embora de mera e obscura figura de ficção...
Vítima do latim, seu caso está a merecer também um latim de ocasião: aetatem nostram sibi alienavit. Tito Lívio confessava, numa passagem tantas vezes lembrada, como ainda vejo num belo trabalho a propósito de Ovídio, o ilustre Paduano não ocultava que, ao historiar a Antiguidade, sua alma se tornava antiga também.
O passado do meu romance tem a sua particularidade: acha-se impregnado do presente.
Faz vinte anos praticamente que o venho acentuando. Não fosse isso, nenhum interesse teria em reconstituí-lo, pois não cabe a um antípoda dessas eras clássicas usurpar um poder que, de direito, pertence à Erudição, - salvo se almejasse atrair para si todo o ridículo que tamanho disparate comporta.
Falando à imprensa no Rio de Janeiro, contei que, no intervalo duma década (de 44/45, data dos meus últimos romances, até 54) concebera uma ideia cujas dimensões, além de a tornarem em princípio irrealizável, assumiam um caráter de idolátrica ambição. Não era outra coisa senão apanhar no ar que respiramos os elementos primários de um certo tipo de sincretismo e com eles marchar para uma nova Renascença.
Levei, já disse, uns dez anos nisso. Reli tudo que a minha curiosidade pela Antiguidade Clássica me levara a devorar desde a mocidade. Li muito mais, muito mais coisas. Encomendei livros. Vali-me de bibliotecas particulares e pública, - e, dentre estas, uma no estrangeiro. Revisei meu latim provinciano. Pus-me a decifrar (é o termo) o grego, em texto sem tradução, ajudado pela gramática e o dicionário.
Tudo isso no empenho de reconstruir o passado. Minto: poucas semanas do passado. De restaurá-las, com a maior exatidão possível, apenas para sobre elas, como sobre uma esplanada de torneio, movimentar os meus figurantes.
Em 1954 essa primeira tarefa estava terminada. Parti para a continuação, que era um segundo volume, e que foi concluído também. Dei-lhes nomes: DEUSES ECONÔMICOS o primeiro, Sol Subterrâneo o outro. *
Porque o fato é que a Antiguidade Clássica acha-se logo aí, murmurando à nossa orelha distraída um coro de vozes longínquas, - inflexões de vozes amadas que, ao contrário das do poeta, não se calaram.
Tanto mais que, com relação à História, não necessita possuir esse ouvido absoluto dos músicos, verdadeiro prodígio de sensorialidade: basta um pouco de recolhimento, e estaremos a escutar um insistente e estranho rumor. São os ruídos da Vida, que, uma vez produzidos, não se extinguem jamais.
Penso que foi uma situação dessas que gerou a Renascença, com o seu sincretismo.
Em DEUSES ECONÔMICOS o processo é simples: é o passado abandonando o seu lugar no tempo, invadindo o presente, com ele se confundindo. Fazendo-se atual, desde que os traços que lhes são comuns não ofereciam outra alternativa.
Ovídio também, em lugar de ir até a Antiguidade, dá um jeito de trazê-la até si. “Ele a vê através o seu tempo e empresta-lhe as suas cores” - observa Boissier. “Seu método ordinário” - acrescente - “consiste em modernizá-la”. E faz isso “sem esforço e com uma espécie de ingenuidade.”
A candura - atributo peculiar aos poetas - não é imprescindível ao empreendimento. O que a tarefa exige é que a justaposição das épocas surja por si. Mais ainda: que se haja revelado a priori, como material espontâneo e necessário para uma obra que, sem ele, não poderia nem sequer ser idealizada. Em suma, que dum certo modo, se veja organicamente alcançada essa “apropriação das cousas passadas ao presente”, condição que Sante-Beuve tanto valorizava na poesia épica.
Não se trata pois de ir catar as semelhanças, de aproximar situações, laboriosamente desencavadas. On cherche la mouche quelque part. Seria um trabalho de paciência, conduzindo a um resultado artificial de montagem, - que a um artista não seduziria.
Advertência:
As epígrafes que acompanham os capítulos, tiradas diretamente do textos clássicos latinos e gregos relacionados em apêndice, deveriam figurar nas suas línguas de origem, como mais condizentes com o espírito que tentei insuflar neste livro.
Todavia, afinal decidi-me pelo vernáculo. Tudo fazendo, é certo, para que pudessem conservar ao menos o eco das suas vozes primeiras.
E para completar: pequenos desvios da ortografia orificial, na maneira de grafar certos vocábulos derivados do grego, encontrarão justificativa numa atenção a um tempo percuciente e tolerante.
D.M.
* Cf entrevista concedida a Remy Corga Filho, “Jornal do Brasil”, 7 de outubro de 1972.
Ainda uma imprudência... O que aconteceu agora: o encontro com Leo e a sua literatura toda especial.
O encontro foi absolutamente fortuito.
Quem porém lhe deu sentido foi ele, - que se deteve ao primeiro chamado, ignorando quanto ele tinha de impertinente. Que lhe aceitou passivamente todas as implicações, - mais do que como instrumento: como um colaboradora fácil da Fatalidade.
Quando, não há muito, em Atenas escalava a acrópole em demanda dos propileus, pela primeira vez observou o poder mágico que desfrutam os degraus, de disciplinar e igualar todos os passos. E de impelir assim o indivíduo ao seu destino com um andar de antemão, e por outrem, regulado. É o que está ocorrendo agora consigo: cada imprudência sua lhe vai fatalisticamente medindo a caminhada para o desfecho último. - Que bem poderá ter lugar no subterrâneo das execuções...
Não há portanto como admirar que esses seus passos, que mais parecem pertencer ao Fado do que a ele, se carreguem duma lentidão sonhadora e desconsolada, a ressaltar estranho contraste com a pressa coletiva que observa a seu lado, que não é de ninguém em particular,antes mero capricho de grupo...
Tudo ponderado porém, o fato é que, apesar das novas disposições do trânsito de da proibição formal dos veículos trafegarem durante a maior parte do dia, de acordo com a Tábua Heracleana, as ruas estão intransitáveis. - Mesmo para quem arraste passos menos cismadores e menos predestinados do que os seus...
*
É nos passeios que se esparrama uma boa parcela do comércio da Cidade. Sobretudo o comércio menor - dos merceeiros, açougueiros, taberneiros em geral. Nos lugares onde as antigas arcadas ainda se acham de pé ou já se ergueram novas, é no fundo desses ocos que os pequenos negociantes vêm-se instalar, - como roedores ávidos de emboscada nos seus buracos. Mas já antes não havia muitas arcarias. Agora, seu número vai aumentar, - pelo menos meteram isso no projeto. Mesmo assim esses refúgios naturais dos mercadores a retalho diminuíram muito depois do flagelo.
Dum pano de fachada parcialmente desmoronada e que mostra ainda as suas raras e pequenas janelas praticadas a diversas alturas, uma construção, evidentemente ocasional, avança, invadindo a rua e a estrangulando. Um balcão está chumbado à parede. Garrafas de vinho, presas a corrente, pendem dum pilar que ficou de pé. É uma insígnia: aqui se bebe. Um barbeiro, trabalhando em pleno ar, respaldado apenas pelo círculo de clientes que esperam a sua vez, arma-se dessa inolvidável e sempre pranteada palavra da rua, que vitoriava feitos e ditos memoráveis da pátria, e que hoje se vê coagida a celebrar tão somente as proezas da arena. Ainda cintila nesses lábios gulosos, tanto quanto um débil reflexo da tesoura que, nos miudinhos intervalos do serviço, ele agita para ajudar a gesticulação.
Os dois amigos pisam uma faixa esbranquiçada que se estende sobre o calçamento de sílex das ruas - à maneira dessa grande tela mortuária que, no tear de Penélope, está continuamente a se fazer e a se desfazer... É a caliça, que se desloca dos lugares onde se trabalha freneticamente na remoção do entulho e na reedificação.
Mais espessa e mais marcada no seu ponto de partida, essa massa dum branco sujo se faz menos nítida à medida que avança. L. Sílvio, que a segue enquanto caminha, a cabeça pendida, não pode subtrair-se a comparações, a despeito do seu desespero: ela se lhe afigura como impelida por uma catapulta - um aparelho de propulsão cujo rendimento decresce com a distância.
A impressão é a duma cidade inteira - construindo-se de novo.
Mas uma cidade que, embora já não exista, devorada pelo fogo, não foi todavia evacuada pelos seus habitantes. Daí essa confusão. Mora-se, vive-se, trabalha-se ali como a céu aberto, demasiado publicamente. É um traço, peculiar à Cidade, que se agrava. E não para torná-la mais trafegável, naturalmente...
Na verdade apenas quatro dos catorze bairros urbanos foram poupados pela calamidade. Três ficaram simplesmente reduzidos a cinzas. Dos outros sete nada mais restou do que um montão de escombros calcinados. A Cidade ainda tem ruas, algumas paredes. Mas não tem mais teto. - A custo Lúcio Sílvio admite isso.
Dum lado e doutro da rua que percorrem, enfileiradas ao longo dos passeios, lembrando uma alameda, as colunas e as pilastras dos novos pórticos brotam dum solo recém-lavrado e, a bem dizer, estrumado por materiais de construção, que, sem descanso, tombam de pesadas carretas, causando um embaraço a mais à circulação.
Na falta duma política esclarecida e corajosa, a opinião reclama algum interesse oficial com o fim de desviar o castigo periódico dos incêndios e dos desabamentos. O próprio Sêneca não acaba de choramingar a propósito dos telhados, sempre a ponto de desmoronar? A pedra vai em parte substituir a madeira nas edificações.
Vestido com a sua exômis, aberta do lado direito para mais facilmente permitir o manejo do escopro e do martelo, o lapidário vai talhando sabiamente as pedras gabina e albana das casas de residência e dos blocos de apartamentos, o mármore e a pedra tiburtina para os edifícios públicos, os teatros e os templos. - É uma imagem afinal repousante: dum Vulcano domesticado, - industriosos e benfazejo.
O sol de verão abrasa os dois jovens e abrasa aquelas ruas destruídas e sem sombras, como se, ao se retirar, o fogo dos incêndios houvesse ainda deixando o seu espírito a frequentar e a assombrar a solidão das ruínas.
Qualquer pessoas dispõe certamente do recursos fácil da frescura das fontes e dos repuxos que a edilidade faz algum tempo vem multiplicando por toda parte. Ou então da sombra compacta dos loureiros e dos plátanos, nos recessos dos jardins imperiais, franqueados ao público, nas longas avenidas do Campo de Marte, no Pórtico de Pompeu. Tudo isso se se dispusesse de vagares - e sobretudo da tranquilidade - para o poder gozar.
Cousa curiosa: uma luz tão vasta, um céu tão límpido, - e essa sensação de aperto. Donde virá isso? Da pressa coletiva e febril, que não parece possuir um objeto palpável, o que a torna enigmática, quase irritante?...
- Isso é outra cousa que devia ser proibida! - E Sílvio aponta com o dedo.
Casas que trazem galerias salientes, essas varandas que o pessoal teima em dependurar dos andares superiores. Quando elas se encontram fronteiras umas às outras, como é o caso nessa ruela que se abre diante deles, a sensação de constrição pode explicar-se duma maneira inteiramente material, de algum modo gratificadora. Porque esses menianos dotam a Cidade aqui e ali do teto que lhe falta. Certo. Apenas, fora de lugar.
- Claro, é um perigo no caso de incêndio, como vimos bem recentemente. Mas que frescura de subterrâneo, que frescura antiga isto, mesmo assim, nos propicia!
Antiga... Não faltava senão isso: Caio Flavo se lamentando a propósito dessas vielas sombrias que o fogo arrebatou num momento de... de inspiração urbanística!
E há mais: a multidão. Uma corrente humana, apressada e barulhenta, precipita-se nessa ruas destroçadas e em declive - como a água rápida que desce para a Cidade nos aquedutos, cujos arcos se estiram por cima das ruínas, semelhantes a larvas de mil patas se desenroscando, na qualidade de seus únicos senhores, sobre um solo devastado.
A afluência de estrangeiros, trazendo de cada país a sua língua e os seus costumes, mudou a natureza do local, - despersonalizou-o.
Eles não dão um passo sem esbarrar com um tipo exótico.
Filósofos e sábios gregos de Alexandria e de Tarso, envolvendo-se com vaidade estoica nas pregas rasgadas do seu tríbon, como se houvessem feito um voto de pobreza para edificação de todo o mundo. Judeus pobres do Transtíberim, recendendo a alho, que vêm ao centro trocar os seus fósforos de enxofre por vidrilhos e miçangas. A vasa humana que o Oronte carreia para a desaguar no Tibre. Escravos Núbios, cujos torsos nus reluzem ao sol com lampejos fugidios de ébano.
Para combinar todos os contrastes (que é o imperativo do cosmopolitismo urbano) não faltam os Germanos, que o imperador emprega na sua guarda pessoal e que parecem carregar uma chama na fronte, a tal ponto a luz tenra dos países do norte dourou os seus cabelos. Passam Egípcios em procissão piedosa, - facilmente reconhecíveis pela sua cabeça rapada e pelas compridas roupas que envergam e que só por si os revestem de gravidade sacerdotal.
Desde que chegou, L. Sílvio vem-se movimentando, - agindo.
Já se ocupou da sua instalação, - o que não foi cousa simples, numa cidade em ruínas, atravessando uma crise aguda de habitação. Procurou trabalho, tendo tido a sorte de receber aquela oferta de Hegesipo. Mas, no meio de tudo isso, sempre a mesma mortificante inquietação, fruto da sua imprudência...
A cada momento - um susto. Ele se esquivaria voluntariamente a certos esclarecimentos. Mas como, se as notícias planam por sobre todas as cousas, tão naturalmente como a poeira que está sempre pronta a encetar o seu voo do seio dos escombros? É a falta dos tetos. Isso é certo. Se toda essa gente pudesse se abrigar nalguma parte, o medo não se acharia tão presente, pela falta de veículo. E as novas prisões, por exemplo, ferindo, como é habitual, indivíduos que não têm nome para ele, não existiriam igualmente.
E ele? é que ele existe para a polícia? Muito duvidoso.
Nada mais houve do que uma imprudência. Nenhum fato.
Em suma: a polícia terá seus projetos - e que projetos! - com todo o mundo, menos a seu respeito. - Desgraçadamente essa certeza dura pouco, e seus temores voltam com a mesma regularidade e intensidade.
Não tinha visto Leo no meio da multidão, pois se achava obrigado a se furtar a tal encontro. Por que fazer certos conhecimentos? de quem poderia bem continuar a não ser, a não existir?
Outra circunstância sobreveio. Circunstância acessória, mas de igual modo desastrosa: esse gesto furtivo e comprometedor - gesto conspirativo - no momento de receber-lhe o livro. E tendo uma testemunha por cima.
Caio Flavo é um patrício, fiel aos sentimentos de lealdade. Patrício, não se lhe pode pedir uma adesão franca ao Império.
Ou é que divaga, ao sabor dos seus desejos? Talvez. Tanto mais que ele interceptou esse olhar de surpresa, quase de espanto, que apenas deslizou sobre o manuscrito, mas que lhe adivinhou o conteúdo, - como se saboreiam iguarias delicadas num festim nada mais do que as provando com a ponta dum dedo.
A melhor tática será pois - se não exibi-lo - não ocultá-lo igualmente. Vai retirá-lo do fundo duma das dobras do amíctus, onde a sua perturbação o havia sepultado. E, quando se fizer alusão ao escrito (o que é fatal) encastelar-se naquele ponto: o do interesse especulativo pelo assunto, nada mais.
Mas é por tudo isso que bem desejaria se achar longe, bem longe, ou não ter mostrado tamanha pressa em vir ali naquele momento.
Porque não seguiu a sua primeira inspiração, em Corinto?
Agora é tarde.
E ainda há a sua situação econômica.
Nem pensar portanto no exílio voluntário duma nova viagem. Alexandria, das longas e largas avenidas e que se achava mesmo no fim da sua rota, ou melhor: da rota do navio que o trazia?... Alexandria ficou, definitivamente, para trás. Refugiar-se nos campos, qual outro Horácio na doce calma dos seus monte sabinos?... Onde encontrar a calma horaciana para gozar duma situação tão bucólica?... Não.
Há o recurso de voltar para casa. Mas isso ele não quer. Deve permanecer onde está.
E para que se lamentar, quando ele-próprio - e nenhum outro - traçou o seu destino?
Acaba de chegar.
Estivera na Trácia, na Macedônia e na Grécia própria, de volta daquela sua viagem ao país dos Panônios e dos Getas.
E trouxera recordações.
Recordações imperecíveis duma jornada que se apresentara por si mesma demasiado curiosa para poder ser olvidada. E que marcara um novo rumo na sua vida.
Num momento em que se debate numa tamanha angústia, chega a ser confortador evocar algumas delas:
Uma curva rumorosa de rio por exemplo, eternamente rememorado, porque esteve presente à agonia dum deus... A frontaria branca dum templo solitário, entrevisto lá longe sobre o seu outeiro, enquanto a carruagem bordeja o caminho duma encosta... A placidez que emana desses povos graves e laboriosos que habitam as montanhas... Mas a fatalidade o atraíra para Tessalônica. - As suas vicissitudes, a bem dizer, têm o seu ponto de partida em Tessalônica.
A considerar a sua vida anterior, tudo o que lhe aconteceu em Tessalônica foi bem estranho, embora, a um raciocínio frio e realista, tudo se apresentasse tão trivial: uma simples aventura, dessa que se oferecem espontaneamente aos que andam em viagem. - Só, que não é tão simples o tormento que a aventura lhe vem custando...
*
Deve-se forçar uma passagem.
Romper um círculo de ociosos que pasmam para o encantador de serpentes.
De toda parte chegam-lhe ao ouvido essas vozes da rua, descaradas como a nudez.
Um sujeito gordo e imundo, à frente do que restou da tasca, apregoa as suas salsichas, que fumegam dentro das caçarolas enlambuzadas e exalam um odor acre e pesado de fritura. Ouve-se um acento plangente: são as canções que entoam, ao pedir o seu óbulo, sob a invocação de Belona, os mendigos e os náufragos, verdadeiros ou simulados.
Passam indivíduos de condição rodeados de servos e de clientes. Às vezes elevando-se acima da linha das cabeças, como uma canoa que a vaga embala, balança um palanquim, sobre os ombros de carregadores que se vão procurar expressamente na Libúrnia e que se vestem de vermelho para o ofício. As cortinas, entreabertas, deixam ver por um momento um rosto pálido e aristocrático de mulher. - Imagem essa, também, que a gente acariciaria de um olhar apaziguado, mas que a pressa torna fugitiva como todo o resto.
*
Ainda não atingiram a orla daquele mar de devastação. Contudo, o traçado mais racional das novas ruas permite, aí, um certo escoamento do tráfego. A atenção já pode ser desviada para outros objetivos, embora eles se encontrem em pleno Argilétum.
Caio põe-se a explicar a Sílvio os motivos da sua pressa, pois que ele tem uma. Marcara um encontro com um constituinte na casa de Hegesipo, o Judeu, e não lhe convinha faltar à entrevista. - Um constituinte... Não podia deixar de ser senão isso.
E identifica:
- Teófanes, que veio há pouco de Heracléia. Um original, como você já devia ter notado, porque o conhece.
Hegesipo pertence a esse número de estrangeiros letrados que o estado procura atrair à metrópole do Império, conferindo-lhes o direito de cidade. Ao contrário dos preceptores domésticos, na maioria Gregos, tem escola na própria casa. É possível que, afinal, Sílvio venha se dar aí uma ocupação, na qualidade de professor adjunto. Tudo o anuncia.
O Joseph primitivo, e em parte condenado, virou no Hegesipo atual. Tais adulterações (ou traduções) estão em moda...
Mas, quanta sofreguidão em investir quem quer que ali chegue do direito da cidade! Teve a impressão de haver na Grécia, quando andou por lá, verdadeiras agências para a venda dum título, outrora tão ambicionado.
Sim, recorda-se bem daquele constituinte de Caio Flavo, esse Teófanes, chegado não faz muito de Heracléia da Cária. O advogado - ele o sabe - está justamente se esforçando por meter em funcionamento o maquinismo jurídico do estado em proveito desse estrangeiro, que quer gozar dos foros de cidadão com seu diploma civitatis, e, dessa forma regularizar a sua permanência no país. Todos os esforços do profissional devem ter seu preço. - Inclusive aquela pressa...
Ao defrontarem uma casa de livreiro, um magote de indivíduos toma-lhes o passo, saindo da loja e precipitando-se para formar o séquito dum homem que vai na frente, envolvido num pálio grego.
Ele tem uma cabeça expressiva. A traduzir expansibilidade (do geste à maneira de andar) conversa com os que estão mais próximos. L. Sílvio escuta alguém dizer que é Zenodoro, o escultor. Ele já fizera uma estátua colossal de Mercúrio, muito apreciada. O gosto tendia para o gigantesco. Dizia-se que estava ali para executar a estátua do Imperador, também em proporções descomunais.
- Zenodoro entre nós é um acontecimento - comenta Caio.
- Mas será Zenodoro mesmo?
- Por que duvidar? Ao menos por uma vez na vida, toda a gente, de todo o mundo, há de vir aqui. É uma fatalidade. Sua vez agora chegou.
Caio Flavo interrompe-se, para continuar em seguida num tom meditativo:
- É bem um sinal da grandeza desta cidade.
E exaltando-se:
- E da sua miséria!
Suspende-se de novo. Depois:
- Decerto você já reparou nas meretrizes que fazem a sua ronda nas proximidades do Circo. Ou do que foi o Circo... Elas se cobrem a cabeça com uma mitra de cor escandalosa, provocativa. Outro produto de fora. E que nos vem da Síria.
Caio tem razão. O Império fizera de todo o mundo um só país e da sua cidade, outrora tão característica - tão local - a cidade universal. Deu a todos os povos a paz política e um trânsito seguro dentro das suas fronteiras. Mas, com isso, só aproximou anseios que antes não se conheciam entre si. Ali estão, mais do que essas prostitutas mitradas, os escombros tisnados da Cidade para o atestar. E, quando tudo isso faltasse, havia os livros de Leo, levantando o seu clamor apocalíptico, apelando para um fim próximo e para a destruição...
Para um erudito, para um técnico, habituado a comparar sistemas, não havia nenhuma novidade nas ideias desses livros. Disso ele se capacitou pessoalmente, sem ser entretanto um especialista. A teologia é uma ciência há muito encerrada e todas as religiões se parecem. Teve uma discussão sobre o caso ainda recentemente. Disseram-lhe que aquele trabalho que Leo acabava de lhe passar abria novos rumos à questão. Não acredita. Todavia desejou conhecê-lo. Sabe de antemão o que vai encontrar nele, agora que tem a chave para a sua interpretação: sob uma forma mística, vazada num grego que deixa o seu tanto a desejar - uma reivindicação econômica, nada mais.
E a polícia parece sabê-lo também. A monolatria oriental - ou que outro nome tenha - infringe certamente uma lei do estado, que considera, tecnicamente, como superstição toda veneração de divindades estrangeiras não legalmente reconhecidas. Mas isso a bem dizer é letra morta, diante da promiscuidade dos deuses e da confusão das crenças, dessa teocrasia em suma que já se vai constituindo como religião oficial do Império. Como explicar tamanhas violências, senão admitindo que o poder público enxerga tão claro como eles, pelo menos como ele e Evandro?
Evandro não há de demorar em aparecer por aí. Acham-se em plena estação das travessias marítimas, - o mar ainda está longe de ser uma via interditada: o mare clausum. Qualquer dia desses o seu navio há de estar entrando num desses grandes portos que servem a Cidade. O pior foi ter deixado Tessalônica sem se despedir dele. Tudo derivou daí. Em Atenas, toda cheia duma solidão encorajadora, experimentara um sentimento de liberdade, de segurança. Sobretudo, de despreocupação. - O seu erro, erro fatal que ainda o pode levar à morte - e morte infamante - foi obra dessa despreocupação.
A escola de Hegesipo não se acha longe: menos de metade do caminho que já percorreram. Ele pensa saber exatamente o que levou Hegesipo a mandar chamá-lo, mal terminadas as férias. É o seu projeto de desdobrar o programa num ensino de gramática e num curso de retórica. Ele já lhe falou nisso. Um mestre de oratória poderia hoje limitar o seu ensino apenas aos adultos. A esses candidatos aos empregos lucrativos do estado, para quem a eloquência é um elemento indispensável, e que pagam bem. - Mas para isso seria preciso ir a Rodes.
A seu lado, Caio informa:
- Pedânio há de estar lá também.
Sílvio volta a face para ele.
C. Pedânio? ... Seja. Todavia esse aviso (ou não se trata absolutamente dum aviso?) provoca-lhe mal-estar. E sem razão.
Pedânio, antes de tudo, é simplesmente um caso interessante: espírito curioso, culto - e devoto! Cousa rara, ante essa incredulidade que assalta a nação, sobretudo nas esferas instruídas. Apesar dos esforços governamentais para restaurar a fé, a proporção dos descrentes vai em franca disparada, correndo parelhas com o fatalismo astrológico dum Tibério por exemplo. - A esse aspecto, reconhece Sílvio, a ortodoxia de Pedânio vê-se temperada, nos seus excessos, por esse encanto poético que promana da tradição...
Chegam defronte da escola. A sala de aula ocupa uma espécie de alpendre, uma pérgula - a pérgula magistral. Apenas, os para-ventos estão discretamente corridos - e assim parece que se conservam mesmo durante os trabalhos escolares - contrariamente ao que acontece com os demais estabelecimentos do gênero, que se escancaram e se devassam, num exibicionismo charlatanesco.
À vista de tamanho desconforto, Caio sorri:
- Incômodo...
Mas logo emenda-se:
- A primeira cousa, aliás, que se deve ensinar à juventude é a insensibilidade ao sofrimento. O estado precisa disso.
Quando chegam os dois amigos, está Hegesipo conversando com Teófanes - recém-vindo de Heracléia da Cária - e com o devoto C. Pedânio.
O fumo das lâmpadas que trazem habitualmente os alunos à hora de entrada, à hora matutina - enegreceu os bustos de Horácio e de Virgílio, que ocupam um lugar de honra na sala. - Era como se uma pessoa, reflete Sílvio, que aliás não tivera de sair de casa para aprender e pouco sabe das exigências de ornamentação duma escola primária (dum ludus litterarius) era como se a gente se encontrasse diante dessas máscaras dos antepassados (também enegrecidas pela fumaça) que abarrotam os armários do átrium das grandes casas senhoriais e que se mostram aos visitantes com uma solicitude a que não faltam a vaidade e o desdém. Como insígnias da profissão, além da cátedra, encostado a uma parede e sob o alcance duma mão severa, esses dois instrumentos da Ordem - tão cara também ao estado: a férula e o açoite.
Hegesipo volta à sua observação:
- Eu estava dizendo a Teófanes e a Caio Pedânio que, a continuar a alta dos aluguéis e essa ameaça de despejo a todas as calendas de julho, terei de fechar os cursos e me entregar a um outro ofício. Ou ir ensinar gramática latina no país dos Volscos, onde se pode comprar uma vivenda com jardim pela importância que eu pago anualmente pelo aluguel desta simples pérgula. Podem-me acreditar: tenho a informação duma boa fonte.
Caio Flavo:
- Dum lado o enriquecimento, doutro a diminuição das rendas. Pois é fato inegável a vida encarece aqui e que os nossos proventos decrescem. Não faz muitos anos mesmo, o poder público limitou os nossos honorários de advogados, declarando culpáveis de concussão os profissionais que exigirem dos seus constituintes uma importância maior do que o máximo fixado em lei. Assim, com essa permanente intervenção do governo na economia privada e a sua política de tabelamento de preços, não se pode trabalhar. Quanto tira você, por aluno e por ano letivo, Hegesipo?
- A oito asses por mês... Faça você mesmo a conta.
- O equivalente aproximado de trinta sestércios. É pouco.
Muito pouco. Ele está cansado de reconhecê-lo e proclamá-lo Voltando-se para Sílvio, ele lhe expõe o motivo do seu chamado. Era mesmo o que o rapaz supunha.
Diz-lhe Hegesipo:
- Aproveitamos este resto de verão. Você dá o seu pulo a Rodes.
Rodes é o grande centro oficial da retórica. Tinha pretensões de restaurar a pureza do estilo ático, modernizando-o.
E as viagens para a cidade mais importante da Grécia haviam-se tornado uma cousa trivial. A Cidade de Febo, como era chamada na propaganda, transformara-se, pelas suas belezas naturais e pela salubridade do clima que desfrutava toda a ilha, numa estação de veraneio para as altas classes. - Conquanto esse ano, devido ao desastre que acometera a Urbs, a onda de veranistas ficara cortada ao meio, segundo informa Hegesipo, - sem deixar aliás transparecer nem mágoa nem júbilo. Quiçá revelando, como parece a Sílvio, essa satisfação improdutiva de todos quantos - e são o maior número - reivindicam um prazer almejado, jamais atingido...
Os cursos hão de estar apenas se abrindo, como em toda a parte. O que significa que, se ele se apressasse em alcançar o navio antes da data fatal do terceiro dia dos idos de novembro,chegaria a tempo. E na verdade sente-se tentado a uma escapada. A uma mudança, - para respirar... Embora Rodes não lhe ofereça maior segurança do que aquela cidade ali. Infelizmente seus recursos no momento não lhe permitiriam isso. - É o que confessa a Hegesipo.
O ludimagíster fica refletindo. Ele necessitava da colaboração de Sílvio, que descobrira quase acidentalmente, no instante mesmo em que ideara um plano de trabalho que lhe parecia cheio de futuro. Podia contratar um retor grego: eles abundavam por toda a Cidade. Mas não se vencera de todo essa desconfiança que o Grego inspira. Ele-Hegesipo deveria desincumbir-se da tarefa pessoalmente: seria o ideal. Não dominava porém suficientemente o grego para assumir a responsabilidade dum curso amplo de eloquência na capital do Império. Uma lástima.
- Eu vou pensar no caso. Depois falaremos de novo.
Pensar na forma do financiamento da empresa. Fazendo uma antecipação, a ser descontada nos futuros honorários?... L. Sílvio, um sonhador, só não havia de sonhar muito era com o dinheiro...
Caio Flavo já pusera Teófanes ao corrente das demarches do seu negócio. O processo subira às mãos do Imperador. A este competia conferir o título de cidadão. Desgraçadamente, neste país, as rodas da maquinaria governamental só se moviam quando bem... lubrificadas:
- Você pode me adiantar mais algum dinheiro?
- Posso.
Teófanes conta as moedas de que o seu patrono necessita e entrega-las a ele. Não supunha entretanto que o próprio chefe de estado interviesse em pessoa num processo daquela natureza.
- Representa isso uma simplificação - esclarece o advogado.
E vai guardando os áureos de Teófanes, com dignidade. Sílvio, que alimenta um sorriso interior, diria: com gravidade... Essa gravidade compensadora com que se procura vencer uma situação falsa, e que é geralmente a atitude de todos os que recebem dinheiro.
A cidadania, primeiro conferida pelos reis, passara na República a ser atribuição do povo, reunido nos comícios, como explica o causídico. Mas agora era da exclusiva alçada do Imperador, seja em virtude do seu império proconsular ou da sua potestas censória, seja, mesmo, sine lege.
Não há mais nada a fazer ali. É o que a atitude dos visitantes parece estar a denunciar. O dono da csa então observa, divagando:
- O outono sempre me predispõe à preguiça. Como um verão adicional.
Caio, sorrindo:
- Mas é forçoso, enquanto vela Teseu, arar os campos de Crômion...
- Não! Vocês não vão voltar agora! Seja nos campos, seja onde for, o trabalho que espere. Fiquem mais um pouco: vamos conversar.
Não há maior objeção. Sílvio depõe sobre um dos escabelos da escola o rolo de papiro que Leo lhe havia passado. Pedânio, ao ver-lhe os caracteres gregos, indaga:
- Algum poema alexandrino?
Caio, o advogado, ergue um olhar rápido para Sílvio. Este leva automaticamente a mão ao manuscrito, como para protegê-lo.
A suposição de Pedânio não era fora de propósito. Essas composições poéticas, artificiais e laboriosas, constituíam um ótimo tema para exercícios escolásticos. Possuíam a primeira condição para isso: eram difíceis. Nada mais natural do que ver um trabalho desses nas mãos dum professor designado. - Quantas vezes mesmo não trouxera Sílvio algumas dessas obras bem apertadas contra o peito!... Mas ele responde, forçando um sorriso de bonomia:
- Não. Trata-se antes do gênero epistolar...
Epistolar?... É o gênero literário da moda!
- Deixe me ver - pede Pedânio, adiantando-se.
Desenrola o papiro. Percorre-lhe algumas linhas.
- Mas, que é isto?
Intrigado, demora-se num ou noutro trecho.
- Uma demonologia!
E devolve o manuscrito.
- Sim: uma cristologia - confirma Sílvio, apanhando de novo o papiro.
Cai um silêncio. É Caio Flavo quem observa, passado um momento:
- Começa-se por difundir essa literatura, tirada aos milhares de exemplares por centenas de hábeis escribas, copiando juntos sob o mesmo ditado, nas grandes casas do gênero. Atrás dela vêm os deuses exóticos que esses livros revelam.
O livro não devia ter um editor responsável. Pela qualidade inferior do papel e da tinta, que lhe dava um caráter suspeito, não era difícil conjeturar que o manuscrito entrava na grande família desses folhetos clandestinos, fora de comércio, que inundavam a Cidade.
- A polícia sabe da existência desses panfletos. Tenha cuidado - recomenda Hegesipo.
É que a reação atinge o seu auge. A mais teórica e impessoal exposição de doutrina, desde que se relacione com o movimento, constitui para a polícia elemento subversivo. Quem for apanhado com um desses trabalhos já se pode considerar perdido. Isso é um erro. Pode dar-se mesmo o caso duma pessoa sentir-se atraída exatamente pelo caráter exótico da teoria, sem que isso importe no compromisso de adotá-la. Como um naturalista que se interesse pelos Trogloditas, que vá mesmo ao seu país com a intenção de estudá-los, não está na obrigação de seguir-lhes os hábitos, que - dizem todos - são os mais singulares. Mas Sílvio resolve, pelo momento, calar-se. Enrola tranquilamente o seu papiro, guarda-o e vai sentar-se num banco - num escano à maneira de estrado - disposto a enfrentar o pior. - A sua ansiedade às vezes toma esse ar sereno de resignação.
Caio rompe o silêncio:
- É mais um deus que se prepara para encetar, como todo o mundo, a sua viagem a Roma.
- E dos mais atrabiliários. Como todo deus novo, em plena pujança da criação - acrescenta Pedânio. Aliás, como ele observa, voltando-se apologeticamente para Sílvio, os últimos acontecimentos puseram Cristo na ordem do dia. E conclui:
- Não é só você: todo o mundo, embora não o confesse, está interessado em conhecer essa nova superstição judaica.
Judaica?... Hegesipo protesta:
- Os Judeus não reconhecem senão um deus, que se faz nomear pelo tetragrama místico e que existe sem ter começado.
Teófanes tem um sorriso:
- Muito sutil, a essência desse deus...
Hegesipo prossegue:
- Esse Cristo de que vocês falam e que alcançou uma tão sinistra celebridade nestas últimas semanas, é um simples impostor, como há muitos, nesses momentos de crise, na minha terra. Dizia-se descendente de Davi com fins meramente sediciosos, como a justiça devidamente comprovou a seu tempo.
Passado um momento, ele continua:
- Jesus, que vocês denominam o Cristo e que na verdade se chama Yeshu Nosri, é o filho da impureza. Seu verdadeiro pai é Partenon, o soldado. No Egito, aprendeu a magia, que introduziu na carne por meio duma incisão e que quis aplicar na sua terra. Assim se explicam os prodígios que operou. Era um sedutor do povo, - um tentador. Por isso foi preso e condenado à morte. Mas o Sanedrim, fiel ao seu princípio de só excepcionalmente proferir sentenças capitais, aguardou quarenta dias, durante os quais fez um arauto em vão conclamar o povo a produzir alguma prova em defesa do réu: o crime de Yeshu, o Mágico, era mesmo indefensável. Foi ele então lapidado, em seguida enforcado, em Lida, às vésperas da Páscoa. Hoje, sofre as torturas do fogo na Geena, tendo sido mergulhado na Fossa da Perdição.
Cala-se um momento. Depois remata:
- O cristianismo, pois, como veem, já era um caso acabado. Com a repressão policial que desbaratou os poucos partidários com que Yeshu Nosri contava entre nós, o silêncio mais completo vai cair sobre tudo isso. Vocês verão.
Realmente, como faz notar Pedânio, fora essa a impressão inicial: de que eram muito poucos os transviados que se deixavam arrastar pelo engano duma propaganda capciosa, alimentada de fora, pelos inimigos do Império, com o dinheiro do Oriente. Mas a polícia logo mudara de opinião: tendo começado por deter os poucos que confessavam Cristo, acabou, na base das suas delações, por aprisionar uma imensa multidão de culpados. E sempre assim.
- E as batidas prosseguem.
Caio:
- Mas a polícia não conseguiu arranchar-lhes a confissão de haverem posto fogo à Cidade. Não é mesmo?
- Com efeito - responde Pedânio. - Embora eles se tenham declarado réus convictos do crime principal.
- Que crime? - indaga o advogado.
- O de odiar o gênero humano - esclarece tranquilamente Pedânio. - E, com isso, mereceram o último suplício - conclui.
Caio sorri. Isso também não lhe pareceu muito claro. Se eles fossem de fato os autores dos incêndios, tudo se explicava: faltaria ao ato um móvel especial e direto. Não teria sido dirigido contra o estado, nem mesmo contra uma classe. Porque não é ateando um incêndio indiscriminado que se atinge o poder político duma sociedade. Só podia traduzir um desejo de extermínio total.
- E foi essa a intenção deles - martela Pedânio: - querem acabar com o gênero humano, que eles odeiam. Vivem pregando a dissoluão da família e da pátria, o próximo fim do mundo. Uns infames!
Transcorre uma breve pausa. Depois:
- Muita gente hoje está tomada de piedade pelos adeptos do Cristo - observa Caio. - O castigo foi por demais atroz.
- Foi apenas exemplar - retruca Pedânio.
Com isso, iria cair no debate um silêncio estéril, - não fosse Caio lembrar:
- Aqui quem deve conhecer mais alguma cousa sobre essa nova divindade é Sílvio.
Sílvio, lá do seu canto, tem um sorriso sarcástico:
- Você já me toma também por cristão...
- Ora! não faltava mais nada...
De fato, confessa Sílvio, oferecera-se-lhe um primeiro contato com a doutrina, em viagem. Colhera, aqui e ali, alguns dados que andam na tradição. A fonte principal desse seu escasso saber porém - acrescenta com o seu sorriso triste - eram as epístolas que começaram agora a copiar e difundir, dum dos seus propagandistas.
Hesita um instante. Mas conclui a informação:
- Um artesão que viveu ou vive ainda num casebre no outro extremo da Cidade.
Todos prestam atenção. Uma atenção que pede detalhes.
- Para os lados da porta Lavernal, na via Ostiense... Existe isso? - vai informando e perguntando Sílvio, inseguro e tateante, no seu papel de forasteiro.
- Sim. Atrás do Aventino. Continue.
Um Sujeito interessante, prossegue ele, muito conhecido no mundo grego. Viera para cá preso.
- Será esse Paulos, que escreve essa sua carta? - faz Pedânio.
- Paulo é o nome de guerra. Seu verdadeiro nome é Saul. Nasceu na cidade de Tarso e é tapeceiro. Justamente as suas epístolas é Leo, o liberto, quem as distribui.
- A esta hora já deve ter expiado o seu crime no anfiteatro - assegura Pedânio.
- Ele é cidadão romano - pondera Sílvio.
- Então sob o gládio.
E no jogo fisionômico, Pedânio revela toda a repugnância que lhe inspira uma situação legal, que comina a pena nobre de decapitação para indivíduos tais...
Procurando trazer a discussão para o terre doutrinário, Caio insinua:
- Ao que parece, Cristo é a encarnação humana de Baco...
Todos esperam uma resposta de Sílvio, - que aliás não faz muito gosto em enveredar por esse terreno. Contudo anui:
- De Baco ou de Diônisos.
Diz a lenda, como esclarece Sílvio, que Cristo nasceu num curral, de gente humilde. Foi mandado a este mundo pelo seu Pai, o Júpiter Sabázio, com a missão de se sacrificar pelos homens, de redimir-lhes as faltas. Ensinou, fez prodígios, fez milagres.
Morreu na cruz, como um escravo.
Nas vésperas de morrer institui uma ceia sagrada, onde, inspirando-se na tradição litúrgica de Elêusis, parte o pão e o distribui entre os discípulos, dando-lhes a ordem de o comerem, porque é o seu corpo; serve o vinho, que lhes dá a beber, dizendo-lhe que é o seu sangue.
- Quer assim simbolizar - conjetura Sílvio - que, como lhe recomendara o Pai, perece e se sacrifica por amor aos homens: por sua nutrição.
Tal qual Diônisos, como Sílvio acentua.
Mas até a sua parusia, no fim dos tempos, em que virá como supremo juiz, acredita-se que ele governe o mundo. É um deus.
- Um deus nas três hipóstases dionisíacas - explica o jovem: - o Pai, o Filho e o Logos Andrógino, que os cristãos adotaram sob a influência da escola de Alexandria e que eles designam também com o nome de Paracleto.
Detém-se um instante, nomeio do silêncio atento dos outros.
Depois remata:
- É esta a teologia. Uma teologia por demais tradicionalista, como veem.
- Realmente.
Mas Pedânio não aceita facilmente essa concepção dum deus encarnado. E olha com a maior suspeição uma divindade do tipo desse Cristo, que era, como a Cidade havia visto, um deus infernal, tartárico.
- Não vou até a asseverar como Ênio que os deuses não se importem com o que acontece na terra. Nem penso que vivam inteiramente absorvidos pelos problemas e intrigas do céu. A prosperidade do Império, que só à sua munificência é devida, constitui uma prova em contrário e um oportuno desmentido a Lucrécio. Mas não creio que os deuses tivessem tido outra vida senão a que eles desfrutam no Empírio.
- Entretanto Evêmero prova - observa Teófanes - que todos os deuses helênicos tinham sido a princípio homens. Zeus era um rei de Creta, façanhudo e temível. Pior que o Cristo. Por isso mesmo foi metido no céu. Leia a sua História Sagrada.
Pedânio:
- Eu já li todavia uma outra versão sobre a gênese de Zeus e dos demais deuses do Olimpo grego e que contradiz a de Evêmero.
O que não resta dúvida, como reconhece Caio Flavo, é que o Cristo tem a pretensão de reinar sozinho sobre o Orbe, com exclusão dos demais deuses:
- Numa forma típica de despotismo oriental.
- É. Esse é um movimento que se esboça realmente - admite Teófanes.
Mas Teófanes acredita também que ele está cotado ao insucesso. Depois de passada a tormenta (e a tormenta tem de passar) os partidários de Cristo vão acabar por se conformar com a pretensão mais modesta e mais curial de entronizá-lo na capital do Império, simplesmente como uma divindade nacional a mais.
- Acredita nisso seriamente? - interpela Hegesipo, escandalizado.
- Bem - pondera o outro - aos seguidores do Cristo não hão de faltar conselheiros sensatos que apontem o único caminho certo: o de obter, por via legislativa, o reconhecimento da identidade de Cristo com Baco, cobrindo assim o novo deus com a reputação dum nome antigo e venerável.
- Mas ele é um malfeitor! - exclama o Judeu. - Julgado e sentenciado como tal!
Caio:
- Antes deverá correr um processo de indulto.
- A autoridade judaica nunca se prestaria para tamanho sacrilégio.
- Você não me compreendeu, Hegesipo. A autoridade em causa é a romana, que lavrou a sua sentença de condenação à morte. A nenhum outro poder, na Judéia como em qualquer das nossas províncias, cabe tão tremenda faculdade.
Uma pausa. Depois dum momento, o advogado, continuando:
- Insisto no indulto, como primeira providência jurídica, quando o candidato à deificação tenha tido os seus embaraços com a justiça. Doutro modo, sempre subsistiriam razões para contestar o ato como inquinado de nulidade.
Para Pedânio, o piedoso, seria até certo ponto natural que Cristo recebesse homenagens em Roma, não fossem as violências que ele estimula. Roma, onde todos os deuses e demônios se encontram, ainda há de merecer, espera ele, o título de cidade santa - sacrosanta civitas. Além disso, o conceito de divindade é muito elástico. São divindades os governantes. Os antigos reis foram divinizados. Sem falar nos Imperadores, cuja apoteose é matéria de um senatusconsulto. Nessa qualidade depois de ouvido o poder competente, ele não teria dúvida em reconhecer Cristo como um deus, e venerá-lo.
- Mas um deus indígete, naturalmente.
Para julgar com todo o critério em questão de tal magnitude, os escrúpulos obrigam-no, ociosamente aliás, à indagação:
- Cristo foi levado ao céu por um decreto?
Caio:
- Não. Esses povos bárbaros da Ásia não observam essas práticas legais, que são o apanágio da civilização.
Pedânio acrescenta:
- Além do mais, eu sou um devoto. Logo: tolerante. Mas, por mais esforços que faça, não consigo admitir a superstição dos Judeus. E a dos Cristãos, que em tudo se lhes assemelham. São, todos eles, inimigos do gênero humano.
É interessante, reflete Sílvio: como essa opinião perigosa está generalizada. Desde Tessalônica que vem ouvindo isso.
Primeiro foi Ascalon. Inimigos do gênero humano transformou-se no caráter distintivo, no estigma do movimento. Do convívio pessoal dos Cristãos, ao menos dos poucos com que privou, não se recebe uma impressão tão terrível assim. Houve, é certo, aquele caso, meio trágico, meio burlesco, que lhe acarretou o seu pequenino incidente de Cencras com o policial. Mas essa convicção deve-se fundar nalgum motivo. Talvez na crença, que é o centro da doutrina, de que o mundo vai acabar. E num certo esforço mesmo que eles talvez façam para transformar esse sonho apocalíptico numa realidade. - O incêndio de Roma, por exemplo.
- Mas essas superstições asiáticas têm também outras cousas detestáveis - diz Caio.
- Por exemplo?
- Não vamos muito longe: o Livro.
- Que livro? Uns Indigitamenta, por acaso?...
- O seu Livro, o livro dogmático que não tem nenhuma religião que se diz verdadeira, por desnecessário, e que não tem a nossa. Aliás, religião é pragmática apenas. Todo crente que descamba para a moral e para o dogma está traindo os deuses, fazendo uma apostasia.
- Muito bem! - apoia Pedânio.
Caio, continuando:
- Mas, sobre os adeptos de Cristo, eu me recordo, quando ainda trazia a pretexto, de ver meu pai chegar em casa, excitado e radiante, com a notícia de que o Imperador expulsara os Judeus de Roma. Os Judeus estavam sendo impulsionados à revolta pelo seu chefe.
- Quem era ele? - quer saber Pedânio.
- Cristo.
O Judeu tem um protesto veemente:
- Impossível! Nosri, o bastardo, é um falso Messias. Não há Judeu que não saiba disso. E depois, ele nunca veio a Roma. Este foi no Egito, aprendendo a magia. Necessariamente há confusão. E confusão maldosa.
- Não duvido - faz Caio. - Mas meu pai, que, sem ser um áulico, frequentava o Palatino, viu nas mãos do Imperador um relatório da polícia política, em que se afirmava que um certo Cresto andava em pessoa amotinando os Judeus no bairro transtiberino e sob os pórticos. Deve tratar-se desse mesmo deus indígete dos Judeus, que se faz adorar pelo nome grego de Cristo - o Ungido. O erro de ortografia é a menor falta que se pode imputar à polícia...
Sorrisos.
Caio prossegue:
- Mas, falando sério, a ocorrência bem prova que Cristo esteve em Roma quando reinava o imperador Cláudio. Embora haja documentos também policiais que asseveram, em contrário do que nos conta Hegesipo, que Cristo sofreu o suplício da cruz por ordem dum procurador da Judéia chamado Pôncio Pilato, sendo Tibério imperador de Roma. Muitos anos antes portanto.
- Esse era um outro - adverte Hegesipo. E insiste: - O verdadeiro Yeshu Nosri foi enforcado em Lida, às vésperas da Páscoa.
- De qualquer forma - continua Caio - há mais de uma década os partidários de Cristo já fomentavam motins e eram apontados como inimigos do Estado, da família e da religião. A não ser que Cláudio, para atenuar a carestia de gêneros que por duas vezes seviciou a Cidade no seu reinado, tenha, sob aquele pretexto, utilizado o recurso habitual da expulsão de estrangeiros, como meio de diminuir as bocas.
- É possível.
- Mas, como tudo isso me parece estranho e incompreensível! - exclama Teófanes. - Roma sempre tolerou as religiões estrangeiras, deu guarida segura aos deuses de todas as nações, tudo fazendo para bem merecer o título que já Pedânio lhe confere, de Cidade Santa. Até mesmo, toda vez que se viu subitamente tomada de terror pânico, diante dum perigo iminente, se voltou com um fervor histérico para os deuses alienígenas. Essa intolerância religiosa de agora eu não a compreendo.
- É que o culto dos Judeus e o dos Cristãos, no fundo o mesmo, não passa de uma funesta superstição - martela Pedânio.
Teófanes prontamente retruca:
- Não é mais superstição do que a religião grega, que entretanto goza de tantos favores entre vós.
E acrescenta, depois de um momento de reflexão:
- Eu reconheço que, para a consciência monoteísta dos Romanos, há de chocar uma religião, como o cristianismo ou o paganismo helênico, que não consagra o princípio fundamental da unidade divina. O que torna principalmente o cristianismo antipático aos Romanos é o seu politeísmo.
- Por Júpiter! - exclama Caio - belo o paradoxo.
Teófanes, com uma segurança didática, explica. Não é paradoxo não. Os Romanos reconhecem apenas um deus, inominado, a Providência, o Pensamento do Universo, donde tudo mais deriva, inclusive os demais deuses, porque ele é o Príncipe Imanente, a Causa das Causas, causa causarum.
- Vocês estão vendo: eu me sirvo das próprias palavras dum dos seus teólogos, Sêneca. O que os seus concidadãos adoram sob as várias invocações de alguns milhares de divindades não é outra cousa senão o conjunto de qualidades individuais e específicas do deus uno e abstrato, artífice e senhor do mundo. Ele sozinho é tudo. A sua grandeza ultrapassa toda imaginação. Donde, a necessidade duma fragmentação, para o tornar acessível ao entendimento humano.
Faz uma pausa. Depois continua:
- Petrônio incorreu no mesmo erro, levando uma das personagens do seu romance a declarar que o vosso país é tão povoado de divindades, que é muitíssimo mais fácil encontrar nele um deus do que um homem. Mas Petrônio não tem maiores responsabilidades com a teogonia. É um romancista, um homem de mundo. Além disso, quem se queixa assim no seu livro é uma mulher. E uma mulher necessitada de homens...
Todos sorriem.
Teófanes, o Grego, continua:
- Ora, para começar, os cristãos reconhecem a existência de três divindades distintas, embora inseparáveis e com igual poder: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, que a escola de Éfeso designa pelo nome de Paracleto. Um divindade em três hipóstases, como a ultrapassada tríade capitolina. Em nome dela é que Cristo mandava batizar os catecúmenos. Eis a prova mais substancial do politeísmo cristão. E, ao meu ver, o que mais choca o espírito religioso e político do Romano.
Entretanto, como Pedânio faz ver, no seu ódio a tudo que é sagrado os Cristãos não compreendem que haja uma divindade inferior para cada um dos atos da nossa vida cotidiana. Uma divindade, por exemplo, que ensine a criança a comer: Educa. Outra que lhe dê de beber: Pótina. Mais outras que a mantenha tranquila no seu berço: Cuba. E que, quando comece a ensaiar os seus primeiros passos, encontre a seu lado vigiando-a, quatro deusas solícitas: Abeona, Adeona, Interduca e Domiduca. Troçam dessa populaça de pequenos deuses condenados a empregos ínfimos, como eles dizem. Comparam-nos a esses operários que repartem entre si o serviço, para maior eficiência e diligência.
- Não reconhecem nessa concepção religiosa - acrescenta ele - o primeiro exemplo da divisão do trabalho, princípio tão caro ao mundo moderno, ao mundo romano. Eu bem quisera descer com esses críticos sistemáticos as ladeiras do Quirinal que conduzem à região nona da Cidade otaviana das catorze regiões, que eles tanto porfiam em desprezar. E levá-los a contemplar o trabalho nas oficinas de escultura. Eles aí verão artífices especializados, como reclama o nosso grande progresso industrial: uns somente para monumentos funerários, outros que não esculpem senão Gênios, operários por fim cujo trabalho consiste apenas em meter nas estátuas olhos de matérias coloridas.
Observa Caio:
- É discutível a tese paradoxal de Teófanes, quanto à incompatibilidade entre o espírito unitário da religião romana e a mitologia politeísta do cristianismo. Para mim, o mais chocante na doutrina cristã é o seu encorajamento à indisciplina das massas.
- Você emprega um termo novo...
- Massa? - pergunta Teófanes. - Caio se limita a traduzir um termo grego e conservar o sentido que ele já tinha em Heródoto e Aristóteles...
- Como dizia - prossegue Caio - o cristianismo foi feito para os escravos, as mulheres, os pobretões, os abandonados deste mundo. Cristo é o deus natural de toda essa gente.
- E só por isso prova que não é um deus verdadeiro. O verdadeiro deus - pontifica Pedânio - está sempre do lado dos que triunfam. A felicidade e a riqueza é tudo quanto o crente lhe pede e tudo o que ele tem a obrigação de lhe dar: a prosperidade individual e coletiva é a única prova da proteção divina. Entre todos os homens, só há um verdadeiramente piedoso: o rico. Só ele é o eleito de deus.
Caio:
- Mas, voltando ao assunto. Pedânio fala muito em superstição. Quero crer que ele tem a tendência de englobar sob essa denominação qualquer outra prática religiosa que não seja a nossa. Para nós Romanos, toda religião estrangeira, não autorizada, é uma superstição.
- Eu sei disso - responde-lhe Pedânio. - Mas eu me cinjo ao conceito originário e etimológico, segundo o qual religião quer dizer ordem, exatidão, regularidade, e superstição o que ultrapassa a regra estabelecida. O Romano é religioso, somente porque é um devoto sereno e um plácido cumpridor das práticas que, em tal matéria, a lei estabeleceu. Esses transportes da alma, esses arroubos, essa emoções delirantes diante dum deus e da sua potência, esse temor antes a sua capacidade de fazer o mal, ou a esperança inquieta de um favor miraculoso - eis a superstição. Ora, basta atentar para o fervor sacrílego dos Judeus e dos Cristãos, para ver no culto comum que eles praticam uma simples e nefasta superstição.
- É verdade, há muita cousa de comum entre os Judeus e os Cristãos - admite, sonhadora e reflexivamente, Sílvio.
- Protesto - faz Hegesipo.
- ... Mas - continua Sílvio, com o mesmo ar meditativo - uma afinidade muito maior entre os cristãos, os Essênios e os Terapeutas do Egito.
- Que não deixam de ser Judeus também.
- Naturalmente.
- O cristianismo tem, sobretudo, muita ligação com o Pórtico - diz Caio.
Pedânio parece estranhar:
- Com o Pórtico?
Caio sacode afirmativamente a cabeça. Ambos aceitam, por exemplo, o princípio fundamental de que todos os homens são irmãos e que têm, todo, a Deus como pai.
- E aqui - prossegue Caio - eu quero fazer uma crítica ao que nos disse há pouco Teófanes de Heracleia sobre o politeísmo helênico. Na concepção dos estoicos, o paganismo grego assumiu a alta forma monoteísta que ele, invocando a autoridade de Sêneca, atribui à religião romana, desde que Zeus, para os estoicos, é a a providência, a alma do universo, - Ser eterno, único, de quem os outros deuses não são senão meros atributos e manifestações episódicas. É a sua doutrina órfico-pitagórica do Logos, do Verbo criador, razão universal e expressão onipotente do Demiurgo. Com a sua concepção mitológica e politeísta da trilogia divina - o Pai, o Filho e o Paracleto - os cristãos afastaram-se, irremediavelmente, dessa doutrina estoica onde tinham bebido a maior parte dos seus dogmas, inaugurando um Cisma que lhes vai ser fatal.
- Eu não creio - diz Teófanes - que os cristãos tenham tido conhecimento do Pórtico e da sua doutrina filosófica.
- Que dizes tu disso, Sílvio? - pergunta Caio.
- Tiveram. Foram os discípulos de Zênon que ensinaram os Judeus de Alexandria a dar uma interpretação alegórica às passagens do seu Livro (esse Livro tão malsinado) como já tinham feito com as obras de Homero e de Hesíodo. E tudo indica que os cristãos hajam também enveredado por essa via. A teoria do Logos, aplicada à sua demonologia, confirma isso. Só o futuro da sua religião dirá a respeito a última palavra.
Hegesipo intervém, com um sorriso:
- Futuro? ... Então nunca o saberemos, porque a polícia se encarregou de tirar todo futuro à heresia cristã.
- Mas, como ia dizendo - continua Caio - penso que não estou divagando, quando coloco na base da concepção cristã o princípio estoico da igualdade dos homens perante Deus. Foi uma ideia arrojada.
- E sediciosa - interrompe Pedânio - porque alimentava ilusões igualitárias numa sociedade econômica cujo equilíbrio resulta da benéfica separação entre senhores e escravos.
- Certamente - concorda Caio. - Uma ideia arrojada, que, antes de tudo, devia ter ferido o sentimento racista dos Gregos. Não iria penetrar igualmente a rígida armadura do Judaísmo, para cuja doutrina só a descendência de Abraão é que constitui o povo de Deus. Ela muito pouco se coaduna também com o orgulho nacional, a mística de povo superior - povo-rei - que temos nós os Romanos. Eu me admiro de ver compartilhar dessas ideias um homem com responsabilidades no governo como Sêneca.
- Espanholada - faz Pedânio com desdém. - Sêneca é um Ibérico versátil e fanfarrão, sempre à cata de novidades.
Teófanes:
- Ouvi dizer que ele inclina para a doutrina de Cristo, com cujos adeptos tem mantido mesmo entendimentos. Creio até que tem aprazado um encontro com esse homem de Tarso, esse Paulo ou Saul, o tapeceiro. Neste momento, é muito arrojo.
- Quem te contou isso? - pergunta-lhe Pedânio.
- Acté, a concubina de Nero.
Caio, depois dum silêncio:
- Mas firmemos este ponto, para concluir: o Pórtico dá a ideia geratriz do cristianismo - a fraternidade universal, a igualdade dos homens em face de Deus. E com isso imprime à seita o seu caráter distintivo: ela é fundamentalmente um partido moral e de ação, o partido de Cristo.
- Interessante - interrompe Sílvio: - eu ouvi na Grécia essa mesma expressão, partido de Cristo ...
- Ah! é? Pois bem - continua Caio - o cristianismo, tendo aceitado o princípio ético do Pórtico, não lhe adotou porém o conceito filosófico da unidade de deus. Como é difícil renunciar ao politeísmo! Estou persuadido de que o cristianismo representa um cisma dentro do movimento estoico. Sêneca nunca poderá adotá-lo.
- O cristianismo não perde nada... - satiriza Pedânio.
- Como chegou Cristo a ter conhecimento de Zênon e sua escola? - prossegue Caio. - Provavelmente por intermédio mesmo dos Terapeutas do Egito. Ele andou por lá. Os Terapeutas têm realmente um grande objetivo, que também se vê como preocupação máxima dos cristãos: libertar a alma da prisão do corpo, alçá-la até a livre contemplação de Deus.
Teófanes de Heracleia exclama:
- Mas isso é puro Platão!
Caio medita um momento.
- Não resta dúvida - confessa. - Cristo, um simples deus indígete, como Tarquínio ou Numa Pompílio, um deus local duma perdida região da Ásia, meio caldeu, meio astrólogo, meio adivinho, torna-se assim o herdeiro do que há de mais elevado no pensamento helênico. Isso parece que lhe veio dos Essênios, de fato. Mas o caso é que o cristianismo se deixou arrastar, primeiro pelas ideias dualísticas de Zoroastro, pondo no céu, ao ludo dum deus supremo, um outro igualmente poderoso: Arimã ou Satanás, o deus do mal. O precedente estava aberto. Foi então muito fácil perseverar na concepção tradicional e politeísta dum deus em várias hipóstases. E como já não faltam os mártires da nova religião...
- Kletói hágioi... - aparteia Teófanes.
- Isso mesmo: santos chamados; toda essa gente será levada - prossegue Caio - ao Olimpo cristão como outras tantas divindades, - divindades específicas, incumbidas de satisfazer cada um dos desejos humanos, como no nosso paganismo. Sabe-se mesmo que os cristãos adoram os Gênios e os Demônios herdados do judaísmo e que são conhecidos pelo nome genérico de Anjos.
E conclui:
- Todavia, essa concessão ao politeísmo primitivo e oriental, muito estranha numa religião que surge agora, em pleno movimento das ideias de unidade e de síntese, denota bem a origem bárbara da seita cristã. Mas, se não me engano, a clepsidra falou.
- É a hora véspera.
Todos se erguem.
Tão pronto deixam a casa de Hegesipo, o ludimagíster, Sílvio e Caio procuram abrir-se uma passagem na rua, ainda atravancada.
É a hora em que começa o tráfego desses grandes veículos de viagem, as redas, cuja circulação dentro do perímetro urbano, se nunca foi verdadeiramente livre, vem sendo ao menos tolerada dentro das duas últimas horas do dia e durante toda a noite. - Viaja-se muito. E ainda deve-se contar com os carros para o aprovisionamento da população.
Cai a tarde.
Dentro de pouco, com a chegada da noite, a Cidade será um bloco negro, apenas rompido pelo bruxulear das lanternas de mão e pelo clarão das tochas com que se fará preceder a alegre comitiva dalgum jovem patrício, indo para um orgia.
- Roma vai sair de toda essa catástrofe com outra fisionomia - diz Caio, considerando os escombros e aquelas grandes obras de reconstrução. - Ruas retas, largas...
- A topografia é que pouco se presta... - aduz Sílvio, frouxamente. Ele está com a atenção noutra parte.
Sim, a discussão foi interessante. Embora um tanto anárquica, cheia de blasfêmias, a considerar sob o estrito ponto de vista cristão. A bastardia de Jesus é, para si, uma novidade. Ódio de partido? Erro de interpretação? Partenon traz em si a palavra virgem. “Filho de Partenon” pode querer exprimir “Filho da Virgem”. Talvez se esteja formando uma lenda nesse sentido... Há precedentes: Diônisos teve o seu primeiro nascimento duma virgem - Sêmele, a filha de Cadmo.
Ele sustentou aquele ponto, que julga importante e anódino: a ligação do mito cristão do sacrifício da Ceia com o mistério elêusico da Morte e Ressurreição de Diônisos. - É bem possível (porque enfim não lhe fizeram nenhuma provocação) é bem possível que tenha conseguido dar a impressão de que nisso reside todo o seu interesse, - esse seu interesse especulativo...
Considerando bem, esse lhe é, na verdade, um ponto caro. Foi mesmo uma das suas ilusões literárias, quando ainda se achava na província: terminar seu trabalho sobre Orfeu da Trácia como hipóstase dionisíaca, descer com ele até Roma e apresentá-lo nesses novos concursos sagrados dos Jogos Quinquenais. Copiados dos Gregos por Nero, dando-lhes seu nome, o imperador deu-lhes também a fama, desde que deles participou em pessoa, instado como foi pela massa a que tornasse públicos todos os seus talentos - omnia studia sua...
Quando, em Tessalônica, começou a se fazer uma ideia mais clara do cristianismo, a identidade entre Cristo e Diônisos assaltou-o imediatamente.
Os dois amigos já desceram as ladeiras do Viminal. Acham-se em plena Suburra. A contemplar os estragos causados pelo incêndio e as obras que se levam a cabo ali freneticamente, tem-se a impressão de que foi esse o centro da calamidade. - Mas é simples impressão.
Caio observa:
- Você vê com que rapidez se reconstrói a Cidade. É que o Imperador fixou um prazo, dentro do qual cada um deve ultimar as reedificações. E, apelando para o espírito da cupidez da nossa gente, recompensa os que reerguerem as suas casas antes do tempo estipulado. Nero é esperto...
Sílvio pergunta-lhe:
- Donde foi que ele assistiu ao incêndio?
- Ah! Fica um pouco aí para trás.
E Caio aponta para a esquerda, para as bandas do Esquilino.
- É uma torre.
Meio se detém. Com um olhar que devassa um setor de círculo, procede a uma inspeção dessa lado.
- Daqui não se enxerga. Fica nos jardins de Mecenas.
Continuam.
É quase noite.
Têm de dar passagem a um préstimo fúnebre. Ele é precedido por tocadores de instrumentos de sopro. A flauta frígia e a flauta pítica, combinando agradavelmente os seus registros com a tuba, enchem o ar com trechos tirados da Andrômaca.
Sílvio acabou arranjando-se mesmo no Janículo. Não foi propriamente do seu gosto: o bairro, nesse momento, é um tanto suspeito. Mas não havia o que escolher. Jucunda disse-lhe que havia sido a Fortuna que lhe guiara os passos até a sua casa, justo naquele instante. Uma hora depois, já seria tarde.
Eles têm um longo trecho a percorrer. Irão juntos até o Velabro. Nesse ponto, se separarão: Caio segue para o Aventino (os Flavos mantêm casa senhorial aí desde os começos do Império), Sílvio em direção ao bairro proletário, para além do rio.
O trajeto que eles terão a fazer foi até certo ponto um dos caminhos que o fogo se abriu, desde que teve a sua origem entre o Palatino e o monte Célio, nas vizinhanças da Porta Capena. Apenas, em sentido inverso.
Não é possível deixar de falar no que sucedeu à Cidade, embora hajam decorridos quase dois meses do início da catástrofe. Está-se nos idos de setembro. O que de mais importante devia acontecer já aconteceu: desencavaram-se os culpados, massacraram-nos, não sem requintes de crueldade até então desconhecidos dos mais exigentes aficionados e conhecedores do circo. Infelizmente, a sede de vingança não parece de todo aplacada: a atividade policial prossegue - com buscas, batidas, prisões.
O castigo devia ser proporcional ao crime. Caio rememora alguns aspectos do grande drama:
- Viram-se cenas inolvidáveis: pais que haviam perdido seus filhos no incêndio, marchando voluntariamente para dentro das chamas. Protestava-se, procurava-se impedir isso, mas em vão. Você conhece o espírito de família que tem o nosso povo. É uma cousa que o cristianismo dos seus amigos não conseguirá matar tão facilmente...
Seus amigos...? Deverá lavrar o seu protesto?... Caio não parece ter uma segunda intenção ao dizer isso. Deve conhecer bem a sua posição. É melhor deixar o fato passar sem comentário.
O advogado continua:
- Era o sonho apocalíptico dessas religiões delirantes do Oriente que por fim se realizava. Os Judeus ainda mostravam uma certa reserva, ditada por uma prudência milenária. Mas não os Cristãos. Esses, se regozijavam abertamente. Eu vi aquele sujeitinho que lhe entregou o livro, dançar histericamente como uma Andaluza, quando ruiu por terra o templo que Evandro, o Árcarde, consagrou a Hércules presente. Foi isso que os perdeu, embora eu esteja convencido, como você sabe, que eles nada têm que ver com o incêndio. Apenas o desejaram. Não para saciar ódios pessoais, terrenos. Mas o desejaram dum grande arrebatamento místico: era o Fim do Mundo que se iniciava, esse fim do mundo tão corajosamente pregado e esperado pela seita. Como não hão de estar desapontados com a aceleração que tomam os trabalhos de reconstrução da Cidade...
Sílvio ouve calado. Caio remata:
- O resultado foi essa hecatombe do circo de Calígula e as noites trágicas desses jardins que Nero possui aí mesmo do outro lado do rio. Opulento cenário, não resta dúvida, escolhido adrede para saciar a monstruosa fome de morte duma teatralidade em delírio! E a cousa, como diz o devoto Pedânio, parece que ainda não parou...
O branco das fachadas recém-erguidas faz um contraste com a sombra do crepúsculo. O céu, para os lados do poente, ainda está um tanto luminoso. A multidão dilui-se aos poucos, tragada pela noite que desce. Aquelas ruas centrais, na maioria desembaraçadas já dos escombros, limpas, com as suas novas edificações formando, preventivamente, blocos isolados, toda aquela parte da Cidade (uma cidade inacabada) desperta em Sílvio uma sensação súbita de solidão - da solidão que ele às vezes experimentava no campo, ao cair da tarde...
- Algo de civilizado resultou de tudo isso - prossegue Caio. - Não me refiro à proibição de casas geminadas nem ao uso nas edificações das pedras gabina e albana, um material praticamente refratário ao fogo. Nem mesmo a essas avenidas, - longas e largas perspectivas, que, enfim, não parecem se adaptar à topografia da Cidade, como você há pouco observou, e que talvez não estejam de acordo com o nosso clima. Elas fazem um contraste chocante c om as nossas antigas ruelas, estreitas e com altos edifícios, - cheias de sombras frescas portanto. Estas ruas de agora vão deixar entrar muito sol, muito calor. Um mal, pensam todos. Realmente, onde é que a gente vai viver? Não venham me dizer que em casa...
E ele tem um riso claro, que Sílvio pensa já ter ouvido já. Onde? Iria jurar que em Tessalônica...
Caio Flavo continua:
- O grande benefício da catástrofe (porque ele teve, paradoxalmente, um benefício) foi o urbanístico. Quanto mais não seja, no que se refere a essa alma duma cidade, a esse humor vital, que é a sua água. Daqui por diante a água de Roma será uma água eminentemente pública, a ser utilizada, imediata e abundantemente, por qualquer cidadão contra o fogo.
- Realmente, é um adianto.
- Muito grande. Isso nos alivia em parte desse eterno pesadelo: os incêndios.
À frente deles, fazendo manchas negras sobre o fundo crepuscular do céu, lá se erguem o Palatino e o Capitólio.
Eles vêm seguindo o Argilétum. Na verdade o estão desandando, pois fora o caminho que, horas antes, haviam tomado para ir à pérgula magistral de Hegesipo, no Viminal. O extraordinário movimento da rua àquela hora mal deixara reparar nas casas novas que surgiam.
Sílvio nota agora com satisfação o aparecimento de muitas livrarias naqueles trecho, prenunciando-lhe, para o futuro, o papel de grande empório de livros da Cidade que lhe parece estar reservado.
- Não foi dali que saiu Zenodoro? - pergunta ele, designando uma loja de livreiro, cujo vestíbulo, aberto, está rodeado de montras para a exibição de papiros e pergaminhos.
Caio olha. Não tem bem certeza. Parece-lhe entretanto que foi duma outra loja, situada mais adiante, nas proximidades do Fórum.
- Tenho a impressão que foi daqui - insiste Sílvio.
- É possível. Mas - observa o advogado, num tom reflexivo - você há de querer saber quem foi que incendiou Roma... Nero?
Ele fala em voz baixa, educada.
- Foi o que todo mundo pensou e ainda pensa. Eu tenho porém as minhas dúvidas. O maior argumento dos que acusam Nero é que, quando ao cabo de quase uma semana o fogo estava extinto, ele recomeçou sobre as possessões Emílias, que pertencem a Tigelino. O incêndio teria sido ateado de novo pelo seu chefe de polícia, naturalmente sob as suas ordens. Parece-me fraco o argumento. Tigelino estava com as mãos livres para ateá-lo em qualquer parte. Não precisava fazer isso, comodamente, em casa...
O advogado medita um momento e depois prossegue:
- Agora, se o incêndio traduzisse um atentado, um atentado político, era justo que procurasse atingir os bens das pessoas ligadas ao Estado. Uma das primeiras casas visadas pelos incendiários haveria de ser a do prefeito do pretório. Qual é a sua opinião?
É difícil para Sílvio dar uma opinião. Como Caio Flavo, está plenamente convencido da inocência dos cristãos. Não pensa assim para se inocentar também. Ele também teve, primeiro sob a forma de ideia, depois de terror pânico, o seu sonho apocalíptico, gerado na solidão ática de Atenas...
Seu raciocínio o desfez em parte, dissipando momentaneamente a angústia que era o seu complemento natural. Nem depois que soube do castigo infligido àqueles supostos culpados, modificou a sua opinião sobre eles.
Ao receber, de chofre em Corinto, a notícia da tragédia, ainda pensou nos cristãos como autores do atentado. Foram dias terríveis que passou lá, desvairado, sem saber que resolução tomar.
À medida porém que o tempo passava, chegavam novas informações sobre a catástrofe. E, com essas, rumores - boatos. O boato mais acreditado era o que apontava Nero como o incendiário.
De chegada a Roma, novos detalhes vêm ao seu conhecimento.
Ouve falar que havia indivíduos que alimentavam o incêndio, que diziam obedecer a ordens superiores nesse sentido, que se opunham autoritariamente a que alguém combatesse as chamas. Não traduzi isso uma intenção criminosa? - É a única opinião que ele tem a transmitir ao amigo.
- Sim, havia desses indivíduos. Alguns até bem conhecidos. Ou pertencentes a casas bem conhecidas.
Não será perigoso, mesmo numa conversa confidencial com um homem como Caio Flavo, aludir à acusação mais importante?
A acusação mais importante é a declaração duma personagem influente - uma personagem consular - segundo a qual seu domicílio foi invadido por escravos do serviço de quarto do Imperador (pelos seus próprios cubiculários) com estopas e tochas. Ele teve essa informações de Aristóbulo, o seu senhorio. E não parecia ser uma mentira, forjada por Aristóbulo, tão grandes eram a cautela e o medo que este revelava ao transmitir-lha.
Dizer isso a Caio é apontar Nero como o grande mandante daquele crime. Ora, não só o advogado, como ele próprio, tem as suas sérias dúvidas sobre esse ponto.
- É preciso ver o que esta cidade encerra de podridão moral - observa Caio. - Ela é uma cloaca, onde todas as podridões do mundo deságuam, como aqui à nossa direita vêm desaguar na Cloaca Máxima as podridões urbanas. Esses sujeitos a que você se refere bem poderiam estar agindo, não por ordem superior como alegavam, mas por conta própria, - para a pilhagem. É assim que pelo menos eu (e alguns colegas que trabalham no Crime) pensamos, amparados na nossa prática forense. Estou convencido de que tudo foi obra do acaso.
E pormenoriza:
O fogo começara perto - no Circo. Melhor: nas tabernas que rodeavam o Circo. Infelizmente delas nada restara que servisse para perícia. Eram lojas cheias de mercadorias inflamáveis, de combustíveis, de nafta:
- Um fósforo...
- Um fósforo?!
- Um fósforo aceso poderia ter dado origem ao sinistro. Você se admira. Lembre-se que era ao cair da tarde, - à duodécima hora, hora de acender a luz. Um fósforo de enxofre, desses que os Judeus do seu bairro vêm vender aqui no centro, podia ter sido a causa involuntária da catástrofe. Um descuido qualquer e eis esse fósforo dando começo ao maior incêndio da História.
Como é fácil caminhar em Roma àquela hora! Já atravessaram o Fórum, a Via Sacra, entraram no vicus Túscus, a rua dos Etruscos. À sua esquerda, ergue-se a colunata do templo de Castor. Sílvio diz:
- Hora ideal para um passeio em Roma...
- Sim. Mas nem um minuto mais tarde. Daqui um pouco começam os assaltos, as desordens. Todas essas calamidades que desabaram sobre a Cidade, parece que tiveram a virtude de reavivar a sede dos atentados às pessoas. O próprio Imperador toma parte neles. Disfarçado, naturalmente. Apesar da sua guarda notura de sete coortes, Roma não tem segurança.
Passado um momento, Caio volta àquele seu ponto - o do incêndio como obra dum simples acaso:
- Roma tem queimado várias vezes. Parcialmente, não há dúvida: uma casa, um grupo de casas, um quarteirão. E, a não ser o incêndio de guerra dos Gauleses, sempre por acaso. Por que este último não foi também ocasional? Por causa da data? Não há dúvida, é uma coincidência estranha, parece traduzir um pensamento deliberado. Mas pode ser simples coincidência. O clamo público, o clamor principalmente das mulheres patrícias - das mulheres da minha classe - esse clamor acusando o Imperador foi que levou a polícia a pensar num ato criminoso e a querer encontrar culpados. Nero percebeu o golpe político: o patriciado levantava a massa contra ele, essa massa desesperada, sem teto, que tudo perdera no flagelo, inclusive os filhos. Era preciso e urgente desviar o golpe da sua cabeça. Era bem possível também que houvesse mesmo culpados. Sem querer sair da sua casa, ele poderia ver a satisfação apocalíptica e messiânica com que os partidários do Cristo assistiam àquela tragédia que destruía os ídolos e os seus templos. E em que até eles quisessem perecer talvez, porque os aproximava do fim deste mundo e do começo do outro. Foi essa satisfação mística e delirante que os perdeu. Pedânio tem razão: a religião é a medida, o arroubo é a superstição. Talvez você ignore, mas a superstição dos cristãos já vinha sendo objeto de consideração - e mesmo de apreensões - no Palatino. Tudo isso se juntava. Os primeiros cristãos detidos talvez não tivessem ocultado às autoridades que os interrogavam, dada a firmeza das suas convicções e a coragem com que confessam a fé, talvez não tivessem ocultado que o cataclismo correspondia às suas aspirações doutrinárias. Mas então? Teriam eles incendiado Roma com as suas mãos ou com os seus simples desejos? Essa é uma diferenciação muito sutil para a polícia fazer... Desde esse momento, eles são verdadeiramente os culpados. Urge castigá-los. Nisso a polícia é mestra. Refinaram-se os tormentos, inventaram-se alguns. Foi uma cousa atroz. As tochas humanas - esses corpos revestidos da túnica molesta, embebidos em matérias inflamáveis, que iluminaram os jardins imperiais no festim oficial - não podiam deixar de causa indignação e mesmo horror a alguns de nós.
Caio suspende-se um pouco.
- Vamos parar - diz ele depois. - Ali está a sua ponte, a Emília. Aqui nos separamos. Eu também estou quase em casa. Mas, como ia dizendo: a maioria entretanto achou justo, de acordo com a lei, mesmo muitos magistrados, para quem a penalidade contra o incendiário é fazê-lo também queimar, em praça pública. Os mais agradados com isso foram decerto os cristãos, que viam o fogo arrasador e redentor continuar no seu próprio corpo, depois de ter assolado a Nova Babilônia, como primeiro ato do Drama Final. Porque talvez você não saiba: mas eles só pensam em fogo... fogo... Só sonham com o fogo...
Não sabem...? Ah! se pudesse se abrir, abrir o seu peito, mostrar ao amigo o ferimento que lhe sangra dentro do peito!... Está fadada porém a sofre sozinho, em silêncio...
Mas como Caio apanhou bem o problema! Parece até que passou por aquela escola ígnea, sulfúrea de Tessalônica...
Entretanto, Tessalônica nem sequer entrava na sua rota... Ainda na primavera desse ano se achava na província, ultimando o apronto duma viagem que possuía um objetivo definido e o seu itinerário simples. Um dia estaria a cminaho de Roma sim: era o seu sonho. - Quando, terminado aquele trabalho sobre Orfeu da Trácia, se decidisse a descer com ele para a grande prova literária desse certame quinquenal, pelo Imperador denominado Nerônia, e que em rigor consistia, à maneira grega, dum tríplice concurso, - more Graeco triplex.
Isso mesmo não passava dum sonho, - inatingível e clandestino como todo sonho. A realidade o chumbava à sua província, onde tem a sua casa e a sua gente. Porque é de origem municipal.
Que todos o saibam.
A crônica da sua família constitui uma longa história, que vem do tempo em que a República estava tentando a incorporação da Gália Cisalpina, que se propusera tomar aos Celtas.
O governo ia enviar uma leva de cidadãos para o vale do Pado, em pleno território das tribos bárbaras dos Bóios. - Um dos seus antepassados fizera parte da leva.
- Ele era meio aventureiro - esclarecia-lhe o pai. - Pertencia a essa turba do Fórum...
O pai lhe rememorava esses atributos um tanto duvidosos, já com um sorriso de complacência histórica. Demais, ele tinha no sangue aquele traço da sua raça: os burgueses de Roma, embora se enriquecendo com o tráfico com os navegadores Gregos e Cartagineses, permaneciam ainda um povo de lavradores e vaqueiros.
- É que não podiam esquecer - comentava Sílvio - que eram Italiotas, habitantes da terra dos bois. E que o deus latino por excelência, Júpiter Lacial, dava uma decidida preferência à oferenda que consistisse, como vítima opima, no boi ritual e nacional...
O pai suspendia a narrativa. Olhava-o com desconfiança. E observava:
- Não vejo motivo para satirizar a divindade e a pobre vítima do sacrifício.
- Não estou satirizando: acho-as, ambas, sagradas.
Bem, a cultural (e o filho tinha cultura) só podia levar mesmo à incredulidade. - Quando não - o que talvez fosse pior - à ociosidade.
Os colonos tinham-se estabelecido na planície cispadana, ocupando a antiga cidade etrusca de Mútina.
- Aqui você nasceu, mais de dois séculos depois - retomava o pai - sob o reinado de Cláudio, cognominado Germânico por direito de sangue.
O resto da história da sua gente Sílvio leu nos fastos do povo romano.
Com efeito, os simples preparativos da ocupação de Mútina (que devia desempenhar um papel na romanização de todo o distrito) haviam feito explodir uma sublevação entre as tribos boianas. Os colonos viram-se forçados a abandonar as terras de pastoreio e de lavradio e a refugiarem-se nas muralhas não de todo restauradas da cidade. - Coube aos legionários de Lucio Atílio o encargo de reprimir a revolta gaulesa e os libertar.
Sobrevém nesse meio tempo a guerra de Aníbal na Itália.
O antigo agitador do Fórum, como grande parte dos cidadãos romanos de Mútina, incorpora-se nas legiões de Cipião, mandadas ao encontro do general Cartaginês. Na batalha mortífera do Trébia ele está presente. Faz parte mesmo dessa divisão que, quando tudo parecia perdido para os Romanos encurralados, precipita-se em massa através das linhas púnicas, abre um caminho até Placência e concorre poderosamente para fazer perder ao guerreiro fenício grande parte dos seus aliados Gauleses e todos os seus elefantes, menos um.
Mais tarde, quando, restabelecida a paz, os Romanos voltaram à sua política de unificação da península sob a sua hegemonia, encontraram outra vez pela frente a hostilidade dos Bóios. Mútina foi ainda aí o último reduto da resistência romana. Mas, já então, ela não era mais o centro duma região agrícola e pastoril: tornara-se apenas um baluarte militar, como Placência ou Cremona. Só depois de dez anos iria receber novos colonos.
Dizia-lhe o pai:
- Você não ignora que o velho não foi o único da nossa família a fazer a guerra.
Era muito difícil ignorar isso. Lá estava a enfática inscrição do templo da Fortuna, mandado erigir pela família, para imortalizar a memória daquele outro antepassado que tanto a ilustrara. Era o primogênito do antigo colono.
Contava dezessete anos quando acompanhara o pai na campanha contra Aníbal. E, em Canas, como tantos outros, como o próprio cônsul Terêncio Varrão, conseguiu escapar com vida do desastre, fugindo. - O velho, esse, tinha sido morto ou feito prisioneiro: desaparecera na refrega.
O rapaz, como os demais extraviados da batalha, atingiu finalmente Canúsio, onde sofreu a degradação de servir sem honra e sem paga, como os restantes companheiros, no exército que se reorganizava. - Era como Roma tratava os seus filhos. Não lhes dando outra alternativa...
- Senão de vencer ou morrer?... - interrompia Sílvio, irônico.
- Não: de morrer combatendo. Roma sabe também perder.
Mas na guerra, Roma se habituou a contar sempre com um outro fator.
- Qual?...
- A proteção dos Deuses Imortais.
Realmente, pouco a pouco a fortuna pendia para as águias romanas. Afinal, veio Zama, na África, onde (por uma intervenção caprichosa do Fado) esse mesmo bando de fugitivos obteve a sua revanche.
*
Assim, pôde o sobrevivente de Canas, ainda na flor da idade (pouco mais dos trinta anos) entrar em Roma no cortejo do conquistador. Tomado com ele dessa estranha religiosidade nascida na sangueira das batalhas, escala também o Capitólio, à luz festiva dos brandões que balizam o caminho do triunfo.
Mas veio a desmobilização. E com ela a ociosidade, - entretida com as recompensas devidas pelo governo aos soldados e aos cidadãos. - Sem contar com os novos hábitos contraídos na vida dos acampamentos e da caserna.
A bem de dissipar qualquer mal-entendido, apressava-se o pai em acrescentar:
- Não vai nisso o menor espírito de censura.
Não ia não. Aquele burguês austero e pacífico fazia da glória da pátria, embora jamais houvesse vestido o ságum ou tivesse manejado o pílum, um elemento durável de contentamento pessoal.
- Nos quarteis entretanto, Tibério recebeu a alcunha de Bibério. Não havia de ser porque empregasse todo o tempo a sacrificar aos deuses e guerrear os Bárbaros...
Novas levas de cidadãos-colonos foram levantadas com destino àquelas regiões do norte, cuja conquista era necessário consolidar por uma obra pacífica. O antigo soldado tinha direitos. Querelou. Acabou voltando para a posse das suas terras. Os colonos ainda não podiam gozar de tranquilidade e segurança entre os seus pastios e lavouras. Os Ligúrios faziam incursões na região. Mútina mesmo foi perdida. Na luta pela sua reconquista, viu-se o antigo legionário do Africano a envergar outra vez o ságum. - Passara já dos cinquenta anos.
É com ele realmente que se inicia a verdadeira estirpe dessa aristocracia rural. É o membro mais considerável da família. Para Sílvio não deixa de ter um certo encanto essa pequena figura de adolescente, veterano duma guerra púnica, que trouxera impressões pessoais de Aníbal. De Aníbal!
O Pado abre uma comunicação natural entre esses campos de cultura e o mundo, através do mar. As pendentes das elevações cobrem-se de vinhedos, enquanto na planície pastam os rebanhos, cujas lãs vão acabar por destronar as de Mileto, da Apúlia e da Calábria no tráfico com os Romanos.
O ex-combatente dedica-se principalmente à viticultura. Em breve faz-se conhecido pelos seus vinhos, - um vinho comum, que não pode competir com os da Grécia, mas que, com o decorrer do tempo, vai acabar por ser transportado pelo rio e pelo Ilírico até Aquileia, e daí para além, para os países danubianos, onde demoram os Bárbaros.
Para a opulenta região, a derrota da liga itálica trouxera paradoxalmente o benefício que seu desenvolvimento histórico lhe predestinara.
- Senão, veja - dizia-lhe o pai: - Foi para obter seu triunfo contra os aliados, que Roma, num momento dramático, se dignou a lançar o olhar sobre estas terras, que parecera ter esquecido, como esquecido também lhe estava o sangue que, para sua maior glória, aqui se vertera. - E dava como exemplo as disposições legislativas de L. Júlio César, que estendiam o direito de cidadania até o Pado, e a Lex Pompeia, bem mais progressista, a seu ver, porque incluía no direito de cidade a própria Gália Transpadana.
A discórdia intestina, comovendo embora as bases do Estado, não teve poder para abalar os fundamentos em que repousava a economia rural da Gália Cispadana. E quando se abre o período de expansão exterior de Roma, o tremendo esforço da conquista, se exaure o país com a conscrição militar e a tributação de guerra, dá-lhe a compensação da pilhagem.
Da pilhagem?... O filho parece estranhar.
- Digo abertamente. Sem meias palavras: da mais desbragada pilhagem.
Suspende-se num breve instante de reflexão. Depois:
- E não admira: a pilhagem é ideia matriz na atividade guerreira dos Celtas, que aliás não visam a outra cousa quando saem a combater.
Conclui:
- Infortunadamente, parece presente ainda naqueles seus descendentes apenas romanizados...
- Em nós, portanto... - faz Sílvio ironicamente.
- Não: não somos Gauleses. Na Eneida você talvez encontre as origens da nossa família...
O filho reage, estupefato com o sacrilégio:
- Mas tu não estás falando seriamente!
- Quando digo que descendemos de reis?... Por que não? No que é que eles são diferentes de nós? de mim ou de ti? - obtempera o velho, que é agora o irônico e o gracejador. - Nem mesmo talvez dos Celtas, quando se trata de se apossar de bens que não são próprios...
Circulava de fato na região uma estória referente a um dos fazendeiros dali, veterano da guerra de Antônio contra os Partos. Dizia-se que ele pudera desenvolver as suas lavouras graças ao saque do templo de Anaitide e ao roubo da sua imagem de ouro maciço. O lavrador - já então uma personagem - tivera um dia, em Bonônia, a César Otaviano Augusto como convidado à mesa, - mesa farta, principesca. O Imperador perguntara-lhe se era certo que o primeiro a pôr as mãos sacrílegas na estátua da divindade havia sucumbido, como constava, atacado de cegueira e paralisia. - A resposta do antigo soldado prestara um esclarecimento, sucinto e suficiente, quando informou ao Divino César que, justamente, estava ele, agora, comendo a coxa da deusa...
Mas foi o Império que deu estabilidade à economia agrícola e pastoril do Pado, inaugurando esse período de paz, em que as liberdades se abismavam para sempre, mas que favorecia a riqueza e a prosperidade individual.
Dessa forma, os Césares, inclusive os piores, como Tibério, Caio Calígula e agora Nero, não contaram, dentro da Itália, com súditos mais fieis e reverentes - como Sílvio era forçado a reconhecer - do que esses netos dos antigos guerreiros que haviam lutado contra os Celtas e os Cartagineses, para edificar a unidade da nação da toga.
Os seus ascendentes da era imperial continuaram, como os do passado, a remeter os seus vinhos para os Bárbaros das províncias danubianas, utilizando os seus próprios barcos até Aquileia, já então um grande centro. Daí o produto era transportado em carros, via Nauporto, até o Savo. Tomava novamente o caminho da água por esse rio, para finalmente atingir o Danúbio, em pleno país dos Panônios.
Em todos esses pontos eles possuíam agentes comerciais que se incumbiam das mais miúdas operações, sem que o exportador tivesse necessidade de vigiá-las em pessoa.
Exatamente naquele inverno, quando fazia mais de três anos que Sívlio se achava já revestido da toga viril, chegou ao conhecimento de seu pai que os Gregos traficavam um péssimo vinho com as cidades da embocadura do Danúbio.
Essa família empreendedora ainda não tinha levado tão longe os seus produtos. Mas, agora, a paz e a segurança reinavam por toda a parte. O intercâmbio de populações entre a Itália e os países bárbaros tornara-se um fenômeno ordinário. A simples condição de cidadão romano era uma garantia pessoal, em qualquer parte do mundo. - De resto, o Império vinha dotando de boas estradas todo o Orbe.
O velho, pois, resolveu que o filho acompanhasse o próximo carregamento de vinhos e, depois de entregue a mercadoria, prolongasse a sua viagem de negócios até as bocas do Danúbio (conhecido aí pelo nome de Íster) com o fim de explorar esses novos mercados.
A navegação era suspensa no terceiro dia dos Idos de novembro e só reencetada nas vésperas das Nonas de março, devido ao inverso.
Sílvio teve de esperar a chegada da primavera. Enquanto isso, numa carta rodoviária, onde estavam anotadas as mudas, a direção das estradas, as distâncias e a localização das hospedarias, estudou o itinerário da sua longa viagem.
Olhando por sobre os ombros do rapaz para esses mapas, onde as rotas romanas pareciam aprisionar o Império numa rede de progresso e de paz, o velho gostava de repetir a sua máxima política:
- Governar é manter a livre circulação nas estradas.
O pai e a mãe a tudo proveram. Levaria uma comitiva, menos como ostentação de riqueza, do que por segurança. Um antigo escravo ilírico, Demétrio, que vigiara a sua educação quando criança e que tinha conhecimentos da região, foi incorporado ao séquito, com autoridade sobre os demais fâmulos.
A sua bagagem continha o necessário para uma tão longa jornada: objetos de uso, fósforos, víveres, ervas medicinais, tendas portáteis para o repouso noturno na beira das estradas, leitos de viagem para armar nos vestíbulos das hospedarias. - Sílvio não esqueceu de meter aí alguns desses pequenos livros de formato especial, próprios para ler em viagem.
Chegou finalmente o dia da partida. No embarcadouro, as máquinas puseram-se a funcionar, colocando novamente na água as barcaças que haviam sido retiradas para a terra à chegada do inverno. Depois foi o trabalho de carregar o vinho, contido em grande ânforas seladas à argila e munidas duma etiqueta - o pitácio - com a menção da origem e do ano da colheita. Como o pai de Sílvio temesse o rigorismo fiscal dos agentes aduaneiros, postados sobre as fronteiras, todas elas estavam aferidas pela ânfora padrão - a ânfora capitolina.
A viagem por terra seria feita a cavalo, - nesses cavalos gauleses, pequenos e gordos, mas ágeis, que a previdência paterna fizera escalonar em todas as mudas. Fortes muares carregariam as bagagens. A mercadoria, essa, utilizaria, aí, o meio de transporte habitual: os plaustros.
O pai entregou-lhe a bolsa com o dinheiro romano de prata e ouro.
- Você não terá dificuldade em trocá-lo pela moeda do país.
E acrescentou:
- Para qualquer despesa imprevista, recorra aos nossos agentes.
Fez-lhe outras recomendações, prevenindo-o contra os estratagemas comerciais dos Gregos, a sua astúcia. A mãe pediu-lhe que, se encontrasse nesses países que os Gregos já visitavam, algum médico vindo da Fócida e de Antícira, lhe conseguisse com ele uma libra ou duas de heléboro.
E justificou o pedido:
- A filha de Marco Livínio - Domitila - há um ano que está fora do seu juízo. Já visitou os templos de Esculápio, de Ísis e de Serápis, onde todas as doenças se curam, mas sem proveito. Eu às vezes converso sobre o estado dela com Dionísia, a mãe. Ela pensa, como eu, que, no seu caso, só uma dessas duas cousas dará resultado: o casamento ou a raiz do heléboro.
Sílvio já traçara a pênula de viagem.
Começaram as despedidas. O pai beijou-o em ambas as faces. Os braços da mãe guardaram-no um instante, antes de vê-lo sumir, rio a fora, para os lados do mar e dessas regiões de florestas impenetráveis, dum silêncio mais majestoso que o dos templos.
Chegou a vez da irmã. Ela estava ali com o noivo, o primogênito de um dos mais abastados fazendeiros das vizinhanças. Iriam casar, passado o último dia nefasto de agosto, sem exigir do padrinho dos nubentes o exame das vísceras do animal de sacrifício e a responsabilidade de assegurar à união o favor dos auspícios. - Eram práticas passadas.
A irmã trazia mesmo o anel simbólico - um círculo de ferro chapeado de ouro - que, por ocasião dos esponsais realizados alguns meses antes, o noivo lhe pusera no dedo anular da mão esquerda, - porque é daí que parte um nervo muito fino que vai ter ao coração, segundo pode verificar quem quer que abra o corpo humano para dissecá-lo, como fazem os Egípcios.
Sílvio partiu com a sua comitiva. Por muito tempo, o Pado levou-os paternalmente sobre o seu dorso caudaloso, como um corcel possante e dócil. Por fim, desembocaram no Golfo Ilírico.
Não interrompiam a viagem nem mesmo à noite, quando, então, se deixavam guiar pelas estrelas que iluminam o Mar Superior.
No tombadilho, olhando para o norte e para longe, Sílvio gostava de mergulhar o pensamento nessas regiões ignotas a cujo encontro ia.
Bem sob o polo, nos confins do mundo, fica esse paraíso terrestre - o país dos Hiperbóreos - onde o dia dura seis meses e o sol, que não se levanta e não se deita senão uma vez por ano, arranca um longo mugido das águas, ao afundar no mar. Mais para cá, era a costa do âmbar, que os exploradores e mercadores, seus compatriotas, andavam justamente revelando ao mundo.
Como primeira etapa, Sílvio deveria acompanhar aquele carregamento do pai até a confluência do Savo com o Danúbio, onde a casa possuía agentes estabelecidos. Daí, já aliviada a comitiva, pretendia seguir, mais ou menos ininterruptamente, ao longo do rio até a sua foz no Ponto Euxino, sobre essa linha d'água que recebia a periódica pressão dos Bárbaros, mas que duas esquadras - a Panônica e a Mésica - policiavam.
Na travessia por terra, encontrar a posta do Estado, que o Império organizara sob o modelo das suas congêneres da antiga monarquia dos Persas, como vinha fazendo para outros setores da administração pública. Era decerto algum alto dignitário que ia tomar posse do seu cargo nalguma província afastada. ou então os correios, que, com regularidade, faziam circular a correspondência oficial entre a metrópole e as mais longínquas possessões romanas. Passou mesmo por ele a escola dum embaixador, a que se havia juntado um sujeito de olhar vivo e de maneiras tímidas. - Algum traficante ou charlatão que a cobiça ou a necessidade obrigavam a deixar o seu país.
À noite, viajava-se ao clarão das tochas.
Os pesados carros com o vinho traziam à viagem uma lentidão intolerável. De longe em longe, oferecia-se-lhe a hospitalidade dalguma estalagem, que ordinariamente tinha como insígnia uma figura de animal. Aí desembaraçava-se Sílvio da poeira das estradas num banho. O estalajadeiro e a mulher vinham fazer-lhe as honras da hospedagem. Mas o ambiente sempre o desgostava: eram palafreneiros e arrieiros, que enchiam o salão de maus odores e de alarido. Não raro, depois da ceia, o estalajadeiro, mesmo sem baixar a voz, convidava-o a usufruir a maior comodidade da casa: uma meretriz para passar a noite, cuja despesa incluía-se na conta como um dos gastos ordinários e que geralmente não excedia oito asses.
Tinha de entrar seguido em contato com os agentes comerciais do pai, na verdade muito úteis, que praticamente se encarregavam do vinho como dum ser vivo, mas que nada possuíam de comum com ele.
# De Sêmele tive Diônisos, a delícia dos mortais. (Homero)
Assim, pôde Sílvio atingir o país dos Getas - que aí ocupam ambas as margens do Íster - e desincumbir-se da sua missão. Demétrio, o escravo, que na sua mocidade cruzara a Ilíria, a Macedônia e a Trácia numa vida aventurosa e nômade, foi-lhe de grande ajuda, concorrendo para aplacar as desconfianças com que às vezes eram recebidos, entre populações que só conheciam dos Romanos o peso dos tributos ou da sujeição militar.
Mas Sílvio não desejo fazer, na viagem de volta, o mesmo itinerário. Gastara, no percurso, todos os meses da primavera. Resolveu pois voltar pela Mésia e pela Trácia, onde havia uma estrada que era geralmente frequentada por aqueles que no inverno vinham da Propôntida ou do Ponto Euxino e que, nessa época do ano, não queriam se expor aos azares duma viagem marítima.
- Que achas, Demétrio?
O inconveniente, ponderou o escravo, era a dificuldade em obter meios rápidos de transporte, apesar de estarem numa região outrora famosa pelos seus cavalos. Mas é que só os cavalos não bastavam: precisavam de carros onde os atrelar. Só poderiam contar com esses carroções de camponeses, puxados por bois ou por mulas.
Conversavam numa hospedaria, depois da ceia. Havia, como de costume, muita gente: Macedônios, Gregos da Europa e da Ásia. - Sílvio consultou o estalajadeiro.
O mais prático, segundo ele, seria dividir a comitiva, aligeirar mais o comboio. A maior parte dos escravos, com o grosso da bagagem, tomaria o caminho da Ilíria e do Savo, através do país dos Autariatas.
- Quanto ao senhor, com um ou dois escravos como companhia, pode seguir para o sul, numa carruagem de aluguel, em direção a Tessalônica, sobre o Termaico. Aí, como a estação é propícia, toma um navio. Se tiver a fortuna de encontrar no porto um desses veleiro alexandrinos - que são os mais rápidos do mundo - a sua volta à casa não demandará mais do que poucos dias. Pois, conforme estou informado, eles desenvolvem a velocidade de mil e duzentos estádio por dia. - Pode-se acreditar numa cousa dessas?
- E a carruagem de aluguel?... - perguntou Sílvio.
- Para a Macedônia é sempre mais fácil conseguir.
A conversa atraíra a atenção dum dos grupos ali formados. Então, um homem grave, vestido decentemente, embora com modéstia, destacou-se da sua roda e acercou-se do jovem.
- Permita-me que me apresente: chamo-me Heliodoro, de Mégara - disse.
Um pano do himátion dobrava-se-lhe sobre o antebraço esquerdo, maciamente, como se nele viesse pousar. A mão direita iniciava um gesto lento, a completar a ondulação que se sente nesses corpos humanos, mesmo em repouso, como via Sílvio, que recebia assim em plena consciência e com emoção, o primeiro toque da Hélada.
- Viajo - ajuntou o outro - para me instruir. Acabo de estar na Frígia, onde fui ver com os meus próprios olhos, perto de Hierápolis, essa maravilha por tantos gabada: um abismo, do qual se elevam vapores nocivos aos animais e aos homens, exceto aos eunucos.
Heliodoro prosseguiu:
- Meu próximo destino é também Tessalônica, na Macedônia. Já possuo um carro para me levar até aí. Nele caberiam perfeitamente nós dois, mais o meu fâmulo e o seu - concluiu ele, voltando o olhar para Demétrio, que se conserva de pé, um tanto afastado.
Sílvio ficou de estudar o assunto. Aliás tinha tempo, porque o Grego não pretendia seguir viagem senão daí a dois dias.
Mas, ao saltar da cama na manhã seguinte, já estava decidido. Falou a Heliodoro, comunicando a sua resolução de acompanhá-lo.
- Perfeitamente - disse-lhe o Grego, que meditava, sentado num banco do jardim, sob uma árvore.
Sílvio escreveu uma longa carta ao pai. Dava-lhe conta pormenorizada dos resultados da sua missão.
A viagem, de resto, tinha sido coroada de pleno êxito: contratara fornecimentos, investira mesmo alguns compatriotas (que já se dedicavam ao comércio na região) na qualidade de agentes dos seus produtos. - Participava-lhe a sua decisão de voltar por mar.
Redigiu também algumas ordens para serem entregues aos representantes da casa em Aquileia e noutros pontos do caminho. Confiou-as a Velocássio, o escravo Gaulês, que deveria chefiar o comboio que retornava por terra.
Graças à diligência de Demétrio, o Ilírico, todos os preparativos ficaram ultimados nesse mesmo dia.
Sílvio viu partir Velocássio com os seus homens, tendo antes lhe recomendado que procurasse a proteção da primeira escolta que encontrasse, embora isso devesse retardá-lo, ou mesmo desviá-lo, num ponto ou outro, da sua rota.
No outro dia, partia com o Grego para o sul e para Tessalônica.
Heliodoro era um tanto viajado. Já estivera em Roma, onde ensinara, como informou, a ciência grega, isto é: a geometria, a aritmética, a astronomia.
- Menos a música - esclareceu.
Depois, numa voz lenta, como cadenciada pelo balanço da reda, prosseguiu:
- Se eu tivesse de voltar a trabalhar em Roma, dedicar-me-ia apenas ao ensino da astronomia. Foi, das matérias que ali professei, aquela em que mais me aplicaram os seus compatriotas. Talvez mesmo eu tenha sabido ressaltar as relações que há entre ela e a ciência dos Caldeus, a astrologia, de que os Romanos são ávidos.
Mas (observava o sábio com um sorriso) não fosse o seu jovem amigo supor que se achava diante dum mago, dum adivinho, revestido do seu ágrenon... Formara o seu espírito numa ciência exata: a matemática. Na verdade, não era nem sequer um religioso, um crente.
- Como um bom ocidental - acrescentou.
Só no Oriente, com efeito, ainda se podiam encontrar homens religiosos.
- Aliás - concluiu - todas as religiões da Europa vieram de lá.
- Veja esta região - disse ele, passado um momento, designando o país montanhoso e bravio que iam atravessando. - Aqui teve origem um dos cultos mais neverados pelos Gregos, que, de uma certa maneira, já figura mesmo na tradição homérica: a religião dionisíaca. Entretanto, segundo Heródoto, Diônisos é um deus semita.
- Que país é este? - perguntou Sílvio.
- A Trácia.
Ali nascera Orfeu, que domava as feras com seu canto; que depois foi reduzido a pedações pelas Mênades. Como Diônisos (de que ele é a encarnação na terra) tivera o seu suplício, - a sua Paixão.
- Mas Diônisos não é só o deus da terra e do céu - acrescentou Heliodoro. - É também deus nos Infernos, onde ele simboliza esse fogo central, o sol subterrâneo, que faz germinar as sementes, - o pão.
E rematou, numa voz cava, de revelação:
- Orfeu, como Diônisos, descendo aos Infernos, é um deus catatônico.
Depois dessas palavras, caiu num silêncio meditativo. Sílvio depôs o olhar na paisagem.
A região que percorriam ainda não era a Grécia certamente. Mas, sobre os outeiros, já se viam pastores apascentando, como nos cantos de Homero, esses carneiros e esses bois de grandes chifres recurvos. - Embaixo, nos vales profundos, corria por vezes, às margens dos regatos, uma linha de choupos, dando sobra à minúscula frontaria de mármore dalgum edículo.
Subitamente, Sílvio recordou-se da encomenda da mãe. Era preciso consultar o seu companheiro de viagem, dada a camaraderia que se vinha estabelecendo, sobre a maneira de conseguir a raiz do heléboro.
- É fácil. Pode adquiri-la em qualquer parte. Mesmo em Roma naturalmente. O caso é saber comprar.
Porque (como Heliodoro explicou) o heléboro era produzido nas três Antíciras: a da Fócida, a do Golfo Malíaco e a dos Lócrios Ózolos. Conquanto o que cresce nas pendentes áridas do monte Eta fosse, inquestionavelmente, o melhor.
- Está entendendo?
- Sim.
- Mas eu lhe recomendo que leve à sua mãe o heléboro da Antícira dos Ózolos: ele aí é mais bem preparado.
Às vezes a conversa esmorecia. Os viajantes dormitavam, ao balanço da carruagem. Sílvio e Heliodoro ocupavam a frente, logo atrás do cocheiro.
A reda em que viajavam oferecia o conforto e a segurança dos veículos dessa espécie.
Na realidade, consistia num grande carroção gaulês, construído para a condução de passageiros e das suas bagagens. Assentava solidamente sobre quatro rodas, com raios. A entrada fazia-se pela parte lateral, onde a caixa do carro dispunha dum fenestrado em ângulos retos, esboço de portinhola.
As faces da reda exibiam decorações e ornatos.
Um friso em baixo-relevo acompanhava toda a linha do rebordo, enquadrava o vazado de entrada, numa trama miúda de folhas de loureiro. Como eram esculturas de folhas de loureiro também uns festões se viam nas faces laterais unindo entre si, em belas curvas, expressivas máscaras em baixo-relevo. Sob a portinhola, como um broquel pendurado ali pelo guerreiro que o despiu, uma grande caraça de Pã sorria no seu entalhe ornamental. Por baixo dela duas folhas de acanto fugiam para um lado e outro, finamente esculpidas. - Com as injúrias das intempéries e das longas jornadas essa delicadas obras de escultura em madeira achavam-se um tanto deterioradas já.
Pouco a pouco eles iam descendo para um vale profundo, afogado de bosques. Já os envolvia esse ar fresco e penetrante, que é a respiração impalpável das águas e das árvores. E, efetivamente, numa volta do caminho Sílvio pôde divisar, bem embaixo, uma caudalosa corrente. - Era o Hebro, que levava impetuosamente as suas águas vermelhas para os lados do Quersoneso da Trácia e para o mar e que parecia ainda tingido pelo sangue inocente de Orfeu.
Aí decidiram parar, fazer os escravos armar as tendas para o descanso da noite. Foi igualmente a opinião do redário, o cocheiro macedônio, austero e triste. Partindo cedo no outro dia, era possível alcançar, numa só jornada, a cidade de Filipes e a Via Egnácia, que toca o mar no porto de Neápolis.
À noite, sob a tenda portátil, Sílvio mal pôde dormir. Diônisos está ali. Move-se, inquieto, na agitação da folhagem das árvores. Fala, na voz vegetal, grave e surda, e que atinge seu pleno mistério nesse sussurro noturno da floresta. Celebra-se estranho orgiasmo, com o rio de Orfeu a rugir toda a sua dor e a evocar improdutivamente o piedoso drama dum deus feito homem e que, vindo ao mundo para revelar o Verbo Divino, tivera, como o pai, a sua Paixão, o seu suplício...
Mas, muito cedo no outro dia, retomaram a viagem.
A paisagem perdia aos poucos o seu tom agreste e rude. Começavam a aparecer os primeiros vinhedos, as oliveiras, as figueiras. De quando em quando, encontravam viajantes, na maioria jovens que faziam o trajeto a pé, com a túnica presa por um cinto, deixando descobertos os joelhos, e a clâmide segura no peito por um fecho de metal. À passagem da carruagem, tinham um cumprimento grave, lento e harmonioso. - Alguns traziam o pétaso - o chapéu - caído sobre as costas, como sinal dos viajantes.
O país todo se fazia mais doce e hospitaleiro. Havia mais conforto nas estalagens. Uma vez, quando ceavam numa hospedaria nas fronteiras da Macedônia, Heliodoro, diante dum prato de enguias do Lago Copais, teve esta exclamação jubilosa:
- Não resta dúvida: a gente já se sente na Grécia!
Por fim, atingiram a cidade latina de Filipes.
Sílvio, em quem aquele longo peregrinar por países estranhos avivara as saudades da pátria, teve a esquisita surpresa de se encontrar quase como que em casa, no meio de costumes romanos e duma população que, na maioria, falava o latim.
Além disso, Filipes era uma bela cidade e desfrutava uma situação geográfica admirável, ocupando um contraforte da montanha, quase no centro duma vasta planura, onde as águas abundavam.
Por toda parte, rochas de mármore da cor do ouro. Na planície, os choupos e os salgueiros, as figueiras, as cerejeiras e as vinhas silvestres agrupavam-se em pequenos bosques ou seguiam as linhas sinuosas dos regatos, abandonando entre si prados e pantanais, onde os rebanhos pastavam, lentos e tranquilos, ou se deixavam afundar confiadamente nas águas até meio corpo. - Bem defronte da cidade, erguia-se, como enorme esporão, o Pangeu, santificado pelo fogo votivo do oráculo de Diônisos.
Filipes era o centro duma colônia latina que já desfrutava, desde os começos do Império, do direito itálico e do governo de duúnviros. Era também um posto militar avançado. A gravidade romana casava-se com a austeridade levemente tocada de melancolia dos Macedônios, para fazer da cidade, apesar da sua animação, um lugar de labor tranquilo e de recolhimento.
Aproveitando a próxima saída do correio militar, Sílvio escreveu algumas linhas à família.
A carta era quase toda dedicada a Filipes.
“Dizem alguns dos antigos moradores com quem tenho falado - escrevia ele - que a cidade perdeu qualquer cousa depois que se exauriram as minas de ouro dos arredores, cuja exploração constituía a sua maior indústria. Para quem vem, como eu, do Íster e da Trácia, nada pode haver de mais repousante do que se achar à beira duma boa estrada romana, numa cidade dotada duma forte guarnição militar, entre gente trabalhadora, que rende um culto pacífico e pastoril às divindades da floresta.”
Sílvio mostrou a carta a Heliodoro.
- Apesar do lugar que ocupa Silvano na sua carta - comentou ele - bem se vê que vocês, lá pela Gália, se conservam fieis a algumas das virtudes republicanas. À mais importante delas mesmo: a incredulidade...
E noutro tom:
- Ou você é religioso?
- Não.
- É um poeta - arriscou, conclusivamente.
Sílvio abanou a cabeça sonhadora.
- Não, nem isso - respondeu. - Sou filho de vinhateiro, que, com o tempo, vai se tornar vinhateiro também.
- Não acredito.
E depois vivamente:
- O redário Macedônio propõe reatar a marcha em seguida.
- Quando quer partir?
- Esta madrugada.
Reiniciaram a viagem pois.
A Via Egnácia escapa daquele anel de montanhas por uma garganta, praticada mesmo no sopé do Pangeu, e caminha na direção do Estrimão, para alcançar Anfipópolis, um pouco acima da foz do rio. Daí, segue o vale entre a montanha e o mar, cruza a pequena cidade grega de Apolônia e dirige-se para Tessalônica, - não sem antes violar o reino murmuroso e movediço das águas.
Ora são cisternas profundas, que brotam das sombras dos plátanos. Ora são rios rápidos e cristalinos, que surgem dentre rochedos de mármore branco e vêm bafejar os rostos dos viajantes com a frescura que lhes comunicaram essas margens puras e clássicas, - como se os canalizasse um pórtico de dupla colunata.
Mais adiante, a estrada, pavimentada com lágeas de mármore, penetra num canal profundo, talhado a pique, que serve de sangradouro para os lagos interiores que comunicam com o mar: - e o Aulão de Aretusa. E logo se defronta com essa região lacustre e tropical, dominada pelas águas da Migdônia, e que o calor miasmático e o silêncio transformam numa desolação.
Mas, pouco a pouco, a grande via romana, margeando os lagos pela sua face meridional, vai levando lentamente os viajantes para as elevações que dominam o Termaico. Passam pelo túmulo de Eurípedes. Mais um esforço e a carruagem, com as suas parelhas destilando o suor viscoso da região tórrida que atravessaram, estaca bem no topo da serrania, entre fortificações em aclive que defendem a praça.
É de tarde. Longe, para o sul, fundida naquele céu da Grécia, azul e límpido, está lá no alto, feita das neves eternas, uma paragem eterna também, - diáfana como uma nuvem.
Sílvio sente-se emocionado até o estremecimento: é o Olimpo.
Um tal encontro, de todo imprevisto, traz à sua presença por um momento curto e fulgurante como um lampejo, o mundo mágico que existira outrora, - agora porém animado desse estranho poder e do mistério que todas as cousas recebem, em troca da vida, como contrapartida da morte...
- Olhe aqui em baixo - diz-lhe Heliodoro, puxando-o pela capa e tirando-o do seu enlevo.
Aos seus pés espraia-se um grande golfo, - azul. Rápidos veleiros rasgam as suas águas, em busca da linha fugitiva do horizonte. E, bem sobre a orla do mar, a cidade.
- Tessalônica, não é?
- Sim: estamos em Tessalônica.
Bem: está ele-Sílvio desde a véspera em Tessalônica, com o objetivo imediato de prover os preparativos para a sua volta ao lar. Restava saber o que lhe cumpria fazer primeiro.
- Primeiro conversar - diz-lhe Heliodoro.
É de manhã, na hospedaria.
Acham-se junto dum vaso de prata, erguido no vestíbulos. Tem a forma ornamental duma coluna miliária, onde está gravado a cinzel o itinerário das principais rotas marítimas que partem de Tessalônica. - Sílvio o está observando com atenção.
Heliodoro acrescenta:
- Você há de ter necessidade de trocar o seu dinheiro pela moeda nacional. Eu desejo me avistar com alguns conhecidos. Vamos ao mercado.
Sílvio despega-se por fim daquele objeto de luxo e de adorno, que é também um indicador para uso dos viajantes, e abandona a hospedaria com o seu amigo.
Vão palestrando.
- Já tenho o meu itinerário - diz ele.
- Você desembarca certamente em Cencras, o porto de Corinto. Atravessa o istmo em carruagem e vai tomar de novo o navio em Lequeu, no outro lado.
- Você acha?
- É mais prático.
A rua apresenta a animação que é habitual pela manhã a toda as cidades gregas: a maior parte daquela gente vai para a ágora ou de lá volta. Muitos cidadãos graves, andando a passo, fazem-se acompanhar de escravos ou carregadores de aluguel, transportando as mercadorias compradas na feira. Passou mesmo pleos dois amigos um oficial de cavalaria da guarnição romana, trazendo na mão o capacete cheio de legumes.
Uma atividade alegre, embora medida, distingue essa população dentre todas as que Sílvio até então encontrara. - É a graça e a vivacidade helênicas, que se revelam às vezes à simples maneira de andar.
Sílvio vai embevecendo para todos os aspectos da rua, que se lhe afiguram tão novos, tão originais. Nisso, vê vir vindo em sua direção uma mulher ainda moça. Seus olhares se encontram. O del tem uma languidez de abandono e de volúpia casta. Ela traz um manto púrpura-escuro que cai sobre um dos ombros e se acha seguro no outro por um fecho de metal - uma fíbula.
Sílvio meio se detém. Ela passa. Ele ainda se volta para segui-la com os olhos.
Evidentemente, uma mulher do povo: as Gregas de qualidade não andam assim na rua. Ou uma estrangeira. Aliás o seu traje, que denotava certa distinção, embora singelo e um tanto usado, traía uma outra época ou uma outra terra.
Heliodoro notou o seu interesse. Sílvio ainda com o olhar acompanhando o manto púrpura-escuro que se perdia entre a multidão pergunta ao companheiro:
- Quem será?
- Uma mulher da Síria provavelmente.
Continuam.
Logo adiante, a rua em que seguem corta uma outra, mais larga e em declive, que desce para o porto. Uma nesga do Golfo Termaico aparece por entre as mastreações dos navios. Na esquina seguinte eles pendem para a esquerda, entram numa rua apinhada de gente e que vai desembocar numa grande praça enquadrada de pórticos. - É a ágora.
O vasto recinto encerra no seu seio apenas alguns órgãos que a cidade considera necessários à sua vida cotidiana. Mas, ao erguê-los, ela não se esqueceu duma formalidade também necessária, como reflete Sílvio: a magnificência. -
À frente deles, sucedem-se palácios, templos, basílicas, tribunais, avançando os seus pórticos de mármore e deixando entre si avenidas e passeios, que por sua vez recebem os socos das estátuas dos heróis epônimos, os altares dos deuses protetores da cidade, as fontes monumentais.
Enfiando a rua que os vai conduzindo até a praça, alinham-se duas filas de choupos, de maneira a formar uma larga avenida. A uma certa altura, as árvores recuam, dispõem-se em círculo, em cujo centro se ergue o simulacro em bronze do Hermes agoreano.
Com o pórtico decorado com pinturas ainda frescas e todo ele denotando uma construção mais nova, Heliodoro mostra ao amigo um pequeno templo, gracioso e branco, que repousa em calma à sombra esguia dos álamos. - É o templo de Augusto.
Sílvio avista outros monumentos, a celebrar nos seus baixos-relevos todas as belas ações dos Gregos. Uma quilha, num painel, representa a Argos, rodeada dos seus tripulantes, e conta a quem passa sempre a mesma viagem de Jasão e dos Argonautas à Cólquida e a conquista do Velo de Ouro.
Sílvio não se contém. Com o seu entusiasmo fácil de catecúmeno, pára e exclama:
- Isto é admirável!
- Pelo menos é amplo - concorda Heliodoro. - Mas vamos andando. Eu quero me encontrar com alguns amigos.
Todas essas construções, dispostas irregularmente embora guardando uma perfeita harmonia, formam um labirinto, - que é ocupado pelas lojas dos mercadores.
Na realidade, a ágora é uma grande feira internacional, onde tudo se vende e tudo se compra e onde se dão encontro traficantes e consumidores de todos os países. Ao lado dos produtos da terra, vão ter aí os peixes do Ponto Euxino, as pérolas do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico, o incenso da Arábia Feliz, os diamantes da Índia, as ervas medicinais da África, de Creta ou da Sicília, as pranchas trabalhadas pelos ebanistas do monte Atlas. A Ibéria fornece-lhe as suas lãs de preço, a China a sua seda, Alexandria esses tecidos em que se cortam as sínteses, mais vaporosas que a névoa que envolve os vales pelas manhãs, e os seus vidros coloridos, dum lavor mais acabado do que o das jóias.
Os mercadores da ágora estão instalados ou ao ar livre ou debaixo de tendas de estofo. Alguns servem-se de pequenas barracas feitas de esteiras de junco. Outros, em grande número, dispõem de verdadeiros armazéns.
A especialização, que é um elemento inerente a todo comércio e responsável em parte pela sua prosperidade, fazia-se sentir na instalação e distribuição dessas inúmeras lojas. Assim, Sílvio viu na ágora o quarteirão do Peixe, e do Queijo Branco, o do Vinho, o da Cerâmica, o do Pão, o dos Legumes, o das Frutas, ao lado dos bazares, dos grandes depósitos de artigos do ultramar, das oficinas de escultura, das tendas dos Trapezitas, - que, sentados ao pé das suas bancas, fazem tranquilamente o câmbio com todas as moedas em circulação do mundo.
Sílvio surpreende-se de ver mulheres atrás dos balcões, despachando.
- Só vendem o pão, a fruta e as verduras - esclarece Heliodoro.
Ao percorrerem os quarteirão do Peixe, um ajuntamento onde havia negociantes, consumidores e curiosos, os fez parar. Discutia-se ruidosamente em torno dum homem pálido, sereno, que comparecia ao mercado na sua qualidade de magistrado, incumbido de aplicar os regulamentos de polícia para o comércio de certos artigos. - Um Agoránomo.
- Que é que houve? - pergunta Sílvio.
Heliodoro, que já se informara com um vizinho do lado, explica:
- O mercado do peixe abriu antes da campa dar o sinal.
As lojas alastram-se também sob os pórticos. Aí, os ociosos, flanando, recolhendo e espalhando novidades, vão de loja em loja, detendo-se nas rodas que se fazem nos estabelecimentos dos barbeiros, dos perfumistas, dos armeiros.
Geralmente só os homens frequentam a ágora, mesmo para as compras. Homens de posição vêm cedo fazer as provisões do dia e mandam-nas à casa pelos escravos ou por esses moços de aluguel, ordinariamente Judeus, que se postam ali, os braços encruzados, à espera de que alguém contrate os seus serviços.
A concorrência de jovens elegantes, que trazem vestes pregueadas, gravatas e sandálias de mulher e têm a voz delicada e as atitudes moles e ambíguas duma hetaira, torna o mercado um local algo suspeito. Mas para o homem livre há como que a obrigação de comparecer a um lugar que centraliza a vida da cidade e onde todo o mundo marca reunião.
Sílvio entretanto necessita converter algum dinheiro em moeda nacional. Dirigem-se pois, por entre a multidão, à loja de um cambista conhecido de Heliodoro.
Esse sujeito, que, sentado à sua banca, tem o ar frio e desiludido dum merceeiro que não prosperou, é na realidade um ativo manejador de fundos, estando metido, dum modo ou doutoro, na engrenagem que impulsiona a alta finança em toda a Macedônia. Apenas, não é ali, na singela tenda de estofo escarlate, mas em casa, que ele realiza seus negócios propriamente.
Mostra-se um grande conhecedor da profissão. Ao revirar os dedos magros e ágeis as peças de prata que Sílvio despeja no balcão, separa algumas delas, rejeitando-as.
- Para os efeitos do câmbio - diz ele - este dinheiro está recolhido.
Faz uma leve pausa. E antes mesmo que Sílvio possa levantar qualquer objeção, dá-se pressa em amenizar o efeito da sua atitude, observando:
- Nós sabemos que o governo continua emitindo essa moeda puramente convencional e arbitrária. Em Roma e nas províncias itálicas a sua circulação não oferece nenhuma dificuldade. Mas estamos na Macedônia, que é muito ciosa da sua autonomia monetária. Eu aqui não teria a quem passar o seu dinheiro se cometesse a leviandade de recebê-lo.
Heliodoro sentiu a curiosidade atraída por esses denários de prata que na aparência não diferiam de nenhum dos outros, exceto talvez pela falta da efígie do Imperador.
- Veja - diz o trapezita, inclinando-se sobre a moeda e acompanhando a demonstração com o dedo: - é um dinheiro de cobre, chapeado de prata. O governo tem autorização de fazer isso. Quase todos o fazem. Mas, antes do aparecimento dessas moedas sem valor real, era o dinheiro romano o mais puro do mundo. Dava gosto trabalhar com ele. Hoje não: a moeda falsa introduziu-se entre esse dinheiro de convenção repelindo a verdadeira.
Os outros escutam em silêncio.
Continua o trapezita:
- Eu sei que têm havido tentativas por parte do poder público para resgatar a moeda fiduciária, que inunda o Império e dificulta as transações. Mas a verdade é que até hoje ainda não se fez um esforço sério nesse sentido.
O banqueiro, não obstante, acaba abastecendo a bolsa de Sílvio com essas tetradracmas macedônias, onde se fazia a concessão de ajuntar alguns nomes de magistrados romanos aos do próprio país.
Heliodoro inquire-o sobre a marcha de alguns negócios. O Grego não se pejava de confessar que havia metido parte do seu dinheiro em especulações. Sílvio já sabe que ele é detentor de ações duma companhia romana que faz o negócio de vinhos da Grande Grécia com a Celtibéria e a África.
O financista dá as informações pedidas. Mas, à medida que a palestra se prolonga, vai perdendo aquele ar de vivacidade aguda que tinha revelado por um momento. Volta à sua antiga aparência de um retalhista em fim de carreira, desiludido e fatigado. Entram outros fregueses. Os dois amigos seguem adiante.
- Digam o que disserem - vai comentando Sílvio, reflexivamente, enquanto caminham: - Roma está muito longe de haver realizado a unidade no mundo.
- Ah! nem resta dúvida. Mas - acrescenta Heliodoro - eu quero sentar. Já me sinto um tanto fatigado. É da mudança do tempo: vai chover.
Haviam chegado a um recanto bucólico da ágora, cheio de plátanos de sombras, mas que não fica muito distante das lojas e dos passeios, por onde a corrente humana flui sem cessar.
- Você está naturalmente impressionado - replica Heliodoro, retomando o assunto, assim que se instalam sob aquela sombra fresca - com a diversidade de costumes e de tipos que encontrou. Mas, se atentar melhor e estender por uma muito mais vasta zona a sua peregrinação, há de concordar que há só duas nações na terra: Roma e Grécia. Elas coexistem desde uma alta antiguidade. O Império não teve força para fundi-las: apenas associou-as mais estreitamente. Claro: tornou-se um estado a duas línguas. Mas só isso já revela separação. Não acha? E, depois, você deve levar em conta que a Macedônia ainda não é a Grécia e que aquele sujeito é um Asiático.
A multidão continua a circular entre as lojas, comprando ou simplesmente pasmando diante de um artigo mais raro - um bronze de Corinto, alguma taça antiga finamente trabalhada. Por vezes, passa no ar uma inflexão mais aguda ou mais áspera, - dessa línguas estranhas, faladas para além das fronteiras do Império. Ou surge um dignitário oriental com o seu alto barrete e as amplas vestes de panos de várias cores, acompanhado do seu séquito.
Sílvio e Heliodoro já estão ali há muito tempo, quando o Grego tem uma exclamação alegre:
- Caro Isócrates! Apareces ainda a tempo. Eu estava pronto para ir embora, por falta de alguém com quem conversar.
Isócrates, compassado e grave, vem avançando lentamente, seguido dum jovem cujas faces começam a sombrear com os fios tenros da primeira barba. A uma distância convencional, acompanha-os um escravo trajando o manto dos pedagogos.
- E sobre o quê, meu caro Heliodoro, havemos de conversar? - acode Isócrates ao aproximar-se. - Sobre a virtude? O amor? Platão já esgotou todos esses assuntos.
- A virtude - responde Heliodoro - talvez haja desaparecido como tema ou preocupação e só se encontre mesmo nas dissertações filosóficas de Sócrates. Mas não o amor, que terá quem o pratique ainda por muito tempo. Falaremos depois sobre isso. Como vês, não estou só: acompanha-me este jovem Romano. Permite-me primeiro que eu to apresente.
Levanta-se. E, designando Sílvio, que se ergue também, profere solenemente as palavras da pragmática, declinando o seu nome patronímico e a sua condição de primogênito. Por fim, informa:
- Ele acaba de percorrer o país dos Panônios e dos Getas, onde o conheci. Veio até a Macedônia pela Trácia. Anda em missão comercial do pai, que fabrica o vinho das margens do Pado e o sabe conservar nas ânforas, à sombra tutelar do pitheón, até a sua consagração ritual.
Isócrates formaliza-se. Reclama para ele todas as homenagens devidas a quem veio ao mundo para salvar o altar doméstico e render o seu culto aos demônios familiares. Aquele jovem que se encontra a seu lado é também seu primogênito.
- Acerta-se, Lísias.
Isócrates louva a iniciativa do pai de Sílvio, despachando-o como seu preposto naquelas viagens de negócio. Isso instrui os jovens no mister difícil de traficar. Seu filho, Lísias, que ali se acha agora, acaba de realizar igualmente um giro comercial pelo Egeu e pelo Mar Egípcio, em visita aos seus favorecedores.
- Estive em Rodes e Alexandria! - celebra ele, ainda exultante com uma glória tão grande para um rapaz.
- A viagem não os instrui apenas na especialidade, mas também sob o aspeto mais vasto da cultura geral. Que pensas disso, Heliodoro?
- Bem - faz o outro, com uma leve hesitação - eu estaria invalidando os objetivos da própria viagem que empreendo neste momento e que é uma viagem de estudos, se negasse um valor educativo às viagens em geral. Professores, médicos, retores, cientistas, viajam muito: veja Hipócrates. Mas são viagens de especialização. Não se pode esperar isso dos jovens. Com uma finalidade estritamente educativa, eu penso que os moços só se devem deslocar para ir cursar as escolas de Atenas, Roma, Rodes ou Alexandria. Mas então não se trata propriamente de viajar, mas de mudar de domicílio por algum tempo. O que, sob o ponto de vista acadêmico, se pode colher duma viagem sem método é muito pouco. Que pode lucrar com uma viagem quem não sabe geometria? Aliás, quanto mais viajo, tanto mais me persuado da verdade contida na observação de Sêneca. É um escritor moderno, muito lido em Roma. Um Ibérico, ministro do divino César. Já ouviste falar dele, Isócrates?
- Não. Mas que diz ele?
- Que as viagens não nos tornam nem melhores nem mais razoáveis.
Entretanto, como observa Isócrates, após o breve silêncio que se segue às palavras de Heliodoro, só no templo de Serápis, em Canopo, Lísias pudera ver um processo de cura que, julga ele, ainda não se conhece na Grécia: as prescrições medicamentosas do deus são ministradas aos pacientes durante o sono, sob a forma de oráculos. E a maior parte deles cura.
- Não é verdade, Lísias?
- Sim.
Enquanto Heliodoro e Isócrates ficam considerando mais esse método de curar dum lugar tão famoso já pelos seus progressos no campo da medicina, Lísias acrescenta, de parte, para Sílvio:
- Indo a Alexandria, não deixe de fazer uma excursão a Canopo: por causa das mulheres.
E alto para o resto do grupo:
- Os Egípcios atravessam o Nilo em embarcações feitas de vasos de argila unidos uns aos outros.
Há um murmúrio de admiração:
- Povo muito industrioso.
Falam sobre o Nilo. Heliodoro pede notícias a Sílvio dessa expedição científica que o Imperador fizera empreender, em busca das nascentes do grande rio. - Mas Sílvio ignora esse fato. Nada pode informar.
Heliodoro então observa:
- Um grande espírito, Nero.
- Muito culto - concorda Isócrates.
A essa altura, Isócrates pede licença e dirige-se até o lugar em que o escravo que traz o seu manto de pedagogo ficara esperando. Ordena-lhe que vá adquirir os figos e as sardinhas que a mulher lhe encomendara e que trate de mandar levá-los à casa. Feitas essas recomendações, volta para a roda.
Mas então encontra aí uma outra personagem: Evandro, que passava na ocasião e que Heliodoro chamara.
Evandro é um homem alto, ainda moço. Tem a fisionomia severa. E o olhar - vigilantes - revela-se comunicativo também.
Heliodoro sabe que ele se entrega a estudos de filosofia e de história. Como não perde ocasião (ao que se diz) de propagar as suas ideias, como os sectários de Protágoras ou de Górgias, seus inimigos, declarados ou dissimulados, dão-lhe o epíteto de sofista, no seu sentido pejorativo. Ele se mostra superior a essas pequenezas da maledicência. - Isócrates, embora não o estime, vota respeito pelo seu saber e pelo seu caráter.
Mas esse saber mesmo é um pouco estranho, como tudo em Evandro.
Parece acompanhar, de início, as grandes linhas doutrinárias do Pórtico. Numa certa altura porém toma outro rumo, em que ninguém pode reconhecer o fruto pragmático da cultura helênica, - mesmo com um esforço de filosófica benevolência.
Isócrates suspeita, sem nada deixar transparecer, nem sequer aos amigos mais íntimos, que Evandro cede a influências exóticas, que ameaçam abalar, até certo ponto, o saber tradicional. E é isso - só isso - que, por aversão mais instintiva do que motivada, o impede de tributar uma amizade franca a um homem que, todavia, merece consideração em todos os outros aspectos.
Uma cousa sobretudo deve irritar espíritos como o de Isócrates: é que a diretriz das ideias de Evandro segue o traçado do pensamento grego, no que ele tem de mais estrutural. Talvez que este se ache então em trabalho de simples - mas profunda - acomodação, como um terreno convulsionado. - Ora, é justamente isso que ninguém quer admitir.
Isócrates saúda-o. Sabe que ele andara viajando (Evandro quase não pára em Tessalônica) e quer saber se a fortuna lhe fora propícia.
- Sim: tudo correu bem.
- Esteve no sul? em Atenas? - indaga Heliodoro.
- Não: no Egito.
Estavam exatamente falando sobre o Egito, observa Isócrates. O filho, Lísias, acaba também de chegar de lá. - Grande país!
- E Alexandria uma cidade incomparável, não? - faz Isócrates dum modo tateante.
- Sim: talvez a cidade mais importante do Império - responde, num caráter informativo, tranquilamente Evandro.
- É inacreditável! - considera Heliodoro, como se penitenciando duma falta que, por contraste, no fundo o lisonjeia. - Mas eu ainda não conheço Alexandria.
- Todo o mundo volta entusiasmado com o que vê por lá - comenta Isócrates.
- Sem dúvida - concorda Evandro. - E, de cada vez, Alexandria tem um aspecto novo a revelar. Ainda agora eu pude observar muitos cousas que desconhecia.
Um silêncio, a denunciar, evidentemente, a carência de assunto.
- Você continua escrevendo?
A pergunta é de Isócrates.
- Não muito - responde Evandro, com um leve sorriso que afina bem com a ocasião: - por agora, eu prefiro pensar...
A resposta parece trazer consigo um elemento qualquer, capaz de encher esse momento vazio, porque logo acode Heliodoro, o ar irônico:
- E em que pensa, se não é segredo?
É Isócrates quem responde, já animado:
- No problema das massas. Hoje, não é segredo para ninguém.
Evandro:
- Realmente. Creio que isso já chegou até os ouvidos da polícia de César, a qual tem-me procurado criar pequenos embaraços. Mas sem razão: eu não sou um agitador.
E, como se tomasse uma resolução:
- Tenho-me limitado a prega, nos meus livros - diz - e nas minhas conferências, a abolição do regime escravagista. E faço-o pelo respeito que me infundem a sociedade e o Império. A escravidão está conduzindo o mundo moderno para a ruína.
- Não esqueça - adverte Isócrates - que a ordem econômica repousa no trabalho escravo.
- Não é possível esquecer isso - replica Evandro. - Notam-se-lhe os efeitos nas menores cousas. Mas, particularmente nos sintomas, que já aparecem, da desagregação social.
Segue-se uma pausa, que a Evandro se afigura de expectativa. É o que o decide a continuar:
- Vejam vocês: eu comecei, como simples curioso a estudar a história do nosso país. Que foi que encontrei no nosso passado? Nesse glorioso passado helênico? Claro que não falo dos tempos homéricos, da pré-história. Mas da época da guerra do Peloponeso, das lutas contra o Filipe desta mesma Macedônia, da resistência dramática de Filópemen à frente da liga acaia. Em tudo isso, só vi um episódio a mais da luta dos pobres contra os ricos, dos ricos contra os pobres, fenômeno, como é sabido, que tantas ligações contrai com a economia escravagista.
Isócrates quer protestar. Mas Evandro atalha:
- Ouça-me primeiro. Veja o caso dos dois Argianos. Haviam primitivamente consagrado no mesmo pritaneu à Divindade Políada que a ambos conferia idêntica proteção, tinham merecido e recebido a mesma água lustral. Nada sob o ponto de vista nacional os separava. Entretanto, um tomou o partido de Esparta, o outro o de Atenas. Por quê? Porque um defendia o partido dos ricos - contra o partido dos pobres, que o outro sustentava.
- Isso é uma maneira muito sectária de simplificar a História! - exclama Isócrates.
- Sectária? - faz Evandro, sorridente. - Mas eu li isso mesmo na história da guerra do Peloponeso de Tucídides e nas Helênicas de Xenofonte! A não ser que você tenha estes dois historiadores, que desapareceram há mais de quatro séculos, como sectários também... Mas veja este outro exemplo: todo o mundo na Grécia que tinha bens de fortuna a defender aspirava pela dominação da Macedônia, sob o nosso Filipe.
- Entretanto - retruca Isócrates, com a palidez da cólera na face - você não vai negar que nos tempos da liga Acaia os democratas gregos eram por Filipe contra Filópemen!
- Não, não nego. E saber por que isso? Porque Filópemen e a sua liga sustentavam então os interesses da aristocracia.
- Estranha maneira de discutir essa, em que a menor injúria que se assaca aos antepassados é a da traição - faz Isócrates, com desdém, virando o rosto.
Evandro encara os outros componentes do grupo. Heliodoro tem um ar evasivo, - neutro. Sílvio olha-o com um interesse intenso. É a ele que Evandro se dirige em continuação.
- A mesma cousa por ocasião da conquista romana, a qual naturalmente não se processou sem resistência. Quais eram as cidades que resistiam? Atenas, Demetríade, Focéia, porque aí dominava o partido popular. Quem era pela dominação romana? Políbio, Filópemen à frente da liga Acaia quando esta era governada pelos aristocratas. E se acontecia sobrevir uma mudança interna, nessa perpétua rotação dos partidos, a cousa também virava. Assim, Tebas - popular - é por Filipe contra Roma, mas, quando os ricos tomam o poder, volta-se a favor de Roma contra Filipe. Eu poderia enumerar uma série de situações desse tipo no decurso da campanha. Basta-me porém lembrar ao meu caro Isócrates - acrescenta Evandro voltando-se para este - o que aconteceu com essa mesma famigerada liga Acaia, que luta denodadamente por fim contra os Romanos, nas figuras dos seus generais Critolaos e Diéos, quando estes assumem o poder como chefes do partido do povo.
As palavras de Evandro estão criando um ambiente, visível, de constrangimento. Heliodoro sai-se com uma tirada sarcástica:
- Evandro está a nos recordar os epítomes, esquecidos desde criança, da história grega.
- Com efeito - reconhece o outro, serenamente: - eu os estou a enfastiar.
- Não! - diz vivamente Sílvio. - Mas, por que os ricos, os afortunados da Grécia estavam a favor de Roma?
- Porque Roma era a cidade aristocrática por excelência.
Evandro volta-se para Heliodoro:
- Você há de recordar-se duma passagem de Tito Lívio, que devia ser adotado nas escolas do tempo da sua infância, como era na minha.
- Não: no meu tempo estudava-se Ovídio. E você sabe o que vale o autor dos Fastos como historiador... - responde Heliodoro, sorrindo.
Evandro continua, dirigindo-se a Sílvio:
- Tito Lívio reproduz a observação dum Grego falando com Flaminino. Diz-lhe o Grego, com mostras de tanta penetração como de coragem: No teu país só a riqueza governa. Tudo mais lhe está submetido. Sérvio Túlio faz da riqueza a base política da sua constituição, reforçando o patriciado com o princípio timocrático. Não é dizer tudo?...
- Bem - vai admitindo Heliodoro - ninguém nega esse capítulo da História, que traduz a luta da aristocracia contra a democracia e que acabou com a vitória desta última. Mas você leva muito longe as suas generalizações!
- Então, ouçam-me mais um pouco.
- Não é em vão que lhe chamam sofista - diz-lhe Heliodoro, com um sorriso em que a amabilidade diligencia por ocultar uma ponta de perfídia. - Você é um tenaz defensor dos seus pontos de vista...
- Sou, sim. Reconheço-o. Mas escutem mais isto. Que foi o advento dos governos dos tiranos? Uma revolta dos pobres contra os ricos, da plebe contra a aristocracia. O expediente do tirano de Mileto cortando as espigas de trigo mais altas para ensinar ao seu colega de Corinto as regras de governo, exprime, numa parábola ativa, o que deve ser um governo dessa natureza: abater os privilegiados, os mais altamente situados e estabelecer uma igualdade. Foi o que fizeram Trasíbulo, Polícrates, Cípselo e tantos outros. Com eles, o povo despojava os ricos dos seus bens, até que estes, por obra dalguma conspiração feliz, se apossassem do governo e dos bens usurpados. Como é que Políbio define essas lutas intestinas, que só terminaram com a conquista romana? "Em toda guerra civil - diz ele - trata-se apenas de deslocar as fortunas." Os ricos contraíam entre si, sob juramento, o compromisso solene de serem sempre os inimigos do povo e de lhe fazerem todo o mal que pudessem. Essa revelação - ou indiscrição, como quiserem - está em Aristóteles.
- "Eu serei o adversário do povo e lhe farei no Conselho todo o mal que puder" - cita Heliodoro, com uma ironia triunfante, o estranho juramento dos oligarcas.
- Ah! obrigado pelo aparte. Semelhante compromisso, que espanta pela sua cínica sinceridade, teve a sua reprodução literal, eu dizia, num autor que devem ser bem insuspeito para vocês. E bastante lido, como se viu... Cometiam-se os maiores excessos de ambas as partes. Vocês hão de estar lembrados daquele episódio macabro de Mileto, em que um dos partidos se apossou das crianças do outro e as fez esmagar sob os cascos dos bois, ao que o partido contrário replicou tomando os filhos do adversário, untando-os de pez e queimando-os vivos. - O primeiro partido era o dos pobres, o último o dos ricos. Vejam até que extremos chegava a luta de classes!
A evocação dessas crueldades traz um momento de suspensão reflexiva, uma breve interrupção na palestra. A seguir, Isócrates faz esta observação:
- Tais cousas só foram possíveis depois que se afrouxaram os laços da religião entre os Gregos.
- Engano! - acode Evandro. - Foi, indiretamente, a religião que as fomentou, pondo-se, desde cedo, ao serviço da propriedade privada, razão única, bastante e declarada da luta entre as classes. A religião confundiu sempre, na mesma pessoa, o proprietário e o crente: aquele que devia cumprir com os sacrifícios rituais e ao mesmo tempo herdar os bens da família. Quem não tinha direito de sacrificar no fogo do lar ou no túmulo aos demônios familiares não devia também receber a herança. Assim, ficaram fora dos direitos de sucessão todas as pessoas da família exceto o filho mais velho, - porque só a este cabiam as prerrogativas desse sacerdócio doméstico. A religião estabeleceu-se com o objetivo de regular os privilégios da primogenitura e, dessa forma, presidir à invisibilidade da terra, à preservação do latifúndio. Você me vem falar dos freios morais da religião! Ela nunca visou fundamentalmente isso. O que ela sempre quis ser foi o sustentáculo da aristocracia, dos senhores de terras. Em Roma, os tribunos da plebe são os únicos membros do estado que não podem realizar nenhum sacrifício aos deuses. Porque representam a grande massa dos sem-terra. Por isso também não são considerados magistrados, no sentido legal da palavra.
Isócrates tem um sorriso escarnecedor. Diz:
- Vocês os filósofos estão sempre encontrando defeitos na organização da comunidade social, sempre censurando.
- É o nosso dever - retruca Evandro: - somos os críticos das instituições e dos costumes.
- Mas também devia ser um dever para vocês participar ativamente dessa organização.
- Como?
- Intervindo com a sua parcela de responsabilidade no governo - acrescenta o outro. - Entretanto, vocês nunca fizeram isso. Sempre se deixaram ficar nessa situação cômoda de meros censores.
Evandro quer responder. Ele faz-lhe com a mão um gesto para esperar, e continua:
- Anaxágora esquivava-se das assembleias do povo e nunca aceitou as honras de magistrado. O próprio Sócrates, que fingia tomar piedosamente parte nas festas da comunidade, no fundo era um céptico, o que lhe valeu a impopularidade e o suplício. Para não falar nos cínicos. Esses se vangloriavam de não ter pátria e nem sequer queriam ser cidadãos.
Evandro ouve essa diatribe com um sorriso nos lábios.
- Você sorri - diz-lhe Isócrates - mas essa é a verdade. Epicuro não disfarçava a sua incivilidade quando aconselhava aos seus discípulos: "Não metam a mão nessas cousas." Essas cousas era a direção da sociedade. Nem ocultava a sua cobardia quando acrescentava: "A não ser que alguma força superior os obrigue a isso."
Interrompe-se um momento e depois prossegue, à maneira de conclusão:
- É esse o código cívico de vocês os filósofos.
Evando reflete alguns instantes.
- Você tem razão - diz por fim.
- Ah!
- E, agora, quem se recusa a tomar parte no governo dos homens, na própria vida dos homens, já não não são mais os filósofos apenas: é o povo.
Cala-se, como considerando se dará ou não expressão ao seu pensamento. Os outros fixam os olhos na sua cabeça austera, embora moça, e que meio se inclina para o chão. Esperam.
Mas Evandro continua. As suas palavras, agora, assumem um tom sereno, de quem conta uma fábula.
- Eu vi no Egito uma cousa nova. Imagem vocês pessoas que se reúnem em corporações cada vez mais amplas, duma disciplina férrea como a das casernas, sujeitas a uma moral rígida. Com tantos atributos, era lícito esperar-se dessas associações um trabalho positivo em bem da coletividade. Mas nada disso: eles querem apenas fugir ao mundo. Vivem uma vida contemplativa, dedicada ao estudo estéril, à prece e à meditação. E conseguem o seu objetivo, pois não só fogem às tarefas do estado, qual um simples filósofo, como ao contato com os outros homens. Numa palavra: renunciaram à vida terrena. Desprezam porfiadamente, todos os bens deste mundo. Estão realmente mortos para si e para os seus semelhantes.
- Isso só na Líbia! - interrompe Heliodoro. - Mas, que gente é essa?
- Os Essênios em geral. Mas, mais particularmente, os Terapeutas do Egito.
- Eu não vi nada disso lá - observa Lísias, dubitativo.
- Não, meu jovem, essas cousas não se revelam facilmente aos moços. Além disso, os Terapeutas vivem segregados.
- Mas - lembra Heliodoro, passado um momento - você, meu caro Evandro, tinha um propósito definido quando iniciou o debate: falar sobre a questão escravagista.
- Ah! pois é.
Reflete um instante. Depois:
- Tudo ainda decorre dessa interpretação, a que o nosso Isócrates chama sectária, mas que eu me obstino em considerar uma interpretação econômica da História. Que espécie de homens eram esses pobres que, segundo Tucídides e Xenofonte, se jogavam à luta política com o objetivo imediato de controlar o estado e, daí, atingir os ricos e espoliá-los? Eu pergunto a você, Heliodoro, que deve ter, por profissão, uma grande e minudenciosa familiaridade com todos os ramos do saber, se as lutas entre Atenas e Esparta, a guerra contra esta nossa Macedônia, a resistência à absorção romana se caracterizaram por uma sublevação de escravos, do tipo da que chefiou Euno, que a si mesmo se cognominou Antíoco, rei dos Sírios? ou Cléon, o escravo aqueu? Podem-se mesmo comparar com a a guerra contra Caristônicos e seus Habitantes do Sol, na Ásia Menor e que não passava duma repressão dos proprietários à revolta dos seus escravos?
- Que eu saiba, não.
- Não foi uma insurreição do partido popular, dos democratas?
- Sim.
- Quer dizer: um movimento de homens livres, de cidadãos. Apenas, cidadãos que um grande sulco dividia: a desigualdade das fortunas. E nas guerras civis? Foram escravos que elevaram pela primeira vez tiranos ao poder, inaugurando assim essa magistratura?
- Magistratura! A tirania, uma magistratura?! - brada Isócrates, perplexo ante tamanha audácia de linguagem. - Isso é demais.
- Magistratura sim e magistratura popular, até certo ponto eletiva. A aristocracia achava-se fundida com a religião e governava em nome dos deuses. O povo queria um governo próprio, mas não contando no seu seio com famílias sacerdotais, tinha de banir a religião como instrumento de governo. Assim nasceu o governo dos tiranos, os quais chegaram ao poder pelo exclusivo voto popular. Foi um governo leigo, em contraposição com o dos aristocratas, que se instituíra por direito divino.
- Por Diônisos! - exclama Heliodoro, divertido. - Você leva as suas conclusões aos extremos mais inconcebíveis.
- Eu aponto fatos, exclusivamente.
- Devia antes apontar soluções práticas - adverte Isócrates de mau humor, contendo-se com esforço.
- E aponto-as também - obtempera Evandro. - Toda a minha campanha tem essa finalidade: indicar soluções concretas para o problema do mundo moderno.
- E que medidas são essas que você preconiza? - pergunta ironicamente Heliodoro.
A hetairização do proletariado.
- Isso equivale à organização do operariado num partido, numa classe - comenta Heliodoro.
- Sim - responde Evandro: - é a formação duma classe operária.
Cai um silêncio.
- O trabalho servil deixou a maioria da população (os cidadãos pobres) sem função na sociedade, porque sem significação econômica - continua Evandro. - Estes pouco produzem, pouco consomem. O capital está nas mãos dos ricos, o trabalho nas dos escravos.
Detém-se. Lança um olhar vago sobre a onda dos passantes que entopem as aleias da ágora, e depois diz, num tom mais sereno:
- Não é possível avaliar toda a extensão do problema sem atentar para certos fatos e uma ou outra cifra. Vou ser breve. Não aludirei senão aos aspectos mais eloquentes do caso. Vocês sabem qual é a terra de escravos por excelência: é a Ásia ocidental. Os corsários Cretenses e Cilicianos levam as suas operações de caça ao homem por toda a costa da Síria e pelas nossas ilhas. O rei da Bitínia, uma vez, não pôde atender às requisições militares de Roma porque os homens em condições de pegar em armas tinham sido capturados por essa pirataria e levados aos mercados de escravos.
Percebe-se uma atenção mais austera, e Evandro prossegue:
- O que são esses mercados é fácil de ver apenas por esta cifra: em Delos, os traficantes de escravos desembarcaram uma manhã dez mil desses infelizes e antes da noite não restava mais nenhum no mercado. Todos tinham sido vendidos no espaço de poucas horas. Porque tamanha procura? Porque é necessário canalizar esse rebanho humano para as minas, para as fábricas onde se prepara o pez, para os campos de criação de gado, para as terras de lavoura, para os vinhedos, para os olivais, - onde essa pobre gente, durante o dia, trabalha quase nua e acorrentada, e à noite, vai enfrentar os pesadelos do sono debaixo da terra nos ergástulos subterrâneos.
- Horrível, não resta dúvida.
- Mas eu já não encaro o fato pelo seu lado humano. Nem mesmo sob o aspeto filosófico. Outros já o fizeram. Os sofistas cansaram-se de martelar que a natureza não faz escravos. Interessam-me as suas consequências econômicas.
Tendo chegado a este ponto, tolice não manifestar o resto:
- Depois da primeira crise social, apenas dominada a insurreição dos servos, Roma se dá pressa em promulgar uma lei que obrigava o proprietário a empregar um número de trabalhadores livres proporcional ao número de trabalhadores escravos. Mas essa lei não é cumprida. O escravo não pode ser convocado para o serviço militar como o simples proletário. Para não ficarem desfalcados de braços quando o governo precisa de soldados, o criador, o explorador de minas, o industrialista, o agricultor fecham a porta ao homem livre e não utilizam senão o braço escravo.
Evandro faz uma rápida suspensão no seu discurso e depois remata:
- Extingam (mas extingam, nada de meias medidas como essa, tão facilmente burlada), extingam completamente a escravatura, convoquem o operariado livre para o trabalho rural ou urbano. Criem, dessa forma, relações econômicas entre ricos e pobres. Esse será o primeiro passo para a estabilidade social. Tal é a minha tese.
- A tese é humanitária, muito de acordo com o espírito helênico - comenta Heliodoro. - Diga de Aristóteles, que, se reconheceu que o homem é eminentemente um ser político, admitiu também que é um ser econômico. Mas, como ela é revolucionária!
- Revolucionária, concordo - replica Evandro. - Mas não humanitária. Dum certo modo, humanitária é essa concepção niilista dos Essênios e dos Terapeutas do Egito, em que provavelmente se acena, para as massas sofredoras, com os gozos perfeitos e eternos de uma outra vida, num céu muito mais apetecível e sobretudo mais justo do que os nossos Infernos, sob a suserania de Hades...
Evandro dá mostra, com a ironia, de querer terminar o debate.
Não é porém esse o seu gênero. Ou o gênero do seu tema. O que é fato é que ainda acrescenta:
- É interessante notar que são os pobres e os escravos que se lançam nesses novos cultos, nessas religiões exóticas.
- E as mulheres também - completa Heliodoro.
- Sem dúvida. Ia-me esquecendo: e as mulheres também. Mas, que são as mulheres senão escravos? A lei utiliza com elas um eufemismo e as considera menores, sujeitas à tutela. - do pai, do marido, do parente mais próximo. No fundo porém, mesmo quando a mulher venha a ter algum direito, como por exemplo o direito de propriedade, não passa ela própria dum objeto de propriedade também. Tanto é assim que, de acordo com o direito das Doze Tábuas (o primeiro livro que se soletra nas escolas do Império) a esposa podia ser adquirida por usucapião, após a posse de um ano, como uma cousa móvel qualquer. Como reage toda essa gente contra a servidão? Refugiando-se num outro mundo, o mundo que esses místicos dizem existir para além da sua vida de misérias, onde serão automaticamente corrigidas todas as injustiças sociais, onde prevalecerá ao reino da igualdade, isto é: o Reino do Céu.
Cala-se. Os outros conservam-se também em silêncio.
- Mas antes de ir embora eu quero contar um cousa para vocês - diz Evandro. - Eu vi nos lábios de um desses párias, no Egito, uma expressão inesquecível, que robustece extraordinariamente a minha tese. Era no mercado. Uma espécie disto aqui. A polícia prendera um pobre diabo e, no meio dum grande ajuntamento e de enorme algazarra, quis retirar-lhe das mãos uma moeda romana - um áureo - com a efígie do Imperador. O sujeito era considerado pela polícia muito miserável para poder ser possuidor daquela pequena fortuna: só podia tê-la roubado. Ele protestou veementemente a sua inocência. Mas não pôde estabelecer dum modo indubitável a procedência do dinheiro. Acabou relaxando-o às mãos do policial. Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, disse ele então, à guisa de consolação, falando-se a si mesmo e com a expressão beatífica de quem se achava mesmo consolado. Evidentemente a frase não era dele. Era uma frase feita. Isso se sentia pelo seu cunho lapidar de sentença. De quem era, não sei. Mas que desprezo pelos bens terrenos ela exprimia! Atentem para isso vocês, os donos da sociedade, enquanto é ainda tempo.
Brilha um sorriso fino nos dentes alvos de Heliodoro. Ele diz:
- Mas você há de nos assistir com a a sua sabedoria...
Evandro não tem uma resposta pronta (ele está cansado) uma resposta para essa ironia. Só pode ser ironia, partindo dum reacionário céptico como Heliodoro. Mas - deplora - que profunda cegueira a desses homens!
É Sílvio quem responde por ele, nesse tom comovente que tem sempre a gravidade dos moços:
- Acho que podemos contar com Evandro, e, naturalmente, com a sua sabedoria também.
Já se está fazendo tarde. Evandro despede-se. Mas, quando havia dado alguns passos, volta. Dirige-se a Sílvio:
- Você quer falar com um Terapeuta do Egito?
- Quero.
Evandro reflete um momento.
- Onde é que você está parando?
Sílvio diz-lhe.
- Espere então até à tarde. Se puder, eu mesmo passarei pelo seu hotel. De qualquer forma, você irá até a casa de Jair, o Terapeuta.
Heliodoro e Sílvio vêm vindo a passo para o hotel. Trocam de longe em longe palavras que muito se assemelham à espórtula dum avarento, de tão escassas e tão dosadas. Ao atingirem as vizinhanças do porto, Heliodoro pergunta:
- Você não quer se informar sobre a próxima partida do navio de Roma?
- Agora não há tempo.
É tarde mesmo. O movimento diminuiu. Naquelas ruas que vão ter às docas, já é uma outra gente a que eles encontram. A graça a e a vivacidade jovial, que tiravam à multidão urbana o que ela tem em toda parte de mais característico e entristecedor - uma hostilidade egoística em potência - essa jovialidade e essa graça mal se podiam entrever nesses homens de fisionomia grosseira que passavam por eles.
Muitos denunciavam à simples vista o país distante donde procediam. Saindo das tabernas do bairro portuário ou nelas entrando, às vezes aos pares, às vezes em grupos numerosos, falando alto as suas línguas destemperadas e exóticas, desfilavam marinheiros do Ponto, Líbios, Egípcios, imigrantes da Síria ou mercadores Gregos das colônias longínquas, - que, ao contato com os Bárbaros, pareciam ter adquirido uma cidadania às avessas e se haverem feito estrangeiros também.
- Eu penso continuar a viagem amanhã - anuncia Heliodoro depois de terem percorrido mais um longo trecho calados. E como Sílvio não faça nenhum comentário, ele acrescenta:
- Vou viajar por terra. Por Bereia, sobre as pendentes do Bérmio.
- Ah!
Evandro... Quanta clareza de pensamento! Sílvio não há de sair de Tessalônica sem levar alguns dos seus livros. Não viu lojas de livros na ágora. Mas há de havê-las na cidade.
Pergunta a Heliodoro:
- Sabe onde fica alguma livraria?
- Sim - responde ele numa palavra pronta, a denunciar um bem recuperado. - Conheço uma ali perto mesmo da hospedaria, na Rua Nova. Quer ir agora lá?
- Depois.
Ele encarou a história do seu país dum ângulo ao mesmo tempo novo e simples. Num ponto Isócrates tinha razão: Evandro simplificara a História. Não seria porque a própria História - esse acerbo Anedotário da vida humana - era uma cousa realmente simples e se reduzia apenas a uma luta por demais primária: a luta pela sobrevivência?
Que era o homem? Independentemente de saber se a terra era cilíndrica ou não, como admitia Anaxímandro, o homem viera, como os outros animais, do limo fundamental que ficara no fundo dos mares quando a água primitiva se evaporou. Fora a princípio um peixe, como as demais espécies terrestres. Ao adquirir a sua nova forma como os outros, subira penosamente à terra e aí se despojara das suas escamas.
Penosamente também, vai-se diferenciando cada vez mais. Claro: ele é hoje um ser privilegiado, - o ser político ou o ser econômico de Aristóteles. É sobretudo um ser capaz de conceber o amor e a beleza.
Toda aquela terra em derredor, em que as formas mais altas da harmonia surgem como que sem esforço, do próprio solo, constitui um atestado vivo da sua humanização.
Nem por isso se deixam de reconhecer os traços originais da sua humana animalidade. E, quando se sente atingido no seu interesse mais profundo - no seu interesse vital - o antigo peixe, formado grosseiramente da vasa oceânica, apela para o que há também de mais primitivo e grosseiro na sua organização: os instintos. - A História, na teses de Evandro, é a aplicação, em esfera social, das conclusões a que chegara a ciência no domínio da História da Natureza. Daí o seu encanto e a sua força.
Restava saber até onde ia presentemente o estado de inquietação ou de desespero das massas, de todos esses seres espoliados. E qual a perspectiva que lhes estava aberta, qual a sua esperança. Em suma: qual o gênero de luta na conjuntura atual.
A sociedade parecia repousar em fundamentos sólidos. O Estado era forte. Por toda parte - a estabilidade e a prosperidade. Se ele-Sílvio indagasse por exemplo daquele homem plácido que caminhava junto a si, daquele matemático aposentado - Heliodoro - que é que via no futuro? Esse vagabundo amável, que os juros e os dividendos das suas ações de companhia - das suas partes e particulae - permitiam entreter o luxo modesto dum nomadismo o seu tanto pueril, esse medíocre sensualista haveria de responder como tantos outros, como o seu próprio pai (que entretanto era uma espírito equilibrado e justo) haveria de responder por um panegírico ao Império e à sua obra durável, imperecedora.
O drama dos escravos não o impressionaria mais do que um morticínio de auroques numa planície desolada da Cítia, a despeito do seu espírito de humanidade.
O escravo e a alma vil - diferente da do resto dos homens. Um soma, que, tal qual um animal de carga ou de abate, se ceva - e com que parcimônia! no somatrofeu, - na sua encerra.
Por que um soma, apenas?
Ninguém saberá dizer ao certo, visto que a natureza em si não faz escravos, como com toda a razão proclamam os sofistas, e que todos os seres - homens e animais - descendem do mesmo lodo original de Anaximandro.
Desembaraçando-se das suas escamas, o Homem, ao tomar posse da terra firme, parecia votado a se despojar da animalidade, destinado a inaugurar um novo Reino. Que reino?
Não cabe dúvida que já se está esboçando um movimento de fuga.
Isócrates não soube perceber o sentido da indiferença dos filósofos pelo governo da sociedade, do seu incivismo. Já nada mais importa aqui - é o que a sua atitude proclama tacitamente. E é muito animador - muito mesmo - quando um Platão ou um Aristóteles não se dedignam de traçar as normas duma política, de estabelecer um projeto de constituição para os seus concidadãos.
Evandro pertence a essa escola ativa, militante. Ele também não quer, pura e simplesmente, renunciar.
Vai avistar-se com ele essa tarde. Não alcançou bem o motivo do seu convite.
Por que desejaria ele mostrar-lhe um Terapeuta do Egito? Pelo seu caráter de raridade? Duvida. E, de sua parte, que é que o leva a desejar esse encontro e alterar-se um tanto com a expectativa? Talvez curiosidade. O Terapeuta vem dum outro mundo - um mundo subterrâneo. Nesse momento, ele-Sílvio vê-se como um novo Ulisses, baixando aos Infernos, para invocar e interpelar as sombras dos mortos...
Heliodoro tem razão: vai chover. Grossas nuvens, acumuladas no norte sobre as montanhas vêm sendo tocadas pelos alíseos. Um ar espesso, que é obra da evaporação do golfo, paira sobre a cidade.
Quando, algum tempo depois, chegam à hospedaria, Sílvio manda chamar Demétrio, o Ilírico, que lhe serve igualmente de cubiculário, e encerra-se no seu quarto. Faz uma refeição ligeira, - um prândium à maneira romana, consistindo num pouco de carne fria, pão, legumes, frutas e uma taça de vinho. Vai descansar até a hora do banho. Terá a tarde livre para receber Evandro e ir com ele à casa de Jair, o Terapeuta.
Imagina, pela sucinta descrição de Evandro, o que possa ser a vida de reclusão dos Terapeutas do Egito. Entregam-se à oração e à meditação - enquanto esperam. Mas esperam - o quê? Essa cousa esperada, objeto talvez único da sua existência, deve encontrá-los limpos, imaculados. Doutra forma, não teria sentido essa segregação do convívio humano e das suas inúmeras tentações para o mal. - Tornar breve - brevíssima - a sua passagem pela terra, para mais velozmente entrar na eternidade e na bem-aventurança, tendo escapado às armadilhas de que estão juncados os caminhos do mundo, - eis ao que eles certamente visam.
Os Terapeutas representam um ramo cismático dos Essênios. Ele já ouviu alguma cousa sobre essa última seita judaica. São indivíduos que praticam também o ascetismo como meio de purificação e de resgate da alma. Não vão a ponto de interditar as uniões entre os sexos, mas consideram o casamento um mal, embora necessário. Deixados livres para seguir o seu próprio ideal, iriam até a extinção do gênero humano. Quer dizer: a uma fuga em massa.
Até que ponto constitui esse propósito uma aspiração generalizada?
Seu pai, quando o via abismar-se nos livros, chamava-lhe a atenção para o amolecimento da vontade que a vida contemplativa do espírito costuma acarretar. Contemplativos, homens mais ou menos vadios, mais ou menos inativos e volutuosos, sempre houve. Há-os ainda agora em grande número, disfarçados sob o nome de pensadores ou de poetas.
Mas os Essênios - e mais provavelmente ainda os Terapeutas - se são uns volutuosos, são-no todavia de um novo gênero, inteiramente desconhecido de todos os sensuais que o mundo viu até agora.
O ascetismo pode ser bem uma volúpia. Até mesmo uma volúpia física: a aberração dos sentidos não conhece limites. Mas não é a inação, pura e simples. Na vida ascética, chega-se à negação por um esforço pertinaz e cotidiano. Quanto trabalho para fugir às tentações ordinárias dos outros homens! - Não. É uma renúncia ativa, uma forma de luta. Luta contra quem? É o que seria interessante averiguar.
A escravidão, a pobreza, a miséria têm algo que ver com essa nova expressão do misticismo? Mas então o problema religioso, tão agudo neste momento para esses povos da secção oriental do Império, cai em cheio na órbita das questões meramente econômicas. E deverá constituir o tema e a preocupação, não de teólogos, mas de reformadores realistas e práticos da espécie dum Evandro. - Eis um ponto que está a desafiar uma meditação mais demorada, mais profunda.
Nas margens plácidas do seu rio, sob a autoridade senhorial e tolerante dum homem que realiza perfeitamente o tipo do pater-famílias rusticanus, ele nunca se defrontara com o problema, da forma como lhe sucedera desde que a palavra aliciadora de Evandro se fizera escutar.
Apenas um eco dessas questões ia atingir o seu refúgio calmo e estudioso.
Preparavam-no, como o filho mais velho, para prolongar uma tradição de família que vinha de mais de dois séculos. A sua asseveração a Heliodoro em viagem só traduzia sinceridade: era filho de vinhateiro, ia-se tornar com o tempo vinhateiro também. Não que isso pudesse satisfazer um ideal de vida. Mas, em suma, qual era o ideal da sua vida?
Até aquele momento nenhum.
Talvez algumas veleidades literárias: ir a Roma, ler um trabalho em público...
Mal se reconhecia agora, quando começava a se sentir impregnado dum desejo sim, dum desejo de compreensão. Seria, isso, obra desse solo da Grécia - a eterna nutriz do pensamento humano?... E esse desejo estaria destinado a durar? Na realidade, nunca se sentira atraído por uma ideia. Muito menos julgara uma ideia capaz de orientar e absorver a vida dum homem...
Começara a aprender grego quando se dera conta que a língua materna - o latim - era também objeto de estudo. Quer dizer: desde a infância. É o que faz todo o mundo (ou o seu mundo). Sempre falou a língua, mesmo em casa, - pois ainda lá está o velho escravo Asiata, o mestre que lha ensinou.
Leu e releu os autores Helênicos, antigos e modernos. Enfrentou problemas e experimentou as suas sensações ao resolvê-los. Problemas!... Tem agora até pejo em rememorar isso. Eram interpretações mais ou menos sutis, mais ou menos artificiosas dum Eufórium de Calcide, dum Licófron de Eubéia - ou desse Calímaco de Cirena, poeta que enfeitiçou tantos jovens da sua geração e de gerações passadas, a começar com Ovídio.
Orfeu!... Pensa que ninguém do seu tempo, nem mesmo na Grécia, tenha meditado mais sobre esse maravilhoso mito do que ele. - A propósito: há de arranjar de tal modo o itinerário de volta à sua terra, que possa passar por Elêusis.
Problemas, são esses que agora estão aí. Problemas de Pensamento. Mais ainda: problemas de ação. Será que, tendo-se revelado sempre um escravo do ábaco e dos livros, agasalha mesmo um desejo real de desprender-se das suas tendências puramente especulativas e enfrentar semelhantes questões? Será mesmo?...
Por que não? Elas não deixam de ser uma forma de estudo. Apenas dum gênero mais atual - mais ativo. Não duvida que a viagem, tirando-o das suas comodidades e colocando-o em face de situações práticas, lhe tenha preparado o caminho para isso. - Seu pai haveria de dizer, com o sorriso complacente, que era o velho sangue da sua estirpe - sangue de colonos, guerreiros, políticos - que acabava por ferver e vir à tona, como acontecia com o mosto que fermentava lá nas suas cubas...
Mas a verdade - melancólica verdade - é que o seu passado, desde agora, começa a lhe aparecer vazio e sem interesse. Sente, embora confusamente ainda, que um outro caminho se abre à sua frente, - e que não é precisamente o mesmo caminho fácil que conduz dos seus vinhedos à cidade ou ao embarcadouro do Pado...
Corre, mesmo, o risco de enveredar por essa via?
Não vai negar a si que não tenha uma tal receio. Já não se vê mais voltando tranquilamente para casa, para aqueles seus livros que já nada mais lhe dizem, ou lhe dizem muito pouco. Isso é horrível sim, porque será a separação, - quase um repúdio. - De resto, o herdeiro real das tradições da casa comercial é Lúcio Coriolano, o noivo da irmã. Já mesmo agora, ele se mete em tudo, entusiasmado, feliz.
Não pôde ocultar o seu entusiasmo por Evandro e por aquela sua tese, que parecia brotar espontaneamente, como obra dos próprios fatos que ele invocava.
Heliodoro bem que o notou: viu-o num ou outro olhar furtivo do Grego.
E Evandro o notou também. Mas o que Evandro não foi capaz de apreender foi o sentido desse entusiasmo.
As suas palavras despertaram um sentimento que vinha lentamente crescendo dentro dele: a revolta contra um estado social que admite a ideia monstruosa de que a força possa transformar o homem numa simples cousa (ou num corpo, como quiserem) - objeto de opróbrio, de vexames, de tráfico. A raiva que lhe inspiravam esses mercadores de escravos que acompanham a retaguarda dos exércitos, e que, tão pronto termina a batalha, correm sôfregos, para ali mesmo fechar o negócio, faz a sua colheita entre os prisioneiros de guerra.
Comprometeu-se de algum modo? É possível. Deixou-se levar pela imaginação. Ouvindo Evandro, viu o problema sair dos livros, das tiradas puramente oratórias, para ganhar a rua...
Afinal, não está arrependido. Será que ele é menos corajoso que os sofistas, - que entretanto não têm medo de proclamar que não é a natureza e sim o homem que, pela força, faz escravos? Fosse ele livre, gozasse duma situação independente, e Heliodoro e todas essas naturezas timoratas - pudibundas - haveriam de ver até onde o poderia levar o seu entusiasmo...
Não é de hoje que sonha com uma situação independente. Claro que não é com vistas à... luta ue pensa numa cousa dessas. (E Sílvio sorri à ideia.) É, simplesmente, para encher uma vida - a sua vida. Nos seus devaneios literários, via-se em Roma lendo um trabalho em público, depois deixando-se ficar por lá, abrindo-se uma carreira da sua escolha... Não teria chegado o momento de dar esse passo? - Que é, afinal, que o retém? O pudor? A vergonha de cair naquela fatalidade: ir para Roma, ganhar a sua vida em Roma?...
Quantas vezes já não debateu esse projeto consigo mesmo!
Em Roma, lecionaria gramática. Esquisito, sim. Mas o Império, de alguma maneira, não nobilitou a profissão? Quem é hoje que não sabe que já não são mais apenas os escravos e os libertos que se encarregam do ensino em Roma?
Ainda não se paga bem o professor, embora um que outro caso tenham fugido à regra e hajam dado oportunidade a comentários, - os comentários dessas rodas de província onde se discute o ganho de cada um, os prejuízos de dinheiro, os triunfos fáceis ou miraculosos.
Foi o caso de Vérrio Flaco, sob o reinado de Augusto.
Não fazia muito mesmo, seu pai, a propósito duma transação de terras, viera a saber que estava metido no negócio um capitalista de Roma: Epafrodita de Queronéia, que exerce o magistério ali. Um professor, um simples professor, interessado num negócio daquele vulto?... - O caso muito dera que pensar ao velho...
Não vai já ir saindo dali de Tessalônica para enveredar nesse caminho. Mas que é um caminho, não cabe dúvida. Talvez mesmo seu único caminho... E então poderá proclamar bem alto as ideias do sofista Evandro. Não é em vão que lhe chamam sofista... Não é, não. E ele só poderá se engrandecer com o título.
Ajudado por Demétrio, Sílvio tomou o seu banho. Fez-se esfregar fortemente o corpo com o estrígil, para reanimar os seus músculos, um tanto fatigados com aquele ir e vir na ágora, de manhã. Terminava a sua toalete, em que o Ilírico fizera às vezes de tônsor, quando um fâmulo veio aos seus aposentos anunciar-lhe que uma pessoa o esperava no vestíbulo. Evandro!
Ele desce a toda pressa. Ao chegar em baixo, experimenta uma sensação de violenta surpresa, que o faz estacar: com os seus olhos lânguidos, traduzindo ao mesmo tempo uma expressão de abandono, de meiguice e de volúpia casta, está ali a fitá-lo a jovem do manto púrpura-escuro...
- Eu venho, Lúcio Sílvio, da parte de Evandro - diz ela, num grego em que não se percebe o menor sotaque - para te conduzir à presença de Jair.
E como Sílvio revele a sua estranheza, ela esclarece:
- Eu sou irmã do Terapeuta.
Como resposta à informação, e resposta inadequada, como ele próprio reconhece, o rapaz sorri, mais deliciado agora do que surpreso com aquela coincidência. Fita-a mais longamente. Assim de perto e à luz difusa do vestíbulo, a sua beleza frágil tem um encanto maior, porque se revela - quase que se oferece - no seu conjunto: a beleza das mãos, a beleza da pele muito branca, a beleza dos cabelos. - E ainda por cima aquela pequena voz, tão clara, tão nítida, e que não obstante parece se formar, não numa garganta humana, mas numa fonte misteriosa e deliciosa, e nascer por si e viver por si, independentemente...
- Estou às tuas ordens. Como te chamas?
- Tarsita.
- Vamos então, Tarsita.
Saem. Na rua, os transeuntes, com uma expressão de jovialidade colhedora na face, deitam um leve olhar para eles. Sílvio também caminha sob um sentimento que não sabe perceber bem, mas que parece ser alegria, prazer. Começa a falar. Fala sobre Evandro. Diz do interesse que tem em fazer conhecimento com Jair, o seu irmão.
- Ele está doente.
- Doente? O que é que ele tem?
A moça explica que Jair vem apresentando nesses últimos dias um mal de garganta.
- E o que diz o médico?
- Não se chamou médico...
Sílvio repara na sua indumentária.
Ela está pobremente vestida mesmo. Aquele manto - uma peça de ornato - embora bem tratado, revela um antigo uso, como ele já observara de manhã. Talvez viesse vindo de mãe a filha, durante algumas gerações. Evidentemente eram pessoas de poucos recursos. Aliás, não se podia esperar mesmo outra cousa de um asceta.
- Onde é que fica a vossa casa, Tarsita? - pergunta Sílvio, decorridos alguns instantes.
- Na via que conduz a Bereia. Quase nas saídas da cidade.
Continuam.
O tempo cada vez se faz mais ameaçador. De quando em quando, um pé de vento levanta a poeira do chão e vai-se perder no primeiro cruzamento de ruas.
Sílvio está trajado como de manhã quando fora à ágora: com a toga romana. Olhando para o céu fechado e cor de chumbo, lamenta não haver envergado a sua pênula.
Deve ser longe a casa deles. A chuva talvez os colha em pleno caminho.
Faz-lhe perguntas. E fica sabendo que eles eram de Alexandria. Ela costuma vir às vezes a Tessalônica: a mãe mora aí. Dessa vez Jair se dispusera finalmente a atender uma exigência da mãe, que estava velha, pressentia que ia morrer e desejava ver o filho pela última vez. Chegara há pouco.
Jair, continua Tarsita, não tinha muitas oportunidades de abandonar o deserto e o seu mistério ou semneu. Além disso, estava preso por um voto.
- Evandro me disse - prossegue a moça depois de algum tempo - que tu és da Itália, do centro mesmo do Império.
Sílvio sorri:
- A minha gente - explica - é uma antiga família Romana. Mas, eu, sou um pouco Bárbaro. Nascia na Gália... E tu?
- Eu sou filha mesmo de Alexandria.
Sílvio fala um pouco de si. Revela-lhe que é a primeira vez que empreende uma longa viagem. Faz quatro meses que deixou a sua casa. Conta-lhe alguma cousa dos países que percorreu, das florestas, do risos, das montanhas que atravessou. Durante a narrativa ela não lhe tira da face, a não ser para os depor em movimentos curtos sobre o caminho que seguem, aqueles olhos que se abandonam num langor casto e terno.
Sílvio conta também que já está preparando a sua volta e que a sua demora em Tessalônica não poderá ser senão de uns poucos dias mais. Alude ao seu desejo de conhecer Alexandria, uma cidade que faz honra ao Império e ao mundo.
- Alexandria é um lugar horrível - exclama Tarsita, desviando os olhos - Horrível! É preciso ver como vivem os pobres naquele centro da riqueza e do prazer.
Uma experiência pessoal?... Ele se sente inclinado a enternecer-se com tudo que emana dela: a sua fragilidade, mesmo a sua beleza um tanto infantil, - indefesa. Procura a sua mão debaixo do manto púrpura-escuro e aperta-a, num movimento de solidariedade afetiva. Ela deixa a própria mão dentro da dele um momento, depois retira-a.
- Temos de dobrar aqui - diz.
Um leve tremor e a sensação de uma onda ria tomam o corpo de Sílvio. Ele tem bastante discernimento para perceber que isso é a emoção. Mas uma emoção dum gênero novo...
Seguem calados durante muito tempo.
Entram num bairro populoso, já um tanto afastado do centro. Crianças do povo brincam na rua. De vez em quando passam por eles figuras austeras, que trazem nos quatro ângulos do manto, como sinal de devoção, umas franjas da cor do jacinto. Rabinos, com toda a certeza.
Estão no bairro judeu. Sobre um espécie de largo, onde desembocam três ruas, à maneira romana, ergue-se a sinagoga, - voltada para o Oriente e para Jerusalém.
Algumas pessoas pasmam para ele, ao ver um homem togado. Tarsita amiudara o passo. Eles pendem para o sul. Para além do casario e de grandes filas de álamos, que parecem margear estradas ou arroios, entrevê-se o Golfo Termaico, com as suas águas escurecidas, prenunciando tempestade.
Entram numa rua estreita e movimentada, onde a influência romana se faz sentir na disposição das grandes casas de apartamentos, destinados a alojar toda uma população pobre e tumultuária.
Chegam finalmente diante dum sobrado, cujos andares parecem ter sido superpostos sucessivamente, à medida das necessidades. O edifício, em sua totalidade, está traindo uma construção ocasional, feita às pressas para proporcionar um lucro imediato. - Quase todo o pavimento térreo é ocupado por tabernas e lojas.
Os primeiros pingos grossos e pesados da chuva começam a cair, erguendo da poeira da rua um cheiro acre de terra molhada e marcando as calçadas com nódoas de umidades, redondas e pardacentas, como se um deus perdulário estivesse a espalhar no chão grandes moedas silenciosas de bronze.
Entra-se por uma porta lateral.
Tarsita na frente, com um movimento elástico dos joelhos a denunciar o hábito da marcha desses povos andadores do Egito, eles põem-se a subir os degraus de pedra duma escada quase escura. Em cima, no patamar, há duas portas, inteiriças e recobertas duma pintura grossa, como feita de várias mãos de tinta, que tivessem sido depositadas em épocas diferentes. A moça empurra a folha, apenas encostada, duma delas. Faz Sílvio passar, e segue-o.
Numa espécie de ante-sala, para a qual abre diretamente a porta por onde acabam de entrar, dão com um homem alto, que parece vir ao seu encontro: é Evandro. Tarsita some para o interior da casa. Ficam ali só os dois.
- Jair não está bem. Vê-se na sua cara, apesar do que possam revelar as suas palavras. Está com febre - anuncia Evandro.
- Garganta, disse-me a irmã. Por que não chamam um médico?
Evandro tem um gesto contemporizador. E observa:
- Ele se opõe. Acha que isso passa.
- E a família? que é que pensa?
- A família faz o que ele quer. Ele tem muita autoridade.
Sílvio faz sentir a Evandro a inoportunidade da sua visita naquele momento. Talvez convenha retirar-se.
- Não. Ele está à tua espera.
E, depois de uma breve reflexão:
- Vamos passar - convida.
O Terapeuta aguarda-os numa pequena peça. Está sentado sobre um leito de alvenaria preso à parede e recoberto de palha. Veste, sobre a túnica, um saio de pano grosseiro feito de pelos de cabra da Cilícia, - talvez porque esteja experimentando esses calafrios que costumam acompanhar as febres.
Mesmo naquela posição, percebe-se que é um homem muito alto. Mas excessivamente magro também. Usa barba comprida. Preta. Sobre ela já correm alguns fios alvos, duma canície precoce, - pois não deve ter sequer quarenta anos.
Quando os visitantes entram na peça, seu olhar agudo, que adoça porém um leve delíquio da doença, abraça num relance toda a pessoa de Sílvio. Evandro adianta-se e faz a apresentação:
- Sílvio, é este o meu amigo Jair ben Jared, que, na qualidade de pró-edros, com assento pois no primeiro lugar, dirige os trabalhos da assembleia no grande Semneu ou Mistério Comum dos Terapeutas, no deserto. Isolam-se em células - um gênero de vida que os Essênios inventaram. Espero que tires do conhecimento dum homem que é um sábio e um justo, todo o prazer e satisfação que a sua amizade já me proporcionou.
Completa o ritual da pragmática, declinando os qualificativos do visitante.
- Que a paz do Senhor seja contigo - diz o Terapeuta dirigindo-se a Sílvio e erguendo levemente a mão direita num gesto maquinal de quem ministra uma bênção.
- Ave - responde o Romano.
Tarsita entra nesse momento, trazendo assentos para os visitantes. São cadeiras portáteis, de dobrar. Eles se acomodam.
- É muito de lamentar que me venhais encontrar preso ao grabato da doença - lastima Jair ben Jared - impossibilitado de render os deveres da hospitalidade na altura da honra que me concedeis vindo até aqui.
Sílvio, com maneiras delicadas e polidas, faz votos para que o seu mal não passe duma leve indisposição, - dessa que sobrevêm quando o calor excessivo parece condensar os miasmas do ar e torná-los mais ativos.
- Confio em Deus que seja exatamente como tu dizes - replica o Terapeuta.
A doença assaltara-o na ocasião em que já se preparava para voltar, informa ele. Sua maior preocupação nesse momento eram as reuniões da comunidade, que deixara nas mãos dum imediato. Não faltavam a este a fé, a morigeração e o discernimento, qualidades essenciais, em ajudando Deus e possuindo boa voz, para o desempenho dos seus deveres presidenciais, - de próedros substituto. Mas, quão grande é a responsabilidade de presidir a uma missa terapeuta! Ali na sua palhaça, padecia menos com a doença do que com a ideia das atribulações que, por culpa sua, não estaria sofrendo esse companheiro dileto, abandonado de todo auxílio.
- Tu não tens culpa de estares doente - observa Evandro.
Jair esboça um leve sorriso de bonomia:
- Às vezes penso - acrescenta - que a minha doença não passa de uma forma de ociosidade. Ainda hei de me penitenciar disso...
Os dois amigos sorriem também, associando-se a essa expansão de afabilidade, que cria uma atmosfera discretamente mundana na cela do anacoreta.
Jair, como diz em seguida, não se pode queixar. Recebera de Deus uma saúde inalterável. Em todos esses anos de deserto e de clausura não sofrera uma dor. É exato que fizera do pão temperado com sal a base da sua alimentação. Raramente acrescentava o hissopo. Atribuía porém o bem-estar físico de que desfrutava, sobretudo ao clima altamente saudável do Egito. Só por essa razão - acredita - o Egito estaria fadado a ser, no futuro, um lugar de abrigo de solitários.
- Foi agora que comecei a me sentir doente.
O seu mal tivera o seu início já em viagem, como informou: umas leves picadas na garganta, certa dificuldade na deglutição.
- Será que tu não vinhas exigindo demais da tua garganta? - pergunta Evandro. - Eu sei que vocês cantam antífonas...
- Não. Não fiz nenhum esforço a mais - responde. - Mas isso há de passar - remata o Terapeuta, mostrando outra vez esse sorriso fino, que traduz os hábitos delicados que se contraem no trato com os outros homens.
- Estás fazendo algum tratamento? - quer saber Sílvio.
- Aplicações de água quente.
Evandro aprova com um gesto de cabeça.
O Terapeuta olha pensativamente para as mãos longas, descarnadas. Depois ergue os olhos e prossegue:
- Nós somos um pouco médicos, talvez saibam. É uma necessidade da vida reclusa. Eu aplico em mim mesmo alguns dos preceitos de Hipócrates. Eu também creio que a supuração provém do ar, sobretudo do ar seco. O melhor critério parece consistir em combatê-la com o seu contrário. Aliás, essas aplicações úmidas têm-me feito bem.
- Sempre fazem bem - concorda Evandro.
- Não seria demais entretanto ouvir a opinião dum profissional - poder Sílvio.
- De fato - reforça Evandro.
- Até agora eu tenho me oposto a isso - replica Jair, num tom brando, cortês.
Olha para a irmã, que, desde que trouxera as cadeiras para os visitantes, ficara ali, de pé, sem dizer uma palavra.
- Elas têm insistido em que eu consulte um médico. Mas a verdade é que, se não estou melhor, não estou pior também.
- O que é exato é que hoje já te apareceu a febre - observa Evandro.
- Realmente. E me sinto também um pouco deprimido. É o processo da cocção que se estabelece. Aliás, a doença, pelos meus cálculos, está num dos seus períodos críticos. Depois desses sintomas, em aparência alarmantes, vem a cura.
- Eu também li alguns dos trabalhos de Hipócrates. Todo filósofo - reconhece Evandro - deve fazê-lo. Aristóteles foi a ponto de tomar-lhe muitos dos seus ensinamentos científicos. Segundo Hipócrates, um extremo cuidado deve a companhar a observação clínica, afim de que possam ser distinguidos em qualquer moléstia os bons dos maus sintomas, sobretudo quando ela toca ao seu fim. Ora, isso só um profissional o pode fazer.
- Talvez tu tenhas razão - concorda Jair. - Vamos porém esperar até amanhã.
- Mas, se tu estás resolvido a consultar - objeta Sílvio - por que não o fazes agora? EU mesmo iria trazer-te um médico.
A dizer isso, ergue os olhos para a moça, que, a face imóvel, aparentemente tranquila, fitava-o não obstante duma forma fixa, intensa, penetrante.
- Tu deves aceitar, Jair ben Jared, a sugestão de Lúcio Sílvio - diz Evandro. - Não esqueças - acrescenta com um sorriso aliciador - que a sabedoria às vezes fala pela boca dos moços...
Jair faz um gesto vago.
Uma chuva tropical, tumultuosa, enche o ar dum barulho claro, sonoro, a que não falta alegria. Vozes, excitadas, de crianças ouvem-se ali por perto, provavelmente vindas das outras moradias dessa habitação coletiva.
Jair procura com o olhar o pequeno retângulo cinzento da janela que ilumina o quarto. O horizonte aproximara-se até a linha da casa. Ficara substituído por essa muralha de água que os parece fechar e isolar.
- Com um tempo desses - diz finalmente - eu não quero incomodar ninguém.
- Mas isso vai passar - retruca Sílvio. - É uma chuva de verão.
O Terapeuta retira vagarosamente os olhos da janela. E, sem olhar para nenhum deles em particular, mas fitando um ponto vago no espaço, diz tranquilamente:
- Como fiz um voto de renúncia de todos os bens terrestres e considero o nosso corpo um túmulo, donde a alma há de um dia se libertar para a bem-aventurança e para a verdadeira vida, vós haveis de julgar que eu desprezo os benefícios da saúde. Engano. Só aqueles que, por um trabalho de meditação e de purificação incessantes, conseguiram redimir-se de todas as suas faltas - e são poucos - podem pensar assim. Um tal pensamento em mim seria a expressão duma vaidade e dum orgulho de que a minha alma, mercê de Deus e da Filosofia, tem estado até agora isenta. A minha saúde e a vida de penitência e de contemplação espiritual que ela me proporciona, constituem um mal necessário, cujo usufruto entretanto eu agradeço ao Senhor como mais uma prova da sua infinita misericórdia. Não acrediteis que eu tenha sufocado já todos esses movimentos da alma que nos ligam aos homens, sentimentos violentos como o ódio e as paixões, que só servem para nos perder, tanto como o amor, que todavia é suave e doce. Não estou ainda suficientemente identificado com o deserto, visto que não trago dentro da alma todo o deserto e solidão que desejava. Ainda me sinto muito humano, - e isso é maior prova da minha indignidade perante Deus. - Podes trazer o médico, Lúcio Sílvio, se é isso o que te apraz.
Como era previsto, a chuva momentos depois começa a amainar. A pequena janela muda também de cor e já um azul, embora desmaiado, onde passam grande nuvens esfarrapadas, vai-se engastando sobre ela, que surge pouco a pouco como um pequeno retábulo dependurado da parede.
Sílvio ergue-se para sair.
- Eu vou contigo - diz Evandro, levantando-se também.
Virando-se para o dono da casa acrescenta:
- Eu volto à noite.
Despedem-se. Tarsita acompanha-os até o patamar. Quando já na rua, Sílvio, meio detendo-se, interpela o amigo:
- Esse homem céptico vive todavia na esperança duma grande cousa que há de vir e que desde já o enche duma felicidade egoística, onde, só por isso, se está sentindo o toque dum deus. Que cousa é essa que ele espera com uma satisfação tão impaciente?
- O fim do mundo.
- Você está satirizando...
- Não, é um fato - diz Evandro numa voz grave. - Naturalmente, antes deverá vir o messias. É uma espécie de Rei-salvador da nação judaica. A vinda do Messias deverá ser anunciada por sinais certos. E esses já começam a manifestar-se. Aproxima-se pois a crise. O mundo findará, o Rei-Messias julgará do seu trono uma humanidade que provavelmente estará toda morta, tantas serão as calamidades que desabarão sobre a terra como preparação para a era messiânica. Os bons, os piedosos, os justos serão recompensados com a vida eterna num paraíso de delícias, - uma espécie de jardim oriental. Os maus e os perversos, os ateus, os idólatras, os concupiscentes de todo gênero serão jogados às chamas dum Hades, que eles conceberam à maneira babilônica ao que parece e onde as vítimas suportarão tormentos também eternos. Enfim, um lugar horrível, fruto naturalmente das ideias pessimistas que Hebreus adquiriram no cativeiro. Jair tem esperança de candidatar-se ao paraíso diante da vida de austeridade que leva, toda dedicada à adoração de Deus e à estrita observância da sua Regra. É isso que explica a sua doçura, a sua santidade e esse egoísmo dos eleitos que tu tão bem notaste. Depois falaremos mais descansadamente sobre essas cousas, aliás muito importantes. - A chuva não demora.
Crisócero, o médico, ouve, sem interromper, a prolixa explicação que Evandro e Sílvio lhe dão sobre o caso. Depois, quando eles acabam, informa-se sobre algumas particularidades. Reflete um momento. Os dois amigos põem-lhe na face tranquila e levemente triste um olhar atento, de expectativa.
- Talvez fosse melhor baixá-lo ao hospital - diz o médico por fim.
- Ele vai se opor - observa vivamente Evandro.
Crisócero tem um gesto de decepção pacífica, resignada.
- Você não pode vê-lo então em casa? - pergunta-lhe Evandro.
- Posso naturalmente. Não agora! Ainda não terminei a consulta. Mas seria melhor para ele baixar ao hospital.
Eles possuem um bom iatreu, como esclarece o médico, onde o doente receberá uma assistência correta: alojamentos com um sistema de ventilação e iluminação conforme a técnica, água para beber duma pureza irrepreensível.
- São detalhes que talvez vos pareçam supérfluos. Mas a experiência mostra que o vento e o sol fatigam os olhos dos doentes febris, como também o ar confinado e uma luz insuficiente concorrem para entreter a supuração.
Detém-se um momento. Em seguida acrescenta:
- Depois, no mínimo, talvez se tenha de pratica uma cauterização.
Pára mais uma vez. Os amigos escutam sem fazer objeção. Crisócero então remata:
- Além disso, convém isolar o paciente.
- O que é que você está pensando do caso? - pergunta Evandro. - Acha que tem gravidade?
Crisócero não responde. Dirige-se a um canto do gabinete de consulta onde há um pequeno armário, um plúteo para livros, como reconhece Sílvio. Abre-o. Vários rolos de pergaminho acham-se aí, cuidadosamente metidos nos cofres cilíndricos. Procura um deles. Depois, enquanto o desenrola com vagar, vem-se aproximando dos amigos.
- Isto é um trabalho de Areteu. Neste volume ele trata de algumas moléstias agudas - diz, passando os olhos no manuscrito. - Areteu isolou uma forma clínica das doenças de garganta que toma geralmente um caráter epidêmico e altamente mortífero. Já tive alguns casos que confirmam a observação. São casos muito interessantes. Areteu possui uma vasta experiência. É já um grande mestre, aos seus trinta e poucos anos!
Evandro quer saber:
- O que é, Crisócero, que tu estás supondo que tem Jair ben Jared?
- A úlcera siríaca.
Faz-se um silêncio apreensivo. Sílvio depois, voltando-se para Evandro:
- É grave?
- É a morte.
- Bem. Não podemos estar levantando hipóteses antes de examinar o doente. E nem todos os meus casos de úlcera siríaca morreram. A remoção mecânica das placas que se formam na garganta, aliada a um tratamento propriamente medicamentoso, pode conduzir a um êxito favorável. Às vezes entretanto a esquinência acarreta sufocação.
- Ele não se queixa de falta de ar - interrompe Evandro. - Só dor e dificuldade na deglutição.
- Isso é um bom sinal - comenta Crisócero, que ouviu a informação de Evandro com agudo interesse. - Em muitos casos porém é necessário introduzir um cateter, para dilatar a garganta e possibilitar a passagem do ar. É uma operação delicada, que só se poderá praticar com êxito numa casa de saúde, - num iatreu.
Os dois amigos ficam um instante calados, considerando a sugestão do clínico. Depois, Evandro indaga:
- A úlcera siríaca pode acometer também os adultos?
- Pode.
Crisócero parece ter mais alguma cousa a acrescentar. Mas nada diz na ocasião. Começa a enrolar o trabalho de Areteu. Dirige-se à pequena estante sobre o canto do consultório. Guarda-o cuidadosamente. Volta. Os amigos seguem-lhe os movimentos. Ele então acrescenta:
- Naturalmente, essa doença é mais frequente nas crianças. Mas, ainda há pouco eu tive um caso de esquinência maligna num homem, num marinheiro. Tripulante dum navio alexandrino. Dessas embarcações que vêm tocando em todos os portos da costa da Ásia, em todas as ilhas. Esse caso esteve sempre presente em meu espírito enquanto eu acompanhava a vossa anamnese sobre a doença do Terapeuta. Ele também acaba de atravessar essas regiões marítimas, assoladas no verão pelos ventos miasmáticos que se formam nos desertos da Arábia, provavelmente mais longe, sobre o o próprio Mar Indiano. Entretanto é cedo para dizer qualquer cousa de positivo.
- Tu então vai s vê-lo, Crisócero? - pergunta Sílvio.
- Sim.
- Quando?
- Logo à noite. Mas, me digam como é que se vai até lá.
Evandro começa a explicar. Segue-se pela via de Bereia, atinge-se o bairro judeu. Aí, logo após o largo das três ruas, onde se ergue a sinagoga, é necessário pender para a esquerda, na direção do mar.
- Sabe onde fica a sinagoga?
- Não. Mas conheço o largo.
- Não seria mais fácil eu passar por aqui para acompanhá-lo? - sugere Sílvio.
- Também.
Combina-se então que, depois da ceia de Sílvio, Crisócero esperará o rapaz, pronto para ir ver o doente.
- Que horas serão? - indaga o médico, relanceando o olhar em torno num movimento automático, à procura do relógio hidráulico.
É Sílvio que responde:
- Já é tarde. Já deve ir quase em meio a hora duodécima.
- E ainda não ceou?!...
Crisócero reflete rapidamente.
- Pois muito bem. Eu o espero depois da sua ceia.
Sílvio quer saber se ali mesmo no consultório ou em casa.
- Ah! eu quero mostrar uma cousa para vocês - diz Crisócero. - Muito às pressas, naturalmente, porque eu ainda tenho trabalho: não terminei a consulta. Mas venham ver. Venham comigo.
E arrasta os visitantes para mostrar-lhes as suas instalações.
Crisócero montara uma verdadeira clínica, - um iatreu em miniatura.
- Mas só para cirurgia - adverte.
- Você está então fazendo só a especialidade? - indaga Evandro.
- Aqui, sim. Mas continuo atendendo em domicílio, - clinicando. Aliás - observa depois de um momento - a medicina encaminha-se para a especialização. Seu futuro depende disso. Dentro mesmo da cirurgia, com o tempo pretendo restringir-me apenas às doenças de olhos, ouvidos. Talvez também nariz e garganta. Mas mais tarde.
Pára. Cala-se. A seguir porém acrescenta:
- Quando estiver velho e retirado das ocupações imediatas da profissão, vou dedicar-me ao estudo das doenças mentais. Já se conseguem grandes resultados terapêuticos nesse ramo tão importante da medicina.
- Com o heléboro? - pergunta Sílvio, num movimento um tanto vivo.
Crisócero sorri. Displicentemente. Sim, concorda afinal: o heléboro continua a ser empregado em certos casos, com outras drogas. Mas a verdade é que, como médico, muito pouco recorre a essas fórmulas complicadas.
- Aos antídotos dos deuses - como acrescenta, ainda com o mesmo sorriso de cepticismo.
A medicação mais adequada, por exemplo, para os casos de mania aguda é o ópio.
- É preciso ver como o ópio, nas mãos experimentadas dum Heraclides de Tarento por exemplo, opera milagres. Mas não só o ópio: o vinho também.
- O vinho? - pergunta Sílvio.
- Creio que vocês já empregam o vinho de longa data em terapêutica - faz Evandro, dirigindo-se a Crisócero. - Pelo menos tenho lido...
Sim. Mesmo como medicação externa - nas compressas. Mas, como acentua, fora Cleofanto, o mestre de Asclepíades, quem na realidade havia introduzido o vinho na terapêutica. Entretanto, coubera ao discípulo a glória maior: a de havê-lo empregado, com sucesso, no tratamento das doenças mentais.
Faz uma breve pausa. Depois observa que, segundo o seu modo de pensar, ainda é preciso voltar atrás, muito atrás: às ideias mesmas do divino Hipócrates. E, na observação clínica, na autopsia empírica de doenças tais como a mania, a histeria, o próprio delírio febril, deve o médico dar maior importância a um outro fator, - a um elemento imponderável, mágico mesmo se quiserem, mas não menos científico e valioso entretanto.
- Qual?
- A interpretação dos sonhos.
Tendo feito essa observação, no meio do silêncio meditativo dos dois amigos, Crisócero vai-lhes mostrar a casa.
Além do gabinete de consulta em que tinham estado, ainda havia uma sala de operações, quartos para hospitalizar os doentes destinados a intervenções cirúrgicas, laboratório e farmácia, bem como a moradia do médico e de sua família e os alojamentos para a sua equipe técnica: seus auxiliares e escravos adstritos ao serviço da clínica.
- Perfeito - reconhece Evandro com satisfação.
- Mas não é mesmo? - faz Crisócero, numa vaidade simples, desculpável, simpática.
- Creio que nem em Roma há cousa parecida. - comenta Sílvio.
- Não há, não. Os Romanos não têm medicina. E nem parecem precisar dela. Pelo menos é o que declara peremptoriamente Catão.
Diante do silêncio com que é recebida a sua observação, sobretudo o silêncio do Romano, Crisócero apressa-se em desculpar-se:
- Não pense que quis ofendê-lo.
- Tu disseste uma verdade.
- Sim: estou apenas constatando um fato. É que o gênio romano tomou uma outra direção. Mas hoje a situação do médico em Roma melhorou: a medicina lá deixou de ser, graças ao regime imperial, uma ocupação de libertos e de escravos. Sei até que já há estabelecimentos hospitalares na cidade: as tabernas médicas. E os teus compatriotas recebem muito bem essas inovações exóticas - acrescenta Crisócero com um sorriso de amabilidade irônica: - porque os meus colegas que vão daqui para a capital do Império fazem fortuna logo. Ou é então que, ao contrário do que constatara Catão e que eu acreditava piamente, os Romanos, deram agora para adoecer...
Todos sorriem.
- Bem: então depois da ceia desse moço - diz Crisócero ao levar os visitantes até a porta da rua. - Espero-te pois aqui, Lúcio Sílvio.
- Combinado.
Despedem-se.
- Sujeito simpático, esse Crisócero - comenta Sílvio para Evandro na rua.
- Muito bom médico. Inteligente, estudioso. Viajado. Deve estar rico. O seu iatreu particular está instalado até com certo luxo.
Evandro faz uma pausa nessa breve enumeração dos predicados do amigo e do seu aparelhamento profissional e prossegue, na sua maneira filosófica:
- Eu tenho uma enorme inclinação por essa classe média, essa classe de capitalistas que surge do artesanato. Crisócero formou a sua escola, os seus auxiliares. Muitos eram antigos escravos. Ele mesmo se encarregou de obter-lhes o título cívico - o que agora é cousa fácil na Grécia - depois de lhes haver dado a emancipação. Proporcionou-lhes independência econômica e liberdade profissional.
Cala-se um momento, para continuar depois:
- Se tu te lembras bem da nossa conversa desta manhã, tu sabe que a revolução vai começar por aí Eu não tenho maior simpatia pelos pobres do que pelos ricos: são todos seres humanos. Mas os pobres são em maior número: é justo que dominem. Além disso, se a sociedade não lhes abrir uma perspectiva econômica, eles vão todos acabar no deserto, como o nosso Terapeuta. Será na realidade o fim do mundo, - isso que agora apenas existe na imaginação delirante de certas seitas orientais. Nós temos o dever de estudar o problema e resolvê-lo. A alternativa já se está oferecendo ao pletos - às grandes massas: ou o direito de gozar, em pé de igualdade com os ricos, os bens deste mundo, ou então desprezá-los corajosamente pelos bens mais acessíveis do outro. Infelizmente todos esses Jaíres, todos esses Profetas, todos esses iluminados fogem da luta direta e procuram resolver a questão contornando-a e desnaturando-a. Começam por iludir-se a si mesmos, adotando a Renúncia como objetivo social. O objetivo social e humano é a posse das comodidades terrestres. Atacar pela força os ricos, assaltar-lhes os depósitos - tudo isso já foi tentado mas em vão, porque o Estado, com a polícia e a religião, monta guarda na defesa dos interesses da classe. Não nego as virtudes a insurreição: mas no momento ela não é viável. Fui acusado de pregar a oclocracia. Tu conheces o termo, introduzido por Políbio: - o governo da populaça, uma forma extremista da democracia. Talvez no fundo eu seja mesmo pela oclocracia, mas não vejo como inaugurá-la. Só resta pois um caminho: organizar. Organizar o proletariado. Tarefa pacífica. Mas revolucionária. E que esses condutores de massas, do tipo dos chefes religiosos, não querem ver. Criminosamente, eles estão fazendo o jogo dos latifundiários, porque desviam os pobres da verdadeira luta. Que é que tu achas?
- Acho que alguma cousa é preciso fazer. Nesse ponto estou contigo. E me rejubilo com isso.
- Obrigado. O momento parecia azado para um movimento dessa ordem: o undo civilizado estava atravessando um dos seus períodos de descrença, de irreligião, de ateísmo mesmo. Não te iludas com a credulidade popular. Ela é fruto apenas da miséria. A melhor prova é que os abastados não têm fé em cousa nenhuma. Orientar as aspirações das massas para um objetivo realístico parecia cousa fácil. Antigamente, o proprietário de terras erigia nos confins do seu domínio um marco divino - o deus Termo - e esse ídolo era o suficiente para deter a cobiça alheia, para impedir que o outro homem viesse disputar com ele a posse dessa terra, sob pena de cometer um sacrilégio e ser magicamente punido por tal. Hoje, ninguém teme o deus que protege as fronteiras dominiais: teme a polícia, que se substituiu à divindade na repressão desses atentados. O povo estava maduro para encarar concretamente o seu problema fundamental. Foi infelizmente quando a conquista operada pelo binômio Roma-Grécia sobre os povos bárbaros do Oriente imprimiu um rumo inteiramente imprevisível aos acontecimentos: em contato com a mentalidade escrava dessas populações, seviciadas milenariamente pelos governos de déspotas, degradadas por anos de cativeiro em terras inimigas, em contato, dizia, com essa gente desfibrada para a luta mas imaginosa, o nosso povo também se lançou numa solução mágica, que surgira lentamente na mentalidade mística do Oriente como uma decorrência da sua incapacidade social. Eu já não reconheço mais os meus compatriotas e os teus, tão ciosos da sua liberdade política. O mundo greco-romano se orientaliza, desgraçadamente. A própria polícia imperial é uma cópia da organização policial dos monarcas persas. Agora, todos esses ascetas, esses anacoretas, esses messias veem se congregar sob os seus estandartes, para a conquista passiva dum ideal de renúncia, massas que já se agitavam para a luta ativa em prol do seu bem-estar comum.
- E, nessa conjuntura, que fazer? - interroga Sílvio.
- Ah! lutar.
- Como? Devo dizer-te - acrescenta Sílvio - que não faço a pergunta por cepticismo, mas porque quero orientar-me.
- Isso é mais sério e me confere maior soma de responsabilidades. Mas, vamos recorrer à maiêutica e proceder meio socraticamente.
- Sim...
- Responda-me: tu consideras exata a minha tese?
- Exata.
- Quer isso portanto dizer que a solução que eu aponto te parece justa?
- Justa e oportuna.
- E que, justa como é, tem o direito a prevalecer?
- Perfeitamente.
- E sabes da existência de dois inimigos poderosos, que se opõem com forças quase iguais à realização desse grande objetivo social?
- Quais?
- Mas eles estão contidos na minha tese. Então não prestaste bem atenção.
- Prestei - diz Sílvio, seguro da sua asseveração. - Por um lado, vejo a classe dos abastados, que mantém a maioria da população escravizada ou à margem da vida econômica. Por outro, esses místicos que entorpecem a classe trabalhadora na luta pelas suas reivindicações. Não é isso?
- Mais ou menos. Simplifiquemos e sintetizemos porém - continua Evandro. - Os dois grandes inimigos do povo são os seus senhores, que o exploram, e o próprio povo, que não quer ser explorado mas que foge da luta. E o povo te mataria, te reduziria a pedaços como as Mênades fizeram com Orfeu, se tu saísses agora, sem mais nem menos, a lutar por ele. Nesse combate, é preciso primeiro vencer-lhe a resistência passiva. Como? Esclarecendo-o. Mas temos de andar rápido: temos de chegar antes desses narcotizadores, que tratam do doente à maneira desse Asclepíades, que emborracha os seus doentes mentais para não vê-los agitar-se.
O dia está a findar, - um dia sombrio, borrifado de chuviscos.
Às vezes ouve-se um ribombar surdo, arrastado, longínquo.
- Vai fazer uma noite feia - diz Sílvio, observando o céu.
Evandro caminha de olhos no chão, pensativo. Em dado momento, ao atingirem um cruzamento de ruas, pára, detém levemente o companheiro segurando-o por uma das pregas da toga.
- Vamos ficar nesta esquina. Eu aqui me separo.
E depois:
- Eu imagino a crítica que você há de fazer ao meu modo de proceder.
Sílvio esboça um gesto de interrupção.
- E até certo ponto justa - faz Evandro vivamente, não dando ao outro tempo de falar. - Você dirá que não é para homens como Isócrates ou Heliodoro, nem em conversas vadias da ágora, que deveria expor as minhas ideias. E se soubesse que eu já gastei um tempo precioso discursando em conferências perante um auditório letrado, você ainda seria mais severo comigo. Mas tudo tem a sua explicação. Eu parti dum preconceito errôneo, preconceito da minha classe: julgava que os intelectuais, os políticos, os ricos progressistas pudessem enxergar, tanto quanto eu, o perigo em que se acha o mundo moderno de soçobrar, sob as próprias ruínas da sua economia defeituosa e caduca, - a sua economia escravagista. Mas foi tudo em vão. Ainda o que de mais positivo consegui foi irritar alguns, como fiz hoje com Isócrates: a maioria ouviu-me com aquele sorriso céptico que Heliodoro sempre conservou nos lábios ou com uma inacessibilidade irônica, mais mortificante ainda. Muitos comentavam depois as minhas ideias, aparentemente num tom de desdenhosa piedade por um bom sujeito transviado. Mas faziam isso em rodas em que sempre havia alguém que tomasse pelo caso um interesse especial e suspeito e que pedia detalhes: era a polícia. Dessa forma fui incluído nos registros da polícia política como agitador, - candidato provável a uma acusação por crime de lesa-majestade.
Faz uma breve pausa.
- Claro que eu já contava com isso - prossegue. - Mas, neste momento, o meu direito de locomoção é precioso e hei de preservá-lo.
Pára outra vez. Traz novamente aos lábios o seu sorriso aliciador e um tanto melancólico e pergunta a Sílvio, ao mesmo tempo que lhe depõe um olhar perscrutador:
- Agora que você sabe que a minha companhia oferece um certo perigo, ainda persevera em cultivar essa amizade incipiente, tão desvanecedora para mim, e em seguir-me quiçá?...
Sílvio não responde imediatamente. Segui-lo?... Na realidade, desde que escutou a sua interpretação dialética da História, que ele ficou vencido. Vencido, é o termo. Mas há quanto tempo para uma decisão dessa natureza.
- Olha, Evandro, uma cousa posso assegurar-te desde já: eu mudei. Aonde me poderá levar essa mudança? Até a luta? Não sei. Quero ainda esclarecimentos, conselhos.
Evandro tem um sorriso dum outro tipo, que revela o político, - o conspirador, como sente Sílvio, não sem uma certa inquietação, um receio vago. Diz-lhe o amigo:
- Conselhos, o que você espera? Quem sabe se não instruções?...
E fica olhando fixamente Sílvio, com o seu mesmo sorriso, estereotipado. O jovem meio se perturba, como se tivesse sido apanhado numa falta. E responde, hesitantemente:
- Isso... talvez instruções...
Evandro relanceia rapidamente o olhar para todos os lados. E, em voz baixa, delineia o plano de ação:
- É preciso ir diretamente aos operários, aos escravos mesmos, às mulheres. E não só em Tessalônica: em toda parte. Sobretudo em Roma, em Alexandria, na fortaleza do inimigo. O meu período de iniciação própria acabou. Não considero inteiramente perdido o tempo que levei pregando no deserto, para homens que não queriam me ouvir porque a cousa não lhes dizia respeito ou que fugiam de escutar-me justamente pelo contrário: porque o seu mais alto interesse estava em jogo e seria arriscado aderir, mesmo tacitamente, à minha campanha.
Cala-se.
- Escuta! eu queria dizer-te uma cousa - prossegue depois dum momento. - O pior é que está ficando tarde - observa, ao notar a sombra da noite que cai.
Sílvio, tranquilamente:
- Tem tempo. O que é?
- Essa seita dos Terapeutas parece ter um ramo militante, que, perseverando nas ideias fundamentais da volta do messias, do fim do mundo e do julgamento final, mesmo assim sai à rua, esclarecendo as massas na sua doutrina, fazendo prosélitos, agrupando os aderentes em organizações urbanas: em assembleias ou eclésias. Ainda não falei sobre isso com Jair. Eu soube entretanto que há algum tempo passou por aqui e por outras cidades da Macedônia um indivíduo desses. Como Judeu, dirige-se primeiro à sinagoga, aproveitando o dia do sábado, em que há aglomeração de crentes. Nos lugares onde não há sinagoga, vai encontrar o povo nesses espaços apenas cercados que tu talvez já tenhas visto e que constituem também um local de reunião dos Judeus: os oratórios - os proseuctérios.
- Já vi isso, sim. Não aqui: na minha terra. E lá abreviamos o nome: chamamos simplesmente proseucas - interrompe Sílvio, um tanto sorridente.
Evandro, retomando o assunto:
- É um sinônimo. Pois isso, por toda a parte provoca atritos, desordens. Você sabe como os Judeus são escandalosos. E, depois, há mulheres entre os catecúmenos... Tem havido intervenção da polícia, prisões, castigos corporais, expulsões dos agitadores. O missionário é o que mais tem sofrido. Mas o seu ânimo não se abate. Ele vai adiante, semeando a ideologia da renúncia, do perdão das ofensas, do amor dos homens, com vistas a uma vida feliz depois da morte, tomando todo enfim dum zelo doutrinário que bem merecia um melhor emprego, - um emprego de caráter social e humano.
- Quem é esse Terapeuta?
- Eu indaguei o seu nome. Trata-se dum Judeu da Cilícia, um antigo fariseu, agora, ao que parece, convertido às ideias platônicas dos Terapeutas do Egito sobre a imortalidade da alma. Adota um nome latino, porque desfruta a cidadania romana. Faz-se chamar por Paulo, de Tarso.
Sílvio reflete um instante.
- Muito bem - diz a seguir. - E depois?
- Não achas um belo exemplo de doutrinação prática?
- Sim. Mas ele é Judeu, tem facilidades de se dirigir aos seus compatriotas, reunidos nesses lugares onde se reza. Como é que você disse que se chamavam?
- Proseuctérios.
- Bonito nome. - E Sílvio fica um instante sonhando. - Nós porém, a admitir que nos lançássemos à luta, como faríamos? A quem nos dirigiríamos?
- Aos proletários, nas fábricas, nas oficinas, nas tabernas!
- Sim... - E após breve reflexão: - E estaríamos também sujeitos a todas as violências por parte da reação conservadora... Você já pensou bem nisso, Evandro?
- Já.
Nova pausa meditativa.
- Não iríamos muito longe - observa Sílvio. - Seria preciso adotar um plano muito hábil. E eu não vejo qual possa ser.
- Claro. E esse plano eu já tracei nas suas grandes linhas. Desejo expô-lo com método. Não saia de Tessalônica sem ter antes um demorado entendimento comigo. Mesmo porque eu quero pôr você a par dos detalhes da organização. Pois já há uma organização... - Remata Evandro com um sorriso conspirativo e entusiástico.
Sílvio nada diz.
Evandro:
- Bem, eu vou embora. Então até logo à noite na casa de Jair.
- Avete.
Sílvio encaminha-se para a hospedaria, da qual aliás pensa não se achar longe. Está identificando o caminho. Para maior segurança, aborda um dos transeuntes, - um que lhe parece mais acessível. Mas o homem era também um forasteiro: perturba-se e nada lhe pode informar.
O jovem segue adiante. Ao atingir uma esquina, fica indeciso sobre o rumo a tomar. Parece-lhe todavia divisar ao longe uma insígnia de estalagem. Ao crepúsculo, mal pode distinguir a imagem pintada na tabuleta. Uma ave? Ele está parando na Hospedaria da Segunda Águia. Firma mais a vista: é ela mesmo.
Subitamente o sol, que já parecia deitado para além das montanhas da Tessália, começa a tingir dum amarelo de açafrão as regiões mais altas do céu e que se podem entrever através as grandes massas de nuvens escuras, carregadas d'água, que continuam a passar lentamente para o sul. Sobre um canto do céu, uma barra vermelho-laranja faz uma base de fogo brando à muralha negra que fecha o horizonte, como os fogões longínquos dum exército ao pé dos muros duma cidade sitiada. Pouco a pouco esses toques mais vivos dum crepúsculo sombrio vão esmaecendo. Quando Sílvio chega à porta da hospedaria, o céu já é outra vez um bloco da cor do chumbo, com uma ou outra franja dum pardo mais claro nas camadas superiores.
Encontra Heliodoro à mesa, terminando a ceia e falando mal do serviço. Sílvio, cujos hábitos haviam mudado tão fundamente, já não estranha mais nada, nem essa irregularidade nas refeições. O outro ainda toleraria isso, como observa: o que não admite é que o queiram transformar à força num Catão de Útica, - ele, que nada perdeu em Farsália.
- E mesmo que tivesse perdido: eu não seria tão tolo, para combater um sofrimento com uma incomodidade a mais... Não é essa a minha filosofia.
Sílvio sorri com polidez à sátira. É que essa alusão ao voto de Catão de comer sentado até ser vingado o desastre republicano, ele a vem ouvindo desde que deixaram o país dos Getas... Entretanto reconhece - e o declara - que poderia haver numa cidade como Tessalônica estalagens mais confortáveis.
- Ouvi dizer - informa Heliodoro - que, às margens do canal que leva de Alexandria a Canopus, há os mais luxuosos hotéis do mundo.
Faz sinal ao escravo que os está atendendo e pede mais vinho. Ali mesmo o fâmulo prepara o mulsum, com o vinho tirado duma grande ânfora que repousa encostada a uma das paredes. Heliodoro acompanha a operação, fiscalizando-a. A mistura é feita numa cratera.
- Ótimo vinho - comenta Heliodoro, ao encher a taça, - um esquifo para uso pessoal, em prata do Láurium, que ele mergulha na cratera transbordante.
Realmente, o vinho da Grécia é incomparável. Sílvio pensa levar uma amostra para o pai.
- Sempre vai viajar amanhã? - pergunta Sílvio ao companheiro. - Não tem medo do tempo?
Heliodoro torce-se na sela, procurando inspecionar o céu através de uma abertura da peça:
- Talvez não chova mais: as nuvens estão sendo tocadas para o sul.
Mas ele volta àquele desconforto da ceia. É a única refeição do dia. E, além de a servirem a essa hora - quase a hora de deitar - a casa não possuía um triclínio.
Sílvio mal presta atenção. Vai comendo e pensando. Que dia cheio! Quantas sensações reunidas, - sucedendo-se, alternando-se, somando-se. No fundo porém nada de extraordinário: é a consequência natural da aglomeração humana. É a cidade. As emoções duma pessoa podem-se medir numa base puramente censitária. Basta jogar-se com um número, com uma constante.
Até que ponto se acha ligado à tremenda missão de Evandro? Tremenda! Já é uma cousa espantosa, mais espantosa do que as situações sinistras que a Fatalidade arma às suas vítimas na Tragédia, já é por si dolorosamente trágico saber, como eles sabem, que o mundo moderno vai acabar. E ainda é preciso tentar um supremo esforço para deter o universo na sua queda. Quem há de tentar esse esforço? A organização. Que organização é essa? com que elementos conta? E será que ele-Sílvio vai entrar nessa organização?
Na verdade, é impossível que, nesse vasto Império, ninguém mais esteja vendo, além de Evandro, o mal surdo que o corrói. Impossível que esse desajustamento social, responsável pela ruína iminente, não esteja entrando já nas cogitações dos que dispõem de meios eficientes para sobrestá-la.
Mas, se todos pensarem primariamente como Isócrates ou displicentemente como Heliodoro ou confiadamente como seu pai, como poderá a sua classe - que é a classe dirigente da sociedade - impedir a consumação do desastre?
Parece que cada um não tem olhos senão para o pequeno círculo de interesses que mais estreitamente lhe dizem respeito. Absorvido pelo sucesso individual, cada qual toma esse mesmo sucesso como prova de prosperidade, quando justamente parece que ele quer dizer uma cousa muito diferente: quer exprimir que a desproporção da riqueza mais se acentua apenas, concentrando-se cada vez mais num menor número de mãos, trazendo um desequilíbrio crítico no prato da balança, - afogando portanto uns na abastança, abandonando os outros à penúria.
Uma cifra mesmo já foi publicada: no tempo em que o tribuno L. Márcio propunha a sua lei agrária, não chegava a haver eme Roma dois mil cidadãos que fossem proprietários, quando justamente o censo acusava o número de quase meio milhão de cidadãos inscritos.
Por quê?
Seu pai, partidário da divisão proporcional da terra, explicava o fato dizendo que o latifúndio absorvera a pequena propriedade, que o grande terra-tenente pauperizara e escravizara o pequeno proprietário rural. - Mas então?...
Desde que os potentados não estão dispostos a transigir, nem sequer se deter na via que os leva à riqueza momentânea e à ruína ulterior da sua classe, a dialética só tem mesmo um caminho a apontar ao reformador. - E foi esse caminho que viu Evandro, que parece ter aproveitado bem com o método do raciocínio socrático.
Mas justamente nesse instante agudo é que o velho Oriente derrama no Império a catadupa das suas ideias niilistas, transformação doentia e quase irreconhecível desses anseios de melhoria material que existem sempre, como reivindicação suprema, no espírito de todos os miseráveis.
Como o mundo que esses Profestas encontram ao alcance dos seus olhos está guardado por legiões de pretorianos, fiscalizado por magistrados que recebem de César todo o seu poder sem limites, habitado por uma classe que dispõe da prerrogativa de mudar esse César, com suas legiões e seus legados e procônsules, quando ele se mostre um pouco olvidadiço dos seus deveres perante ela; como esse mundo portanto já está delimitado para o gozo pessoal duma minoria e já está literalmente ocupado por ela, - que outro mundo podem os Profetas ofertar às vítimas de todas as injustiças sociais?
Somente o mundo que está lá muito longe, - no céu, onde ainda não penetrou o duúmvir ou o centurião. E, enquanto esperam, os miseráveis arranjam-se como podem nessas antecâmaras do deserto, como os semneus ou mistérios de Jair ben Jared e de tantos outros.
E essa última novidade que lhe trouxe Evandro?
Esse Paulo de Tarso, que deixou provavelmente o seu mistério do deserto, para além do lago Mareótis, afim de vir anunciar, no meio de todos os perigos, a chegada do Messias e a certeza volutuosa da morte e do fim do mundo?...
Heliodoro ergue-se. Vai viajar cedo, quer ir deitar agora. E vai proclamando o seu estoicismo: duas ou três horas de sono bastar-lhe-ão. De manhã toma o seu jentáculum, como bom cidadão romano: sine mensa, - sem que lhe ponham a mesa. À hora prima já o redário macedônio o estará conduzindo para as bandas de Bereia sobre as encostas do Bérmio e para o sul.
- Você segue na mesma reda que nos trouxe?
- Ela está hipotecada a mim, por uma dívida que o redário contraiu com aquele trapezita da ágora, o Asiático, e cujo compromisso eu assumi.
- Ah! bem.
Algum tempo depois Sílvio manda chamar Demétrio, o escravo ilírico:
- Espera-me com archotes no vestíbulo.
Vai até o seu quarto. Faz uma ablução das mãos. Veste-se com a pênula canusiana. Depois desce. Já na rua, olhando para o céu, interpela o escravo:
- Que é que achas, Demétrio: vamos ter chuva ou não?
- O vento é que manda. Se ele rodar para leste, a chuva é certa.
Partem.
Ao chegarem defronte da casa de Crisócero, Sílvio faz o escravo bater na porta de entrada, que logo se abre, deixando ouvir um tilintar sonoro e prolongado, - do tintinábulo de bronze que daí pende como campainha de alarme, para o caso - tão frequente - dalgum assalto noturno.
O médico logo aparece, trazendo a cabeça coberta com o pétaso, cujos cordões se atam debaixo da barba. Por um portão lateral de serviço surgem imediatamente escravos com lanternas e tochas. Puxados pelas arreata, vêm dois animais de sela.
Crisócero calça uma pequena espora de bronze, apresilhada por correias no calcanhar do pé esquerdo e que termina numa acicate agudo, em forma de losango.
Os animais estão arreado com o efípio, que nada mais é do que um estofo dobrado várias vezes, de modo a improvisar um coxim de montar fixado pela cilha, que passa por baixo da barriga.
Na realidade a sela adivinha-se apenas, por uma leve saliência: um chairel amplo e macio - o estrágulo - recortado sobre preciosa pele de animal, cobre-a inteiramente e ainda vem cair por ambos os lados do corpo da montaria, como uma capa.
O chairel do cavalo de Crisócero é de pele de leão. Um pelame de tigre, com seus tons amarelo-laranja e negro, reveste o outro animal, o que Crisócero destina a Sílvio. É uma égua, espantadiça. - Vendo-a, irrequieta e cheia de viço, a surgir assim paramentada, à luz dos archotes, Sílvio não pode reprimir uma imagem clássica: duma Pardálide, lasciva e felina.
Eles montam, auxiliados pelos escravos.
Dois cavalariços vêm ocupar os seus postos, cada um ao lado dum animal, - como palafreneiros num dia de parada.
Crisócero dá o sinal da partida.
A turba dos escravos movimenta-se, com os portadores de tochas à frente, rompendo a marcha.
A comitiva desloca-se a passo, como regulada pelo andar das cavalgaduras. As vestes alvacentas dos cavaleiros, ao recolher o clarão avermelhado e vacilante dos brandões, flamejam como as chamas movediças dum incêndio que estivesse continuamente a renovar-se sem queimar nem consumir.
Quando entram numa das ruas troncais, que conduzem aos bairros do oeste e a uma das mais importantes saídas da cidade, têm de enfrentar o movimento de veículos, que só a partir dessa hora é permitido. - A medida, adotada inicialmente em Roma por exigências da circulação urbana, acabara por generalizar-se a todo o Império.
A essa hora entretanto o tráfego faz-se quase que numa só direção: da periferia para o centro. São carros de viagem, com os seus ocupantes - muitos dos quais forasteiros que vêm pela primeira vez ali - procurando, de pescoço alongado, devassar através as sombras da noite aspectos da cidade. Ou então - esses lentos carros de bois, abarrotados de gêneros para o aprovisionamento do dia seguinte, que condutores tranquilos e indiferentes arrastam ao longo das ruas, em demanda do mercado.
A égua que Sílvio monta, acada momento assusta-se, atravessando-se, meio empinando-se, forcejando por desembaraçar-se da mão firme que a contém. A o mesmo tempo entretanto, Sílvio afaga-lhes de manso o pescoço, - fala-lhe, como aprendera dos Celtas, nos domínios do pai.
- É um animal novo, com um temperamento vivo que é preciso respeitar - observa Crisócero, acompanhando os esforços brandos e inteligentes de Sílvio para controlá-la. - Escravos! apagai as tochas: sigamos apenas com a luz das lanternas.
O vento começa a bordejar para o quadrante leste, como se temia. O tempo agora está se armando para os lados do mar Egeu, com relâmpagos mais frequentes e um surdo ribombar de trovões.
- Eu temo que uma noite chuvosa possa trazer mais um contratempo ao nosso doente - comenta Crisócero.
- Por exemplo...?
- Bem. Uma dessas complicações que costumam provir do aumento da pituíta, pela abundância das chuvas. Edemas. Ou qualquer outra moléstia pituitosa.
Ao redor deles, a chusma de escravos, que ao princípio marchara numa ordem regular - de formatura - agora quebra-se, vai-se amoldando aos empecilhos do tráfego, - como a água dum rio ao se ajustar aos obstáculos do seu curso. - E já eles trocam uma ou outra palavra entre si. Já se ouvem pequenas risadas, logo reprimidas.
Crisócero, sereno sobre o seu cavalo como uma divindade tutelar, tem uma atitude tolerante e reflexiva. Num dado momento ergue a face para Sílvio e dá-lhe esta informação, que é antes um comentário:
- Talvez já saiba: Evandro libertou em massa os seus escravos. Mas alguns deles, dois ou três, ficaram ligado à sua casa por devotamento ao rapaz.
Crisócero, passado um breve instante, prossegue:
- O pai deixou-lhe bens. Quando morreu, estava numa situação próspera. Fui eu que o atendi. Não sei agora quem administra esses bens. Mas acredito que Evandro não possui atualmente senão os recursos para viver. Viver sem necessidades, claro. E é isso talvez que lhe deixe tempo para filosofar - acrescenta num sorriso.
Sílvio, cuja montaria parece ter-se adaptado ao cavaleiro e que já o obedece com facilidade, ergue os olhos atentos para Crisócero. Este continua falando:
- Evandro já lhe expôs certamente a sua doutrina, como o faz a todo o mundo. Não?
- Já.
- E o que pensa dela?
- Eu penso que se adapta à nossa realidade histórica e que constitui talvez a única saída para a crise do mundo moderno.
O médico abana afirmativamente a cabeça, num gesto lento que se casa com a andadura do animal.
- Também julgo assim. Mas em teoria. Acho difícil - quase impossível - a sua aplicação prática.
- Entretanto - observa Sílvio - talvez convenha fazer um último esforço, no sentido das ideias de Evandro ou num outro qualquer: não devemos deixar o mundo perecer aos nossos olhos.
- Ele não perecerá: ele se transformará, apenas. Veja a Grécia: mal se reconhece, neste país policiado e pacificado, aquela nação turbulenta que deixou de existir com a ocupação romana. É que o ideal de agora é a ordem, embora com o sacrifício da liberdade.
- Mas, com a perda da liberdade, o povo grego também perdeu uma grande parte do seu gênio.
- Não - retruca vivamente Crisócero: - o seu gênio criador tomou tão somente um outro rumo. Eu não sei ver claramente essas cousas senão dentro da minha profissão. Ora, a medicina está deixando de ser apenas uma improvisação. Improvisação genial se quiserem, nas mãos dum Hipócrates, por exemplo. Ela está-se encaminhando num sentido mais técnico. Todas as atividades humanas hão de tomar essa direção. Estou convencido disso. E é isso que há de ajudar o povo a viver folgadamente dentro deste mundo.
- Mas então tu, Crisócero, és também, em doutrina, um dos partidários do nosso amigo. O que ele quer no fundo é a partilha dos bens deste mundo entre um número de indivíduos cada vez maior. E nem esse aspecto... técnico (não é como dizes?), nem esse aspecto escapa ao seu sistema: com a formação dum proletariado economicamente ativo, os trabalhadores não haveriam apenas de aumentar quantitativamente: acabariam por se tornar mais qualificados. Isso ele não prega. Pelo menos que eu visse. Mas está contido implicitamente na sua tese.
- O que Evandro prega é a revolução - diz Crisócero duma maneira conclusiva e não sem um tom de melancolia e de apreensão. E acrescente, depois de breve pausa:
- Eu temo por ele. Seriamente: eu penso que Evandro vai acabar mal. Já quis dizer-lho. Mas parece que ele não o ignora também.
- Não: ele sabe. Tão bem como tu.
- É o que parece.
Um trovão mais próximo atroa à esquerda, para as bandas do golfo. Os animais têm um prisco.
- É necessário apressar - diz Crisócero. - Escravos! acendei de novo as tochas. Vamos chegar à casa de Jair ben Jared antes da tormenta.
Praticamente foi ele-Sílvio que mobilizou aquela caravana. Leva ele ali o médico e a esperança de cura que acompanha a sua pessoa.
Interessante, como se viu logo entrosado numa vida estável, cotidiana, da cidade. Ele - um hóspede. Quer dizer: uma pessoa para quem um lugar de passagem como aquele não oferece naturalmente mais atrativos além dos que possa colher dum fugitivo perpassar pelas suas ruas, nem mais interesse do que os quadros rotineiros, às vezes molestos e sempre repetidos, duma vida de hotel, ordinária, quase impessoal.
Está apenas há um dia em Tessalônica. Não é curioso mesmo que tantas cousas já lhe tivessem sucedido no espaço dum só dia? Chegara na véspera, mais ou menos a essa hora. Nesses pescoços esticados que ainda há pouco saíam de dentro das redas cheios de curiosidade, meio sarapantados, querendo apreender num olhar sôfrego e hesitante todos os aspectos urbanos, nessa gente que chegava, ele se revia a si mesmo, quando no dia anterior, depois da parada obrigatória fora de portas, pudera, com a noite, entrar na cidade.
São apenas vinte e quatro horas, - as vinte e quatro horas dum dia civil, por onde os estados regulam os seus negócios e que, no seu país, começa à meia-noite. Cada povo com o seu sistema: seu mestre ensinara-lhe que, entre os Babilônios, essas vinte e quatro horas se contam a partir do nascer do sol. E que o dia vai dum pôr-do-sol a outro pôr-do-sol ali, entre esses Gregos industriosos, que dividiram os dias em horas, idearam aparelhos de precisão que as registram, possibilitaram mesmo essa invenção altamente moderna do relógio portátil, - pequeníssimo quadrante solar que cada um traz dissimulado nas dobras das suas vestes, como ele-próprio.
O ritmo da vida civilizada trouxe, sem sombra de dúvida, uma nova escravização, - que não entra (reconhece Sílvio com um sorriso interior) que não entra no sistema de Evandro... Essa necessidade de estar sempre com os olhos no relógio.
Nunca porém como nesse dia, tão cheio e tão estranho, consultou ele com tamanha assiduidade, quando o sol lho permitia, o minúsculo - elegante mesmo - solário que o acompanha como um fâmulo prestativo e que lhe recorda constantemente a mãe, pois que é oferenda sua.
É que jamais, como então, ele marcou horas tão significativas para a sua vida...
Horas decisivas? Não sabe...
Houve um momento em que quase tomou como definitivas essas horas de Tessalônica. Não sabe ainda se esse momento perigoso de entusiasmo já passou. Nem sabe se ele voltará. Agora ocupa-lhe o espírito um interesse mais imediato: quer entregar o médico a Tarsita, depor-lho nas mãos, - como uma oferenda...
Como as sensações se repetem! Vê-se criança, impaciente e aflito, a chamar o pai - o médico da família, segundo a tradição romana - para atender o servo que sofria na solidão do ergástulo...
Não andaria sempre a trair o caráter do seu povo? Quiçá seu pais tivesse razão, e a contemplação das cousas do espírito trouxesse mesmo um amolecimento da vontade e desse conjunto de virtudes que condicionam o valor...
Talvez seja esse o caso melancólico dos Gregos.
A grandeza do Império reside nessa força, nunca desmentida, enriquecida sempre e que acabou por constituir não só o traço característico da dominação romana, como a moral duma época, - da civilização.
É o que Crisócero, na sua placidez inteligente, denomina a Ordem. É o que Evandro estigmatiza como escravização. - Será que um outro mundo está surgindo, um mundo que só se deixe entrever pelos homens da sua geração e que procure se fundar sobre bases sentimentais até então desconhecidas, numa solidariedade que ele nem pode classificar se simplesmente humana, se simplesmente animal, porque ele mal pode distinguir os animais e os homens, derivados todos do peixe original de Anaximandro? Os estoicos já o proclamaram, quando admitiram a igualdade de todos os homens. Os sofistas também. Mas uma cousa é admitir em teoria, outra - porfiar por uma realização sentimental e prática.
E todos esses esforços esparsos dessa legião de místicos, que, não podendo aliviar os males duma humanidade doente, se lançam numa crueldade piedosa - verdadeira eutanásia coletiva - incutindo aos sofredores, como suprema esperança, a ideia do aniquilamento total, do fim do mundo - não constituirá isso mais uma forma, embora requintada e mórbida, da fraternidade universal? Pelo que já pôde ver, eles não duvidam disse nem um instante. A sua fúria homicida só conhece um móvel: o amor. É isso que, apesar de todas as dessemelhanças, os aparenta com os estoicos e os sofistas. - E consigo mesmo, força é reconhecer...
*
O céu ainda se acha carregado. Mas não vai chover, não. Pelo menos dentro dessas poucas horas.
As casas estão às escuras, apenas com uma ou outra pequena janela deixando passar a luz cor de mel das lâmpadas a óleo.
O mundo moderno, à noite, dorme, - à exceção naturalmente desses volutuosos que se entregam ao prazer desordenado dos sentidos nos festins. Ou daqueles que, como na casa de Jair, velam, acompanhados dum conviva doutra espécie - a doença.
A seu lado, Crisócero tem uma cara sonolenta - cansada decerto do dia de trabalho - que oscila cofiadamente ao andar cadenciado da montaria. Não querendo roubar-lhe aquele semi-repouso, Sílvio, que ia lhe pedir uma informação relacionada com a sua viagem de volta à casa, vira vivamente a cabeça, colocando os olhos no clarão que sai das tochas lá na frente e que vai pintando de fogo o caminho que percorrem. Mas o movimento desperta o companheiro.
- Falou comigo? - pergunta-lhe Crisócero.
- Não...
Talvez nem seja caso de consultar Crisócero... Ele se informará depois no hotel.
- A noite vai limpar - observa o outro, mudando o corpo de posiç!ao para afugentar o sono e inspecionando o tempo.
Sílvio não responde.
- Não deve faltar muito - arrisca o médico.
Não. Sílvio mesmo começa a reconhecer a alguns aspectos da rua. O largo dos três caminhos não deverá estar longe. Olha com atenção para um lado e outro. Pede a Crisócero que chame o guia. O guia acerca-se.
- Duas ruas adiante da sinagoga - instrui-lhe. - Pender para a esquerda. A ínsula fica duas quadras adiante. Eu mostrarei qual é.
A expectativa d a chegada próxima cria uma certa animação na comitiva.
Crisócero indaga de Sílvio se é a primeira vez que vem a Tessalônica.
- Sim.
- E gostou?
Sílvio vai responder, quando ele acrescenta:
- Tessalônica está irreconhecível, desde a incorporação da Macedônia como província romana. Hoje é um dos portos mais importantes do Mediterrâneo. Pretende ficar aqui muito tempo?
- Poucos dias.
Vai-lhe pedir aquela informação quando Crisócero antecipa que também está com uma viagem planejada. Mas mais para diante. De resto, a estação das travessias marítimas acha-se apenas em meio.
- Penso partir no mês que vem.
Daí poucos dias. Como o tempo passa depressa, pensa Sílvio. Encontram-se em julho, já na última quinzena.
- Estamos no décimo-quinto dia das calendas de agosto?
A sucessão meio imprecisa dos dias em viagem deixara-o numa leve insegurança.
Crisócero responde à sua maneira contemporizadora:
- Oficialmente sim. Para nós porém, que contamos os dias do ocaso do sol, o dia de hoje já passou...
Sorri com o seu próprio paradoxo. E acrescenta:
- Para essa gente conservadora, dos campos principalmente, hoje já é o décimo-quarto dia antes das calendas de agosto.
- Data memorável - comenta Sílvio reflexivamente.
- Ah! é?...
- O dia do incêndio de Roma.
- Incêndio de Roma?... Que incêndio?
- O dos Gauleses.
Sim... Crisócero recorda-se. Uma calamidade. Mas faz muito tempo.
- Não?
- Mais de quatro séculos e meio - responde Sílvio sorrindo.
- Ah!
Mas então é no dia dia seguinte o aniversário dessa terrível catástrofe? quer precisar Crisócero numa expressão de amabilidade, de cortesia.
Ainda sorridente, Sílvio pormenoriza:
- Exatamente amanhã. Foi no décimo-quarto dia antes das calendas do sexto mês a contar de março, do ano trezentos e sessenta e quatro de Roma, que Breno ateou fogo à cidade.
- Veja só. E a data deve ser recordada com tristeza na metrópole...
- Parece.
- Não é para menos.
Crisócero cala-se. Depois, havendo refletido um momento:
- É interessante: você está evocando um acontecimento terrível sucedido há tanto tempo à grande Urbs. Sabe que Roma está ameaçada de acabar assim por um incêndio?
- É profecia isso? - pergunta Sílvio com o seu sorriso céptico.
Crisócero não responde logo. Põe um olhar longe. Hesita.
- Você sabe - diz finalmente - o médio entra em toda parte. Principalmente um clínico, como eu. Porque é preciso dizer que ainda não pude me desembaraçar das visitas em domicílio e só me dedicar à cirurgia no iatreu, como desejo. Penso que estou dando um exemplo desse atender o doente em sua cama, não é mesmo? - e tem o seu sorriso de ironia. - O clínico ouve muitas cousas nessas casas que percorre durante o dia. Não faz muito, ouvi uma cousa que me estarreceu.
- O quê?
- Ouvi um fanático pregar abertamente o incêndio de Roma.
- Quem era ela?
- Um Judeu.
Segue-se um silêncio.
- Isso não constitui novidade - observa Sílvio: é um velho ideal da raça. Roma é o centro da idolatria. Você sabe como eles são piedosos.
- Intolerantes.
Passado um momento o médico acrescenta:
- Mas devia haver uma certa vigilância sobre isso. A piedade religiosa leva a todos os extremos. Veja o caso de Ifigênia.
- De quem?... Ah! de Ifianassa. Eles porém não se atreverão. Aliás, os Judeus estão de pazes com o Império. Pelo menos dentro de Roma, ao que se diz.
Sílvio recorda-se de certas discussões que mantinha com o pai. O velho é um admirador de Nero naturalmente. O Imperador é moço, um artista. Tivera como preceptor e o conserva na qualidade de conselheiro um filósofo, um estoico - Sêneca. Como todo provinciano, seu pai deseja ver o aniquilamento daquela plutocracia da Cidade, representada pelo Senado. Nos furores exagerados de Nero, que às vezes ameaçava liquidar com a ordem senatorial inteira e dar o governo das províncias e o comando do exército a cavaleiros romanos, ele não via a sua teatralidade. Via antes um bom sinal: a resistência contra os excessos do imperialismo do dinheiro. E, depois, Nero é empreendedor: planeja a abertura de canais para facilitar a navegação de longo curso. Entra mesmo no seu plano, segundo boatos que corre (que correm pelo menos na província) uma reconstrução de Roma de acordo com um traçado mais racional.
" - Para isso será necessário demoli-la em parte" - observava o velho.
" - Ele não hesitaria em demoli-la toda" - afirmava ele-Sílvio com um sorriso sarcástico.
De modo que, pensa Sílvio, se algum fanático judeu meter fogo na Cidade, Nero há de se rejubilar...
- O que é aquilo lá? - pergunta Crisócero, apontando com todo o comprimento do braço para uma imponente massa esbranquiçada que se ergue no largo (afinal atingido) e que volta a sua fachada para o Oriente, portanto para eles.
- A sinagoga.
- Cousa interessante - vai Crisócero refletindo e dizendo - tenho passado muito porque aqui naturalmente, mas nunca havia reparado com atenção nessa casa.
- Ela se confunde com as outras - observa Sílvio. - É um lugar muito povoado. Demais, a noite tem o poder de individualizar certas cousas, principalmente quando focadas pela luz das tochas, como está acontecendo neste momento.
- Talvez seja isso - concorda o médico.
A sinagoga é um sobrado de dois pavimentos. Menos na parte da frente, onde o telhado enquadra um espaço aberto, - com toda a certeza um átrium onde se deve achar o tanque redondo para a as abluções.
Daí onde estão, parte a via de Bereia propriamente. A comitiva envereda por ela. O trânsito de carros se faz mais intenso. Estirando-se, marchando às vezes a um de fundo, lá se vai ela franqueando uma passagem até a rua travessa, - onde fica o edifício de cenáculos habitado pelo Terapeuta.
Por fim chegam.
- Que sítio lôbrego! - observa Crisócero desmontando e relanceando o olhar para a alta fachada suja.
A essa hora a casa, mesmo o andar térreo, que é dividido em tabernas, acha-se totalmente escura. A porta de entrada está aberta. Mas escura também.
Os escravos apagam as tochas.
- Suba um conosco com lanterna - ordena Crisócero.
Matem-se pela escada.
- Evandro deve estar aí à nossa espera - diz Crisócero.
- Possivelmente.
- Esse sujeito é então um Judeu alexandrino?
- Creio que sim.
- Um dado interessante de semiótica - informa o clínico, detendo-se um pouco nos degraus e fazendo Sílvio também parar: - os Judeus sempre são nervosos.
- Esse é muito calmo.
Continuam a subir.
A lanterna do escravo que os precede ilumina finalmente o patamar.
À frente deles está aquela porta apenas encostada por onde passara Sílvio à tarde. O jovem empurra-a de leve. Imediatamente ouve-se um passo rápido, que mal faz ruído sobre o tabuado. É Tarsita. Ao ver Sílvio com o médico, é tomada duma grande atividade. Fá-los entrar. A pequena saleta acha-se iluminada por uma lâmpada a óleo.
- Por aqui - convida ela, iniciando um movimento de retorno em direção ao interior do apartamento. Mas detém-se ao ver que o médico pára, se encaminha mesmo até a porta, fala com o escravo que ficara no patamar.
- Espera-nos aí mesmo - ordena-lhe. Depois volta e acompanha a moça.
Sílvio já lhe está pedindo notícias do doente.
- Tem estado com muita febre.
- Isso, vamos ver - intervém o médico.
Passam para o quarto. Encontram Jair na mesma posição em que Sílvio o deixara: sentado no pequeno leito, o corpo pendido para a frente, os pés repousando num pequeno tamborete baixo - um hipopódio.
- Ele não quer ficar deitado - esclarece Tarsita.
- Está bem - aquiesce Crisócero. - Essa posição facilita o exame.
Dirige-se ao doente. Faz um sorriso de bonomia.
- Garganta, heim?
Jair concorda com a cabeça.
O médico parece não haver gostado muito dessa introdução. Acha-o um tanto prostrado. É com o olhar fixo e a voz abrandada que observa:
- Tem tido dificuldade de engolir, disseram-me. Dores. Como são as dores?
Jair explica. A qualquer movimento de garganta, mesmo no falar, sente dores.
- Muito fortes?
Jair faz que sim com um gesto lento da cabeça.
Tarsita havia trazido uma cadeira para o médico. Este senta-se ao lado do doente.
- Diga-me uma cousa: tem tido faltar de ar?
- Não.
- Ah! muito bem!
Crisócero completa os dados da anamnese. Inspeciona-lhe o pescoço, em busca de prováveis gânglios. Depois ergue-se.
- Deixe-me ver a febre.
Desnuda o peito do paciente. Impõe-lhe as mãos espalmadas. A pele queima.
O olhar de Sílvio o interroga agudamente.
- Muita febre - responde Crisócero. - Mas não é mau sinal, não. Endireita o corpo. Prossegue:
- Ainda não há muito eu tive dois casos interessantes. É exato que se tratava de duas crianças. Ambas com esquinência. Uma com pouca febre, a outra com temperatura elevada. A que estava com aquilo era justamente a que se apresentava com a febre mais moderada. São esses mistérios da doença.
Depois retira de dentro das suas vestes um pequeno cilindro metálico. Destampa-o. Escolhe um instrumento delgado, dentre os que ali se achavam: uma espécie de espátula de metal. Curva-se sobre o doente, de modo a ficar com os olhos numa melhor posição. Pede à moça que aproxime a lâmpada.
- Ampare a cabeça dele - solicita a Sílvio. - Perfeitamente. Agora - diz, dirigindo-se ao Terapeuta - abra bem a boca. O mais que puder. Olhe: inspire o ar, com uma certa força. Assim!
Crisócero procede a um exame minucioso, renovando mais de uma vez a manobra. A seguir, quer ver a urina do paciente. Observa-a. Informa-se também sobre as suas evacuações alvinas. Quer saber se ele se alimenta.
- Pouco.
- É natural. Tem dormido?
- Mal.
Faz o doente deitar. Sílvio ajuda-o nisso. Crisócero senta-se outra vez e procede a um exame geral, dando muita importância ao estado das mucosas, inclusive a mucosa do nariz. Pela palpação, explora ambos os hipocôndrios. Afinal levanta-se.
- Está bem. Eu quero receitar.
E vai saindo do quarto, acompanhado de Sílvio. Encaminha-se para a saleta da frente. Tarsita vai reunir-se a eles daí um instante.
- Que é que tu achas, Crisócero? - pergunta Sílvio.
- É uma supuração. Violenta. Mas não parece ser a úlcera siríaca.
- Que sorte! - faz Sílvio, um tanto emocionado.
- Naturalmente, é um caso grave. Sobretudo pelo estado geral do paciente. Que homem magro! Com toda a certeza não se alimenta.
- É um asceta. Vive de pão temperado com sal. Às vezes um pouco de hissopo.
Há um pequeno silêncio.
Sílvio:
- Que é que se deve fazer?
- Continuar com as compressa úmidas. Mas eu vou prescrever-lhe uma fórmula. Vou meter mesmo aí um pouco de ópio.
Arrasta um escabelo para junto duma mesinha - um consolo. Concentra-se um momento. Depois receita.
Sílvio também sentara.
- É preciso providenciar para que o remédio venha ainda hoje.
- Eu mesmo me encarrego disso.
E Sílvio, tomando a receita, encaminha-se para a saída.
- Olhe! - adverte-lhe Crisócero. - Vá com um dos meus escravos. Com o Artemon.
Sílvio diz-lhe que pretende mandar o seu escravo ilírico trazer o medicamente. O médico então levanta-se. Vai com Sílvio até o patamar. Dá instruções completas a Artemon, - o escravo que os está aguardando aí, com a lanterna.
- Ide rápido - ordena finalmente. - E deixa um outro te substituindo aqui.
O escravo parte.
Sentam-se outra vez. Crisócero ocupa a única cadeira que há aí e que é um assento de dobrar que ele já encontrou armado para servir - já coberto do seu coxim - quando o utilizara antes, ao formular a receita, e que então arrastara para junto do consolo: pequena mesa de três trapezóforos terminando em garra. Tivera, para poder escrever, de fazer um lugar entre os bibelôs que lhe juncam o tampo de mármore. São vasos de argila. Na parte baixa do consolo, uma pequena escultura em terracota - um grupo - dum trabalho evidentemente antigo, representa uma tíade dançando para o seu deus, tranquilo e complacente. - Sílvio acomoda-se num banco baixo e longo, onde caberia uma pessoa deitada a todo o comprimento.
Estranho que Evandro ainda não tenha aparecido, - pois, com toda a certeza, ele não se encontra na casa. E vai-se fazendo tarde.
Num dado momento, ouve-se o ruído que um pé de vento ergue lá fora, enfiando a rua. Crisócero observa:
- É o que lhe digo: o tempo vai limpar.
O médico parece não ter pressa. Esteve sentado um instante, depois levanta-se. Chega à porta de comunicação da saleta com o interior da casa. Afasta-lhe o estofo que serve de reposteiro, visto essa porta não dispor de batentes, como habitualmente sucede com as aberturas interiores dessas casas. Olha um instante para o fundo da habitação. Volta.
- Queria alguma cousa?
- Falar com a moça.
Sílvio prontifica-se a ir procurá-la. Encaminha-se até o quarto do doente. Este parece dormitar, estendido no leito. Tarsita porém não se encontra aí. Quer avançar mais para dentro, com esse direito de violação que a desgraça confere, mas hesita. Nenhum rumor nas outras peças da casa. Retorna então à saleta.
- Jair está mais calmo. O que é que você quer com ela?
- Água.
Crisócero fica ainda um momento ali. Dá dois ou três passos, vadios e reflexivos. Depois sai, metendo-se casa a dentro.
O vento agora castiga a rua, em golpes sucessivos. É capaz de Heliodoro apanhar ainda um bom dia para viajar.
Sílvio tem uma recordação saudosa da pesada reda, puxada por quatro cavalos, que os transportara de tão longe através de florestas e montanhas. Mas é uma evocação rápida. Ouve a voz de Crisócero, lá dentro, insinuando-se entre as brechas de relativo silêncio que o vento às vezes faz, entre as rajadas. Deve estar pondo em ordem os seus instrumentos, ministrando as últimas instruções.
Onde teriam ido os escravos comprar o remédio? No centro? Crisócero não lhe dera tempo nem sequer de entregar o dinheiro para essa despesa. - Demétrio entretanto há de saber como agir na situação.
A ameaça de mau tempo foi possivelmente o que motivou esse atraso de Evandro.
Tem de ir já pensando na sua viagem. Tão pronto cheguem os escravos com o medicamente, tratará de recolher. Não está com sono. Pela manhã, muito cedo, começará a providenciar para a sua volta. O caso será encontrar no porto um desses navios alexandrinos - os mais rápidos do mundo, na expressão daquele estalajadeiro grego do país dos Getas.
Seria incapaz de supor, se não o tivesse visto, a existência nas estalagens de beira-estrada daquela imprevista comodidade: - uma rapariga para passar a noite. E aquela pobrezinha ainda parecia nova no ofício. Ficara seriamente em dúvida se o hoteleiro haveria de ir prestar contas, de modo rigoroso e honesto, com ela. Talvez ela fosse simplesmente uma escrava, cujo ganho revertia de direito ao seu senhor.
Que belo exemplo de exploração humana, a robustecer ainda mais a tese econômica de Evandro!
Não duvidara nem um instante que o estalajadeiro explorasse a puela. Principalmente a mulher, que tinha um olhar vigilante e rapace. Por isso deixara nas mãos da meretriz uma moeda de prata.
O Asiático da ágora recusara um dinheiro oficial do Estado. Um crime. É exato que aqueles denários vinham dos tempos da República, possivelmente da guerra de Aníbal, quando houvera uma derrama desse dinheiro de convenção. A lei, sempre tão cuidadosa quando interesses materiais estão em jogo, não previu entretanto isso, e só pune quem se furte a receber a moeda com a efígie do Príncipe.
O problema do meretrício bem pode caber no quadro geral que procura uma explicação econômica para a evolução social do homem. - Eis um ponto importante a considerar.
Tarsita e a puela da estalagem... Que abismo separa essas duas criaturas! São entretanto seres do mesmo sexo, mais ou menos da mesma idade, até mesmo com uma certa semelhança física. O olhar principalmente. Sobretudo quando se torna fixo e inquisitivo. Ambas têm essa maneira de interrogar com os olhos, mas interrogar dum modo passivo, que não espera uma resposta, - talvez por não a merecer. Uma forma humilde de inquirir...
Mas será mesmo que um grande abismo as separa?
Quem é a moça alexandrina? Na rua, pela manhã, apresentara-se como um tipo exótico. Fascinante, mas exótico. E não é com facilidade que se pode vencer toda a desconfiança que um tipo exótico nos inspira. Esse mesmo olhar, que conduz a um mundo de sentimentos sérios e profundos quando se mostra resignadamente inquisitivo e mudamente questionador, esse olhar comum à puela e a Tarsita toma nesta última um caráter de abandono lânguido e volutuoso. Duma volúpia casta...
Que é que isso está a esconder?... ou denunciar? E o seu estremecimento de horror ao rememorar os sofrimentos por que certamente teria passado em Alexandria... De que natureza eram esses sofrimentos? A sua cidade constitui um grande foco de perdição.
Tarsita viaja. Viaja sozinha. Dentro daquela sua fragilidade eminentemente feminina, age, não como as mulheres que ele está acostumado a ver e cujo maior mérito é não viverem: mas encarcerarem-se, apagarem-se, - dentro de espaçosos gineceus, para as ricas, nas quatro paredes do seu cubículo, para as proletárias.
Nesse solo mesmo da Grécia, ondem enfim os costumes se vão tornando mais democráticos, a mulher já aparece ao lado do homem nos festins. Mas ocupa uma espécie de trono, - trono às avessas: uma alta cadeira de espaldar, atributo da sua dignidade, ao mesmo tempo que da sua ignomínia, porque exprime toda a distância que vai do homem livre que se reclina no leito do banquete, à escrava dourada que não goza do privilégio de se igualar a ele. - Ao lado do homem, no mesmo triclínio, só uma mulher pode tomar lugar: a cortesã.
Quem é, em suma, Tarsita?
A austeridade de vida do irmão constituirá só por si garantia suficiente da sua conduta? O irmão fugira ao mundo: fugira a tudo, - à família portanto.
O semneu é uma antecâmara do céu, - exemplar e egoística. Aí deve-se praticar um a virtude estática. Possivelmente constituirá um instrumento para regeneração dos transviados também; mas à condição deles irem até o deserto pelo seu próprio pé, de renunciarem à luta ativa contra as tentações do mundo. Outra cousa certamente deverá ser esse ramo militante da seita a que pertence o tapeceiro de Tarso e que, pregando ainda a renúncia, o faz em pleno combate com o mundo e os riscos cotidianos a que ele nos expõe. Se Tarsita pertencesse a essa nova seita, muitas cousas se explicavam... As viagens, por exemplo.
E qual o interesse em que tais cousas se expliquem?
Que representa a jovem para ele? Quase nada na verdade. Sentira-lhe a sedução, não resta dúvida: bastara ter cruzado por ela na rua. E a teria esquecido de maneira total e definitiva. Mas sobreveio aquela coincidência. Ela entrou assim na sua vida como impelida pela fatalidade. Uma fatalidade amável, conduzida por seu turno pela mão dum amigo.
E esse amigo mesmo é outro mistério.
Afora seu pai, não tivera outras amizades. Não pode considerar amizade o sentimento de afeição e confiança que nutriu sempre por alguns escravos: o velho Asiata, Demétrio. Mas, claro, não são amizades para o seu espírito. A esse respeito nem o pai, apesar do seu discernimento. Nem mesmo o fino pedagogo que lhe ensinara as letras gregas, não obstante a sua cultura servil. A sua mocidade encontra-se solitária. Convive com outros moços naturalmente. Coriolano, por exemplo, é vivaz e sensato. Maduro, em suma. Mas a madureza de espírito que advinha em si-próprio anseia pelo comércio com uma alma irmã. Evandro realiza todo esse ideal? Parece-lhe. Embora às vezes julgue um tanto prematuro chegar a uma conclusão dessa ordem.
Está ele agora ali, numa cidade distante da sua terra, entre gente estranha, rodeado dessas trípodes modestas a imitar délficas, dessas selas, desse hipopódios, desses subsélios de gente pobre, - em que ele mal reconhece os móveis-modelos em que as suas linhas tomaram origem e que são como que a melancólica contrafação do conforto.
E, todavia, pela primeira vez sente-se viver.
Não dessa vida artificial dos seus livros, contaminando-se duma emoção antiga e estereotipada, que já fizera palpitar muitas almas sensíveis antes dele. Vive emoções imprevistas, que se geram em contato com uma realidade mutável, inesperada. - Ele também está mudando. Não teve dúvida em confessar isso a Evandro, porque dentre todas as sensações nebulosas que o assaltam, só esse fato permanece claro e certo.
Deseja ver Evandro ainda nesse dia, se possível nesse momento.
Principalmente porque tem o propósito de recolher logo ao seu hotel: a manhã do dia seguinte augura-lhe grande trabalho, - esse trabalho improdutivo de quem viaja e que consiste em fazer e desfazer a pousada, continuamente instalar-se, mas de modo precário, como se o perseguisse um inimigo.
Não tem a menor ideia sobre a data da sua partida de Tessalônica.
Primeiro, não dispusera de ânimo para ir até o porto colher as informações necessárias. Ou a alguma agência de navios, que deve haver, nas imediações. Depois, porque lhe faltara tempo.
Agora, nem mesmo com a solicitude um tanto vadia de Heliodoro poderá contar: talvez quando levantar do leito, fatigado por todo esse dia de atividade, já esse nômade, fútil mas simpático, esteja atravessando esse mesmo bairro suburbano, em demanda de Bereia e dos estreitos vales do sul. - Se, até Demétrio e Artemon chegarem com o medicamente, Evandro não houver aparecido, ele-Sílvio irá embora. Deixará um recado para o amigo, que Tarsita se encarregará de transmitir.
Que explicação tem essa demora de Crisócero em reaparecer?
Resolve ir até lá dentro, ao menos até o cubículo de Jair.
Encontra o médico à cabeceira do doente. O estado de Jair agravou-se, sem sombra de dúvida. Aquilo que ele tomara, a um rápido olhar, como expressão de calma, era prostração: deitado de costas, com os pés magros sobressaindo do leito, tem uma respiração estertorosa. E acha-se excessivamente pálido. A irmã está como siderada, de pé, ali perto.
- Piorou?
- Está com dispneia.
E como Sílvio revele um ar indeciso, que Crisócero toma como um signo de incompreensão, dá-se pressa em esclarecer:
- Falta de ar.
Sílvio sabe. Eles também têm isso na língua deles. Diz dum doente que sofre de falta de ar que ele está dispnóico. Ou incorre num erro?
- Absolutamente. O que me admira é a sua familiaridade com termos de medicina. Nunca pensou em fazer-se médico?
- Já - responde Sílvio com um meio sorriso.
- Ah!
- Mas como filho mais velho. Não esqueça - acrescenta, ainda sorrindo de leve - que, na tradição romana, o chefe da família desempenha, entre outras, a função de médico. Médico da casa, naturalmente.
Crisócero porém parece não estar prestando mais atenção ao que Sílvio lhe diz. Todo o seu interesse é para o paciente. Dirige-se a um canto da peça, onde se acha uma pequena mesa redonda de três pés, que absolutamente não pode pertencer ao mobiliário do cubículo e que só fora colocada aí para desempenhar um papel auxiliar no decurso da doença. - Com efeito, sobre ela já se encontram vários objetos do uso habitual numa situação dessas: moringa de barro para água, compressas, um polubro. Sílvio vê também aí os instrumentos de Crisócero, fora do seu estojo cilíndrico e espalhados sem ordem, como se já tivessem sido utilizados, alguns pelo menos.
Crisócero escolhe cuidadosamente um deles. É uma espécie de cânula. Com o objeto na mão, fica algum tempo a contemplá-lo. Depois solta-o, recolocando-o no seu lugar. Volta-se para Sílvio. Seu olhar tem uma gravidade fria, mas premente.
- Eu já devia ter praticado a dilatação da garganta. Mas não me atrevo a introduzir-lhe a sonda em condições materiais tão precárias como estas: sem luz, sem auxiliares. É uma operação delicada, como já fiz notar.
Cala-se um momento. Sílvio escuta-o com atenção, em silêncio.
- Refiro-me ao cateterismo - diz ele depois. - Penso porém que não havemos de escapar disso.
Sílvio sabe a que conclusão vai ter o raciocínio de Crisócero: o iatreu, - a necessidade duma hospitalização imediata. Não é obrigatória a baixa de Jair ao hospital comum: Crisócero poderá mandar transportá-lo para a sua clínica particular.
- Se você achar conveniente interná-lo no seu iatreu, eu penso que não há de surgir oposição por parte da família. Que dizes a isto, Tarsita?
A moça não responde. Devolve o olhar de expectação do jovem com aquele olhar que lhes é comum, a ela e à rapariga da estalagem: um olhar timidamente interrogativo, resignadamente questionador. Mas Crisócero já tinha acudido:
- Eu não possuo um alojamento próprio para esses casos. Ele necessita isolamento.
- Você supõe então...
Sílvio entretanto não pode continuar: com um gesto vivo, apenas perceptível, Crisócero corta-lhe a palavra.
O médico pede a Tarsita mais água quente. Prepara ele mesmo outra compressa úmida. Coloca-a no pescoço do doente. Como havia temido, o tempo chuvoso acarretara um aumento da pituíta, com formação de edema. Recomenda à moça que fique reparando o doente. Depois convida o amigo:
- Vamos passar.
Vai arrastando Sílvio para a saleta.
O remédio está demorando - observa o rapaz.
- É que é longe. Dentro de poucos instantes havemos de vê-los entrando com ele aí.
Realmente: ouve-se um passo na escada. Sílvio presta uma atenção aguda.
- Não, não são eles - diz Crisócero. - Talvez Evandro.
É o passo dum homem, mais ou menos descansado. Eles o seguem na sua progressão pausada escada acima. O vento desde alguns instantes começou a amainar, fazendo-se intermitente, como se fosse acabar de todo. Nos degraus de pedra, os passos são apenas um atrito de sandálias, - cadenciado, harmônico. Mas eis que atingem o tabuado do patamar. Fazem-se então mais sonoros. Aproximam-se da porta. Detêm-se. Depois, soa uma pequena pancada de bastão na madeira. Sílvio vai abrir. Depara-se-lhe uma figura austera, alta, de barba muito negra, trajando um manto guarnecido nos quatro ângulos com franjas da cor do jacinto.
Sílvio, com um esforço de memória concentrado rapidamente, como se daí deva resultar alguma cousa de muito decisivo e importante, quer recordar-se - onde terá visto aquele homem. O visitante detivera-se um momento, os olhos um tanto sonhadores presos aos seus. Ficam assim, medindo-se, em silêncio. Logo após, o indivíduo, baixando levemente o olhar e com uma voz tranquila, diz:
- Eu venho ver Jair ben Jared na hora da atribulação.
- Entre.
Sílvio fica a fechar a porta. Faz isso meio automaticamente, com a vista seguindo o homem do manto que tem guarnições nos quatro cantos. O sujeito apenas atravessa a saleta, inclinando a fronte ao passar por Crisócero, e mete-se, com seu passo cadenciado e processional, pelo interior do apartamento.
- Quem será? - indaga Sílvio.
- Um rabino.
É isso. Talvez haja passado por ele à tarde, nas imediações da sinagoga: vira, ao cruzar por ali, uma ou duas dessas figuras doutorais. Vem então ocupar o subsélio em que estivera sentado e aí se reclina. O médico acha-se na sua cadeira, sereno e meditativo.
Crisócero volta à sua ideia de praticar uma dilatação preventiva da garganta do doente. Contrariamente aos demais colegas, não tem receio da intervenção. Mas à condição de ser feita dentro dos mais rigorosos preceitos da técnica. Um dos requisitos fundamentais é poder contar com os auxiliares necessários.
- Vou mandar chamar Ascalon - diz ele, animando-se ante essa resolução e querendo fixar-se nela.
- Será que ela pode ser feita aqui?
- Vamos ver...
Crisócero assume outra vez a sua atitude meditativa.
O Terapeuta talvez morra, pensa Sílvio. Até que ponto o acontecimento poderá influir nos seus planos de viagem? Tomara, por um movimento espontâneo, talvez até irrefletido, uma parte muito ativa naquela doença. Não está arrependido. Mas deve circunscrever o seu interesse ao estritamente necessário. Talvez convenha mesmo fazê-lo baixar ao hospital.
- Eles estão aí! - exclama Crisócero, e levanta-se.
Sílvio faz o mesmo. Vão até a porta esperar os servos com a poção. O médico toma o remédio das mãos do escravo.
- Volte à cidade - ordena-lhe: - vá chamar Ascalon. Diga-lhe que venha imediatamente. E que traga Anaitide.
O escravo já vai descendo os degraus, quando Crisócero acrescenta:
- Monte o meu cavalo. Quero pressa.
Encaminha-se para o quarto de Jair. Sílvio hesita um momento, não sabendo se deverá acompanhá-lo. Por fim decide ficar ali. Reclina-se outra vez no banco.
A medicina é uma guerra, em que o inimigo a vencer está representado pela doença e pela morte, põe-se o jovem a filosofar. O médico - um estratego. E, com essa organização perfeita da arte médica dos Gregos, há até uma pequena falange, que o clínico convoca, mobiliza, concentra aqui ou ali, conforme o lugar em que se faz mais oportuno ou mais premente um golpe de mão. Crisócero reúne agora uma parcela do seu pequeno exército em torno do leito de Jair, como ao redor duma cidadela inimiga, cujas muralhas é necessário escalar, para ir esmagar o adversário que se faz forte dentro delas. Quem sabe se não está aí a explicação desse comodismo inteligente e compreensivo do médico, perante problemas terrificantes que vão levando o mundo para o seu ocaso irreparável e que Crisócero - parece pelo menos a ele-Sílvio - enxerga com uma penetração ao mesmo tempo aguda e resignada? Não lhe faltam decisão e espírito de iniciativa. Nem a continuidade na luta, que é a forma dinâmica e verdadeira da coragem. - Talvez que seja isso, mesmo: concentrando toda a sua capacidade de luta para o exercício dum mister pacífico mas agressivo, não fica mais a Crisócero - desse desejo de combate - a menor parcela disponível, a empregar noutro objetivo de idêntica natureza. Está quite com o seu dever social. Isso tranquiliza a sua consciência, como deverá tranquilizar qualquer consciência, por mais exigente. - E, em rigor, isso o absolve também da sua inação.
Sílvio, mesmo sem querer, esboça um sorriso. Está julgando Crisócero com relação à luta, à revolução... Está procurando razões para explicar a sua atitude neutra... Como se ele próprio - ele-Sílvio - estivesse decidido a ir até a luta!...
Agora repara: desde manhã - em todo esse dia demoníaco de Tessalônica - por mais variadas que tivessem sido as suas emoções, suas ideias giraram apenas em torno dum ponto: a transformação do mundo atual, - a revolução!
A essa ideia, Sílvio sente um estremecimento. Bem diferente - constata - daquele que experimentara na véspera, à sua chegada, quando do alto da colina que fecha a cidade pelo norte, divisara em pleno céu o Olimpo, majestoso e misterioso. Aquele era o estremecimento cândido da juventude. Nesse de agora sente uma cousa nova: o medo. Medo de querer. Parece-lhe que, chegado a esse ponto, não está mais em si o poder de parar...
Sílvio ergue-se. Esgazeia o olhar. Numa das paredes da peça existe uma pequena janela. Abre-lhe a folha. Quer enxergar a noite. Demais, tem curiosidade, agora que já não venta, de ver como está o tempo. Heliodoro vai partir daí a algumas horas. Possivelmente nunca mais o verá de novo, talvez nem sequer no dia seguinte. Ele segue para o sul, certamente para Mégara, a sua cidade. Quando ele-Sílvio deixar Tessalônica, mesmo viajando por terra pelo istmo, não terá oportunidade de entrar no interior da Grécia propriamente. Talvez nem mesmo realize aquele velho projeto, concebido nos seus anos de adolescente, de passar por Elêusis, assistir-lhe aos mistérios, tomar contato direto e pessoal com o culto de Diônisos, - essa plácida ocupação em que o seu espírito tanto tempo repousara e se deliciara. - Irá para Roma, o mais depressa possível...
Olha a noite. O céu, com efeito, está estrelado. Por muitos dias ainda, terão bom tempo, - fator tão importante para quem viaja, sobretudo para quem viaja por mar.
Volta outra vez para o seu banco. Deixa a janela aberta. Essa brisa que ela derrama ali na pequena peça está-lhe fazendo bem.
Mas por que tanta pressa em chegar a Roma?... Que é que ele tem a fazer lá? Por que não aproveita essa viagem para saciar uma antiga curiosidade, peculiar a todos os seus compatriotas, e ir visitando esses sítios já agora lendários, objeto de peregrinação e de devoção: os jardins da Academia, que escutaram a prédica de Platão, o divino; o Partenon, que conta eternamente no mármore a glória para sempre passada da antiga Hélada? Tem pressa... Parece que já quer ir saindo dali de Tessalônica para realizar seu famoso projeto: meter-se numa viela - num vicus - reger, como diretor de uma orquestra cacofônica, a cantilena insuportável das crianças, a soletrar em voz alta e em tumulto as palavras do seu latim silabado...
Ao ver-se essa sua pressa, qualquer pessoa diria que ele tem um compromisso... Compromisso, com quem? Com Evandro? Tolice... Evandro não vai longe. Crisócero tem razão: tese sedutora, a sua; mas inviável na prática. Quanto mais não seja, pela impossibilidade de ser dado início à campanha. Evando está visado. Pesa já sobre ele a suspeita máxima: a suspeita de lesa-majestade. Desde Tibério que esse crime perdeu as características de crime político - de simples delito de opinião - para constituir delito sagrado, contra a divindade, - contra a divindade do Imperador. - Como poderá ele escapar?
É exato que Nero não é um Tibério. Até certo ponto Nero luta por um ideal tirânico. Quer dizer: pelo mesmo ideal por que lutaram no passado os tiranos gregos, como só hoje viu através da interpretação econômica da História feita por Evandro. Ideal elevado, popular, proletário mesmo. Ameaçando substituir a oligarquia patrícia do Senado por uma legião de libertos - de antigos escravos - o Imperador surge como um verdadeiro condutor de massas, seu paladino em prol das suas reivindicações. - Mas ele não olvidará nunca que é um Domício, - um senhor. No momento mais agudo e decisivo, ficará com a sua classe - contra Evandro.
A finalidade da luta é a mais nobre e a mais prática possível: salvar o mundo moderno da ruína próxima.
Trabalho para um intelectual como Evandro.
Quem poderá estar mais interessado na preservação da civilização do que os que melhor sabem apreciá-la? E dentre esses, quem se acha em condições de gozar dos benefícios pacíficos do mundo civilizado, senão aqueles que estão concorrendo para adoçar-lhe os costumes, ou então aqueles que, nata tendo ainda podido fazer nesse sentido, como ele-Sílvio, temem pelo soçobro de tamanhas vantagens morais e espirituais?
Está claro que o mundo é obra de meia dúzia de sábios e de pensadores, que estão arrancando do peixe arcaico de Anaximandro as suas escamas embebidas de lodo marinho, atributo grosseiro da sua animalidade.
Naturalmente, como filho de pai rico, ele-Sílvio pode gozar de todos os benefícios da civilização. De todos, menos um: a ignorância de que o mundo vai acabar.
Interessante: achara graça, quando Evandro lhe anunciara que era esse o ideal - ou a certeza - daqueles maníacos, - os Terapeutas.
Mas ele têm razão sim: o mundo vai acabar, ou porque o deus deles - Iavé - venha em pessoal assolar o universo e extinguir o gênero humano para depois julgá-lo, ou porque a sociedade humana pereça espontaneamente na sua maior crise histórica.
Que extraordinária missão - extraordinária e fascinante - lutar com todas as forças para que isso não se possa realizar!
Quem sabe? com uma situação independente - se se pudesse dar uma situação independente - não estaria muito longe de acompanhar o agitador e o reformador no seu imenso sonho...
Ascalon é um indivíduo baixo, rosto redondo, barba negra e forte. Tem os olhos quase à flor da pele, - uns olhos negros, espertos, que sabem tudo. Lábios finos, recobrindo dentes regulares, miúdos, - circunstância que Sílvio não tem dificuldade em comprovar, porque o assistente de Crisócero, em rigor, não faz outra cousa senão sorrir, desde a sua chegada. É um sorriso pequeno, rápido e branco como um clarão. Talvez se possa vaticinar-lhe um pouco de obesidade para a idade provecta, olhando-se-lhe as pernas finas, o abdômen um tanto saliente.
O que, fisicamente, mais o caracteriza - no retrato que dessa figura um tanto exótica se vai fixando na consciência de Sílvio - é o hábito, aliás comum à maior parte dos homens baixos, de se empertigar quando anda ou quando fala com alguém. Ali, todos os homens são duma estatura superior á dele. Ascalon entesa o corpo um tanto arredondado, ergue a face ao máximo. A linha do dorso, da nuca, da parte posterior da cabeça forma um leve arco, com concavidade para trás. Ficas assim na frente do interlocutor, às vezes sorrindo, enquanto escuta. De resto, em pequenos detalhes da toalete, na postura, no sorriso, numa urbanidade solícita mas irônica, sente-se uma natureza um tanto ambígua. A sua presença desperta uma sensação de insegurança. - É pelo menos o sentimento que Sílvio vem experimentando, desde aqueles rápidos instantes que se seguiram à apresentação e em que ficaram a trocar pequenas palavras de amabilidade.
Já haviam passado para o quarto de Jair.
Ascalon trouxera consigo Anaitide, uma mulher ainda moça, de estatura meã, a pele morena, gorducha. Os dentes superiores acusam um certo prognatismo. Com a boca pequena, formam um focinho saliente de roedor. Ela pouco ergue os olhos, - numa atitude que à primeira vista poderia confundir-se com a da pudicícia.
Sílvio acha que Ascalon dá uma atenção superficial à exposição que, do caso, vai fazendo Crisócero.
Por uma ou outra vez interrompe o relato do clínico, para colocar alguma observação fortuita sobre Roma, sobre a sua estada em Roma. São observações dirigidas a Sílvio. Nessas ocasiões, Ascalon volta-se para ele-Sílvio, - invariavelmente abrindo, na face morena recoberta da sua barba preta, a fenda clara e curta do seu sorriso.
Ascalon concorda com tudo quanto Crisócero declara ou propõe, mas não sem antes levantar objeções sorridente, às vezes irônicas, que entretanto ele não conduz a uma resultado conclusivo e que não se reúnem num corpo de ideias.
Assim sobre o diagnóstico. Está primeiro de acordo em que se trata duma esquinência comum, violenta talvez. Mas tem a habilidade de deixar pairando uma dúvida.
Quando porém Crisócero levantou a hipótese de úlcera siríaca, a princípio traiu a sua surpresa por uma leve expressão dos olhos, que ficaram mais arredondados, mais à flor do rosto, momentaneamente atentos. Isso porém foi rápido. Já ele está sorrindo. Só esse sorriso parece já depor a favor da benignidade do caso.
- Talvez não se deva ir tão longe assim.
E acrescenta, atirando outra vez para o colega, como o harpasto ou a pagânica que se jogam nas palestras, atirando a dúvida fundada que o outro formulara:
- Ou não é também o que você pensa?...
Sílvio olha para os dois.
À frente daquela figurinha meio obesa e irrequieta, Crisócero tem a expressão dum homem que curva o dorso ante uma situação difícil e sob o peso de enorme responsabilidade, sem perspectiva de partilhá-las com ninguém. Toda a atenção de Sílvio, carregada de ansiedade e expectativa, converge para esse momento conflituoso. E, na realidade, não é mais do que um momento: vê que o médio endireita o busto, arma-se outra vez da sua decisão:
- Vamos fazer a laringotomia!
- Quê?!...
Ascalon parece mais assustado do que mesmo surpreso ou decepcionado.
Crisócero traz o colega para o canto da peça, para o lugar onde se acha a pequena trípode com os seus instrumentos cirúrgicos. Sílvio também se acerca. Ele baixa a voz. Diz:
- Eu raramente me engano. A ulceração das tonsilas é discreta. Foi isso que me desviou, num primeiro momento, do verdadeiro diagnóstico. O mal está mais abaixo: no laringe. Não há tempo a perder. O doente acha-se dispnóico, quase sufocado. Vós podeis ver.
Com efeito, Jair ben Jared estertora, recoberto dum suor viscoso, agônico. Tarsita achatara-se contra uma parede, lívida, trêmula. O rabino, junto do leito, ora.
Crisócero continua:
- Não há cuidados especiais: é uma operação de extrema urgência. Eu só quero luz, - muita luz. Vamos! Anaitide, mexa-se! Prepare compressas. Você, Ascalon, me alcança os instrumentos.
Ergue os olhos para Sílvio. Abranda a voz:
- Tu também vai me ajudar, Lúcio Sílvio.
- Naturalmente.
- Ah! bem. Começa então tocando para fora do quarto a irmã e esse rabino.
Sílvio dirige-se à moça, enquanto os dois médicos fazem os necessários preparativos para a intervenção.
- Você vai ter paciência, Tarsita...
- Eu também quero ajudar.
Sílvio reflete um breve instante.
- Pois sim. Mas então convida o rabino a se retirar.
Assim que as disposições preliminares são ultimadas, Crisócero, com a sua equipe, toma posição em torno do doente.
O grabato - fixado à parede - não oferece praticamente senão um lado de acesso. É portanto indispensável remover o doente. Sílvio encarrega-se disso, auxiliado pela irmã do Terapeuta. Alçam-no pelas axilas. Crisócero acompanha a manobra com uma impaciência apenas contida. Ascalon, a seu lado, já agora sem o seu sorriso, levanta outra objeção, vacilante:
- A laringotomia foi abandonada...
- Onde?
Criscósero retira os olhos do doente e do trabalho que aqueles auxiliares de fortuna estão executando e os depõe por um rápido momento na cara atemorizada do assistente. Ascalon responde:
- Em Roma.
O clínico dá de ombros.
- Anaitide! - exclama, ao ver a lentidão com que ela se desincumbe da sua tarefa - Você está com sono? Por que não ficou em casa dormindo?
- Não estou com sono, não.
- Pois parece.
O grande corpo magro do anacoreta é um fardo mole e pesado nos braços de Sílvio.
- Olhe! - diz Crisócero para Anaitide. - Deixe isso aí. Vá dar uma mão a Lúcio Sílvio.
A enfermeira prepara-se morosamente para fazê-lo, quando eles veem assomar à porta um moço. Tem as feições longas, delicadas. Olha para aquele grupo com uma atenção um tanto apreensiva.
- Passe: venha nos ajudar também - diz-lhe Crisócero.
Ele avança.
- Então não precisa mais? - pergunta Anaitide, afunilando mais ainda o seu focinho enjoado de animal roedor.
- Não. Ocupe-se do seu serviço.
O desconhecido aproxima-se de Sílvio. Com cuidado, com ternura até, põe-se a auxiliá-lo a erguer o doente e colocá-lo numa posição mais favorável. Crisócero adverte-lhes:
- Evitem respirar o mesmo ar do paciente. Fique um pouco para trás.
Volta-se para Ascalon:
- A laringotomia foi então abandonada em Roma?
Agora, é Crisócero que sorri. Mas um sorriso muito diferente.
- Possivelmente por algum motivo outro, que não a dificuldade da operação em si mesma. Trata-se de cousa simples, você vai ver.
Ascalon nada diz. Tem o seu olhar redondo e superficial colado na face do seu superior.
Crisócero ajeita melhor o doente. Dá uma última demão no trabalho dos dois moços. Desde que o desconhecido entrou ali, Tarsita vem se encarregando da luz. Com um movimento rápido, que não se poderia esperar de quem um momento antes se mostrava como aniquilada, sai do quarto, voltando logo depois com outra lâmpada.
- Ah! agora melhorou! - são as palavras com que Crisócero saúda esse valioso concurso duma lâmpada suplementar. E nada mais diz até o final da operação.
Sílvio está maravilhado. Não pelo ato cirúrgico em si mesmo. Foi tão rápido! Uma simples incisão, depois a introdução violenta duma cânula, que ao romper as cartilagens da garganta, faz um ruído seco, quase rangente. Segue-se um silvo alto, prolongado, sonoro, como o esguicho dum fluido há muito contido e que criticamente se liberta por fim: é o ar, - a vida, que entra de novo no peito do doente.
- Pronto! Vamos agora fixar a cânula - diz Crisócero. - Vamos fazer isso com uma compressa fina. Ela servirá também para filtrar e purificar o ar. Me dê uma aqui, Anaitide.
Ascalon apressa-se em tomar das mãos da enfermeira a compressa que o cirurgião pediu e alcança-lha.
- Muito bem - faz Crisócero.
E voltando-se para o paciente, que se recupera lentamente nos braços dos dois moços, pergunta:
- Como se sente agora? Melhor? Não fale! Responda com um gesto.
Jair inclina penosamente a cabeça. Crisócero olha-o com atenção insistente.
- Deitai-o de novo. Olhe, menina - acrescente, voltando-se para Tarsita - eu quero ministrar-lhe outra dose da poção.
Com a própria mão põe-lhe o remédio na boca.
- Ele agora vai dormir.
Dirige-se a Sílvio e ao rapaz que o auxiliou:
- Deixai-o agora aí. Anaitide! Venha tomar conta do doente.
Os moços afastam-se lentamente de junto do leito.
- Precisamos nos lavar - recomenda Crisócero.
E com um sorriso levemente sarcástico acrescenta, apontando para o seu assistente:
- Ascalon não necessita de ablução. Não tem do que se purificar...
*
Quando chegam à saleta, já Ascalon está também com o seu acicate apresilhado. Só que não é no calcanhar como o de Crisócero, mas na face: aquele sorrido acerado, capaz de, com a continuidade dos seus pequenos golpes, ferir e abrir lanhos, - do que é preciso a gente se precaver, como reflete Sílvio.
A comparação fizera-a o jovem contemplar a espora no pé esquerdo de Crisócero.
Esse pequeno objeto, tão familiar - sobretudo para quem como ele habita uma região pastoril - e que ele esquecera inteiramente, parece não ter significado ali, - onde se praticou qualquer cousa de surpreendente, de novo, de altamente civilizado.
- Você não teme as complicações da laringotomia? - indaga Ascalon, aplicando no rosto de Crisócero, como dois acicates agudos, os seus olhos exteriorizados, - que também sorriem.
O cirurgião tinha sentado na sua sela de dobrar. Passa de leve a mão sobre o coxim, feito dum pano de cores vivas, tão ao gosto dos Orientais. Tem o olhar abaixado, - terno e sonhador. Demora na resposta. Por fim observa:
- Você devia ter dito os acidentes.
Cala-se um instante.
- Os acidentes, sim, são de temer.
Ascalon escuta-o com toda a sua capacidade de ironia.
Crisócero:
- Um conhecimento anatômico perfeito da região é naturalmente imprescindível. Mas isso mesmo não é difícil conseguir.
Suspende-se ainda uma vez:
- Complicações?... - repete, como que encampando a dúvida do outro. - Não. O maior inimigo no caso seria a pituíta, de que aliás ele teve a primeira das manifestações: o edema. Mas o verão é contrário à sua natureza.
Ergue a cabeça. Com o olhar, girando um pouco o corpo, procura a pequena janela, que Sílvio deixara aberta. Através dela vê-se um belo céu noturno, com grandes estrelas faiscando e palpitando.
- Eu temi - continua - que a chuvarada pudesse saturar de umidade o ar. Mas esse perigo passou.
- Sim, esse perigo parece ter passado - concorda Ascalon, com o seu sorriso.
- Agora, é esperar a obra da natureza.
O desconhecido que chegara no quarto em momento tão oportuno, a tempo de prestam também o seu auxílio naquele combate travado em torno do leito de Jair, traz ainda no rosto um brilho da luta. É a excitação dum temor superado. Sílvio nota-o perfeitamente.
Quer estudar-lhe bem as feições. Observara, naqueles momentos decisivos da refrega, por uma ou outra palavra, por um ou outro gesto, que um conhecimento antigo, uma intimidade existiam entre ele e a moça.
Será da família o rapaz? Irmãos?
Os seus traços em nada lembram os de Tarsita. E, a não ser o rosto um pouco longo, não tem ele também maior parecença com o Terapeuta. É um moço oriental, de olhos ternos, inteligentes, - os olhos de Tarsita. De Tarsita, da puela da estalagem, de um imensa maioria de pessoas, que ele-Sílvio pode reunir numa ou duas categorias apenas: os humildes, os sonhadores. - Não constitui isso um critério distintivo pois.
Será então o noivo? Mas a moça não é dali. Acha-se estabelecida em Alexandria, vem a Tessalônica periodicamente (ou esporadicamente) trazida por um simples dever filial. Demais, ela parece ser sozinha.
Haviam todos tomado assento. Sentado na sua cadeira, junto da trípode, Crisócero agora, com a mesma mão que alisara num gesto automático o coxim de cores vivas da sela, enquanto comentava a operação com Ascalon, com essa mão sonhadora acaricia o estranho bibelô - a tíade de terracota - que ornamenta a parte inferior do consolo.
Curioso. Naquela vasto bairro judeu, que Sílvio cruzara nesse dia por mais de uma vez, talvez não possa encontrar duas esculturas assim. Não só porque se trate dum objeto raro, evidentemente dum lavor antigo: mas porque os Judeus votam um horror supersticioso e irracional à representação plástica de qualquer figura humana. E o bibelô reproduz, ainda por cima, a figura duma divindade pagã. - Como foi aquilo parar ali?
Sílvio ocupou o seu antigo banco. Apenas, agora, não poderá reclinar-se sobre ele: Ascalon tomara assento a seu lado. O jovem desconhecido acocorara-se sobre um tamborete, - o mesmo que servira, antes, para o Terapeuta descansar os pés e que fora transportado para a saleta, sem que Sílvio desse por tal.
Sílvio já venceu a curiosidade de saber quem é o rapaz. É quase alarmante esse seu desinteresse pelas pessoas. Não notara antes, quando vivia apenas para a família (no sentido amplo que lhe dá a sua gente, compreendendo os parentes, a clientela, os fâmulos) - e para os livros. Mas, há pelo menos vinte e quatro horas que ele está vivendo mesmo, vivendo entre gente viva, atual, de carne e osso, com o poder de imprimir no solo a sua passagem.
Não pode deixar de sorrir à lembrança daquele incidente, não muito antigo aliás. Coriolano encabulara. Quis mesmo ensaiar uma reprimenda à noiva pela sua indiscrição. O caso é que ela, num desses assomos de ternura jovial, de franqueza decisiva com que se resolvem duma vez por todas pequenas incompreensões e se chega a um entendimento por uma denúncia amável, num desses momentos, a irmã fez a revelação.
Não tinha maior importância, naturalmente.
Ela e o noivo costumavam visitá-lo. Encontravam-no invariavelmente recostado no seu leito de trabalho - no leito lucubratório - lendo ou escrevendo. Ele enrolava o livro ou largava o estilete. Eram-lhe instantes duma grande satisfação, serena e balsâmica. Mas a visita durava pouco. Sempre Coriolano tinha algo a fazer, precisamente naquela hora. Convidava a noiva para saírem. E lá se iam, deixando-o outra vez só. E num vazio, se bem que passageiro: esse intervalo curto em que perdia aquela realidade da companhia dos noivos e ainda não se abismara de novo na realidade fictícia daquele mundo que os seus livros lhe proporcionavam.
“ - Isto aqui é tudo gente morta. Vamos embora” - dizia baixinho Coriolano à moça.
Referia-se àquela humanidade dos livros que Sílvio lia. Quem não estaria mesmo morto num livro de Homero?...
Foi o que a irmã depois contou. E na frente de todos. Dito assim à distância e quando uma nova vida se ia abrir para ela, vida em que todos participavam: o noivo, o irmão, aquela indiscrição tinha um motivo. Não claro, mas mesmo assim um motivo, uma razão: um maior entendimento, uma reconciliação entre qualidades positivas, embora opostas. - Porque enfim ele julgava lícito gostar de literatura, de história ou de filosofia, das cousas do pensamento em suma, tanto quanto admitia como justo também aquele entusiasmo de Coriolano pela terra, pela vinha.
Mas a verdade é que Tessalônica lhe revelou a verdadeira vida. Possivelmente porque aquela humanidade dos seus pergaminhos e papiros não estava morta apenas para Coriolano e os outros: mas também para ele. De resto, o mundo que de mais perto o cerca sempre o interessou. E em certos casos duma maneira absorvente quase.
Quase... Aí é que está o mal. Só agora é que vê, porque só agora enfrenta os prazeres ou os sofrimentos - as emoções, numa palavra - que a realidade dá. - E por que então não quer mais saber se esse jovem oriental, esse desconhecido de olhos lânguidos também, é o... noivo de Tarsita? Despeito? Ciúme?
Sorri. “ - Não faltava mais nada” - diz de si para si. E depois, em voz alta e resoluta, dirigindo ao rapaz:
- Você é da família?
- Não: sou vizinho deles.
É isso. Mas a qualidade de vizinho, embora declinada duma maneira tranquila, indiferente, não exclui a hipótese dele e da moça serem noivos. Não quer entretanto averiguar isso: o impulso passou. E não é indeferentismo, não. Vem-lhe como que aquela antiga certeza: Tarsita é sozinha.
- Conhece essa gente há muito tempo?
É Crisócero quem formula a pergunta. Mas o mais interessado na resposta parece ser Ascalon.
O rapaz sorri. Se os conhece há muito tempo? Sim. Sempre morou no bairro. E a mãe dos Jared também. Embora ele não seja Judeu:
- A minha família é natural da Síria.
- Ahn!
- Como é o seu nome? - indaga Ascalon.
- Soêmio.
- Onde trabalha?
- Aqui mesmo.
Sômeio sorri enquanto fala. Explica que possui uma das tabernas do pavimento térreo daquele mesmo edifício. E cala-se.
Ascalon porém quer saber mais:
- Pertence à religião judaica?
Os olhos do Sírio perdem por um instante o seu langor quase feminino. Com um brilho de atenção despertada, como à aproximação dum perigo, fixam-se no rosto do seu interlocutor. Ascalon tem a face imóvel, fria. E espera.
- Bem - faz o outro, desviando o olhar e procurando dar um tom de naturalidade à sua resposta. - A minha família sempre foi religiosa. Na Síria cultuava o seu deus local.
Detém-se. Reflete. Depois termina:
- Mas essa divindade não é o deus dos Judeus.
Faz-se um silêncio. Soêmio ergue o rosto. Passa os olhos por todos os circunstantes. Seu olhar volta àquela ternura tranquila e boa das pessoas da sua raça. Acaba por exibir o seu meio-sorriso. E, como se toda prudência, todo temor hajam desaparecido subitamente, decide-se a uma confissão. Faz a confissão principalmente a Ascalon, que, entretanto, parece ter-se dado por satisfeito com a resposta e tem o ar de quem não espera mais nada, - embora a sua fisionomia não haja perdido ainda aquela expressão de acuidade fria, de interrogatório, com que antes se dirigiu ao rapaz.
A família dele fora com efeito tocada da sua terra, em consequência dessas querelas que às vezes surgiam entre as autoridades romanas das províncias. O governador, para hostilizar o delegado do Senado para o ultrama, favorecia todas a licenciosidades aos seus soldados, permitindo inclusive que eles assolassem os campos. Muitos Sírios abandonaram as suas terras, indo para Roma. Aí os esperavam novos dissabores: sendo cônsules M. Silano e L. Norbano, sob o reinado de Tibério, uma perseguição se desencadeou sobre os Orientais. Os homens em idade militar forma arrolados para servir contra os bandidos que infestavam a Sardenha. Era um estratagema: levando-os para um clima inóspito, o governo o que pretendia era desembaraçar-se duma gente, acusada de se achar infectada das superstições egípcias e judaicas. Muitos foram obrigados a renegar os seu ritos profanos. Alguns receberam intimação de deixar o país.
- A minha família optou por essa última alternativa. Veio para Tessalônica há mais de oitenta anos. Eu nasci aqui.
- E a sua família continuou fiel aos antigos ritos? - pergunta Ascalon, depois do silência que se segui às últimas palavras de Soêmio. E dá-se pressa em acrescentar, com uma expressão de compreensão e de cortesia:
- Creio que se trata duma religião solar...
O sírio não responde imediatamente.
- Não - diz por fim. - Novas terras, novas divindades. Ela acabou por adotar o judaísmo.
- E você? - pergunta Ascalon, sorrindo, mas com a precipitação de quem vibra uma estocada.
O moço vai atender à pergunta, quando assoma à porta a figura alta e austera do rabino. Ele relanceia o olhar para Crisócero, que tem o ar fatigado, sonolento. Depois encara por um instante Sílvio. Depõe mais demoradamente os olhos em Ascalon. Finalmente, fitando Soêmio, que ocupa o seu tamborete baixo - o seu hipopódio - e que dá antes a impressão de se achar agachado no assoalho, diz com autoridade:
- Levante-se daí: estão precisando de você lá dentro.
E retira-se. Soêmio segue-o.
Crisócero tem um riso largo:
- Esse sujeito estragou o seu interrogatório.
Ascalon sorri. Desculpa-se:
- Eu me interesso por essas doutrinas orientais.
- É certo - comenta Crisócero - que essas novas religiões vão conquistando o Império.
- Mas o judaísmo não é uma religião nova - acode Ascalon.
- Não, não é. Mas só ultimamente vem-se difundindo no Ocidente. E está ganhando muitos aderentes, - muitos prosélitos ou tementes a Deus, como eles denominam os crentes que não pertencem à sua nação. Principalmente mulheres. Olhe - acrescenta o médico com alguma vivacidade: - Aqui mesmo em Tessalônica já uma boa parte da população observa o sábado.
Volta-se para Sílvio:
- E sabe como? Até certo ponto, devido a uma violência.
- Violência?...
- Bom: é um modo de dizer. Mas o comércio está em grande parte monopolizado pelos Israelitas. Principalmente num bairro populoso como este. Eles aos sábados se eximem de toda e qualquer atividade. Não abrem as suas portas, nada vendem. E obrigam a freguesia a nada comprar. Assim, a vida - pelo menos a vida comercial - cessa nesse dia. A maioria da população observa o descanso sabático, tanto como se estivesse obrigada às imposições da lei mosaica.
- Mas isso é uma tirania - intervém Ascalon.
Crisócero faz um gesto displicente.
- O estado tolera-os e tolera as suas práticas - observa. - Como não ignora que eles canalizam de todo o Império uma boa soma em dinheiro, como tributo pago ao templo de Jerusalém. Permitir a saída dum dinheiro que leva essa finalidade, não é sancionar a sua religião?
Calas-se. Segue-se um silêncio. Depois, o médico, retomando o assunto:
- O mundo moderno, mais particularmente o mundo romano, se debate numa grande contradição. Eu venho às vezes refletindo nisso.
Suspende-se. Desvia os olhos dos seus interlocutores. Seu olhar vai cair casualmente sobre a pequena tíade que dança aligeramente para o seu deus, complacente e paternal. Observa:
- Por que cargas d’água, veio parar aqui esta bacante, a rebolar a perna, como uma Andaluza, para as barbas frisadas e sensuais de Diônisos?
Fica a considerar demoradamente o pequeno grupo. Remata:
- Até parece que esses Judeus não leram o Pentateuco: “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma...”
- Mas talvez este grupo não tenha sido feito por Judeus - obtempera Ascalon.
- Ah! nem resta dúvida.
Crisócero acompanha com o dedo as linhas ágeis da pequena bailarina e diz:
- Isto é um trabalho clássico. Só os antigos Gregos poderiam ter posto tanta vida em tão pequena porção de barro.
Dirigindo-se a Sílvio:
- Você não gosta do gênero bibelô? Eu o adoro.
O rapaz limita-se a sorrir, com simpatia.
- Mas você estava falando na contradição em que se debate o Império - relembra Ascalon, convidando o seu superior a continuar.
- É exato. Roma, pela exclusiva qualidade de cidade, de cidade antiga, a mais importante organização urbana do passado, conquistou o universo. Transformou-se assim num Império, mundial, cosmopolita, - católico em suma. O seu cosmopolitismo - o seu catolicismo - passou a ser a regra e a sua força. Deu mesmo o cunho distintivo à nossa civilização, à civilização contemporânea. Mas Roma não perdeu os caracteres próprios e limitados de cidade, - com os seus particularismos, um egoísmo estreito, que cabe inteiro dentro seu recinto fortificado, - dessa muralha isoladora que, segundo dizem, lhe traçou Sérvio Túlio, como que para a defender do contágio dos outros povos. Mas, submetendo esses povos ao seu poder, ela pulo o muro de Sérvio túlio. Pulou o muro, não riam. Antes o tivesse derrubado, para que a Cidade se diluísse lentamente no campo romano, na Itália depois, finalmente nas províncias.
- E não foi isso que ela fez?
- Não. Roma ficou ao mesmo tempo um estado municipal e um estado católico. Com instituições urbanas e instituições imperiais. E que se contradizem e até se chocam. È o caso dos Judeus: o seu culto em Roma constitui uma afronta ao Imperador, que representa a divindade suprema, porque é o deus urbano por excelência. E nem Nero Cláudio Céscar nem a sua polícia admitem tal competição. Mas noutros lugares, em Tessalônica por exemplo, os Israelitas são livres de honrar Iavé, com exclusão de todos os demais deuses - mesmo do Imperador-deus - por isso que eles o consideram único. Demais, a sua proibição é formal: “Não terás deuses estrangeiros diante de mim.”
- Você conhece bem os livros dos Judeus...
- Possuo o trabalho dos setenta e dois tradutores gregos da Bíblia.
*
Essa tradução grega da Lei dos Judeus tinha andado nas mãos de Sílvio. Mas ele a considerou de leitura enfadonha. É o que, com toda a franqueza, confessa a Crisócero.
- Sim - concorda o clínico. - Mas contém igualmente muita matéria para reflexão. Sobretudo para os médicos. No Pentateuco - acrescenta reflexivamente - há um verdadeiro código de higiene, que bem revela o adianto da medicina pública na antiguidade.
Ascalon empertiga o busto. Seus olhos esfuzilam. Diz, virando-se para Sílvio:
- Eu deixou Roma contaminada duma nova febre. Febre maligna.
Sorri, quando seria de se esperar (segundo Sílvio) uma expressão de consternação diante duma calamidade à vista... Crisócero mete na cara do assistente um olhar indagador:
- Que é que está querendo dizer? - pergunta-lhe.
- Refiro-me a uma nova superstição judaica, - a dos cristãos. A polícia romana interceptou uma epístola de um deles - um dos chefes - em que havia uma alusão comprometedora ao Palatino. E ao próprio Imperador. Não sabe do caso? - interroga, dirigindo-se a Sílvio e dando um caráter ostensivamente irônico ao seu eterno sorriso.
Sílvio abana negativamente a cabeça:
- Tenho mesmo umas ideias muito vagas sobre o que sejam os cristãos.
Crisócero volta-se para ele, admirado:
- Os partidários do Messias, - o Ungido! Os Judeus estão às voltas com esse problemas, que, sob a forma dum cisma, estourou em pleno seio da sinagoga.
Cala-se um momento.
- Mas, enfim, não me espanta que não houvesse tomado um pleno conhecimento da questão. Eu mesmo vim a ter contato com ela duma maneira fortuita.
Suspende-se. E, retomando a sua habitual serenidade, remata:
- Duma maneira puramente profissional.
- É interessante - comenta Ascalon.
- Como foi? - quer saber Sílvio.
Crisócero não responde imediatamente. Ergue a cabeça, procurando escutar um ruído que se faz ouvir para os lados do quarto do doente.
- Que é que há? - pergunta Sílvio.
Ascalon também presta atenção. Crisócero ergue-se.
- Deixem-me ver - diz.
E sai. Segue-se um silêncio. Sílvio, depois, a Ascalon:
- Bem grave, o caso de Jair.
- Não escapa.
Mas Crisócero daí um momento volta. Não era nada, felizmente. O Terapeuta repousa.
- Tranquilo? - faz Ascalon.
É para Sílvio, que interroga a face do médico com o olhar, que ele responde:
- Tanto quanto possível, dentro da grave crise em que se debate.
Senta-se de novo.
- Mas, como ia dizendo - prossegue: o primeiro cristão com que falei foi um colega.
Sorrisos.
- Com um médico sim. E muito inteligente. Chama-se Lucas. Creio que clinicou muito tempo em Filipes. Ele aqui se apresentou com o nome romanizado: Lucano. De fato é um Macedônio, como a mim mesmo confessou.
Pára. Vendo um certo desinteresse pela sua narrativa, acrescenta:
- Nem sei mesmo por que é que estou roubando-vos o tempo com essa história.
Sílvio agora, recostado contra a parede, meio dormita, exausto com esse dia tão movimentado. Deve ser tarde.
- E o que é que disse o médico sobre a superstição cristã? - pergunta Ascalon.
- Nós pouco falamos sobre essas cousas. Ele veio me procurar no hospital, para onde baixara um dos seus correligionários que havia sido ferido numa rixa entre Judeus.
- Quando foi isso? - quer saber Ascalon.
- Ah! faz perto de uns doze ou treze anos.
- E você não esqueceu o fato... - comenta o outro, com um sorriso de insinuação.
Crisócero, tranquilamente:
- Havia um motivo.
Ascalon arregala mais os seus olhos, de si exorbitados.
- Ouça isso, Lúcio Sílvio - faz Crisócero, pondo, num gesto clássico, a mão no joelho do jovem, procurando espertá-lo. Sílvio encara-o com atenção. Crisócero continua:
- Tinha passado por aqui um missionário judeu, acompanhado de discípulos, numa caravana piedosa. Claro que eu não tomei conhecimento de nada disso. Depois é que vim a saber que ele já estivera em Filipes. Por toda parte provocava atritos entre os seus correligionários. Para falar a verdade, numa ou noutra casa que eu já visitava nesses começos da clínica, eu ouvia referências calorosas das mulheres a essas seitas judaicas. Devo observar - acrescenta noutro tom - que a adesão das principais senhoras de Tessalônica aos cultos orientais, principalmente ao dos Judeus e ao dos cristãos e que tanto preocupa a sociedade no momento, não é um fenômeno de agora, mas um fato antigo. Data pelo menos daquele tempo, se não é mesmo mais remoto.
- Sim. Mas depois?
- Bem. Por questões de doutrina, relacionadas ao que eu soube mais tarde, com o grande problema nacional dos Judeus da vinda do Messias, tinha estalado uma vasta desordem, aqui ou em Bereia - não me lembro bem - entre os componentes da missão e os seus correligionários locais. Houve violências físicas. Um dos participantes do conflito deu entrada no hospital em estado grave. Eu não perdia ocasião - você sabe o que é medico novo (diz, dirigindo-se a Ascalon) - eu não perdia oportunidade para ver essas casos de hospital. Dedicava-me. Comecei a tratar do paciente. Era um homem de meia-idade, não de todo desconhecido para mim, pois já cruzara por ele em qualquer parte da cidade, - na rua, na ágora, talvez aqui mesmo no seu bairro. Ele depois me disse o nome por que era conhecido: o Syrus. No primeiro momento tomei como um nome próprio. Mas enganei-me. Era uma denominação genérica, que no mundo romano significa o Oriental.
Desde havia alguns momentos, Soêmio, que retornara à saleta, veio de novo ocupar, sem ruído, o seu pequeno tamborete, - e aí quedou-se a ouvir, calado.
- E era esse o paciente pelo qual se interessava o médico cristão? - pergunta Ascalon.
Crisócero move afirmativamente a cabeça:
- Era. A doença do Syrus apresentou aquelas alternativas de melhoras e pioras que a gente está acostumado a presenciar nessas afecções cirúrgicas.
- Qual era o caso dele? - quer saber o auxiliar de Crisócero.
- Ferimento com putrefação do sangue.
- Grave - faz Ascalon.
- Mortal. Mas - continua o médico - nos momentos de acalmia o Sírio falava comigo. Negava que houvesse aceitado - como o supunham os seus patrícios - a nova seita. Limitara-se a estudar as revelações do missionário sobre a volta do Messias, em face das Escrituras. Fizera-lhe interpelações. Isso levara a suspeitar mais do que um simples interesse dogmático: tomavam-no como cristão. Assim pensara Lucas, o médico, que se tocara de Filipes logo que soubera dos motins e que ainda chegara a tempo de vê-lo com vida no iatreu. O missionário já havia fugido.
- Quem era ele?
- Quem? o missionário?...
- Sim.
- Paulo de Tarso.
A esse nome, Sílvio tem um prisco.
- Que é? - pergunta-lhe Crisócero.
- Nada. Continue.
Não há muito mais cousas a acrescentar. Lucas, om édico, voltara para os seus doentes em Filipes. Nunca mais ouvira falar nele. Talvez nem mais exista.
Segue-se uma breve pausa meditativa.
- É um nome a reter - comenta Ascalon depois. Mas ninguém parece atinar com o sentido que por ventura possa ter a observação.
Sílvio espertou de todo. Ao girar o olhar brilhante sobre todos os presentes, vai dar com os olhos também agrandados, também despertos, do jovem Soêmio, - o Sírio.
Mas Ascalon já está perguntando:
- E o colega de Filipes não se abriu com você?
- Não, como disse. Deu-me a impressão dum moço muito reservado.
- Espere! - acode Ascalon, vivamente. - QUando eu deixei Roma há três anos, já Paulo de Tarso havia chegado preso à Cidade. E acompanhava-o um sujeito chamado Lucano. Agora me recordo. Deve ser esse mesmo.
- Há de ser o mesmo, sim.
Sílvio mexe-se no banco.
- Mas eu não estou compreendendo - diz. - Esse Paulo de Tarso não andou ultimamente por aqui?
- Quem é que contou isso a você - pergunta Ascalon.
Seu interesse traduz tamanho calor, que Sílvio hesita, invadido subitamente por uma suspeita. Procura mostrar-se prudente, discreto. Responde por uma evasiva:
- Já não me lembro quem. Foi na ágora...
- Evandro?...
Enquanto o jvem Romano procura rapidamente uma respostas, Crisócero intervém:
- Talvez fosse Evandro.
- É possível - confirma Sílvio, assumindo um ar de indiferença.
Ouve-se então a voz de Soêmio, o Sírio. Num tom descansado, límpido, ele deixa cair estas palavras, que ficam ressoando sobre o breve silêncio apreensivo que se abatera sobre a pequena peça:
- Faz sete anos que Paulo de Tarso, chamado Apóstolo, esteve a última vez entre nós.
Todos voltam-se para ele. O jovem tem um ar de beatitude, de êxtase. Parece ter recordado a passagem, na terra, de um deus.
Por um momento Ascalon fica interditado, os olhos grandes, a face mais pálida, através da sua barba preta e curta. Já abre porém os lábio finos, para sorrir, para falar. - É entretanto interrompido pela chegada do rabino.
Crisócero ergue os olhos para o sujeito:
- ALguma novidade com Jair ben Jared?
Todos prestam atenção.
Não, nenhuma novidade, explica o doutor. Vem ali para descansar um pouco, palestrar. Estivera quase que todo aquele tempo imerso em meditação.
Soêmio adianta-se:
- Deixai que eu vô-lo apresente: é meu tio, irmão de minha mãe - o rabi Judas Nabateu.
Há saudações.
Sílvio quer dar o seu lugar a Judas Nabateu. Mas ele não aceita. Com humildade, vai ocupar o hipopódio em que se achara sentado o sobrinho e que este lhe oferece. Soêmio acocora-se no chão, ao seu lado.
- Não interrompo - diz o rabi, incitando-os com um gesto polido, embora grave, a reencetar a palestra.
- Estávamos exatamente a versar cousas da sua especialidade - começa dizendo Ascalon com o seu sorriso. - A propósito do que eu vi em Roma, quando a deixei há três anos.
Judas Nabateu olha-o com atenção. Depois encara o sobrinho, interrogativamente. Este então esclarece:
- Eu ia aludir ao apostolado de Paulo de Tarso entre os gentios de Tessalônica.
O rabino fecha a cara:
- Não me falem desse demônico - suplica.
Sílvio não sabe que pensar de tudo isso. Como Evandro - de quem aliás haurira tudo quanto conhecia sobre essa personalidade - tinha-o como um Terapeuta, dum ramo diferente sim - o ramo militante. Agora o vê identificado com os cristãos, sobre os quais de resto tem um conhecimento muito vago, muito incompleto. E não como um simples elemento de massa, - mas um chefe.
Arrisca uma pergunta:
- Paulo de Tarso não percente à mesma seita de Jair ben Jared? Não é também um Terapeuta do Egito?
Ascalon tem um sorriso desdenhoso. É uma confusão que se faz. E com muita frequência. Mas a verdade é que os Terapeutas do lago Mareótis e os cristãos constituem duas seitas distintas, embora provenham dum ramo comum: os Essênios.
- Quem descreve o estranho gênero de vida dos Terapeutas do Egito foi Fílon, o Judeu grego de Alexandria.
Faz-se um breve silêncio. Depois, Crisócero, interpelando-o:
- Quem é esse Fílon?
- Um filósofo alexandrino da nação dos Judeus. Nunca leu nada dele?
- Não.
- Vale a pena.
- Que escreve ele?
Ascalon olha para suas mãos pequenas e gorduchas, que havia retirado de dentro do himátion e cruzara momentaneamente sobre o ventre. Logo após, responde:
- Fílon escreveu muito. Mas o que é interessante é conhecer a sua filosofia.
- Será que se encontram as obras delas nas livrarias?
Ascalon tem um sorriso superio:
- Mas naturalmente.
- Vou comprá-las - faz Crisócero, e cala-se.
A filosofia de Fílon, esclarece Ascalon, é uma tentativa de aplicação da metafísica dos Gregos ao judaísmo, num esforço de dar uma interpretação ocidental aos seus mitos...
Nessa altura, o rabi Judas Nabateu levanta gravemente a mão, como pedindo vênia para um aparte. Ascalon interrompe-se, encara-o, pergunta-lhe:
- Deseja dizer alguma cousa?
- Sim.
Ascalon fica esperando, meio da atenção geral.
- Queria observar apenas que Fílon não é original nesse seu trabalho, - ingrato e destrutivo. Antes dele, já muitos outros espíritos irrequietos da minha nação haviam tentado om esmo. E com igual resultado: as suas pseudo-especulações caíram em terreno sáfaro. Não germinaram.
- É possível. Mas o que quero assinalar - continua Ascalon - é que Fílon encara o deus dos Judeus como uma divindade cindida em várias hipóstases.
- Como o nosso Diônisos então - observa Crisócero - Este! - acentual, indicando com o dedo a pequena figura de terracota.
- Exatamente - concorda Ascalon, acompanhando-lhe o gesto com o olhar. - Mas já essa cisão do deus único em várias hipóstases confere ao judaísmo um caráter francamente politeístas. E não é só! - Volta-se para o rabino, que o quer interromper, e acrescente: - Na concepção de Fílon, o próprio Iavé é um deus secundário, pois que saído dum deus primitivo - um verdadeiro protodeus - mais poderoso do que todos os demais.
- E que divindade é essa? - pergunta Crisócero.
- A Razão Divina, o Logos - responde Ascalon.
O rabi Judas Nabateu dardeja-lhe um olhar incendido, olhar que o outro apara com o seu sorriso tranquilo e esmoedor. O Israelita porém contém-se. E é com um tom de moderação que replica:
- Sim... A teoria do Logos, do Verbo Divino, que nós conhecemos pelo nome de Mem’ra, do Targum. É meu dever esclarecer todavia que a teologia hipostática não criação original de Fílon, nem dos seus predecessores Israelitas: representa um velho princípio idólatra de Egípcios e Fenícios. É preciso deixar isso bem estabelecido, porque esses falsos doutros, na sua obra de apostasia e escândalo, se servem de tijolos por pedras e de betume por cal traçada, como na edificação da cidade maldita de Babel.
O rabi vai-se aquecendo, à medida que fala. Ameaça com a violência de linguagem em que caem, quando vão ao ataque, essas naturezas piedosas, que tanto se distinguem aliás pela sua mansuetude.
- Há um certa confusão mesmo nessa matéria - comenta Ascalon, irônico. - Não só das línguas: das ideias também...
- Eu creio, também, que no princípio era o Verbo - proclama Soêmio, no seu tom beatífico de serenidade e de unção.
- Nem outra cousa se poderia esperar dum cristão... - insinua Ascalon.
O rapaz não retruca. Cai um silêncio constrangido.
Mas o auxiliar de Crisócero retoma a palavra:
- Suponho entretanto que essa concepção não se acha generalizada entre todos os nazarenos. Parece que só a igreja de Éfeso a adota.
- Paulo comunga nas mesmas ideias - esclarece Soêmio.
Paulo? Estranho, confessa Ascalon.
- Eis as suas próprias palavras: E ele ( o Cristo) é antes de todos, e todas as cousas subsistem por Ele.
Ascalon reflete um instante.
- Onde é que se encontra essa passagem? - pergunta depois.
Soêmio indica o lugar.
Nova pausa. Ascalon, de novo:
- Você já leu todas as suas cartas?
- Quase todas.
- Ah! muito bem - vai dizendo Ascalon, de olhos baixos, como quem reflete. - Elas já foram editadas?
- Não: correm de mão em mão.
Todos estão interessados no diálogo.
- É isso - faz Ascalon. - Mas diga-me outra cousa.
- Prepare-se, Soêmio, para um interrogatório em regra - avisa-lhe Crisócero.
O rapaz sorri.
- Mas é que eu desejo instruir-me - justifica Ascalon.
- Faz bem - concorda o médico.
- Que é que quer saber? - pergunta-lhe o Sírio.
- O seguinte... - Ascalon aproxima o busto. - Em qual dos escritos de Paulo de Tarso se encontra uma referência comprometedora a César?
- Comprometedora?!...
Ascalon domina-se. Volta à posição primitiva. Dá uma acento de naturalidade e displicência à sua curiosidade. Explica a cousa como traduzindo apenas esse interesse de conhecer as novidades, tão natural, e que é a preocupação dos ociosos de todas as classes nos círculos que se formam sob os plátanos no Campo de Marte. Foi lá que ouviu essa referência pela primeira vez.
Soêmio pensa um pouco. Coloca o olhar sonhador no teto. Todos estão como que esperando. Ascalon contempla-o serenamente.
- Uma referência a César, você diz? - formula a questão do outro, no desejo mesmo de a compreender e objetivar.
- Sim.
- Não sei - responde por fim.
Há uma espécie de alívio. A atenção como que se afrouxa, - se relaxa.
- Pense bem - insiste Ascalon. - Nalguma parte dos seus escritos ele alude a conversões que estaria fazendo dentro mesmo do Palatino. Onde é que ele conta isso?
- Conversões?... Ah! - exclama Soêmio, recordando-se por fim da passagem em questão. - Só se se quer aludir à saudação enviada por Paulo de Tarso aos Filipenses em nome de todos os irmãos de Roma, com muita especialidade dos que pertencem à família de César. Mas nós todos soubemos dar o verdadeiro significado a este vocábulo família...
- Eu sei - acode Ascalon: - quer dizer os servos, os libertos, a clientela mesmo. Isso já foi averiguado. Mas... - Hesita um pouco. - Esclareça-me mais: não sabe se o apóstolo... Não foi assim que você o denominou?
Dizendo isso, Ascalon tem um sorriso que parece visar à ridicularização.
- Que é que tem o apóstolo do prepúcio? - inquire Soêmio, a face subitamente fechada.
- O apóstolo...
O tom da ironia quer marcar seu menosprezo displicente por um título sem significado.
- Não quereria ele referir-se aí a uma personagem mais importante?...
E justifica a insinuação:
- Porque é evidente que ele se orgulha de poder enviar a uma outra comunidade de fieis as saudações muitos especiais desses membros da família Domícia.
- Paulo se refere aos fâmulos do Imperador.
Soêmio dá essa explicação seca, sem retirar os olhos sérios da cara móvel do outro.
- Certo, certo. Foi assim que se interpretou nas rodas de conversa do Campo de Marte. E nos outros círculos de ociosos. Do Fórum, por exemplo. Mas eu fiquei em dúvida. Por isso, pergunto-lhe, a você, que é um partidário dessas ideias e deve estar no segredo dos atos dos seus correligionários: o prisioneiro de Tigelino não queria se referir a Sêneca?
- Que ocorrência! - exclama Crisócero.
- Tudo se pode supor - admite Ascalon. - Principalmente numa época conturbada como a nossa.
Não: Crisócero não acredita que o ministro de César possa manter entendimento com os cristãos. Têm alguns pontos de contato, pelo menos em teoria: ambas as doutrinas pregam a moral como objetivo supremo da felicidade do homem na terra.
- A nossa felicidade não está neste mundo - evangeliza Soêmio: - o nosso reino é o Reino do Céu.
Sílvio não tira os olhos do rapaz. O rabino ouvi isso com uma ruga de desaprovação na fronte.
- Interessante isso que você me diz sobre Sêneca. Será que já caiu em desgraça?...
Crisócero faz a pergunta com um ar um tanto desdenhoso.
- Há mais de dois anos.
- E aqui não se sabia nada.
“ - Esses políticos” - pensa Crisócero. “ - A se entredevorarem como lobos.”
E em voz alta:
- Mas certamente os cristãos nada têm a ver com o caso.
- É o que se está investigando.
Não, não podem ter. O Império, observa Crisócero, nunca lhes deu razão de queixa, nunca lhes deu amostras de hostilidade.
- Constou mesmo (pelo menos ouvi isso a alguns anciãos) que Tibério havia examinado a conveniência de coloca Jesus de Nazaré - o Cristo - na lista dos deuses oficiais.
- Não acredite! - protesta Ascalon.
Crisócero:
- Eu, pessoalmente, sempre considerei esse boato como desprovido de qualquer fundamento.
Ascalon sorri, satisfeito:
- Não esquecer - diz como quem admoesta - que foi exatamente Tibério o supliciador de Cristo...
- Isso não - objeta Crisócero. - Enfim, o Imperador estava longe dos acontecimentos. Seus prepostos não o consultaram em passo tão decisivo como esse.
- Se não o consultaram - interrompe Ascalon - julgaram todavia consultar a sua vontade.
- Mas - insiste o médico no seu ponto de vista - César podia invocar perante o próprio deus, perante essa divindade que surgia, uma dirimente aceitável, uma desculpa acessível a qualquer entendimento, até a um entendimento divino: a gente só mata mesmo um deus - por engano...
E Crisócero explode numa gargalhada ao seu próprio gracejo. Mas suspende-se. Procura escutar para além da pequena peça onde se acham.
- Nós estamos conversando muito alto - observa depois, baixando já a voz. - Mas, falando sério - prossegue ele, retornando o fio do seu raciocínio - o motivo que tinha Tibério para repelir qualquer tentativa de meter o Cristo entre os deuses latinos era a sua aversão ao judaísmo e demais cultos orientais. Mais do que Augusto, e isso é dizer tudo, mais que o restaurador da religião tradicional, queria ele oficializar o antigo culto romano. Devia ter as suas razões - razões de estado. Ou, na falta destas, um pretexto, pois que ele era uma alta autoridade religiosa: o Sumo Pontífice.
- Nero é que não persegue quem quer que seja por motivos religiosos. Meus pai sempre me recorda isso - lembra Sílvio.
- Porque ele é um desprezador dos deuses - observa Crisócero. - Talvez o seja por superioridade de espírito, por incapacidade afetiva. Não me cabe julgá-lo. Mas Nero é um grande céptico. Creio que não pratica nenhum culto.
- Salvo - acode Ascalon - o da deusa da Síria, em que, posso dizê-lo, ele acredita e cuja santa imagem venera.
- O que não impediu - retruca prontamente Crisócero - que ele a ultrajasse com uma das suas dejecções: Deam urina contaminavit...
Sorrisos.
- De qualquer forma - acrescenta Crisócero - Nero não se importa com o culto. Nem sequer com o culto oficial. Dele nunca virá qualquer perseguição religiosa realmente. Em tempo nenhum.
- César é um artista.
Crisócero:
- Então os artistas que se cuidem.
*
- Mas - diz Ascalon, dando um outro rumo ao assunto e dirigindo-se a Soêmio - no fundo eu os admiro.
Volta-se para Crisócero:
- Já deve ter notado a perserverança, a coragem mesmo, com que eles confessam a sua doutrina.
Pára. Sorri. Acrescenta:
- Naturalmente, não se deve esperar a minha adesão a tais ideias.
- E por que não? - pergunta-lhe o jovem Sírio, assestando-lhe um olhar em que Sílvio descobre, pela primeira vez, uma nuança de frieza.
- É uma doutrina altamente generosa, não há dúvida - começa Ascalon, sério outra vez.
Generosa... Humanitária...
Os mesmos termos empregados por um dos reacionários da ágora às concepções antiescravagistas de Evandro, e que, numa falsa, sentimental e anódina adesão, escondem muito mal a repulsa ditada pelo medo, pela pusilanimidade, pelo comodismo. Como as situações se repetem, reflete Sílvio!... - E os caracteres também!
- Idéias generosas - filosofa Ascalon - mas irrealizáveis, utópicas.
Sorri outra vez.
- Você mesmo o confessou. Ou não nos advertiu que seu reino não é deste mundo?...
Ri francamente.
- Como é que vai esperar a colaboração dum homem prático como eu na obra de edificação dum reino que não é deste mundo?... Eu mal posso desincumbir-me da tarefa obscura e limitada de concorrer para conservar este conturbado mundo daqui de baixo! Já se vê que eu seria um mau obreiro... Creio mesmo que esta palavra é características da doutrina, - é técnica...
- Técnica... Feliz expressão, por Diônisos! - exclama Crisócero.
- Demais - continua Ascalon - vocês os cristãos não se limitam a construir um mundo futuro no céu: vocês também querem destruir este em que vivemos. Não é esse o fundamento da evangelização de Paulo?
Soêmio muda de posição. O rabi de Nabateia olha-o com preocupação, quase com temor.
- Não são as obras que importam - diz Soêmio, com uma decisão tranquila: - é a fé em Jesus.
- O que importa é a observância da Lei - pontifica o rabi.
- Achamo-nos em face de um conflito de opiniões - considera Ascalon, aparentando bonomia, mas na realidade, segundo pensa Sílvio, esperando, com a prolongação do debate, tirar algum proveito, até agora oculto. - É o que acontece quando a cultura atingiu, como no nosso século, as culminâncias em que se encontra.
- É um fato - assente Crisócero: - sobretudo a cultura científica, a ciência de aplicação. Vejam a medicina.
- Pois bem: respeitemos as opiniões de cada um - continua Ascalon. - Mas discutamo-las.
Detém-se um instante. Estão todos às espera do que ele dirá. Sílvio passara a fitá-lo com um sorriso superior, de desdém. E ele parece tê-lo notado.
- Inicialmente, eu devo confessar - prossegue, dirigindo-se a Judas Nabateu - que a doutrina de Paulo de Tarso é mais universal, mais católica do que a de Moisés. Ela não se reduz a uma nação. Abraça Judeus, Gregos, Romanos, quiçá os Bárbaros. Naturalmente, os Judeus foram os primeiros chamados. Mas isso não lhes confere nenhuma preeminência no Reino do Céu, - que só se conquista pela inscrição no partido de Cristo. Ou quem sabe - acrescenta, consultando Soêmio com um ar irônico - se não resumo bem o evangelho paulino? Aliás - faz ele, antecipando-se a qualquer resposta - como incrédulo, eu não tenho grandes compromissos com a Verdade...
Soêmio faz-se pálido. Sílvio, que está tomando conhecimento da doutrina que o rapaz parece professar, daquela maneira evidentemente astuciosas, talvez perversa, teme a sua explosão final. Por isso, procura um diversão para essa situação tensa. Embora com o risco de se deixar envolver também. Declara:
- Procedamos com métodos. Comecemos por deixar Soêmio expor, se isso lhe apraz, a doutrina religiosa pregada por Paulo de Tarso. A magnanimidade do Imperador nessa matéria assegura-lhe todas as franquias.
- Assegura todas as franquias ao missionários?... - pergunta Ascalon, num tom de cepticismo e galhofa.
- Também.
- Não olvides, Lúcio Sílvio, que ele é um prisioneiro do teu próprio governo.
- Mas não por crime comum! - apressa-se Soêmio a protestar. - Nem sequer por delito de estado. Ele foi vítima da perseguição dos Judeus.
Judas Nabateu ensaia o seu protesto. Mas Sílvio não lhe dá tempo: quer conhecer o incidente. Explicam-lho. E da explicação - um pouco anárquica, é certo - resulta apenas que se trata duma querela entre Judeus, por motivos de doutrina.
- De modo que o homem, se não desfruta da proteção de César, não fez também por onde atrair-lhe a odiosidade. Isso parece claro - sentencia Crisócero, com uma certa displicência aliás.
- A cousa não é tão simples assim - objeta Ascalon. - Cogita-se, neste momento, de estabelecer perfeitamente a responsabilidade, em face da lei de lesa-majestade imperial, dos propagadores duma doutrina que prega o desrespeito ao culto oficial do estado.
- Cristo não atenta contra o estado romano - protesta Soêmio. - Ele fez a separação definitva entre as obrigações civis, devidas ao Imperador, e os deveres religiosos perante a divindade, com a sua sentença: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
Sílvio tem um choque. A frase de Alexandria! A frase que Evandro ouvira daquele pobre diabo... Que pena não estar Evandro ali nesse momento!
Investe-se de novo da sua austeridade - essa austeridade romana, militante, que não poupa nem os jovens e que lhes é incutida desde o berço - pergunta:
- Diga-me, Soêmio: em que consiste essa vossa doutrina? Porque necessariamente você é cristão também.
- Sou.
- Ele o é! - comenta o rabi. - E parece não ter pejo da confissão. - Sacode a cabeça. - Meu Senhor! - Alça os olhos ao céu. - Ouve-me neste ato de contrição, que eu faço em nome do pecador, com as mesmas palavras que já ecoaram uma vez em teus ouvidos, saídas da boca real de Davi: “Eu cometi um grande pecado em fazer isso: peço-te que perdoes a culpa a teu servo, porque obrei nesciamente.”
Ao dizer isso, o rabino transfigura-se. Ascalon entretanto sorri.
- Eu preferiria - diz o auxiliar de Crisócero - que Soêmio expusesse primeiro as ideias de Paulo sobre o Cristo. Porque, ou eu me engano muito, ou há sérias divergências entre os cristãos em matéria de teologia.
Soêmio acomoda-se melhor no seu lugar, sobre o tosco assoalho de largas tábuas. Prepara-se para falar, depois dum breve momento de reflexão, quando Crisócero, levantando-se, pede:
- Espere um pouco: vou ver como vai o meu doente. Aguarde a minha volta: eu quero ouvir isso.
E sai.
- Tu aludiste, Judas de Nabateia, a um dos vultos da história de Israel: Davi. Creio que se trata desse grande rei dos Judeus, jamais esquecido, não é? - interroga Ascalon.
- Tu o disseste.
- E vós acreditais que ele, ou alguém por ele, retorne de novo à terra, com a missão ao mesmo tempo divina e nacional de salvar o seu povo, não é assim?
- Assim é.
- E então se chamará o Messias e reinará de novo sobre a sua nação.
- É o que anunciam os profetas.
- Muito bem - diz Ascalon, dando a impressão de que foram assentados todos os preliminares devidos a uma refutação.
Aumenta a expectativa, que entretanto se frustra, ao assumir ele, antes, uma atitude confidencial, para indagar:
- Sabeis vós por ventura o que se deu em Roma na primeira entrevista que Paulo manteve na prisão com os Judeus? Porque, devo estranhar: apesar de se intitular apóstolo dos Gentios, ele sempre procura converter primeiro os seus compatriotas. É uma grande contradição!
O rabi Judas Nabateu mostra-se interessado na revelação anunciada, ademais, pelo assistente do clínico. Ele na realidade parece extremamente bem informado sobre o que se passa na capital do Império. De resto, como tivera oportunidade de confessar, viera de lá não fazia muito tempo, - e tem incontida ânsia de o proclamar.
- Que é que houve nessa entrevista da prisão?
- Bom: isso é uma suposição exclusivamente minha, individual. Nem sei se me cabe o direito de divulgá-la.
Pára. Cruza de novo as mãos sobre o ventre. Olha-os um momento. Depois solta, de chofre:
- Os Judeus desconfiaram que Paulo de Tarso fosse um espião.
- Espião?!... Espião de quem?
- Espião da polícia imperial junto dos teus compatriotas, rabi Judas Nabateu.
O rabino arregala os olhos, não se fica sabendo ali se de surpresa ou revolta.
- Explique-se! - ordena-lhe.
Bem, como o próprio Ascalon anunciou, é uma simples suspeita sua. Mas, que se passou nesse encontro que Paulo provocou e que havia terminado por um impasse?
- Para compreendê-lo bem, é preciso usar do método...
E endereça a Sílvio um dos seus sorrisos. Este não se digna mesmo notá-lo.
Ascalon:
- Primeiro, Paulo atrai ao seu cubículo alguns chefes da sinagoga. Deu-se pressa em subestimar a própria situação, que todavia não era nada invejável: o agitador achava-se a ferros, numa prisão militar. Falou-lhes da ressurreição de Cristo, um dos pontos fundamentais da sua crença, como dum problema da nação judaica. Se era! Cristo poderia ser o próprio Davi ou um seu descendente, quer dizer: o rei que os Judeus esperam e que há de substituir César no trono da Judeia. Penso que é essa a consequência natural da vinda do Messias. Que dizes a isso, Judas de Nabateia?
O interpelado porém não responde, nem trai qualquer emoção. Limita-se àquele olhar fixo e frio que acabou depondo na cara do outro enquanto ele falava.
- Mas os chefes da comunidade israelita saem-lhe com uma resposta terminante: nunca tinham ouvido falar dele, não haviam recebido carta da Judeia a seu respeito. Para quem vai conspirar nas próprias barbas do chefe do estado contra o seu poder numa província, e província importante, é uma infantilidade criminosa não levar credenciais. Isso podia expor os conjurados de Roma aos mais sérios riscos. Foi o que os chefes da conspiração judaica viram. E era o que deveria ter visto o próprio Paulo, se animado mesmo dum desejo sincero de libertar a sua raça do jugo romano. Mas parece que ele nunca pensou nisso seriamente. Os Judeus de Roma, isto é: do centro incontestável da conspiração, agiram com esse senso da realidade e essa sensibilidade suprema que adquire automaticamente todo aquele que se lança numa obra tão perigosa. E condenável, devo acrescentar. Os Judeus fazem mal em querer abandonar o Império e alienar os benefícios que lhes proporciona a paz romana. Mas o meu ponto de vista pode parecer suspeito, principalmente a ti, Judas Nabateu. De qualquer forma, os teus compatriotas fecharam-se, diante dum homem que lhes deveria parecer um provocador inconsciente ou um agente estipendiado. Tu mesmo não gostas dele. E isso veio retardar a insurreição judaica por um lustro ou dois.
Estas palavras produzem um efeito extraordinário na assistência. Sílvio e Soêmio interrogam-se mutuamente com os olhos. O rabi, depois de haver permanecido por longo tempo fixando a cara indiferente, natural de quem, tranquilamente, lhe assestava um golpe dessa ordem, resolve baixar os olhos, nada dizer. Aliás, todos guardam silêncio até a volta de Crisócero, que se verificar algum tempo depois.
*
- Vamos a ver isso - diz o médico assim que chega, abancando-se de novo no seu lugar. - Naturalmente cada um conta uma cousa. Nem mesmo parece haver acordo no ponto fundamental: de que Jesus de Nazaré represente de fato o Messias tão ardentemente esperado pela nação judaica. Eu desejo que comeces por aí, Soêmio... - E, interrompendo-se, indaga: - Soêmio de quê? Não nos disseste filho de quem és.
- Desse Syrus que expirou nas tuas mãos, Crisócero, quando da primeira vez em que Paulo de Tarso andou por Tessalônica - informa em voz lenta, mas tornada solene pela emoção, o rapaz.
Há uma intensa curiosidade.
- Que grande acaso! - exclama Crisócero.
O médico meio pende a cabeça. Reveste a sua palavra dum tom de simpatia e de ternura:
- Pois eu te felicito, Soêmio, filho do Syrus: até os últimos momentos, teu pai deu mostras dum espírito tranquilo e firme. Essas qualidades transmitem-se de pai a filho, como os caracteres físicos, até uma certa predisposição para as doenças, como tenho comprovado através do exercício da medicina. Tu só podes te orgulhar do pai que tiveste.
- O meu verdadeiro pai é Jesus Cristo, que está no céu.
Cai um silêncio.
- Bem - faz Crisócero daí um momento. - Mas, quais são os sinais mais evidentes da volta do Messias? Porque a sua vinda deve ser precedida de alguns sinais. Pelo menos, qual o sinal certo, característico - patognomônico em suma, como se diz em medicina dum sintoma que só por si serve para diagnosticar uma doença? Qual sinal é este?
- A conversão dos pagãos.
- Ah! muito bem!
- E você acha, Soêmio Siríaco - pergunta Ascalon, irônico - que a conversão do mundo pagão já atingiu proporções tais, de molde a constituir um fato preponderante?...
- Que os Gregos, os Macedônios, sobretudo as nossas mulheres, se lançam em massa nessa nova seita, nem resta dúvida - corrobora Crisócero.
- Eu não trago de Roma igual impressão - observa Ascalon, fazendo-se repentinamente sério: - os Cristãos, lá, ou são tidos como objeto de ridículo ou como uma fonte de perigo. - Volta a sorrir, o que nele parece ser um estado compulsivo: - Não são, esses, predicados de tentar. As adesões - conclui, outra vez sério - efetuam-se nas camada ínfimas da sociedade, entre os servos. Quer dizer: numa classe sempre disposta à revolta. Mas o poder público já está tomando as suas providências.
Realmente, admite Crisócero, o cristianismo era muito ridicularizado em Roma. Quando lá estiver a última vez, vira esses letreiros de paredes, - letreiros de propaganda, mesmo de propaganda eleitoral:
- Inscrições pornográficas, referentes ao fieis. Caricaturas. Cristo era representado pelo desenho a carvão dum homem com cabeça de burro. O pessoal que passava, ria com essas cousas.
- Infelizmente - observa Ascalon - nem tudo no Cristo convida-nos a sorrir. A sua doutrina pode resumir-se numa frase: ódio pelo gênero humano.
Prestam-lhe atenção.
- É esse mesmo ódio que leva os partidários de Cristo a conceber utopias tais como o fim do mundo ou o reino do céu. Não é mistério para ninguém, muito menos para um iniciado como o nosso amigo Soêmio - acrescenta Ascalon - que, pelos cálculos mais pessimistas dos cristãos, o mundo deverá acabar dentro de oito anos e meio.
Risos.
- Se vós estivésseis em Roma, não haveríeis de rir - prossegue ele. - Porque os cristãos não se limitam a aguardar o fim do mundo duma maneira passiva, o que enfim constituiria apenas uma aberração. Mas não: eles trabalham ativamente para esse desfecho. Como? Inicitando as massas servis à desordem. Eu não tenho dúvida de que a palavra de ordem o fim do mundo, que resumo toda a pregação da seita, represente uma alegoria apocalíptica, encobrindo um trabalho subterrâneo de conspiração contra a ordem estabelecida. Se a trama subversiva não for desfeita a tempo, o fim do mundo virá. Quer dizer: o fim do mundo romano, - substituído por um império asiático, tendo Jerusalém como capital.
- Bem - faz Crisócero, depois do silêncio impressionante que se seguiu a essa revelação - você, Ascalon, desvenda um objetivo prático em toda essa campanha de proselitismo, exercida com tamanha obstinação pelos cristãos. Confesso que começo a ver claro em tudo isso. Com efeito, nunca pude compreender essa corrida dos nossos conterrâneos, os Tessalonicenses por exemplo, para uma religião que, afinal, não consigna nenhum princípio novo e que, no fundo, se reduz a utilizar para fins políticos, como estou vendo agora, a concepção eminentemente grega da fraternidade universal, do Logos como princípio das cousas, da moral estoica a servir de base à felicidade humana.
Sílvio, que depusera um olhar devassador nos dois médicos enquanto falavam, vira-se para o lado onde se acham Soêmio e o tio. Os lábios do jovem entreabrem-se num sorriso duma serenidade evangélica. O rabino tem na fronte a sua ruga de preocupação.
- Mas - intervém o Romano - já há fatos concretos que apontem esses novos sectários, os cristãos, como conspiradores?
Ascalon mete-lhe uns olhos frios. Crisócero ergue a face para um e outro, esperando novas revelações.
- Já.
A afirmação é de Ascalon, que a justifica:
- Paulo, o Ciliciano, não soube corresponder à longanimidade do governo, que lhe propiciara uma prisão suave, onde podia comunicar com os seus amigos e partidários. Utilizou essa semiliberdade para entrar em confabulação com os inimigos do estado. Conquistou adeptos nos círculos mais chegados ao Imperador. Com os dinheiros da organização, muitos dos quais lhe têm sido enviados mesmo daqui da Macedônia, corrompeu os servos da casa imperial. Acenando com vantagens políticas nesse Novo Reino que ele prega, nesse reino asiático, conseguiu a adesão de gente de alto coturno...
- Sêneca?... - indaga Crisócero, ávido.
- As investigações estão sendo mantidas ainda em segredo de justiça...
A antipatia que lhe inspirara Ascalon desde o primeiro momento, levava Sílvio a receber com cepticismo tudo quanto ele acabava de denunciar. Todavia, os fatos que ele refere bem podem ser verdadeiros. Mas há dúvidas e circunstâncias a esclarecer. Pergunta:
- Os Terapeutas do Egito, como Jair ben Jared por exemplo, levam também uma vida de renúncia dos bens deste mundo, dum mundo que eles desprezam. Talvez acreditem na ressurreição geral após a vinda do Messias e no julgamento final. Será que eles estão metidos igualmente na conspiração?
- Sim.
Faz-se um silêncio apreensivo.
- A conjuração - explica Ascalon - assume as proporções mais vastas que se possam imaginar. Não estamos num momento em que apenas dois partidos se defrontam para a disputa do poder. Nem é o caso duma guerra entre duas potências internacionais: Roma não teme a agressão de nenhum país rival, porque ela, tendo praticamente dominado o mundo conhecido e contido os Bárbaros nas suas fronteiras, eliminou a possibilidade duma guerra propriamente dita. Restam-lhe os movimentos sediciosos das províncias. Mas as províncias estão satisfeitas com a dominação romana, que lhes traz a abundância e a paz. Vejam a Grécia. Não: o que se está preparando é a luta entre continentes.
- Você diz isso com convicção?... - interpela-o Crisócero, um tanto dubitativo.
- Com a máxima convicção, derivada do exame cuidadoso dos fatos. Com a cooperação, aparentemente anárquica, mas em suma eficiente e dirigida, dos elementos mais heterogêneos, às vezes mesmo antagônicos, os inimigos do estado estão mobilizando, para esse empreendimento, o Oriente em peso. Os Judeus acham-se à testa do movimento. Todas as divergências de seita desaparecem nesse instante decisivo. Fariseus, Saduceus, Essênios, Terapeutas do Egito, Cristãos, embora se digladiando entre si por questões risíveis de doutrina, passam por cima das suas nuanças ideológicas que os separam e congregam-se com um espírito de unidade verdadeiramente alarmante debaixo da mesma palavra de ordem: a volta do Messias, o fim do mundo, quando não a destruição de Roma (da Nova Babilônia) como símbolo do mundo ocidental, e o advento duma monarquia oriental e teocrática, tendo Jerusalém como capital. Olhem: que dia é hoje?
- Estamos no décimo-quinto dia antes das calendas de agosto - responde Crisócero.
Era a segunda vez que, nessa noite, dava a informação.
- Por que pergunta?
- Porque amanhã será um dia crítico.
- Crítico?...
Ascalon confirma-o com um gesto de cabeça.
- Eles preparam para amanhã o primeiro ato da subversão da ordem. Se seus planos não falharem, amanhã iniciar-se-á a sublevação.
E, diante do silêncio que os outros circunstantes guardam, conclui:
- Aproveitando a data, pretendem renovar a façanha dos Gauleses. Está marcado par amanhã o incêndio de Roma pelos cristãos, como a fração do partido mais combativa e que, nessa campanha criminosa, se acha à frente do movimento insurrecional.
- Mas, olhe - acode Crisócero - que isso não é muito fora de propósito! Eu já ouvi falar qualquer cousa...
- O quê?! - pergunta avidamente Ascalon.
Crisócero cai em si. Desconversa. Rumores. Só ouvira rumores. Sem fundamente, necessariamente. Sem importância...
- Qualquer rumor no momento tem importância - adverte Ascalon. - Estamos sobre um vulcão.
Soêmio troca um olhar com Sílvio. O Sírio parece apavorado. A sua atitude de mansuetude e de serenidade paradisíaca tinha-se evaporado.
Sílvio, imprimindo à palavra um matiz de cepticismo e de ironia, intervém:
- Mas, pelo que eu estou ouvindo agora, são conspiradores as senhoras de Tessalônica...
Interrompe-se. Dirige-se a Crisócero:
- Não é verdade, como tu o disseste, que um grande número delas abraça a doutrina cristã?
- É fato - confirma Crisócero, os olhos baixos, como vergado ao peso duma custosa confissão.
- Então, já possuímos um dos setores da conspiração: as mulheres. E não simples mulheres do povo, que talvez tivessem a lucrar com a rebelião. Mas as esposas e as filhas dos aristocratas, para quem a ordem romana representa uma garantia: garantia da perpetuidade para os seus privilégios. É esse o primeiro setor da revolução. O outro é constituído de homens que renunciaram ao mundo e afundaram-se nas cálidas areias do Egito, como Jair ben Jared, - que, neste instante, está vivendo por um canudo trespassado na garganta. A sua legião de combatentes começou por meter-se no deserto... Vocês hão de concordar que não é com semelhantes elementos que se derruba um trono, muito menos um império...
- Não desdenhe tanto assim esses soldados do deserto - retruca Ascalon. - O imperador Cláudio não subestimava a sua força, quando mobilizou a sua cavalaria contra esse agitador chamado Teúdas, que amotinou quatrocentos rebeldes, conduziu-os através do Jordão para o deserto. Levantar-se contra a autoridade e apelar para os amotinados: Sigam-me ao Deserto não representará talvez nada para quem combate segundo os preceitos da arte estratégica, com armas modernas. Mas é um gênero de luta temível entre os Judeus. O deserto parece retemperá-los, dar-lhes uma força, um entusiasmo que as nossas tropas só adquirem numa ordem regular de batalha. Teúdas foi morto, a sua milícia de quatrocentos insurrectos dispersada. E dessa maneira a autoridade romana pôde desarticular mais um movimento dos Judeus contra o governo constituído. Não subestime, Lúcio Sílvio, o perigo que mora no deserto...
Um louco, esse sujeito? Ou diverte-se, perversamente, com um gracejo de tão mau gosto? Sílvio resolve deixar sem réplica a sua provocação.
- E E, a todas estas, nós não deixamos Soêmio falar - lembra Crisócero. - Eu ainda não ouvi uma exposição sistemática dos objetivos, dogmas, ritos dessa nova superstição. E, visto que temos algumas horas antes da revolução explodir e alguns pares de anos até o fim do mundo, ouçamos da boca dum cristão, dum discípulo de Paulo, o tapeceiro de Tarso, o que é que se propõe uma doutrina que, pelo visto, pretende conquistar o universo...
Soêmio ergue-lhe a face. A despeito do tom gracejador das palavras de Crisócero, faz-se um movimento de expectativa em torno do que o rapaz possa revelar. O próprio Crisócero toma uma atitude de gravidade. Acrescenta:
- Note que eu não quero forçá-lo à menor indiscrição. Pesam sobre vós, os cristãos, as mais graves acusações. Fundadas? Infundadas? Não sou magistrado, não me cumpre esclarecê-las. Até este instante, tinha os partidários de Jesus, o Ungido do Senhor, como visionários. Essa opinião começa a modificar-se. É que os fatos estão aí. Seu ódio à humanidade resta provar. Não assim o desprezo, revolta mesmo, contra o poder público.
- Paulo de Tarso é um exato cumpridor das leis do Império.
Ascalon tem um sorriso sarcástico.
- O seu processo o prova - conclui Soêmio. - Apelando para o Imperador no crime que lhe imputavam, ele deu mostras de obediência à autoridade romana.
- Mero pretexto - intervém Ascalon: - ele forçou uma oportunidade para se transportar a Roma, o Centro da conspiração.
- Isso não - replica Sílvio. - Ele podia empreender essa viagem sem sequer alegar fosse o que fosse. A locomoção dentro das fronteiras do Império é livre para qualquer cidadão.
- Mesmo para um cidadão que se acha preso?...
Sílvio sente um rubor invadir-lhe a cara.
- Não - prossegue o outro. - Só o podia fazer, usando o estratagema que usou. A malícia dessa gente não tem limites. E a sua audácia só encontra um termo de comparação nessa própria malícia.
Novo silêncio.
Sílvio assegurara uma pequena vitória a Ascalon. É que está fatigado. Não é brincadeira todo o seu trabalho, físico e mental, desse interminável dia de Tessalônica. E, além disso, tem de contar com a argúcia preconcebida de Ascalon.
Quem é esse sujeito? Um simples médico?... Como ele está no segredo de cousas que, segundo as suas próprias declarações, vêm sendo mantidas em sigilo, - em sigilo oficial! A não ser que as inventasse... - E bem pode ser o caso.
Soêmio mexe-se no seu lugar. Vai falar. Mas parece debater-se numa indecisão. Todos olham para ele.
- Nunca me arreceei do martírio - começa. - Embora julgasse sempre que Satã, havendo imolado Jesus Nosso Senhor, se tivesse saciado finalmente. O mundo não teria vítima maior nema mais indefesa para ofertar-lhe.
- Mas perdão! - faz Ascalon, interrompendo. - O rabi Jesus de Nazaré não foi imolado a nenhum gênio do mal, com propósitos místicos: foi regularmente julgado e condenado. E não numa região bárbara, onde não tivessem ainda chegado os benefícios da civilização, o maior dos quais é a honesta, embora rigorosa, aplicação da lei. Submeteu-se a processo, perante a autoridade romana. Foi julgado com provas, de corpo presente, com a faculdade de se defender. Se não usou desse direito, é porque se confessou, tacitamente, culpado. É uma injúria à magistratura considerar a execução da sua sentençã como uma imolação.
- Mas... - quer acrescentar Soêmio.
O outro porém não lhe dá tempo:
- Um agitador político como Cristo não podia ignorar a legislação do Império, tanto mais que exercia a sua atividade subversiva numa das suas mais importantes circunscrições, como é a Judeia.
- Mas, que queria ele em suma? - pergunta Crisócero.
- Tornar-se o rei dos Judeus.
- Grave! - concorda Crisócero, numa voz soturna.
- O Reino de Jesus não é deste mundo... - martela Soêmio, novamente tranquilo.
- Foi o que ele disse no Pretório. E não ficou fora da verdade, - dessa Verdade de que ele se julgava o único depositário. Mas nós possuímos a chave da palavra de passe: o seu mundo não era o mundo romano. Ele sabia e o proclamava. Mas nós também sabíamos...
- O seu Reino é o Reino do Céu...
- Que absurdo! Apelo - replica Ascalon - para um rabi, um doutor da Lei.
Judas Nabateu ergue-lhe a face. Espera.
- Diga-me! AQ crença dos Judeus admite que um mortal, nascido de pais mortais, possa subir ao céu na qualidade de deus e lá inaugurar um reino divino?
- Não. A Lei permitiria, no caso de Jesus, o Nazareno, apenas um culto de dulia. E assim mesmo com algumas restrições. Porque enfim, ele quando muito se revelara um profeta, nem sequer um santo. Nunca o culto de latria, que só ao Deus Incriado é devido.
Reflete um instante. Depois termina:
- Mas é necessário averiguar se ele mesmo se considerou Deus. Correm muitas cousas disparatadas a esse respeito.
- Cristo é a imagem de Deus Invisível, o primogênito de toda criatura - exclama Soêmio, transfigurado, levantando-se. - Por ele foram criadas todas as cousas nos céus e na terra. As cousas visíveis e invisíveis: tronos, dominações, principados, potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. No princípio, era o Cristo.
Com o olhar esgazeado, errante, Soêmio ainda fica um momento de pé. Depois, como saindo do seu êxtase, fixa um por um os circunstantes e senta-se de novo no chão.
- Quem foi que lhe ensinou isso? - indaga o tio, passada a primeira emoção levantada por aquela palavra jovem e crédula.
- Paulo de Tarso.
Eis a doutrina cristã pois, admite Crisócero para si, como sintetizando conhecimentos que julga indispensáveis à sua cultura prática.
- Mas vocês reconhecem também o dogma da ressurreição, não é assim? - pergunta. É, para ele, a cousa mais ridícula no cristianismo.
- Cristo, mandado por seu Pai à terra para redimir os pecados da humanidade, sofreu o suplício da cruz e ressuscitou no terceiro dia. Essa é a fé.
Faz-se um silêncio.
- Até aí nada de mal - reconhece Ascalon. - O caso é que, enquanto o grande número de desajustados se evade da realidade concreta para esse mundo de fantasia pueril, os chefes concitam à revolta as grandes massas, cochichando-lhes no ouvido que aquele Reino do Céu que deve substituir este em vias de destruição, se revestirá de todos os caracteres dum mundo real. E, sobretudo, que terá um rei, saído da grande massa dos escravos, como eles, pois que sofreu também morte de escravo - o Cristo.
Pára um instante, depois continua:
- É necessário ver a petulância com que, em Roma, essa gentalha afronta a autoridade dos seus senhores, o próprio poder público, confiante na iminente derrogação da ordem política e da constituição. Zombam da república - do estado - que eles não reconhecem, esses apátridas. Zombam dos deuses do povo romano, como se isso não representasse uma zombaria atirada à face de cada um, pois que a divindade se confunde com o povo e o território.
Faz uma breve interrupção. Resvala o seu olhar exteriorizado pelos rostos de cada um dos presentes. Recomeça:
- Os teorizantes da seita têm a ousadia de contrapor aos deuses nacionais um deus estrangeiros, e, além do mais, judeu, - mas recorrendo a um subterfúgio de sofistas: Cristo é uma divindade universal, católica, que abrange, sem distinção, todas as nações da terra. Mas o que eles não declaram, por covardia ou ardil conspirativo, é que esse catolicismo do Cristo deriva do seu sonho monstruoso duma monarquia universal.
- Mas escute, Ascalon - intervém Crisócero com um sorriso: - você está emprestando a Cristo propósitos de estadista, como se ele não tivesse morrido há tanto tempo...
- E não morreu, não.
- Ora, deixe disso...
- Você, como médico, já viu um sujeito ter morte, na cruz, dentro de três horas, que foi tudo quanto durou o seu suplício? Isso é inconcebível! O próprio Pilatos estranhou o fato.
- Ele teve os membros inferiores partidos? - interroga o médico, com interesse visivelmente profissional.
- Não. Tudo foi feito de afogadilho, de maneira a ludibriar a sentença proferida pela autoridade romana, contra um indivíduo culpado do crime de lesa-majestade imperial. Já a infiltração cristã era ponderável nesse tempo. Houve necessariamente suborno. O fato é que o corpo, vivo ou morto, desapareceu quase imediatamente. Daí a crença da ressurreição, porque, dias depois, ele foi visto. Foi avistado ainda outras vezes, no interior da província. Também em Roma, sendo Cláudio imperador. Parece que ainda se oculta por lá. Deve gravitar em torno dos sessenta anos. A idade de Nestor, provavelmente, quando, diante dos muros de Troia, era chamado velho - géron - por Agaménon, que de recebia notável plano de guerra. Com dez estrategistas como Nestor, reconhece o chefe dos Gregos, não demandaria muito tempo a queda da poderosa cidade de Príamo. E note-se que Nestor de Pilos não se limitara a traçar um plano no papel: antes, pôs-se logo à disposição do comando geral para lhe dar um começo de execução. Sessenta anos não é mais idade para cantar, estou de acordo; mas não serve apenas para contar fábulas sobre os costumes, apoiando-se em oráculos divinos, como opinava Platão: é a idade do cálculo frio, da argúcia e da teimosia. Não subestimemos a capacidade de luta dos velhos...
O rabino ergue-se. Anuncia:
- Já vou.
E com um convite tático:
- Queres sair comigo, Soêmio?
- Eu ainda fico um momento.
Judas Nabateu encaminha-se para dentro da habitação.
- Dá uma vista d’olhos no nosso doente - ordena Crisócero ao seu auxiliar.
Ascalon levanta-se prontamente. Sai.
Ficados a sós, Crisócero, Sílvio e o jovem Sírio parecem nada ter a dizer entre si. Há como que um certo constrangimento. O Romano, o olhar ardente, tem o aspecto de quem resolve um grave problema.
E é isso mesmo. Daquele tagarelar, infindável e perverso, de Ascalon, nem tudo se deverá votar ao desprezo. Certo que ele traduz bem esse espírito da Cidade, mordaz e irresponsável, que nada poupa. Nem doutra maneira se comportariam esses círculos de ociosos do Campo de Marte e do Fórum. Contudo, Ascalon, na sua conversalhada irritante, abordara pontos do maior interesse.
Assim, a conspiração dos Judeus, com participação provável dos Terapeutas do Egito e dos Cristãos.
Agora é que está vendo que o mundo romano se deixa arrastar num turbilhão. Não percebera isso, enquanto não se despegara da vida sossegada e bucólica da sua distante província gaulesa. Fora necessário entrar na Grécia para senti-lo em toda a sua evidência. Nada de admirar: mesmo deixando de lado a mentalidade iconoclasta e irreverente dos Gregos, é aquele solo ali um átrium, onde se encontram e esbarram dois mundos: a Europa e o Oriente. - E o Oriente, naquele momento da vida moderna, fermentava.
Mas, que de questões, a surgirem, a se entrelaçarem, a se chocarem! Só isso está bem a caracterizar a crise. Cada um dos seus aspectos toma, por um instante, a proeminência, parece existir por si, isoladamente e com prejuízo dos demais. Quem atentasse para a atitude, ao mesmo tempo serena e apocalíptica de Soêmio e, provavelmente, da maioria dos seus correligionários, iria concluir que todo o problema se resumia numa situação religiosa, talvez moral, - que, uma vez solucionada, teria a virtude de trazer de novo o mundo ao seu equilíbrio, embora pelo recurso extremo da sua extinção.
Mas o provocador do Ascalon rasgava subitamente o véu, e o fator político se exibia em toda a sua nudez, como se repentinamente se abrissem de par e par as portas dumas termas, com os seus frequentadores, os corpos reluzentes do estrigil, prontos a entrar no banho. E, fazendo fundo a tudo isso, a inquietação econômica, reproduzida, de forma linear, na tese de Evandro...
A propósito: tem vontade inquirir Soêmio sobre um certo ponto. A circuncisão, - problema grave, num mundo que passa a maior parte do tempo nu. Será que esse nova fé exige, como qualquer crença judaica, a circuncisão para os seus adeptos? Pergunta-lhe.
- O cristianismo nada tem que ver com a religião dos Judeus. Ao menos é o que ensina Paulo, que aliás condena a circuncisão na carne. Para o Apóstolo dos Gentios o que vale é a circuncisão da alma. - Cita mesmo uma passagem dum dos seus escritos em que ele anatematiza os que praticam a circuncisão: Fora os cães, os maus obreiros, todos esses mutilados.
- Ele ensina que somos nós os verdadeiros circuncisos, nós os que adoramos segundo o espírito de Deus, que pomos toda a nossa glória e a nossa confiança em Jesus Cristo e não na carne. Todavia, Paulo de Tarso é circunciso. Como eu também.
Assim se explica a estranha distinção, por Soêmio atribuída a Paulo, e que parecia valer como um título - senão como um pendão de guerra...
Crisócero levanta os olhos com curiosidade. Tinha meditado muito - comenta - sobre essa estranha prática dos Hebreus. Higiene? Apenas um sinal distintivo, indispensável para um povo que vive em sua maior parte na Dispersão - na Diáspora? Talvez...
- Mas, a julgar pelo interesse místico e irracional que eles votam à ablação cirúrgica do prepúcio, a ponto de ceder em tudo mais, menos nisso, eu penso que há aí uma outra cousa, mais profunda...
- O quê - pergunta Sílvio.
- Uma prática de magia.
Ninguém replica.
- Ouça isso. Na antiguidade, faziam-se oferendas humanas, que consistiam sobretudo no sacrifício dos recém-nascidos. Temos uma reminiscência do fato no combate dos gladiadores, espetáculo barbaresco que só não foi abolido numa era de adoçamento dos costumes, como a nossa, porque se confunde com prática sagradas, vindas dum longínquo passado, e não por meros motivos militares como se apregoa. De tudo quanto existe, uma parte pertence à divindade. E não uma parte qualquer: mas a primeira - as primícias. É esse o princípio. Pois bem, os órgãos sexuais representam um papel muito importante na nossa vida. Não apenas sob o ponto de vista fisiológico ou moral. Sobretudo para o homem antigo. Haja visto que a grandeza três é representada pelos antigos Egípcios pela imagem do Fálus e os seus dois anexos, configurando assim,, pela soma, aquele algarismo. Todo o mundo sabe que a prostituta partilha os benefícios pecuniários da sua infâmia com Afrodite, a deusa tutelas do amor. Para o homem, o sacrifício nessa matéria ia, em certos cultos asiáticos, até a própria destruição da virilidade, - à emasculação. Na minha opinião, os Hebreus, de longa data, consagram o prepúcio dos recém-nascidos a Iavé como autênticas primícias - primícias sexuais.
- Não é fora de propósito.
- Não é, não.
Restava saber com que objetivo prático imediato.
- Algum objetivo sombrio - conjetura Crisócero: - os Judeus constituem o povo mais melancólico do mundo.
- Questão de temperamento...
- Hipócrates talvez explicasse isso por um excesso de atrabílis, de bílis negra, nos seus humores...
Sílvio reflete um momento.
- Grande problema, esse...
- O dos Judeus? - pergunta o médico.
- Sim.
- Muito maior o do seu contrário - faz Crisócero, num tom pensativo.
Sílvio depõe-lhe um olhar de interrogação. Soêmio mostra também um certo interesse.
- O anti-semitismo - explica o clínico. - Por toda a parte, eles se veem hostilizados. No território do Império têm de comprar a sua tranquilidade a poder de dinheiro. E essa crença de que todo Judeu é um Creso está longe de corresponder à generalidade dos casos. Muitos são pouco mais do que miseráveis. Veja esta família aqui!
- Por falar nisso - acode Sílvio: em quanto importam os vossos honorários?
- Deixemos isso para mais tarde.
- Eu quero saber agora.
- São eles que vão pagar?
- Não: fui eu que te chamei.
Crisócero meio que hesita. O preço da consulta - diz finalmente - o preço duma consulta ordinária é uma dracma. Conquanto aquele serviço seja todo especial.
- Dê o que quiser.
Sílvio puxa da bolsa. Escolhe uma tetradracma macedônia.
- Fica bem assim?
- Muito bem.
- E os teus auxiliares?
- Eu me arranjo depois com eles.
Enquanto guarda o dinheiro, Crisócero observa, num tom meditativo:
- Podem os Judeus revelar o maior progresso, e eles o revelam, na filosofia, na religião. Podem se elevar às maiores abstrações, a uma concepção superior da divindade, como ainda não o fez nenhum outro povo. Mas, enquanto persistirem na prática da circuncisão, não terão avançado um só passo. A circuncisão, para mim, representa o sacrifício da virilidade, - uma castração simbólica. Ora, só um pensamento muito obscuro, muito primitivo, poderia conduzir a um ato desses. Enquanto esse pensamento mágico não for extirpado dum povo, esse povo não pode considerar-se civilizado.
Faz uma breve pausa e continua:
- Os Judeus vivem, no seio do mundo moderno, com a sua mentalidade arcaica. E eles e o mundo não se entendem. É natural, pois, que entrem em conflito.
Pára de novo. Os dois jovens prestam-lhe atenção. Ele prossegue:
- Esse povo já fez a tentativa de converter o mundo ao seu ideal primitivo. Seria um retrocesso, se a tal consecução não se opusessem as leis mesmas que presidem a evolução das gentes. Desistiram então, isolando-se, enquistando-se dentro da sua mentalidade mágica...
Ascalon entra nesse instante. O médico volta-lhe o olhar:
- Como está ele?
- Tu precisas vê-lo - responde o auxiliar, por entre o seu leve sorriso irônico.
- Já vamos! Mas, como ia dizendo, eles têm-se detido na sua campanha de proselitismo. Não recrutam novos aderentes senão entre as mulheres. Compreende-se: para elas não é posto o problema fundamental e que maior obstáculo oferece - a circuncisão. Eles, portanto, estão perdendo terreno.
- Eles quem? - indaga Ascalon. - Os cristãos?
- Não - responde tranquilamente Crisócero, meio abaixado, dando um aperto à correia da espora: - os Judeus.
Nesse momento o rabino, que havia mergulhado no interior da casa, voltava. Mas nem se detém: com um gesto, solene e pausado, faz uma saudação, com que se despede de todos. E encaminha-se para a porta saindo. Os quatro homens seguem-no com o olhar.
- Bem - fala Crisócero - submetamos Jair ben Jared a uma derradeira autopsia por hoje e vamos embora também.
Arrasta consigo Ascalon.
- Precisaria alguém para passar a noite... - aventura Soêmio, ao ficar só com o jovem Romano.
Sílvio, conforme observa, pretende demorar-se ainda um pouco. Além disso, vai pedir a Crisócero que deixe Anaitide ficar.
- Será uma companhia para Tarsita - concorda Soêmio.
Subitamente, um pensamento vivo toma conta de Sílvio. Vê-se quase que a sós com Tarsita, dentro daquela casa, no meio da noite. Assalta-o um desejo natural, primitivo, de tê-la nos braços, fundir-se nela, - sem ideias, sem palavras, por um simples movimento de dois corpos que se procuram e se encontram. Fica sorrindo a esse pensamento, que o aquece e que o torna leve, refeito da sua fadiga. - Os dois médicos, que voltam à saleta acompanhados da enfermeira, ainda o encontram com esse sorriso quente inundando-lhe o rosto.
- A doença está seguindo o seu curso - informa Crisócero. - Nós vamos partir. Anaitide pernoitará aqui.
E vai se atirar num leito, tão pronto os médicos deem as cotas, pensa Sílvio, ao ver-lhe o focinho sonolento. Todavia ela talvez o mereça: quem sabe quanto serviço não enfrentou durante o dia, trabalhando como trabalha, sob as ordens dum médico taurino como Crisócero.
- Tu vais conosco, Lúcio Sílvio? - quer saber Crisócero.
- Eu ainda me demoro.
- É bom. Deixo-lhe um dos arrieiros. Ele depois levará de volta a égua.
- Obrigado.
- Bem, então tudo pronto - declara Crisócero, dando o sinal da partida. - Vamos! Você, Anaitide, volte para junto do doente.
A enfermeira obedece.
O médico despede-se de Sílvio. Manifesta desejos de encontrar-se ainda com ele. Mas em torno duma mesa, com um bom vinho.
- Vamos combinar isso amanhã com Evandro - sugere.
- Seria ótimo.
- Ascalon também tomará parte - acrescenta Crisócero, voltando-se para o assistente.
O outro meio curva-se, num gesto de reconhecimento.
- Quem sabe se o nosso amigo Soêmio filho do Syrus não nos quer dar também essa honra?... Creio que o cristianismo não interdita a ceia...
- Muito pelo contrário - intervém Ascalon: - Cristo instituiu a ceia sagrada.
- Mas essa vai ser profana! - graceja Crisócero, soltando a sua risada clara.
- Os prazeres da carne deixam-nos indiferentes... - começa Soêmio.
Ascalon porém não lhe dá tempo de concluir:
- O que quer dizer - acode vivamente - que lhes está proibido o prazer da mortificação do corpo! Nisso vocês estão mais adiantados que esses míseros anacoretas, como Jair ben Jared, que levam no deserto uma vida de privações. Os meus cumprimentos!
Soêmio não completa o que ia dizer. Crisócero restabelece o ambiente de bonomia, acrescentando:
- Em torno da mesa, como duma pista, atletas dum novo gênero haveremos de ter oportunidade de mostrar o nosso valor. E há provas a escolher: Soêmio inscrever-se-á para a corrida filosófica. Não lhe faltará competidor: Evandro estará lá...
- Nenhum dos dois me parece suficientemente prásino, a facção de César - observa, também espirituosamente, Ascalon.
- Pois defenda você as cores do Palatino - convida Crisócero, sorrindo ironicamente.
- É o que vou fazer - remata Ascalon, de modo ambíguo.
Como voltará Ascalon para casa?... Montado?... A pé?... Sílvio fica por um instante revolvendo esse pequeno problema na sua mente, enquanto os médicos deixam a peça e se encaminham para a escada de saída, ainda conversando.
O sujeito não perdia oportunidade... Quem era esse indivíduo?... Evandro necessariamente conhece-lhe a biografia. Crisócero é que não dá mostras da menor suspeita. Que bom homem, esse Grego! A sua candura é obra da sua retidão.
- Quero perguntar-lhe uma cousa, Soêmio: a autoridade romana cria embaraços ao vosso culto?
- Não. Não teria razões.
Sílvio pensa um momento.
- Mas as leis do estado são formais - observa.
E cita, no original, uma prescrição de Numa, do tempo mesmo da fundação da Cidade.
- Você fala latim? - pergunta.
- Muito pouco.
- Quer que traduza?
- À sua vontade.
- Pois bem, a lei diz que ninguém pode ter deuses à parte, que ninguém pode adorar de modo particular deuses novos ou estrangeiros, desde que ele não sejam admitidos legalmente. Ora, que me conste, até hoje o Judaísmo não foi considerado como religião oficializada. Muito menos portanto, creio, a superstição dos cristãos, que, a despeito do que você afirma, parece constituir apenas um ramo da doutrina judaica. Não tenho dúvida de que o cristianismo cai em cheio na categoria que abrange a maior parte dos cultos orientais: a de superstitio illicita - superstição ilegal. Como é pois que vocês podem tranquilamente se confessar cristãos? Que artifício usam para isso?
Soêmio, que, após a partida dos outros, voltar a ocupar seu supedâneo baixo, ajeita-se melhor no seu lugar:
- Bem...
Relanceia os olhos sonhadores pela saleta. Sílvio acompanha o seu gesto com interesse. O Sírio então explica: a matéria tinha sido objeto de discussão entre os fieis. Havia-se pedido a opinião de juristas, - profissionais de grande prática e espírito tolerante. Um advogado simpatizante propusera uma saída: inscrever a organização como associação funerária. Isso lhe daria direitos, perante a lei civil, de possuir uma personalidade jurídica, com a faculdade de manter um tesouro corporativo, pela cotização mensal dos associados, e de possuir terrenos destinados à sepultura comum.
- E vocês estão fazendo isso?
Soêmio abana afirmativamente a cabeça:
- Em Roma. Aqui e no Oriente propriamente dito, nós nos organizamos em colégios religiosos.
- E o estado admite essa cousa?
- Os colégios religiosos?
- Sim.
- Ele os tolera.
É esse o caso, então: o cristianismo vive numa semilegalidade.
- Mas vocês não temem uma perseguição? - pergunta Sílvio daí um momento.
- Estamos preparados para isso.
Que estranha mística! Nada mais, senão renúncia...
- Vocês nunca fizeram uma tentativa perante o senado para legalizar a seita de vocês, permitindo a entrada de Jesus Cristo no panteon nacional, como mais uma divindade oficial?
Soêmio sorri. Cristo é o único deus verdadeiro. Não poderá ocupar um lugar entre falsos ídolos.
- Além do que, o mundo vai acabar. Talvez que a petição não tivesse tempo de chegar ao senado...
- Você acredita sinceramente nisso?
- Estão aí os sinais de que é chegado o Fim dos Tempos.
Sílvio reflete um instante. Depois interroga:
E essa história do incêndio de Roma, que estaria marcado para amanhã?...
- Para amanhã ou para qualquer outro dia. A Nova Babilônia deverá pagar os seus pecados. O seu solo será purificado pelo fogo.
- Escute! - diz-lhe Sílvio, curvando o busto para ele, numa aproximação amiga: - vocês, sem o saber, estão fazendo o jogo de Nero. Ele também quer atear o fogo a Roma, para reconstruí-la com um novo traçado e talvez com um outro nome: Nerópolis, a cidade de Nero. Vocês estão dispostos a servir os desígnios de um maníaco, duma espécie de mênade em delírio?
- Ele talvez seja apenas o Anticristo. Uma figura predestinada por Deus, para que se realize na terra a Verdade do Evangelho.
O rapaz é um doido! E o mundo romano deve estar repleto de loucos dessa marca. Lá dentro mesmo está outro, agonizando: Jair.
Como sacudir toda essa gente?... Esse niilismo é obra do Oriente. Evandro tem razão. E - engraçado... - esses fanáticos também: o mundo moderno vai acabar. Já está acabando! Só a penetração duma ideia tão antinatural como essa nas amplas massas denota tal retrocesso no pensamento ocidental, que só por si já vale como o aniquilamento...
- Bem, Soêmio: é tarde. Vá deitar - diz Sílvio, erguendo-se do seu banco. - Eu vou ver como está passando Jair. Se for preciso, eu passarei aqui a noite.
O Sírio levanta-se, docilmente.
- Caso necessitarem de mim, Tarsita sabe onde me encontrar: eu moro aqui neste mesmo edifício. Boa noite.
- Vale.
*
Sozinho, Sílvio dá uns passos até a pequena janela que abre para a noite. A tempestade, na fúria das suas vassouras desatadas, como se obedecendo a um deus escopário, varrera completamente o céu, deixando as estrelas a faiscar com um brilho recém-adquirido, um brilho de limpeza, como um corpo que reluz sob o atrito do estrígil.
Aquela pequena janela dá para o polo visível do mundo. Muitas vezes, nas vastas noites estivais do Pado, entretivera-se a identificar, duma posição semelhante a essa, os belos astros que se movem segundo órbitas sucessivas, inscritas umas dentro das outras, como círculos concêntricos que se traçam sobre o quadro negro, numa demonstração matemática.
Quase colada à esfera das estrelas fixas, a Estrela Brilhante se desloca no espaço para a maior viagem que ainda se fez entre o céu e a terra: é Saturno. E seguem-se outras, apertando cada vez mais o círculo de luz em torno da terra...
Mas aquele pequeno retângulo da janela não é um observatório. Nem ele está com disposição de espírito para seguir a marcha dos planetas. Na sua preparação acadêmica, lera Aristóteles. Meditara sobre o seu tratado de astronomia, procurando à noite acompanhar o movimento do céu. Porque o céu, com os seus astros, se move. Doutro modo, seria necessário admitir o movimento da terra o que é um absurdo.
Sílvio ainda tem o olhar afundado naqueles grandes círculos do céu que a ciência isolou e a sua imaginação apreende, quando da esfera de Atlas uma estrela se destaca. O astro descreve uma curva luminosa. Ele já havia observado antes que essas quedas de estrelas são mais frequentes nas noites de verão.
Lá na Gália, quando uma estrela caía, sempre alguém a seu lado, acompanhando o trajeto de luz ou de fogo que ela rasgava no céu, fazia a velha observação: Uma pessoa acaba de morrer. Porque o vulgo acredita que acada um de nós tem a sua estrela no céu. O seu esplendor corresponde à sorte vária de cada qual: as estrelas mais brilhantes para os ricos, as menores para os pobres, e (o que não se pode admitir sem um arrepio de medo) as mais obscuras para aqueles cujas forças declinam e se exaurem. - A queda final é a morte...
Seu espírito está libertado de qualquer pensamento mágico. Pelo menos supõe: não fora um discípulo de Lucrécio. Mas não deixa de ser interessante que, naquele momento preciso em que devassou um tão restrito pano de céu, através da moldura exígua da pequena janela, uma estrela fixa se haja destacado da esfera antes seus olhos e tenha caído... Quando justamente ali do outro lado da enxovalhada parede, um ser humano estertora, dispnóico, e uma vida ameaça extinguir-se... - É exato que se está no verão, e que o verão é favorável a tal espetáculo.
Deseja ir procurar Tarsita. Se ela ainda não estiver acomodada, vai-lhe dar um pouco da sua vigília. Depois, retornará ao hotel.
No quarto do doente encontra, ao pé da trípode, Anaitide sentada, a agulha conduzindo as linhas do seu trabalho à luz da lâmpada. Ela lhe ergue um olhar rápido e inquisitivo. Sílvio experimenta uma leve sensação de desprazer, ante esse olhar que traduz um interesse crítico, devassador... Não tem do que se penitenciar. Entretanto, talvez a mais elementar diplomacia aconselhasse deter-se um momento, trocar com ela uma palavra: inquirir sobre o doente. Mas ele está vendo Jair, que dorme - ou antes: estertora passivamente sob a ação combinada da doença e do hipnótico. A passagem por ali não é mesmo mais do que uma passagem: vai à procura de Tarsita. Para quê? Será que o sortilégio da noite e da solidão acaba de operar e que está ávido por um encontro - um simples encontro que seja - com ela?...
Ávido... Subitamente, tendo apagado a presença antipática daquela mulher entediada que interrompeu o seu trabalho de agulha para farejar e devassar, Sílvio sorri ante a sua própria sofreguidão. Ávido...
Quando ouvia dos antigos que nunca, como no mundo moderno, o homem se mostrou tão ávido por mulheres, levava isso à conta dessa maledicência ingênua, característica dos que vão envelhecendo. Para ele, a mulher sempre ocupara o seu lugar natural - nem inferior nem superior ao dos demais entes. Talvez um lugar o seu tantinho secundário. Mas como era secundário o lugar em que colocava muitas outras cousas ainda... Quem sabe até se, caso tivesse de escolher entre Tarsita e Evandro, não se sentiria inclinado a ficar com Evandro - que foi a grande realidade que já encontrou no seu caminho?...
Não pode todavia afirmar que Evandro não seja ainda para ele uma realidade... teórica. Na verdade, ao seu contato, começou a deixar o seu mundo de ideias mortas, embora embalsamadas nos seus livros, por um outro mundo, de ideias também: apenas de ideais que estão vivendo em seu redor, à espera duma solução prática. Evandro representa isso. Em rigor pois, apesar dessa passagem brusca do mundo do pensamento puro para o mundo da realidade, ele ainda fica simplesmente um homem de espírito...
Quer dar a Tarsita uma parte da sua vigília. É que necessita um repouso. Aquela noite na estalagem, chegar igualmente fatigado. A viagem em si mesma... O penoso trato com homens de negócio... A puela foi tão repousante como o banho. Vê-se alterado também agora, abalado por tantas emoções bruscas. Chega a ter um pensamento menos nobre, que rebaixa a pobre da moça... Mas é que deseja algo dela. E só a sua ternura não lhe basta. Melhor: não lhe convém. Seria necessário ir à conquista dessa ternura. Mais um trabalho emocional, portanto.
Surpreende-se no fundo da casa, aonde o levara esse cismar alienante. Está tudo silêncio, numa quase obscuridade. Deve voltar? Se se retirasse definitivamente dali, se recolhesse ao hotel? Necessariamente as mulheres já estão dormindo. É exato que tinha um objetivo prático em procurar a moça: pôr-lhe alguns recursos à disposição. Mas pode confiar algum dinheiro à assistente de Crisócero, para lho entregar. Ela, que há de estar com o olhar e ouvido erguidos para o ataque, experimentaria essa consoladora satisfação de reembainhar a arma, por falta de adversário a combater. Viu todo esse egoísmo, na expressão bisonha, falsamente pudica, daquele seu focinho, - enjoado e primitivo como dum animal.
Já vai dar volta, arrependido daquele assalto que premeditava na calada da noite, quando lhe sai Tarsita à sua frente, vindo sem que ele saiba de onde.
- Eu logo vi que eras tu - apressa-se ela em dizer-lho. - Acompanha-me: minha mãe quer te ver.
Por um instante, sem se mexer, sem atender ao seu convite, Sílvio fica a contemplar aquele pequeno vulto, que mal se destaca na penumbra. Põe o olhar sucessivamente nas duas estrias de luz que marcam os olhos de Tarsita. É um luz oblíqua, que procede de qualquer parte, mas que parece nascer ali naquelas duas superfícies polidas. Seu olhar transita dum para outro daqueles pequenos focos. O rapaz não fala. Tarsita sente-se mal com aquela inspeção obstinada e silenciosa:
- Vamos, que eu quero que a mãe durma duma vez.
Sílvio segue-a.
O divino filósofo talvez estivesse com a razão. No começo, deveria ter havido mesmo três sexos: o masculino, o feminino e esse sexo composto, monstruosidade binária, sempre restaurado e execrado - o andrógino, misterioso como o pálido astro donde descende. Zeus depois dividiu esses entes duplos em duas partes, para tornar os seres humanos mais fracos e mais numerosos. Desde então, cada um procura sofregamente a sua metade. Aquela frágil rapariga que se escapa à sua frente, constitui a componente feminina do ser contraditório... Será que ele-Sílvio representa a outra porção? Assim se explicaria essa avidez... Porque agora repara que está mesmo ávido dela, ávido por se abismar nesse corpo que ele adivinha tenro, morno e flexível, tão tenro e flexível que o ato de se colar nele teria todos os característicos duma verdadeira fusão...
- Ela já está deitada - anuncia Tarsita, com voz insegura, ao penetrarem no cubículo da mãe.
À sua chegada a velha criva a Sílvio de perguntas. Quer saber a opinião do médico sobre Jair, - que ela designa pelo cognome pragmático de Terapeuta. Pergunta em que consistiu a operação. Sele sofreu muito. Mas não espera resposta.
- Tarsita insistem em dizer que eu não tenha maior cuidado. Mas só ficarei descansada quando veja outra vez meu filho caminhando.
Põe-se a chorar.
- Ele pegou essa horrível doença por minha causa.
- Não diga isso, mãe.
A velha enxuga o rosto. Ergue os olhos para a filha.
- Por minha causa. Foi em viagem. Nalgum porto da Ásia. O mal veio no ar, trazido do deserto arábico pelos ventos do verão.
Cala-se um instante. Os jovens guardam silêncio. Mas ela recomeça, em tom mais tranquilo, narrativo:
- Eu vi muitos casos desses na Síria. Ninguém se curava. Eu sei que o Terapeuta vai morrer...
E rompe de novo no seu pranto.
Sílvio então intervém. Gaba as qualidades técnicas de Crisócero. Faz-lhe ver como, com o seu adiantamento, a medicina hoje alterava os prognósticos, mesmo os mais sombrios. Demais, no caso de Jair ben Jared não se perder a menor fração de tempo. Isso era muito importante no tratamento das doenças.
- Eu sei. Tu fizeste tudo por ele. Se meu filho se salvar, deve isso a ti. Foi por essa razão que eu quis te conhecer, Lúcio Sílvio. Queria depor aos teus pés os agradecimentos duma mãe aflita...
O jovem está constrangido. Não tem o que responder. A velha, aninhada no seu grabato, alheava-se outra vez. Sílvio procura lentamente Tarsita com o olhar: ela reassumir aquela atitude siderada, de fragilidade, de abandono. E, não obstante, parecia dispor de uma força qualquer. Resignação? Renúncia? Outra que, como Soêmio, como o Terapeuta, como milhões de miseráveis, devia estar preparada, - preparada para o pior.
A mãe enxuga as lágrimas com um pequeno lenço. Alisa a roupa. Recompõe-se.
- Deixem-me só. Eu também não me sinto bem. Desde a nona hora que me atirei nesta cama, sem forças para nada. Não tive ânimo de me levantar e ficar também ao lado do meu filho naquele momento terrível.
- Ele não sentiu nada - declara Sílvio, num tom de animação: - foi tão rápido!
- E agora, como está? - pergunta ela, com um olhar vivo e sôfrego.
- Melhor. Muito melhor. Está dormindo...
A velha reflete um instante.
- Já deve ser tarde, não?
- Aproximadamente a terceira vigília - informa Sílvio.
- Tu ficas o resto da noite aqui?
Sílvio hesita na resposta. Mas contemporiza:
- É bem possível...
- Tarsita - ordena a mulher: prepara o leito do teu quarto para Lúcio Sílvio repousar.
A moça vai atender. Mas Sílvio se opõe:
- Eu não pretendo me deitar. Quando estiver canso, espicharei os membros no subsélio, lá na saleta.
- Então leva uns coxins para lá - diz ela à filha.
E, apanhando com um movimento de braço um que se acha junto de si, acrescenta, entregando-lho:
- Já leva este.
Tarsita segura-o.
Tarsita tem um quarto... Elementarmente, dum modo de pensar misterioso que não chegava à consciência, acreditava numa cousa contrária: quando vinha em visita à mãe, a moça devia alojar-se meio à aventura. Naturalmente, vira duas peças de dormir naquela casa: essa em que se encontrava agora, o pequeno quarto onde meio agonizava Jair. E, dadas as condições da família, a tanto se deviam reduzir as suas instalações cubiculárias. Entretanto, o fato é bem outro...
- Vamos deixar a tua mãe repousar - diz ele à moça, que, com a almofada pendente duma das mãos, tem o olhar abaixado, um certo rubor na face.
- Sim...
Saem da peça.
- Conduze-me até o teu quarto - pede Sílvio, com uma decisão trêmula: - quero conhecê-lo.
- O cubículo dum poeta! - exclama ele, ao ver a disposição espiritual que haviam tomado as cousas de Tarsita.
Ao pé do leito arranjado com decência, estende-se o toral, - necessário para calçar as sandálias pela manhã. Contra uma parede, uma pequena mesa de tampo de mármore, com os objetos de toalete, onde sobressai um espelho de vidro com fundo de chumbo, - artigo de Alexandria provavelmente. Mas o que lhe chama mais a atenção é uma estante com alguns livros. E, sobre ela, um vaso de preço.
- Mas isto aqui é uma preciosidade! - não se contém Sílvio, avançando um passo para aquele objeto raro.
- Realmente: é um bronze de Corinto.
Sílvio examina-o.
- És uma conhecedora. Aliás, já lá na saleta eu vi um grupo em terracota, também admirável.
Tarsita sorri, - um sorriso cortês, de justificativa. Provém tudo de Evandro.
Ante a atitude de perplexidade do jovem, ela graceja:
- Admiras-te?
E continua sorrindo, - o seu sorriso nervoso. Sílvio contempla-a com uma expressão séria, - de atenção.
- Isto te parece estranho, porque não sabes que Evandro desmontou a sua casa, desfez-se de tudo, dispersou todas as suas cousas... Ele parece que fez um voto de pobreza. Aliás, é o que manda a filosofia.
Diz e baixa os olhos. Mas, mesmo assim, sente no seu rosto, cujo rubor ainda não se dissipou, o olhar com que Sílvio a caustica.
- Tu e Evandro sois muito amigos... - afinal comenta ele.
- Muito.
Sílvio relaxa a tensão em que vem se encontrando nesses rápidos instantes. Vai até o móvel dos livros. Desenrola alguns deles. Nisso, tem uma surpresa alegre, emocionante: um livro de Evandro, uma das suas obras!
Vem até o lugar onde ficara a moça, com o rolo de papiro na mão.
- Sabes? - diz-lhe ele. - Eu não quero deixar Tessalônica sem levar comigo um trabalho de Evandro.
- Fica com esse.
Sílvio desenrola lentamente o papiro, ao mesmo tempo que vai observando:
- Não... Eu não disse isso para forças o teu oferecimento. Depois, não seria justo. Não quero privar-te duma companhia... Companhia simbólica, entende-se! Porque, infelizmente, a filosofia, que impõe tantas renúncias, há de constantemente roubar-te o prazer do convívio com a pessoa dele...
- Tu dizes isso num tom que eu estou estranhando, Lúcio Sílvio. Mas tu tens razão, sim: nestes últimos tempos, pouco tenho visto Evandro. Também, ele viaja muito...
- Agora mesmo andou por Alexandria...
O rapaz tem um sorriso sarcástico. Deixa-a um tanto perplexa e encaminha-se outra vez em direção à estante dos livros. Recoloca o trabalho de Evandro no mesmo lugar e depois volta.
- Vamos até a saleta? - convida ele numa meia interrogação. - Não precisas levar esse coxim: eu não vou demorar.
E arrebata-lhe a almofada da mão, jogando-a sobre o leito.
Ele esboça um movimento de saída da peça. Tarsita porém permanece no mesmo lugar.
- Não vens?...
Ela então agranda mais os seus olhos. Moves os lábios. Fala:
- Eu não quero que tu te separes de mim assim.
- Assim como?...
- Zangado.
Sílvio sente-se um tanto ridículo. Cora.
- Eu não estou zangado contigo - responde.
- Estás então zangado com Evandro...
- Impossível! Ainda há pouco eu me fazia uma pergunta. Uma espécie de dilema. Se tu adivinhasses!...
- Que dilema era esse?
Sílvio retorna para junto dela. Olha-a bem nos olhos. E com uma resolução crítica, diz-lhe:
- Não sei por que raciocínio abstrato, eu procurava me decidir entre ti e Evandro...
Ao dizer isso, ele se sente atraído compulsivamente para aquele corpo frágil e flexível que meio cambaleia à sua frente, - como se a confissão, rompendo uma barreira e revelando o seu desejo, o tornasse, de súbito, atual e legítimo, auspiciando a intimidade mais profunda a dois desconhecidos ainda da véspera...
Tarsita cerrara os olhos, muito pálida agora. Mas abre-os de novo. No rosto também pálido de Sílvio, o olhar dele a devora. Ela então, como se os sentimentos de ambos tivessem mesmo acabado por se revelar, num fio de voz, débil e infantil, pede-lhe, erguendo lentamente os braços:
- Segura-me as orelhas e beija-me.
Ao mesmo tempo vai-lhe oferecendo a sua boca e, com as mãos, procurando fazer a mesma carícia nele.
- Tu és mesmo uma criança - diz Sílvio sorrindo, ante aquele pedido dum beijo, o beijo manual, que ele tantas vezes trocara na sua infância.
Os dedos de Tarsita, buscando um contato com as suas orelhas, estão frios e trêmulos. Ela parece sofrer. Abandonada àquela emoção, entrega-se como uma vítima. Nunca, com efeito, o amor apareceu tão nitidamente a Sílvio como um sacrífico, como nesse momento. Ele quer repeli-la. Mas o corpo da jovem desfalece nos seus braços.
Resistir?... Trocar apenas aquele beijo infantil, como uma demonstração de simples ternura, e abandoná-la, sem lhe desatar a cinta virginal?... Os erotólogos têm razão: o amor é uma doneça, - uma forma clínica de loucura...
Para aquele dia, tão cheio de sensações, o seu corpo está pedindo essa fuga da realidade que só o prazer dos sentidos proporciona. Mas não com Tarsita. Seu pensamento menos nobre volta: fosse ela a puela da estalagem e tudo estaria resolvido num instante.
- Escuta... - ainda diz ele, procurando a colaboração dela para aquele seu ato de renúncia heroica.
Tarsita porém parece não ouvir. Nos seus braços, ela está como que desmaiada. A face branca e imóvel é pouco mais do que uma máscara. Só a boca vive, - uma boca ofegante e sequiosa, que busca a sua com uma obstinação dolorosa, como se o beijo visasse apenas a libertá-la dum sofrimento a mais...
Mansamente, como quem põe um pé cauteloso num caminho estreito e difícil, Sílvio vai colando os lábios nos seus lábios. Os lábios de Tarsita, que pareciam sem vida e também desmaiados, têm entretanto um movimento ativo, uma pressão mole e quente que os funde nos seus, fazendo das duas bocas uma só peça.
Cessado o beijo, Sílvio olha-lhe a face. Está mudada. Já não é u’a máscara. Ela também o fita com o seu olhar lânguido. Pendera um pouco a cabeça sobre o peito dele. Sílvio sorri. Pergunta-lhe, com carinho:
- Estás satisfeita?
Com um leve movimento afirmativo e tentando vir à tona do seu êxta-se, Tarsita confessa:
- Eu tinha resolvido dar esse beijo no homem que amasse.
- E tu me amas?
Ela faz que sim.
Sílvio pensa um momento. Depois argumenta:
- Somos tão diferentes... Tantas cousas nos separam... Que é que amas em mim?
Como resposta, Tarsita ergue a mão e bate-lhe de leve na fronte.
- Não entendo... Que queres dizer?... A minha cabeça?... - estranha ele.
Ela tem um gesto afirmativo.
Ao que é que ela quererá se referir? A sua inteligência?... Não pode ser.
Sílvio fita-a perscrutadoramente. Tarsita aninha-se nos seus braços, cheia de sereindade e confiança, como uma criança. Parece até que seus lábios sorriem. O olhar de Sílvio quer devassar o mistério. Porque é um mistério esse momento... essa jovem... esse abandono... Qualquer cousa mesmo que surge dentro de si é misteriosa também...
Curvando-se sobre ela, beija-a novamente. Mas então, sente que vem dela, do seu corpo, um fluido estranho. Um poeta diria que Afrodite lhe soprava o desejo nos seios e nas coxas. Porque o corpo de Tarsita anima-se duma vida nova, - que é o prazer.
Sílvio, suavemente, vai descobrindo-lhe o ombro. Beija-o. A um leve arrepio dessa carne vibrátil, morde-o. Com a mão ávida, palpa-lhes os seios.
- São duas maçãs... - cicia-lhe.
Tarsita agora arqueja. Oferece-lhe de novo a boca. Trocam então um beijo, em que não só os lábios, mas as línguas se colam. Freneticamente, Sílvio a vai despindo e arrastando para o leito.
- Só faltam as flores, para que o teu leito seja o leito nupcial...
Tarsita não fala. Sofre-lhe as carícias, sem resistência. Reclinando-a, ele, com a mão esquerda, palpa-lhe as coxas, cheias de tenra juventude. Sua mão, já sem governo, vai avançando. Quando, perdida, está a ponto de devassá-la, Tarsita meio que sai do seu abandono e, fitando-o com um olhar em que há melancolia e resignação, diz-lhe, como que querendo fugir-lhe:
- Tu vais ter uma decepção.
E esconde a face.
Sílvio detém-se.
- O quê? - pergunta, endireitando-se.
Chegando-se mais para ele, pundonorosa e decidida, a moça faz-lhe uma confidência, baixinho no ouvido, acarinhando-o, como se devesse consolá-lo por isso.
Numa associação de ideias rápida, que domina a sua surpresa, Sílvio consulta os seus sentimentos. E fica sabendo que era assim - bem assim - com toda essa sua estranha potencialização, que ele a queria...
Faz algum tempo que Sílvio e Tarsita estão reclinados, imóveis, na languidez do prazer satisfeito, quando ouvem passos. Vêm da frente. Param um pouco ali. Ainda progridem, hesitantemente, até o cubículo da velha, para finalmente retornarem e desaparecerem.
- Anaitide?...
Apreensiva, Tarsita meio se soergue no leito, o ouvido à escuta.
- Não parece.
Parecem antes passos de homem. Eles ficam um momento a conjeturar de quem possam ser.
O incidente adverte-os de que é chegada a hora de se separarem.
Vai adiantada a terceira vigília. Erguem-se. Compõem-se. Sílvio quer levar uma visita final ao Terapeuta. Ao entrarem no quarto do doente, Anaitide devora-os, fazendo-lhes mesmo uma inspeção física, que deixa Sílvio um tanto perturbado. Ele levanta os olhos para Tarsita, num movimento automático. Mas a moça tem aquele mesmo ar cândido e infantil, - um ar de inocência elementar e insuspeitável.
Na saleta, Sílvio começa a vestir a pesada pênula.
- Deixa que eu te ajude - pede-lhe Tarsita.
- Voltas? - pergunta-lhe a moça, ao fechar-lhe afinal o corpo nesse estojo de lã de Canusium.
- Assim que me desembaraçar dalguns encargos relativos à minha viagem.
- Já sabes quando partes?
- Depende de haver no porto algum navio para Roma.
Ficam um momento silenciosos. Depois ela diz-lhe:
- Tu hás de estar cansado. Tens de dormir um pouco.
- Como tu também.
- Eu vou para o leito agora mesmo.
O leito... Ele revê aquele leito nupcial. Saboreia mais uma vez mentalmente, numa rememoração que já é saudade, os prazeres que ele lhe proporcionou. Seu olhar cobre-se dum brilho úmido de volúpia. Fica a contemplá-la assim, longamente.
- Vai duma vez - suplica-lhe ela.
E aflora-lhe a boca com os lábios.
Sílvio tem um movimento para ela. Mas Tarsita abre rapidamente a porta. Empurra-o de leve e despede-se.
- Vale - responde-lhe o rapaz.
E começa a descer os degraus de pedra. Percebe um ruído lá em cima, - da porta que Tarsita está aferrolhando.
Sente-se realmente fatigado. Mas feliz.
A pênula tolhe um pouco os seus movimentos. É que Tarsita a fechou até em baixo, como se na realidade ele já fosse partir em viagem... Ao chegar à rua, vai mandar Demétrio desabotoá-lo, - libertá-lo.
No meio da escada, entretanto, encontra Soêmio.
- Estive lá em cima à tua procura, Lúcio Sílvio.
Então eram dele os passos misteriosos...
E, antes que Sílvio faça qualquer observação, o outro prossegue:
- Tu revelaste algum interesse pela doutrina que eu professo. Vem até o meu apartamento: quero mostrar-te uma cousa...
O Romano o acompanha.
Soêmio ocupa um cubículo no fundo da taberna, com um outro indivíduo. É um sujeito berando a casa dos sessenta anos. Na ocasião, está-se preparando para deixar o grabato, levantar-se. Soêmio faz a apresentação:
- É Aristóbulo, de Antióquia.
Sílvio saúda-o.
Provavelmente devido à temperatura abafada que reinou durante a noite, Aristóbulo de Antióquia acha-se apenas vestido duma tanga - o lícium - como um atleta. Mete os pés nas sandálias e vai até um canto do aposento. Despeja um pouco d’água num polubro. Mergulhando as mãos na pequena bacia, lava o rosto, em particular os olhos, a boca. Enxuga-se. Depois, com um gesto displicente, apanha duma cadeira a túnica de linha, que despira para dormir. Enfia-a. Passa-lhe um cordão na cintura, arranjando-a de forma que o pano de trás fique à altura da dobra do joelho e que a parte de diante desça um pouco mais. Feito isso, volta-se para Sílvio e pede-lhe reverenciosamente:
- Deixa que eu te renda o primeiro tributo da hospitalidade.
Avança para o recém-chegado e, como quem cumpre um ritual, põe-se a soltar-lhe a pênula.
Soêmio mostra uma certa impaciência ante as maneiras corteses e cerimoniosas do seu companheiro de quarto. Sílvio tem um sorriso complacente.
- Bem, vamos sentar - convida Soêmio, assim que o outro terminou a operação.
Avança um escabelo para Sílvio. Aristóbulo vai reclinar-se, indolentemente, sobre o seu grabato.
- Queria mostrar-te isto - continua Soêmio, que retirara um manuscrito dum canudo e estendia-o a Sílvio.
- Que é?
- Uma das epístolas de Paulo de Tarso à nossa igreja - informa o jovem Sírio.
E mete-lhe nas mãos um papiro teneótico.
Sílvio desenrola-o vagarosamente.
Está escrito em grandes letras, unciais. Sílvio percorre o texto com os olhos. Lê aqui e ali.
- Como é que você consegui isto?
- Está aqui para eu copiar.
Soêmio deita um olhar amoroso sobre o manuscrito.
- Está havendo uma grande procura das epístolas de Paulo - esclarece.
- Circulam muitas epístolas falsas de Paulo de Tarso - observa Aristóbulo lá do seu grabato.
- Esta é autêntica - retruca-lhe Soêmio, voltando-se vivamente para ele.
Sílvio torna a examinar o manuscrito com mais atenção.
- Veja o final - diz-lhe Soêmio, curvando-se um pouco sobre o seu ombro: - está rubricada pelo próprio Paulo.
- Realmente...
Sílvio lê um ou outro trecho.
- Donde escreveu ele? - pergunta.
- De Corinto.
Segue-se um silêncio. Sílvio, depois, erguendo os olhos do manuscrito e num tom sonhador:
- Com o tempo, vão ter algum valor essas cartas... Esta é recente?
- Data de mais de dez anos.
Sílvio, que tem o olhar preso no manuscrito, detém-se numa passagem. Sorri. Observa:
- Cristo pretendo voltar numa chama de fogo...
- Eu vim trazer o fogo à terra, ensinou ele.
- Doutrina perigosa - comenta Sílvio.
E encara severamente Soêmio, o qual, ao repetir a sentença apocalíptica do seu mestre, tinha um brilho selvagem e exterminador no olhar.
Aristóbulo mexe-se negligentemente no seu leito. Depois observa que o fim do mundo, anunciado pelos cristãos, deverá consumar-se pelo fogo. Tal qual a ciência prevê.
- Mas, mesmo assim - conclui - Cristo Jesus é um deus pirológico.
Sílvio olha para ele com mais interesse.
Aristóbulo também se acha de passagem em Tessalônica. Ele vive em Roma, à margem direita do Tibre, ao pé do Janículo. É jornalista - diurnárius. Redige uma folha diária - um diúrnum - que distribui nas províncias, entre vários assinantes. Está em Tessalônica no interesse da profissão.
Ao contrário do diário oficial, que se limita à publicação dos atos governamentais, do boletim meteorológico e da relação dos prodígios ocorridos na Cidade, o jornal de Aristóbulo ocupa-se de assuntos de interesse geral: teatro, enterros (o público das províncias gosta muito de saber quem é que morreu), boatos e opiniões da rua, escândalos.
Num exemplar que ele vai procurar nas suas cousas e que mostra a Sílvio, aparece uma nota curiosa: a descrição dum aparelho de voar, com que um Ícaro pretende se exibir perante o Imperador, no anfiteatro. - Segundo o noticiarista, é uma ideia de futuro.
A conversa recai sobre Paulo de Tarso e a sua vida aventurosa. Aristóbulo o conheceu, quando ainda residia em Antióquia. Aliás, segundo ele, Antióquia é a verdadeira pátria do cristianismo. Lá é que os adoradores do Nazareno receberam um nome.
- E de maneira a ilustrar esta máxima governamental: que o cristianismo é um caso de polícia...
Sorri.
Com efeito, explica, a cousa foi obra da polícia romana. Esta fazia frequentes incursões no bairro pobre, situado ao pé das muralhas que, por uma disposição arrojada da arquitetura militar, escalam a montanha, ao sul.
- Conhecem Antióquia?
- Não.
- Uma construção idêntica à das fortificações daqui de Tessalônica, e que data, parece, do ciclo de Alexandre.
Os adeptos de Yeshu Han-Nasri ou Han-Nosri, que por isso os Judeus chama Nazarenos ou Nazorenos, habitavam em grande número essa parte da cidade junto à porta que conduz a Laodiceia.
- A polícia começou por um erro: supor que Cristo ou Cresto era o nome dum chefe de partido. A cada um que confessava a fé perante a autoridade romana, ela lhe atribuía a denominação política e pejorativa de Cristianus ou Crestianus. Como costuma suceder, a injúria, nesse movimentos sediciosos, vira quase sempre em favor e em honra dos injuriados. Os parditários de Han-Nasri - do Nazerno - passaram desde aí a usar, com orgulho, um nome - o de cristãos - com que no começo os foram vilipendiar. Pois, derivando de Cristo, o Ungido, ele trazia consigo a ideia de óleo, de pomada. Os seus partidários não passavam portanto duns pomadistas, duns almiscarados, - uns mocinhos cheirosos. Para não dizer cousa pior...
Os dois jovens guardam silêncio.
Aristóbulo não voltou para o leito. Percorre a peça em passos vagarosos enquanto fala, como quem dita.
- A maior acusação que se pode fazer aos cristãos é de serem ateus vistos que não possuem um deus nacional nem rendem tributo às divindades oficiais do Império. Paulo de Tarso, agora encarcerado como inimigo público, não passa dum visionário, acreditando-se possuído do espírito divino, o pneuma, orientando a sua pregação apocalíptica com vistas a um fim do mundo inevitável e catastrófico, comprazendo-se escatologicamente em sonhar com o que possa acontecer com o homem depois da morte, numa espécie de Império Romano quimérico e celestial, tendo Cristo Jesus como chefe de estado.
Detém-se por um instante na frente dos dois rapazes. Encara-os alternativamente com gravidade. Depois remata:
- Se eu tivesse de dar a minha opinião no inquérito, diria apenas que Paulo de Tarso é pneumático, apocalíptico e eskhatológico.
Diz isso, antes a aguda curiosidade dos dois jovens, e vai tranquilamente até o fundo do cubículo beber o seu copo d’água.
Sujeito engraçado...
Mas Aristóbulo volta. Ao passar, apanha o manto que deixara também sobre a cadeira e enverga-o.
- Bem, a trabalhar - diz.
Dirige-se particularmente a Sílvio:
- Talvez não nos vejamos mais.
- Está de viagem?
- Volto breve para a Urbs.
- Por mar?
Aristóbulo sorri. Não é homem para essas aventuras. Enfia-se pela via Egnácia. Em Dirráquio toma um navio para Brundísio. É apenas um dia por água. Com mais de dez dias acavalo, cobre a distância de trezentas e sessenta milhas que vai desse porto a Roma.
Pára, olhar vago, de quem efetua um cálculo mental.
- O mais tardar, para os idos de agosto conto estar em casa. Volta-se sorridente e cortês para Soêmio:
- Se ainda encontrá-la de pé. Porque esses moços, os cristãos, pretendem arrasar Roma pelo fogo... E, segundo se propala, a cousa está marcada para hoje.
- Você acredita mesmo nisso? - pergunta Sílvio.
- Não. Estou brincando.
Dirige-se à mesinha onde Soêmio tem os seus livros, o tinteiro, a pena de caniço, as caixas com os rolos de papiro. Mesmo sem sentar, escreve qualquer cousa num pedaço de papiro e volta de novo para junto dos rapazes. Entrega o papel a Sílvio, dizendo-lhe:
- Se for a Roma, procure-me neste endereço. É fácil achá-lo: é só seguir a via Aurélia, depois de passar o Velabro e a ponte.
Recua um passo. Ergue a mão. Despede-se:
- Ave.
Enquanto Soêmio guarda o manuscrito de Paulo de Tarso, Sílvio observa para si mesmo como está na moda em literatura o gênero epistolar. Conquanto uma carta como essa, não tenha pretensões literárias, Não parece destinar-se à publicidade. São apenas recomendações, conselhos. Uma conversa por escrito.
Terceira vigília... Como num acampamento, à frente do inimigo, montou guarda, vigilante, sempre à espera dum ataque de surpresa. A doença é uma batalha. O corpo de Jair ben Jared é o campo onde se digladiam forças contrárias, animadas dum estranho espírito de combate.
Está cansado. Como o volutuoso que sai dum festim, vai chegar ao seu quarto e atirar-se no leito, para dormir - dormir até a sétima hora. Ainda lhe restará tempo para percorre o bairro portuário, as agências de navios. O estalajadeiro lhe ministrará todas as informações necessárias. Quer também entrar numa ou noutra livraria.
Inexplicável a ausência de Evandro. Precisa encontrá-lo. Evidentemente é o amigo que o vai procurar.
Heliodoro, a essa hora, já deve estar de partida.
Subitamente, Sílvio sente uma solidão. Às margens do Pado, o mundo não parecia tão hostil nem tão instável. As instituições romanas seguiam o seu curso, modificando-se dentro dum ritmo evolutivo, reclamado pela própria marcha do tempo. A impressão porém que colhia dessa sua estadia em Tessalônica era que se estava num ponto mesmo de fratura, esperando-se a cada passo ver o universo saltar em estilhaços, como que convulsionando pelas forças infernais que demoram debaixo da terra. Tudo finda. - A civilização, a cultura, o passado, recolhem-se, furtivamente, como um livro que se enrola...
O mundo vai acabar...
Quando, no ano passado, como remate a uma série de cataclismos que abalaram o orbe, a terra tremeu em Pompeia, os mais timoratos viram nisso um começo do fim. O fogo subterrâneo vai finalmente irromper, abrasando tudo. É o que todos parecem esperar. A própria ciência adotou essa conclusão e vulgarizou-a. Repetiu-a ainda há pouco Aristóbulo, que, necessariamente, leu isso em Sêneca, como ele também. É igualmente o que está nessa carta de Paulo de Tarso. Um aviso? Uma ordem? A carta é antiga. Mas não deixa de ser estranho o fato de se atribuir a esses fanáticos do Oriente a intenção de atear o fogo a Roma...
Aristóbulo pelo visto é um parasita, sem profissão definida, passando os dias na rua, colhendo boatos, intrigas. Deve estar informado. A escolha da data parece revelar um propósito amadurecido, uma verdadeira conjura. Já alvoreceu o décimo-quarto dia das calendas de agosto. Que dia melhor do que esse, que assinala a data do incêndio de Roma pelos Gauleses, para levar a cabo um tal empreendimento?
Os cristãos representam um movimento subterrâneo. Não admira que, isolado na sua planície cispadana, entre os seus livros, nenhuma ou escassa notícia tivesse tido deles. Vê agora que eles formam u’a massa, com seus chefes, sua doutrina, suas normas de ação, - quiçá um objetivo definido, implacável como toda obra de iluminados?
Quererão realmente depois o Imperador, proclamar Cristo o chefe do estado, erigir Jerusalém a capital do Império? A vida política parece mesmo deslocar-se para o Oriente. Esses povos não têm capacidade política, sempre ouviu dizer. A religião como que lhes absorve todo o interesse, todo o entusiasmo.
Mas isso não pode ser tomado muito ao pé da letra. Há um momento em que política e religião fundem-se. Claro que essa gente não pode conceber o estado civil, com instituições emanadas diretamente do povo. A sua forma natural de governo é a teocrática. Já leu qualquer cousa sobre os Sírios, em que Júpiter é denominado o Deus sátrapa...
Que papel estão desempenhando em tudo isso os cristãos? Que os Judeus se movimentem, pode-se esperar. Talvez não seja de desprezar de todo a afirmação maldosa e provocativa de Ascalon, segundo a qual Paulo de Tarso está em Roma, articulando a conspiração... - Os fatos é que o irão revelar.
Ergue-se.
- Bem, já vou...
Com um vagar sonhador, vai-se metendo outra vez na pesada pênula. Soêmio o ajuda nisso. Depois o acompanha até a porta.
Na rua, encontra Demétrio e o palafreneiro - o hipócomo - que o esperam com a égua. O sol vai emergindo, candente, de dentro das águas do Termaico, como a primeira golfada dum vulcão submarino.
Enquanto cavalga em direção à cidade, Sílvio volta o pensamento para aquela ameaça apocalíptica dum fim do mundo, - derradeira esperança desses povos escravizados do Oriente. Cristo - ele próprio o confessou - veio trazer o fogo à terra. Que é que queria dizer com isso? Cristo, como todo Oriental, deve ser versado na ciência dos Caldeus. Todos eles são adivinhos - matemáticos. Talvez que o cálculo deles revel uma data para o cataclismo, - uma data próxima, coincidindo com a passagem de Cristo neste mundo. Certo ou errado, ele poderia anunciar, em sã consciência: Eu vim trazer o fogo à terra. Ou então, esse anúncio traduz um desejo exterminador e vingativo.
Como o saber...?
E seria interessante deixar isso bem estabelecido. Porque enfim os cristãos podem tomar muito literalmente essas palavras e saírem por aí a meter fogo em tudo quanto encontrem. - O incêndio de Roma, marcado para esse dia, o fatídico décimo-quarto dia das calendas de agosto, parece justificar tais receios...
Tivera tempo de ler o essencial na epístola de Paulo de Tarso. É o apelo dum chefe de conspiradores para que os conjurados não deflagrem um movimento antecipado. Ele os previne contra a lábia dos agitadores. Vai a ponto de precavê-los contra o estratagema de lhes ser enviada carta como sendo dele, marcando o dia da sublevação, - que na linguagem criptográfica e simbólica do movimento é designado como o Dia do Senhor... - De resto, a carta é toda dedicada a essa questão.
Essa epístola é antiga. Data de mais de dez anos. E por que então só agora a deram a Soêmio para copiar? Será porque a crise se aproxima e convém instruir cada um sobre o que deve fazer em tal emergência?
Crisócero pensa que a polícia devia tomar alguma medida prática. Ele-Sílvio, porém, sabe como a polícia costuma agir, quando se julga senhora da situação: não impedindo, antes favorecendo a eclosão do movimento. É certo que os Judeus conspiram. Aos cristãos, como fração mais combativa do partido, caberia, segundo a tese de Ascalon, dar início à revolta. Possivelmente a polícia está de posse de toda a trama.
- Aliás, se Paulo de Tarso é um dos chefes da sedição e está preso, não será difícil ao governo interceptar as suas ordens, os seus avisos, assenhoreando-se assim de todo o plano revolucionário.
Não cabe dúvida de que se está às portas da insurreição. E esta vai ter o seu início no centro do Império, com um ato de força.
Qual?
O INCÊNDIO DE ROMA!
Chegado ao hotel, Sílvio despede o arrieiro - o hipócomo - que leva de volta a égua a Crisócero, com os agradecimentos da pragmática. Vai atravessando o vestíbulo, em demanda do seu quarto, quando esbarra com Heliodoro, que vem acompanhado do escravo.
O Grego está excitado. Ele, que Sílvio já julgava longe, em demanda dos vales do sul e de Mégara...
- Não! não parti. Dei um jeito na reda. No último momento, soube que está no porto prestes a levantar âncoras, um navio alexandrino da classe do Ácatus. Eu não vou perder a oportunidade de viajar num desses gigantes do mar. E você terá de ir comigo!
Sílvio quer preliminarmente saber se o navio se dirige à Itália.
- Está aí o mal: ele viaja com destino a Alexandria. Mas vai tocando nos principais portos da Grécia. Em Corinto você passa para outra embarcação.
Sílvio hesita. Como Heliodoro, ele arde no desejo de se fazer transportar por um desses gigantescos veleiros, cuja chegada a qualquer porto constitui um espetáculo.
São enormes navios mistos, com capacidade para toda uma carga de trigo, fazendas, pimenta, salitre, e para mais de um milhar de passageiros. Verdadeiros palácios flutuantes, trazem, dum lado e doutro no costado, perto do escovém, a imagem pintada da divindade que lhes dá o nome, além de adornos e decorações de um apurado lavor. Onde quer que aportem, faz-se uma romaria para ver-lhes as cabinas sobre a ponte, os cabrestantes e demais aparelhos de bordo, os alterosos mastros, as velas, as âncoras, as enxárcias. Tudo isso é uma tentação. Mas, por outro lado, um embarque precipitado iria alterar todos os planos de Sílvio.
Ele pergunta a Heliodoro:
- A que horas sai o navio?
- Agora! Não há tempo a perder! Arrume a sua bagagem e partamos!
Mas abandonar a cidade assim, sem ao menos se despedir dos amigos, de Tarsita, sem se avistar com Evandro?...
- Você deixa-lhes um bilhete. Melhor: do primeiro porto, escreve-lhes uma carta, longa, explicativa, apologética. Não deixe fugir a oportunidade de viajar num navio da classe do Ácatus!
Heliodoro faz-lhe esse último apela e volta-se para o escravo, a quem, atarantadamente, dá mais uma ordem para a partida próxima.
Sílvio reflete um momento:
- Pois sim: vamos.
Os preparativos da viagem são ultimados com rapidez. As despesas da hospedagem são conferidas e pagas. O hoteleiro, sorridente e prestativo, se prontificou a mandar um dos seus fâmulas adiante, a reservar lugares. - Tudo em ordem pois. É partir.
Quando chegam ao passeio, Sílvio, abrangendo com o olhar a perspectiva da rua, diz a Heliodoro, numa voz sonhadora:
- Eu vou sentir saudade disto aqui...
- De Tessalônica?! - pergunta o outro com estranheza.
- Sim...
Segue-se um breve silêncio. A comitiva afinal movimenta-se.
- Bene vale! - brada o estalajadeiro, estropiando o latim e fazendo largos gestos de despedida com a mão.
- Vale... - responde-lhe.
Um pouco adiante, Sílvio pergunta a Heliodoro:
- Você não ouviu falar num plano de incendiar Roma hoje?
- Ouvi. Mas não acreditei. Esta gente mente muito.
... Essa destruição durou seis dias e sete noites, e o povo foi obrigado a procurar abrigo nos monumentos e nos túmulos. Além de um número infinito de habitações particulares, o fogo consumiu as casas dos antigos generais, ainda ornadas dos despojos tomados ao inimigo, os templos consagrados aos deuses pelos reis de Roma, ou construídos durante as guerras púnicas e no decurso das guerras da Gália, e enfim tudo quanto a antiguidade legara de curioso e de memorável. Nero contemplou esse incêndio do alto da torre de Mecenas, empolgado, confessava ele, da beleza da chama, e cantou, em costume de teatro, a ruína de Ílion. (Suetônio)
Encostado à amurada, Sílvio deixa os seus olhares errarem por aquelas legendárias terras da Grécia. Navegam junto da costa. Dentro de pouco deverão chegar ao Pireu. É de manhã. Sílvio está só.
Na verdade, ele não atina por que Heliodoro fizera tanta questão de viajar num navio da classe do Ácatus. Não gozara de nenhum dos confortos de bordo. Metera-se na cama, como poderia ter feito numa navícula qualquer.
E Sílvio desejava ter alguém a seu lado nesse momento, para comungarem daqueles espetáculo de beleza. Montanhas que resplandecem ao sol e onde as próprias sombras têm um brilho e são violeta. Vales que se enchem de vegetação viva, ao parecer com o simples motivo de mostrar todos os cambiantes que vão do verde escuro dos olivais ao açafrão. Um azul profundo e sutil, a insinuar-se em tudo isso, como um fluido mágico pulverizado naquela paisagem para conservá-la e eternizá-la...
Alguns viajantes, já preparados para o desembarque próximo, vão surgindo na coberta. Entre eles, aparece Heliodoro com um outro indivíduo. É um agricultor da Lócrida Oriental. Embarcou num dos portos da escala e destina-se a Alexandria.
À medida que o navio avança, a paisagem vai perdendo o seu tom bucólico e elegíaco. Surgem habitações com caráter urbano, alguns estabelecimentos, molhes onde as embarcações sofrem o trabalho da carga e da descarga com a passividade de monstros marinhos em cativeiro, cujo ventre se andasse a remexer e devassar. - Já deixaram atrás Falero.
O agricultor da Lócrida tem uma observação satírica:
- A nossa chegada ao porto vai ser tida como mais um prodígio dos ventos etésios, que, depois de represar as águas do Nilo, fazem esse rio sair impetuosamente do seu leito e ir levar muito longe as suas vagas. Seremos considerados como um produto da enchente... Porque, ou eu me engano muito, ou o Pireu esperava tudo, menos ver um veleiro egípcio deste tipo em demanda dos seus diques.
A cidade já está quase toda à vista. Outrora tão movimentado, o principal porto ateniense não é agora senão um conglomerado frouxo de casas dispersas, que um ou outro estrangeiro curioso às vezes visita, atraído apenas pelas coleções de obras-primas de arte que ele ainda encerra.
- Como esta cidade, quase toda a Grécia peninsular cai em ruínas - observa reflexivamente Heliodoro. - A que é devido esse fenômeno? eu a mim mesmo às vezes pergunto. Ao estancamento do gênio helênico? à dominação romana? ao peso dos impostos? Não sei. Talvez à emigração: hoje o Grego está em toda a parte, menos na sua terra.
- A emigração já é um efeito desse atraso. Este deve ser procurado noutra parte - replica o agricultor da Lócrida.
- De qualquer maneira, a Grécia desaparece - diz Heliodoro. - O problema é saber se esse desaparecimento não vai comprometer o equilíbrio do mundo moderno.
- A Grécia está pagando o erro milenar duma economia defeituosa - volve o indivíduo. - O que está levando a Grécia para o aniquilamento total é o trabalho escravo.
Essa observação do agricultor da Lócrida desperta um vivo interesse entre os seus companheiros. Heliodoro pergunta-lhe:
- Você também admite isso?
O outro faz que “sim” com a cabeça.
- Eu tenho um amigo, um Macedônio de Tessalônica, Evandro, que sustenta a mesma tese - intervém Sílvio, com uma certa animação.
- Eu sei disso. É um sofista, um teórico. A questão só pode ser verdadeiramente sentida pelos homens práticos, ligados à produção. Os teorizantes como o seu amigo só podem comprometê-la, levando-a para o terreno da agitação ou da utopia.
E acrescenta o Lócrio, depois de uma breve pausa, dirigindo-se a Heliodoro:
- Você há pouco condenava a emigração...
- Será que você a aprova? - interrompe Heliodoro.
O homem sorri:
- Aqui onde me vê, eu sou um emigrante também. Vou para Alexandria, corrido. Vendi tudo o que me restava: terras, outras propriedades. Vou ver se ponho o meu capital na indústria. Ou no comércio - conclui, depois de uma leve hesitação reflexiva.
- A grande indústria é hoje um monopólio do Egito - observa Heliodoro, com um ar de gravidade.
- Há entre nós também o que se convencionou chamar a grande indústria - retruca o homem da Lócrida. - Não vamos muito longe: ali atrás está Atenas, com o resto da sua produção metalúrgica, as suas fábricas de armas, de instrumentos de música, de lâmpadas, os seus curtumes, empregando ainda alguns desses estabelecimentos dezenas e até mesmo uma centena de operários. Mas o regime econômico que aí impera não me agrada.
- O regime escravagistas... - comenta Heliodoro, com a sua pontinha de ironia.
- Exatamente. O escravo, para começar, é um operário caro. Ele consome todo o ano e não trabalho senão um limitado número de dias. O calendário ateniense conta com sessenta dias feriados.
- Muita cousa! - exclama Heliodoro.
- Para você ver. Daí surgiu esta modalidade: o escravo de aluguel. Ele recebe um salário, por dia ou por peça. O patrão já nada tem que ver com respeito às suas necessidade de alimentação, vestuário, alojamento. Se não trabalho, não come. E infelizmente é o que se dá, porque não é com duas dracmas diárias que um trabalhador pode sustentar a si e a sua família.
Segue-se um breve silêncio.
- Depois - acrescente o agricultor da Lócrida - o escravo trabalho de má vontade. Isso é o pior. Além do que, o seu produto é de má qualidade. Assim se explica a decadência da indústria em países como a Grécia.
- É, o problema é muito complexo - comenta Heliodoro, para dizer algo, dissimulando mal o seu desinteresse pelo assunto.
O Lócrio continua:
- Na agricultura, a mesma cousa.
- Mas a agricultura grega não emprega exclusivamente escravos! - protesta Heliodoro, animando-se um pouco, mesmo a contragosto.
- Na grande propriedade, predomina um outro regime, por sinal não muito invejável também - o da servidão da terra - volve o outro. - Mas a pequena e média propriedades só empregam escravos. Isso eu lhe posso afirmar com experiência pessoal.
Cala-se um instante. Depois prossegue:
- Qualquer proprietário rural do nosso país pode corroborar o que digo: é o escravo o responsável direto pela decadência da produção agrícola, pela formação do latifúndio, pela dispersão do nosso povo, - por essa emigração que você coloca entre os fatores da decadência nacional.
Heliodoro não responde.
- Em plena era da máquina - continua o Lócrio - é lamentável que a nossa agricultura tenha de se nortear ainda por processos que parecem decalcados do broquel de Aquiles. Por que isso? Porque não se pode pôr na mão dos escravos nem ferramentas delicadas, nem maquinaria. Eles estragam tudo.
Heliodoro e Sílvio ouvem calados.
- O progresso na mecanização da lavoura entre vós, os Romanos - diz ele, voltando-se para Sílvio - é uma aquisição do passado: provém duma época anterior ao estabelecimento generalizado da economia escravagista. Produção servil e progresso agrícola são duas cousas incompatíveis.
Faz uma nova pausa.
- Eu hoje sou um trânsfuga, reconheço - prossegue ele. - Abandono tudo: as terras patrimoniais, a minha casa, o meu próprio país. Só o faço porém depois de ter reconhecido a inutilidade da luta. Certa vez, escandalizei os meus colegas, observando-lhes que se devia usar adubos artificiais nas lavouras.
- Não era para menos... - acode Heliodoro, com um sorriso divertido.
- Mas se eu havia lido em Teofrasto um belo exemplo de emprego do salitre como fertilizante!
- E empregou-o? - pergunta Sílvio.
- É verdade: qual foi o resultado? - quer saber Heliodoro.
- Empreguei-o Mas a medo, em pequena escala, sem técnica. Não tive a coragem de enfrentar o cepticismo e o ridículo. Coincidiu com um ano de boas colheitas. A melhoria da minha produção foi atribuída a fatores de ordem geral. A minha experiência não convenceu ninguém.
- Pois muito bem: estamos chegando - diz Heliodoro, com ar consolado, ao ver o navio descrever uma ampla curva em demanda do cais.
Ao redor deles, a maruja movimenta-se para a manobra. Um marinheiro chama-lhes a atenção. Tem o torso nu, - um torso bronzeado, musculoso. Sobe agilmente por uma das enxárcias e equilibra-se lá em cima onde o vento à bolina faz as velas palpitar, em grandes movimentos de asas. O mesmo vento agita-lhe a tanga, pondo-a a vibrar como uma flâmula.
- Aquele sujeito não tem nervos - observa Heliodoro.
- Estão acostumados - diz o Lócrio.
- Parece que já podemos nos preparar para descer - insinua Heliodoro.
- A atracação ainda demora - responde o agricultor da Lócrida. - Vós não ficareis despachados senão dentro de uma hora ou mais. Desembarca também aqui? - pergunta ele a Sílvio.
- Ele segue até Corinto - apressa-se Heliodoro a responder.
- Não: resolvi ficar no Pireu - esclarece Sílvio.
É que ele vai aproveitar aquela oportunidade para dar um pulo a Atenas, talvez mesmo fazer uma visita rápida a Elêusis.
- Ah! muito bem - faz Heliodoro.
E, depois, numa interrogação reflexiva:
- O que andará este navio fazendo por estas bandas?
- Ouvi falar que ele trouxe um carregamento de papel - informa o Lócrio. - Mas eu creio que a sua viagem se prende a interesses militares.
Os dois amigos ficam um momento pensativos.
- Então você se muda para Alexandria... - diz Heliodoro ao homem da Lócrida.
- É o que está vendo. Passei adiante as minhas terras, que, como tantas outras, já não se prestam mais para a agricultura. Reunidas às glebas vizinhas nas mãos de um mesmo proprietário, vão constituir campos de exploração de gado. Teremos então aí mais um latifúndio. Tudo isso é obra do trabalho escravo. A propriedade territorial concentra-se cada vez mais. No século passado, Marco Túlio, a quem também chama o Cícero, rememora um fato bem característico: Roma não conta mais do que dois mil proprietários, - o que quer dizer que o vasto solo da República Romana está na posse apenas de dois mil cidadãos. Um censo rigoroso, hoje, vai acusar uma cifra menor. O que são essas imensas casas rurais, encerrando nações de escravos, todo o mundo sabe, até o governo, pois que o próprio Tibério se encarregou de o denunciar ao senado. Entretanto, a marcha para o latifúndio vai em franca ascensão. E o escravo é também responsável por muitas dessas aberrações que se encontram na nossa antiga legislação, como o encorajamento aos amores e uniões contra a natureza, a autorização do aborto e do infanticídio. Claro: o aumento da população servil cria uma atmosfera por tal forma irrespirável para a população livre, que é preciso restringi-la. O estado até certo ponto age com sabedoria limitando a natalidade, pondo-a sob controle, preconizando meios anticoncepcionais, favorecendo a homossexualidade e o celibato, justificando o aborto, perdoando o infanticídio, invocando a peste e a guerra como fatores benfazejos de despopulação. Mas não pode esperar à aprovação moral da nação para tais medidas. O problema está exigindo uma outra solução.
- Qual?
- A criação dum setor operário forte.
Heliodoro sorri. É interessante, diz, como se fala hoje em proletariado, em classe operária.
- Já em Tessalônica ouvimos bastante sobre isso. Não, Sílvio? O operariado, reunido numa ordem, talvez com direitos a eleger tribunos ou magistrados próprios, é apresentado como um remédio universal e infalível para todos os nossos males. Uma cousa como aquilo a que, se não me engano, os médicos chamam panaceia e que, o mais das vezes, não cura nada. Além disso, o operariado já existe. Não há de ser pois por falta de operariado que subsistam tantos males. Não seria bom irmo-nos aproximando? - pergunta noutro tom.
- Sim, acho bom - concorda o Lócrio.
Mas vai respondendo às objeções de Heliodoro, enquanto caminham.
Essa massa de artífices, de trabalhadores urbanos e rurais, mesmo de condição livre, não constitui um proletariado propriamente dito. Não lhe assiste o direito fundamental.
- De eleger magistrados específicos?... - pergunta-lhe Heliodoro num sorriso, sem diminuir o passo e maio virando-se parar ele.
- Não: o direito de organização.
- Isto é mais grave. Equivaleria a restaura as associações de classe, os colégios operários, que o Império suprimiu. E para que conceder novamente aos trabalhadores o direito de organização?- interroga Heliodoro.
- Para poder reivindicar o aumento de salários e o cumprimento da lei.
- Que lei?
- A que ordena que se empregue um certo número de trabalhadores livres nos serviços agrícolas.
A essa altura Heliodoro detém-se. Faz também o outro parar, puxando-o persuasivamente por uma das dobras do himátion.
- Responda-me francamente. Você estaria dispostos a atender um pedido de aumento de salário por parte dos seus empregados?
- Dentro dum limite justo, sim.
- E que considera você um limite justo?
- O necessário para o sustento próprio e o da sua família.
- E não é o que acontece agora? Mesmo para esses casos de escravos de aluguel, de escravos assalariados?
- Não. Essa gente recebe apenas o que é preciso para restaurar a sua força de trabalho.
O Lócrio faz uma breve pausa e depois continua:
- Você sabe como se faz o cálculo dos salários nos estabelecimentos industriais da Grécia onde se empregam homens livres. É sobre a equivalência do que custa ao senhor a alimentação do escravo. Nada mais. Não se levam nem em conta as necessidades de alojamento e vestuário. E o operário tem de se conformar com essa migalha, porque o seu temível concorrente, o escravo, está ali pronto a substituí-lo, tão logo ele ensaie uma resistência.
- Mas sendo assim - replica Heliodoro - contando o patrão com essa reserva mobilizável que é o elemento escravo, não vejo como o proletariado, mesmo de dentro duma organização de classe, dum colégio, poderia tentar uma resistência profícua. O mal, parece, é sem remédio mesmo.
- Não é bem isso - obtempera o agricultor da Lócrida. - O trabalho do homem livre é mais apreciado, porque mais qualificado. Muitos industriais já reconhecem o fato, embora não o proclamem. Parece que os únicos a anão se aperceber da cousa são os próprios operários. Ora, congregados numa associação, eles iriam se formando uma consciência de classe. Poderiam impor a sua melhor qualidade de trabalho. Está claro que a venderiam por um preço mais alto. Mas o empregador acabaria por gostar disso, que lhe redundaria num maior afluxo de rendimentos.
- Mas imaginemos - diz Heliodoro, depois de um momento de reflexão - que o industrialista não concorde em pagar esse preço mais alto. A que recorreriam então os operários?
- Ao abandono em massa do trabalho.
- A um ato de rebeldia, portanto.
- Talvez. Mas enfim, a gente não querendo ou não podendo trabalhar, não trabalha mesmo. Se a cousa é lícita para um indivíduo tomado isoladamente, não vejo como não possa ser igualmente lícita para o grupo.
- Olhe - confessa-lhe Heliodoro com o seu sorriso sarcástico: - a sua tese é muito mais perigosa do que a de Evandro.
- Você se engana. Evandro de Tessalônica quer a mesma cousa que eu: a extinção da escravatura. Mas com fins políticos, ao que parece, como filósofo, como inovador intelectual, como idealista. É isso que espanta nas suas ideias. Nunca ninguém é capaz de saber onde pode parar o ideal. A minha tese é prática, limitada: eu quero isso e só isso. Tanto é assim, que pretendo reduzi-la a escrita, sob a forma dum memorial, e encaminhá-la ao Imperador, para estudo. Nero, dizem, é um espírito aberto a todos os melhoramentos.
Heliodoro e Sílvio afastam-se um instante. Reúnem as bagagens, que confiam aos escravos. Voltam depois para coberta, onde o agricultor da Lócrida vai novamente juntar-se a eles. O grande navio está encostando no molhe. Em terra, já se formaram grupos de curiosos.
Quando começa a descida dos passageiros, Heliodoro volta-se para o Lócrio e diz-lhe:
- Bem, então aqui nos despedimos...
O outro ergue a cabeça, gira-a no ar como à procura de alguém. Nisso, passa por eles um marinheiro. O sujeito o interpela:
- Que tempo vamos demorar no Pireu?
- O necessário para ir à taberna próxima e tomar um copo de vinho mareótico - responde o marinheiro com um riso canalhar.
- Então eu desço também com vocês.
- Sabem - declara Heliodoro, quando já se acham em terra - a insinuação do marinheiro não é de todo destituída de propósito. A bordo nos serviram um péssimo vinho, que um Trácio mesmo rejeitaria. Vamos procurar uma taberna.
A poucos passos eles encontram uma casa de pasto. Um balcão de alvenaria, revestido de mármore, corre na linha da fachada. As mesas estão colocadas sobre o passeio. O balcão em realidade não é mais do que um forno, com buracos onde fervem, embutidas e recobertas com as suas tampas, as panelas de bronze. A parede do fundo é toda ocupada por prateleiras de pedra, onde se expõem comestíveis e outros artigos. Dos pilares pendem garrafas de vinho, presas por correntes. Grandes ânforas de barro contendo vinho, algumas ainda seladas, estão apoiadas contra o balcão e as paredes. - Uma escultura em terracota, representando uma cabra, indica que o estabelecimento vende leite também.
Ao chegarem, Heliodoro vai destampar uma das marmitas. Uma onda dum aroma gorduroso e quente inunda-lhe a face, como o fumo ritual incensando a barba dum deus.
- O ar do mar estimula o apetite - diz ele: - estou resolvido a almoçar.
Escolhe com pachorra as iguarias do jentáculo. Vem depois, com os amigos, ocupar uma das mesas. Vendo os escravos que, com as bagagens, se mantêm afastados, faz-lhes com a mão o gesto de se aproximarem.
- Vão-se abancando também por aí - ordena-lhes.
O agricultor da Lócrida, que já merendara a bordo, vai apenas tomar um pouco de vinho. Fiel aos hábitos frugais do seu país, Sílvio fará uma refeição leve: um copo de vinho - desse maravilhoso vinho da Grécia - acompanhado de algumas azeitonas. Ao ver porém um desses pães redondos, achatados no centro, com oito divisões formando gomos, que se usam na Itália, decide-se por um pedaço de pão também.
Pela rua passam indivíduos, aos grupos, falando animadamente, com gestos vivos. Necessariamente vão ao porto, ver o navio alexandrino.
- A população em peso se mobiliza... - observa Heliodoro, mastigando deliciadamente uma sardinha.
- Até de Atenas vai vir gente - assegura o Lócrio.
Como tudo isso parece um sonho! Ali atrás deles, a poucos estádios, reflete Sílvio, encontra-se Atenas!... Quantas vezes, com esse seu amor pela antiguidade, não almejara esse momento, - de pisar o solo da Grécia, contemplar esse testemunho vivo do passado que é Atenas!
A Grécia decai, todo o mundo o anuncia. Mas, que é a Grécia senão o que as idades antigas acumularam, sob os golpes dum gênio para sempre desaparecido? E essa Grécia ele vai encontrar dentro de pouco, sobre a Acrópole, intacta, como a manifestação teimosa dum passado que se recusa a perecer.
Mas havia o problema de se transladarem a Atenas.
- Pode-se ir até a pé - afirma o Lócrio.
- Ah! isso não - protesta Heliodoro.
Ele está imaginando contratar já ali uma condução, que, não só o transporte a Atenas, mas o leve até o final da jornada: Mégara. Tinha pensado em fazer a viagem a cavalo, por ser mais rápida.
O dono da tasca, depois de servi-los e servir os escravos, recolhe-se para trás do balcão. Põe a escutar a conversa.
Junto deles continua o trânsito de pessoas, que se destacam com um brilho vivo à luz crua e ampla da manhã. Ao entrar na zona azulada das sombras que fazem as casas sobre as calçadas, o branco da sua pele e das suas vestes toma a tonalidade macia dos mármores.
Eles ainda estão discutindo a questão do transporte, quando o taberneiro observa, lá do seu balcão:
- Quem pode resolver isso é Hiponax.
- Quem é?
O homem informa. E eles ficam assim sabendo que se trata dum jumentário, que tem a sua estação para os lados das antigas muralhas.
- E é longe daqui?
- Não.
- Então vamos até alá - convida Heliodoro, fazendo a menção de se erguer.
- Hiponax não demora em aparecer por aí - declara, com uma certa displicência, o dono da taberna.
Outras mesas começam a ser ocupadas. É gente do porto. Fala-se em altas vozes. O assunto é o navio.
- Com que então, ele trouxe um carregamento de papel - diz Heliodoro, reencetando a conversa com o agricultor da Lócrida. - E era preciso um navio tão grande?
- Você sabe - responde o Lócrio - consome-se muito papel. A administração pública vive no regime do papelório. Além disso, escreve-se muito: borra-se de tinta muito papel que poderia ter um emprego mais útil. Sem contar com o papel de embrulho.
- Só essas várias utilidades que tem o papel - filosofa Heliodoro - já estão mostrando toda a enorme complicação do mundo moderno. Para o futuro, vai ser preciso simplificar isso.
Sílvio tem um sorriso.
- Estamos nas vésperas do fim do mundo, do fim dos tempos - diz. - Quer ele venha pelo fogo de Cristo, quer pela revolução, quer pela invasão dos Bárbaros, o Império vai acabar. E aí haverá uma grande redução no consumo do papel. Estejam tranquilos...
- É verdade - observa o Lócrio: - fala-se muito num projeto de incêndio de Roma pelos cristãos. Ainda a bordo ouvi uma conversa a esse respeito entre dois marinheiros sírios. Pelo visto eles pertencem à seita.
- Roma queimou há quatro dias - diz Sílvio, com o mesmo sorriso.
- Há quatro dias? - faz o agricultor da Lócrida.
- Sim - volve Sílvio: - no dia em que deixamos Tessalônica. No décimo-quarto dia das calendas de agosto...
- Não diga isso nem brincando - observa-lhe Heliodoro.
Por trás deles, desde alguns instantes, acha-se o taberneiro acompanhado dum homem alto, ainda moço, a face tostada pelo sol. - É Hiponax.
Ele traja uma exômides de operário, que lhe deixa a descoberto o lado direito dum tronco musculoso e trigueiro, um braço vigoroso. Os joelhos e os músculos das pantorrilhas, fortes e elásticos, estão a denunciar o representantes desses povos andadores da Líbia. Por um instante, vem à recordação de Sílvio o passo elástico de Tarsita subindo os degraus de pedra da casa de cenáculos em Tessalônica. De resto, como mais tarde o jovem vem a saber, Hiponax descende duma antiga família do ramo copta.
Ali mesmo combina-se o serviço. Ele fornecerá os cavalos para Sílvio e Heliodoro e as mulas para os escravos com as bagagens. Pessoalmente, fazendo parte da comitiva, conduzirá os animais para as mudas futuras.
Heliodoro, depois de pagar a despesa da refeição e a do vinho (que era cobrado à parte e tinha um preço fixo) convida os companheiros para se levantarem. Saem. Nas proximidades do cais, ele e Sílvio trocam despedidas com o agricultor da Lócrida, que, com o passo cadenciado, retorna ao navio.
- Como essas ideias de reforma estão invadindo pouco a pouco as consciências! - observa Sílvio, quando se põem de novo a caminhar, em demanda da estação de animais de aluguel do jumentário. - Evandro não está só.
- Na tradição reside a estabilidade - sentencia Heliodoro.
Vão partir imediatamente. Não têm nada a fazer no Pireu.
- Como este lugar está horrível! - exclama Heliodoro.
Fazia muito tempo que ele não via o Pireu. A sua base, para as suas constantes peregrinações, era Corinto. Corinto sim, progredia. E estava destinada a tomar um novo impulso com a abertura do canal através do istmo.
- Será que sai?... - pergunta Sílvio, com um leve sorriso céptico.
- Pelo menos é um projeto de Nero. E Nero é um príncipe construturo.
Sílvio quer saber quanto tempo gastarão dali a Atenas.
- Ah! muito pouco - responde Heliodoro. - Uma hora, não?... - indaga por sua vez, dirigindo-se a Hiponax, que caminha, silencioso, ao lado deles.
O outro relanceia o olhar ao seu redor. Parece que mede o comprimento das sombras que se estiram sobre as calçadas.
- À hora sexta estamos lá.
O estabelecimento do jumentário é apenas um alpendre, debaixo do qual se vê uma carruagem de quatro rodas, muito parecida com a reda em que eles viajaram. No momento está desatrelada. Com o auxílio de um moço, ele em pouco tempo reúne os animais necessários à jornada. Distribui pequenos acicates de bronze, que os viajantes apresilham no calcanhar esquerdo. Fazem-se outros preparativos. Largam por fim.
O caminho corre entre as antigas fortificações, já agora desmanteladas, e que outrora uniam o Pireu a Atenas. Já à saída, Heliodoro distanciou-se dos demais companheiros. Sílvio, o ar sonhador, leva o seu cavalo a passo. Hiponax caminha a seu lado. E vão conversando.
Hiponax é de Alexandria. Lá deixou a mulher, enquanto arranja a sua vida por ali. O grande centro mundial do luxo e do prazer oferece terríveis contrastes: a vida lá é muito dura para os pobres, diz ele. Quase as mesmas palavras de Tarsita. Só que Hiponax as profere num tom de serenidade, que não se fica sabendo se é resignação ou indiferença.
Viveu sempre daquela profissão ou de misteres afins. Em Copto, na Tebaída, onde trabalhou algum tempo, fez parte das caravanas que saíam dessa cidade com carregamentos destinados à longínqua e fabulosa Índia. No geral eram mercadorias que remontavam o Nilo, desde Alexandria. Eram transportadas através do deserto do Alto Egito em dorso de camelo, - introduzido ultimamente no país com a conquista romana. Viajava-se somente à noite, por causa do calor, guiando-se pelas estrelas. Repousavam durante o dia. Iam saltando de poço em poço até Berenice, no Golfo Arábico, onde uma frota de navios esperava a mercadoria para transportar até os Índus.
Aquela que é hoje a sua mulher ele a foi encontrar na parte mais miserável do bairro judeu na Alexandria. Era quase uma menina. Vivia com a mãe. Tinha outros parentes, inclusive um irmão, que Hiponax não chegou a conhecer, porque muito cedo se encafuara no deserto, para viver - não sabe bem - uma vida contemplativa ou de banditismo e de pilhagem. Os outros parentes, inclusive uma irmã da sua mãe, habitavam a Macedônia, onde se entregavam ao comércio da púrpura.
Depois da sua união, a mãe da sua mulher transferira-se definitivamente para a Macedônia. Ela não tolerava o estio, sobretudo quando começava a soprar esse vento carregado de areia que dura quarenta dias. Todo o Egito fica coberto com as areias cálidas do deserto, que só o vento do norte, o Etésio, remove, anunciando o fim da estiagem e a inundação. Ele espera trabalhar mais algum tempo e ir depois reunir-se à sua mulher. Na verdade, não tem notícias dela desde que deixou Alexandria. Mas conta que ela esteja se mantendo lá com o seu trabalho, diligente e casta.
- Ah! possivelmente - diz Sílvio, já agora desatento à história de Hiponax.
É que, faz algum tempo, o seu olhar está preso a u’a massa - um penhasco - que se destaca à sua frente, contra as faldas verdejantes duma montanha. O penhasco é cingido, a partir duma certa altura, pelos panos acinzentados duma muralha. No alto, coroando-o, refulgem ao sol colunatas, frontões, frisos, dum mármore mais branco do que a neve. - É a Acrópole.
- Que montanha é aquela lá? - pergunta Sílvio a Heliodoro, que frear o animal, esperando pelo companheiro.
- O Himeto. É fácil reconhecer.
- Não: eu pergunto aquela outra lá no fundo.
- Ah! Licabeto. Do alto da Acrópole também se avista a cidadela de Corinto.
Sílvio percorreu miudamente todos aqueles lugares que um monumento ou uma recordação tinham celebrizado. Visitou o Partenon e os jardins da Academia. Naturalmente, não encontrou mais as árvores quase sagradas, sob cujas sombras passara Platão, silencioso e grave, filosofando com os seus discípulos: a mão sacrílega do invasor acuado as havia abatido, para com elas fazer engenhos de guerra.
Os jardins da Academia estão situados a noroeste de Atenas, a uma distância de aproximadamente seis estádios, sobre o Cefiso. Sai-se, para lá chegar, pela porta Dípilo, depois de atravessar o Cerâmico.
A estrada, ladeada de túmulos, tem o recolhimento e a religiosidade de uma necrópole. Parando diante dos túmulos de Trasíbulo, de Péricles, Sílvio tinha a impressão de cumprir uma peregrinação piedosa. De resto, toda a cidade, apesar do seu esplendor, exala tristeza e solidão.
Sílvio está disposto a cancelar a sua viagem a Elêusis.
Uma romaria a essa cidade só se justificaria por ocasião dos Mistérios, quando Diônisos baixa aos seus vales perfumados de flores, agitando uma taça de vinho, mais brilhante do que um astro. São os Grandes Mistérios, que se celebram no mês de boedrômion, o terceiro mês ateniense. Quer dizer: daí a sessenta dias mais ou menos. Além disso, os Grandes Mistérios de Elêusis são precedidos por uma iniciação, os Pequenos Mistérios, que representam o drama da concepção miraculosa de Diônisos e do nascimento do Menino-Deus e têm lugar à margem esquerda do Ilisso, no mês de antestérion, isto é, no começo do ano civil de Roma. Claro que não poderia estar aí por essa época. Por todas essas razões, o melhor mesmo era cancelar a sua viagem a Elêusis.
Já está há dois dias em Atenas. Sai cedo, farta-se de beleza ao contato dos seus mármores e das suas paisagens, depois retorna à hospedaria, como uma abelha que volta do seu voo pelos pomares, pesada de mel. Pouco vê Heliodoro, que sempre achou o que fazer em Atenas, na sua vagabundagem afanosa.
Nessa tarde, depois do banho, transformada a singela cama de hotel num leito lucubratório, Sílvio escreve a Evandro a sua carga, - longa, apologética. Heliodoro tem um estafeta para Tessalônica. É ainda o que desejava. Tudo obra da precipitação com que quis se meter dentro do bojo dum navio de seis mil módios.
Escrevendo a Evandro, ele também se penitencia da mesma leviandade. Reconhece que, depois do seu último encontro, não podia deixar Tessalônica sem as... necessárias instruções.
“Como vês - diz ele na carga - progredi muito, pois reclamo instruções...”
Confessa-lhe que teve um momento de vacilação - de grande vacilação - diante da enormidade da tarefa: dois moços, para salvar o mundo. Mas agora está resolvido. Ao menos em tese, faltando naturalmente conhecer os detalhes do plano. Concorreu muito para isso (não tem dificuldade em declarar) a conversa, a bordo, defronte do Pireu, com o agricultor da Lócrida, - e que ele lhe comunica nas suas linhas gerais.
“Tive um enorme prazer ao ver que não estamos sós” - acrescenta ele. E dá uma sugestão a Evandro: a de colocar à frente do movimento homens como o Lócrio, - sentindo problema em profundidade, mas com pouca extensão. Ele tivera uma reflexão valiosa: Nunca ninguém é capaz de saber onde pode parar o ideal. Pugnando por uma reforma que abalará os fundamentos mesmos da ordem econômica, um indivíduo como o agricultor da Lócrida não está mais do que defendendo interesses egoísticos, de âmbito aparentemente restrito, legítimos portanto. Tão legítimos, que el não hesita em envolver o próprio Imperador no seu plano de reivindicações.
“É doloroso - prossegue a carta - que os grandes ideais tenham de se esconder detrás de interesses mesquinhos e transitórios, a bem de vingarem. Mas é esse o material. Nos meus passeios pelos arredores desta cidade, visitei o Pentélico. É u’a massa bruta. Daí entretanto saíram, há quase meio milênio, os blocos de pedra que se transformaram nos mármores do Partenon...”
Tessalônica para ele, declara-lhe Sílvio, fora a grande reveladora. Para coroar a obra - e é o que ele estava ansioso por lhe comunicar - tomara contato com o tal ramo militante dos Terapeutas do Egito. Tem uma certa afinidade com os Terapeutas do deserto, mas constitui uma seita à parte: os cristãos. Faz um apanhado geral da sua doutrina. Revela-lhe que, impulsionados por um chefe infatigável - Paulo de Tarso - eles articulam um movimento. Dissimulam os seus propósitos num linguagem alegórica, própria do Oriente, mas onde se descobre nitidamente a intenção de subverter a ordem pública, com o objetivo revolucionário de estabelecer a igualdade social. É isso mesmo que quer dizer a expressão Reino do Céu (como Evandro aliás pressentira) e não, como alguns presumem, a fundação dum império tendo Jerusalém como capital e Cristo Jesus como Imperador. Pretendem começar com um ato de força, de tal magnitude, que tenha só por si um poder convincente e decisivo. “Você, quando receber esta missiva, já há de ter conhecimento do incêndio de Roma, no décimo-quarto dia das calendas de agosto, se é que a cousa não falhou. Estou capacitado para apontar os seus autores, tantas são as minhas ligações com eles.”
O problema, num momento francamente insurrecional como esse, é saber se a melhor política não seria conjurar todos os esforços, amalgamando reivindicações, transigindo mesmo nas questões secundárias e impertinentes, como a da natureza dos deuses, com miras a um objetivo mais alto. “Eu por mim não hesitaria em me unir a todos esses descontentes. Mas uma decisão dessa ordem eu deixo para você - que é o estratego.”
Depois de outras considerações, a carta termina com um pedido a Evandro para remeter toda a correspondência para Roma. E Sílvio dá-lhe o endereço de Aristóbulo, no Janículo, traçado num pedaço de papiro, que ele consulta, desencavando-o da sua bagagem, onde se achava misturado a outros papeis e livros.
Nos seus traços gerais, a sua carta está justa e o deixa mesmo satisfeito. Quiçá um tantinho desvanecido. Pois não é que deu sugestões, a seu parecer sensatas, reveladoras mesmo dum certo tino político?...
E Sílvio sorri, antevendo a surpresa agradável que a carta vai necessariamente produzir em Evandro...
Como chegara ele à convicção de que os adeptos de Cristo são uns incendiários? Aristóbulo, que quase assistiu ao nascimento do cristianismo, tinha razão: Cristo é um deus pirológico. A sua afirmação de ter vindo trazer o fogo à terra denuncia os propósitos apocalípticos e catastróficos do movimento. Toda a doutrina cristã se resume nisso: o fim do mundo. Como se consumará o fim do mundo? Pelo fogo, é a própria ciência que o proclama. Nada mais natural que os cristãos, julgando-se instrumentos da vontade divina, procurem pôr em prática uma medida que só virá comprovar a verdade da predicação.
A escolha de Roma, a moderna Babilônia, para teatro do acontecimento compreende-se por si: a Cidade avulta tanto no mundo contemporâneo, que tudo que é magnificente há de nela se passar, seja para a dignificar, seja para a denegrir. A determinação da data - uma data fatídica - bem denota a preocupação dos seus autores em que o fato seja tido como obra dum pensamento deliberado e não o simples produto do acaso.
Claro: tudo isso não passa duma mera hipótese. Outras poderiam ser também formuladas. Não é de hoje o projeto de Nero de reconstruir a Urbs, sob um novo plano urbanístico e com um outro nome: Nerópolis. A questão é saber se ele teria a audácia de destruir um lugar dentro do qual aliás vem acumulando os seus tesouros. De qualquer forma, ele-Sílvio sente surgir dentro de si a ideia teimosa de que Roma já ardeu e de que os cristãos foram os autores desse ato. Naturalmente que ele bem desejaria que o seu vaticínio não se cumprisse...
Com a epístola na mão, já enrolada, já selada, fica pensando se não constitui uma imprudência veicular um boato desses. Não diga isso nem brincando - advertira-lhe Heliodoro. E aquela sua afirmação de que poderia apontar os autores do fato, tão ligado se acha a eles, não representa uma acusação - e acusação gratuita?... Evandro teria o direito de exigir-lhe uma explicação categórica sobre isso.
O caso porém é que não sentiria a mínima surpresa se alguém lhe viesse anunciar que Roma já não existe, - tão convencido está de que são chegados os tempos...
Talvez esteja sendo vítima dum sonho, gerado nessa solidão marmórea de Atenas. Mas sente o desejo de o comunicar ao amigo que tão funda impressão causou no seu espírito. Além disso, ele não confiou o seu sonho a um escrito destinado à leitura pública , num torneio literário dos Jogos Capitolinos. Mas a uma carta íntima, bem mais importante pelas outras revelações que encerra. Vai encaminhá-la assim mesmo. - E, sem mais hesitação, deixa o hotel, procura Heliodoro e põe-lha nas mãos.
- Assim que eu chegar a Mégara, despacho-a para o seu destino - promete-lhe o amigo. - Temo o endereço.
- Não sei onde mora Evandro. Mando a carta aos cuidados de Crisócero, cuja moradia não é difícil de encontrar.
- Não, não é - corrobora o outro, que sabe da sua popularidade.
Chega o momento de Heliodoro partir. Hiponax vai com ele.
- E você? - pergunta o Grego a Sílvio.
- Talvez eu ainda me demore por aqui. Ainda há cousas a ver. Depois, toco-me a pé pela estrada do Pireu, onde embarco para Corinto.
- Não faça a volta pelo Peloponeso - recomenda-lhe Heliodoro. - Atravesse o istmo e vá tomar um navio em Lequeu. É mais seguro.
- Seguirei o seu conselho.
- Então adeus! Breve nos veremos em Roma.
- Quando, mais ou menos?
- Antes do terceiro dia dos idos de novembro, naturalmente...
Na realidade, tudo quanto Sílvio desejava ver em Atenas ele já visitou. Entretanto, vai-se deixando ficar por ali. É que a cidade convida à meditação. Como o mundo, ele está num momento de crise. Seu espírito foi violentamente sacudido por todas essas questões que andam no ar e de cuja existência só agora vai se dando conta. - Isso foi obra de Tessalônica.
*
Uma ou duas vezes por dia ele se dirige à Acrópole, sobe as escadarias que conduzem aos propileus, envia o seu beijo aos templos, por uma questão de hábito e para não romper abertamente com a tradição, e senta-se quando pode, à sombra do Partenon. Voltando para o lado do mar, ele vê, longe, emergindo da águas do Egeu, uma ilha, que lhe atrai constantemente o olhar. Deve ser Salamina, onde nasceu Eurípedes.
E Sílvio medita. Tem já um propósito definido. Ficará mesmo em Roma, ganhará a sua vida em Roma. Há dificuldades a vencer, as primeiras das quais com a própria família. Mas tem já o seu plano também: vai-se deixando ficar por lá, apenas como quem prolonga mais a viagem. Os pais irão tomando pouco a pouco conhecimento da verdadeira situação. Dessa forma, a separação processar-se-á de modo gradativo e... aceitável.
Inveja a vida de Evandro, consagrada a uma ideia. Quer fazer também alguma cousa. O mundo toca ao seu fim, isso é inegável. Há uma inquietação dominando tudo. A ordem social não trouxe a paz: a tão decantada paz otaviana não passa dum recurso de propaganda governamental.
Que é, em suma, essa ordem social? Uma liga, formada pelos dois mil latifundiários de Cícero, explorando, por si ou pelos apaniguados, o resto da humanidade. Todas as instituições que dela derivam ou que surgem para apoiá-la, desprestigiam-se também: os estado, em perpétua convulsão; a religião oficial, progressivamente abandonada pelos fieis, - que vão engrossa a massa de adoradores de outros deuses, exóticos e, no fundo, igualmente falazes.
Até aí a luta principal feria-se entre estados, buscando uma hegemonia. Mas o Império absorveu todo o mundo, pelo menos a porção do mundo que a civilização tornara habitável. Nunca todavia como agora as consciências se haviam armado tão pesadamente.
Em toda a parte está-se em pé de guerra. Guerra passiva, como a dos anacoretas do lago Mareótis, tão bem personificados na figura de Jair ben Jared. Guerra franca, como a dos Judeus e dos cristãos. Mas guerra contra quem? Os cristãos pelo menos não aspiram ao poder político. Essa revelação de Ascalon de que Cristo trama em Roma a tomada do poder não passa duma provocação. Eles estão em guerra sim. Mas não contra César. Contra a religião do estado? contra os deuses oficiais? Todos os deuses acabam por se acomodarem entre si. Aí está esse entendimento entre deuses romanos, helênicos, egípcios para o demonstrar. E há sempre um lugar - uma vaga - para um deus retardatário, que queira disputar o domínio sobre um cantinho do mundo ou sobre um desvão da fé. Ali em Atenas mesmo ele viu mais de um altar consagrado a deuses desconhecidos. Cristo Jesus bem podia, se quisesse, ir-se alojando por aí. - Mas é que o seu reino não é deste mundo...
O reino de Cristo é o da igualdade social. Desembaraçada da sua roupagem oriental e alegórica, toda a teologia cristã nada mais faz do que reviver e atualizar um capítulo de economia política. O Fim do Mundo - ideia central da cristologia de Paulo de Tarso - representa apenas o fim da ordem escravagista que impera no mundo contemporâneo. A parusia de Cristo, vindo depois da Catástrofe para o Julgamento Final, equivale a uma audiência, em que o magistrado, no seu tribnual, castiga por fim os infratores, - os exploradores. O advento do Reino do Céu, em que todos serão irmãos, tem o mesmo sentido igualitário da formação duma classe de trabalhadores, - a hetairização do proletariado, nos moldes preconizados por Evandro. - Daí o atrativo que o cristianismo exerce entre todos os miseráveis.
O momento requer uma decisão. Ou ficar com a ordem tradicional e perpetuar uma injustiça, ou lutar ao lado dos pobres, dos oprimidos. Pouco importa a diversidade das palavras de ordem. Reino de Cristo, renúncia aos bens deste mundo, guerra ao escravocrata - tudo isso vai ter a um mesmo ponto: a luta contra a exploração do homem pelo homem. Por essa razão, urge um entendimento amplo, capaz de fundir todos os descontentamentos. - Nem foi outra a grande sugestão que ele deu a Evandro na sua carta.
Todavia, a insurreição, como toda obra, exige uma técnica. Não vá o zelo exagerado de uns, a inconsideração de outros pôr tudo a perder. A classe dominante é forte, dispõe de quarenta legiões, que se mobilizarão a um simples aceno. Eis por que considera desastroso um ato de força isolado, como o propalado incêndio de Roma pelos cristãos.
Não tem certeza se deixou isso bem claro na epístola a Evandro.
Como desejaria que um deles estivesse em Roma, para melhor esclarecer e coordenar! A eclosão do movimento, até mesmo a sua articulação demandam uma preparação doutrinária. O plano de Evandro é justo: ir aos locais de trabalho, doutrinar os operários. Paulo de Tarso dirige-se às sinagogas. Ilumina-as ou agita-as. Em Roma, poderiam aparecer na praça pública. Os poetas fazem isso: em meio à multidão, desenrolam o seu poema, começam a declamar. Assim procedem os que não têm editores. Sempre encontram curiosos ou desocupados, que fazem círculo em torno do declamador.
Em lugar dum poema, poder-se-ia ler uma material de doutrina ou de agitação. E a polícia que prendesse: Paulo de Tarso foi muitas vezes preso e espancados. Algo de sólido haveria de resultar de um ato desses. Não vai a ponto de jurar: mas pensa que estaria disposto a cooperar numa campanha assim. E, como ele, há de haver muitos jovens, disseminados nesse vasto Império, que pensem do mesmo modo.
Os cristãos organizaram-se em agremiações funerárias, únicas permitidas num estado que aboliu praticamente o direito de associação. Com isso, podem ter a sua caixa, - detalhe importante, desde que não é possível levar adiante um movimento revolucionário sem dinheiro.
É necessário uma infiltração nessas associações. Faz-se mister que a igreja imprima cada vez mais um caráter econômico às suas reivindicações e à sua prédica. Desde que o movimento economista, à maneira de Evandro, e o movimento cristão se acham identificados no ponto fundamental, é preciso que marchem juntos. Talvez fosse esse o pensamento que, traduzindo um desejo de aliança e embora não formulado, ditou aquelas palavras da sua carta, no tópico em que se referia às suas ligações com os prováveis incendiários de Roma. Lançou essas palavras no entusiasmo daquela convicção inabalável. Mas não resta dúvida que foram palavras imprudentes, que nunca deveria ter escrito...
Reconhece agora, quando já é tarde, ter cometido uma leviandade. Simples leviandade, que Evandro terá bastante tolerância para desculpar...
Um pensamento porém - súbito! - tão inédito que nem parece pertencer-lhe, um pensamento inesperado lhe vem à mente: e se a carta não atingisse o seu destino?... Poderia dar-se isso? Ele fica a examinar essa conjetura com uma certa precipitação ansiosa! Quer ponderar tudo muito bem.
Não confiou a sua missiva a um portador certo, definido: vai valer-se do estafeta duma outra pessoa. Sempre viu o cuidado que punha seu pai nessas questões: os correios levam o que há de mais precioso em nós - a palavra. E não expressa duma maneira qualquer: mas uma palavra indelével, - durável. No caso presente há ainda uma outra circunstância: a carta não seguiu um rumo direto. Ele usou dum endereço até certo ponto ocasional. E se Crisócero não quiser ou não poder fazê-la chegar às mãos de Evandro?...
Grave, muito grave, isso. Sílvio sente uma inquietação, quase vizinha do medo. Num movimento automático, olha em torno. Mas tudo é silêncio na Acrópole, ali na paz daqueles mármores eternos.
Bem, mas há ainda a esperança de que o seu terrível pressentimento - de que Roma na realidade queimou - não venha a se verificar. E que, apesar de toda a insegurança com que a carta seguiu ao seu destino, aquelas palavras irrefletidas não venham a ser lidas por mais ninguém senão por Evandro. Que horrível cousa não seria com efeito se caísse nas mãos da polícia uma declaração, em que ele anuncia como certo um acontecimento dessa ordem e se diz capacitado a apontar os seus autores, tantas são as suas ligações com eles!
Procura acalmar-se.
E se todas essas histórias sobre o incêndio de Roma não passassem, efetivamente, de simples boatos?... Heliodoro, por exemplo, ouviu os mesmo rumores e não acredita neles: - Essa gente mente muito - dissera ele. Para estar tão divulgada a ameaça, a ponto de se falar nela em Tessalônica, de se falar a bordo dum veleiro alexandrino, fora preciso que tivesse havido muita indiscrição. Ora, essa indiscrição é a melhor garantia de que o ato fracassará. Mesmo assim isso não o tranquiliza: era preciso que não houvesse absolutamente conspiração, porque então qualquer ligação com eles careceria de realidade, por falta de objeto... - De todas as maneiras, o melhor seria que não tivesse traçado aquelas terríveis palavras da carta.
Sílvio ergue-se. Se ainda fosse possível, ele interceptaria a missiva comprometedora. Mas a carta já vai longe. Heliodoro tem pressa em despachar o seu correio para Tessalônica, por causa daquele seu embrulhado negócio da reda. Talvez o correio já tenha partido. Não sabe exatamente a que distância fica Mégara, nem se Heliodoro, que seguiu viagem no dia anterior, já chegou lá. Se isso se deu, a essa hora a carta está a caminho de Tessalônica, - desgraçadamente.
Mas será mesmo que os cristãos, uma seita obscura, teriam reunido todas as condições - de decisão e de ousadia - para deflagar um golpe desse vulto? Agora, que começa a meditar maduramente no caso, vê como tudo isso é impossível e que todas aquelas conversas não passavam mesmo de conversa... Não há motivo para tamanha apreensão.
Desce as escadarias mais aliviado. É com o movimento duma simpatia a bem dizer nova que abre a bolsa, tira uma moeda e a entrega a uma mendiga que, sentada num dos degraus, lhe estende u’a mão descarnada e triste, por entre os seus farrapos. Que tranquilidade, quando chegar em Roma e vir tudo intacto, nos seus lugares! Não é que esteja desertando duma luta a que, na verdade, nem sequer se atirou. Mas não deseja ser vítima dum erro dos outros. Basta já o erro que cometeu, dizendo aquilo... A sorte é que, pelas proporções mesmas do ato que ele teme, este não se consumará.
Tudo foi se preparando para que ele desse acolhida a uma tal ideia. Sobretudo aquele ambiente fechado do seu dia em Tessalônica. Tarsita, certamente, abriu-lhe uma janela, por onde entrou um pouco de ar. Tudo mais porém exalava inquietações apocalípticas, com ose se houvessem escancarado as portas dos Infernos, deixando escapar a sua atmosfera mefítica e sulfurosa. Estava mal alimentado, mal dormido. A própria aventura com Tarsita desgastara-o um pouco emocionalmente. Em resumo: chegara a a um grau de sensibilização em que qualquer impressão toma logo a aparência duma realidade. Nem é outro o processo por onde se forma os iluminados, os místicos.
Agora que já repousou naquela calma ática de Atenas, pode apreciar com mais serenidade os fatos. Ninguém se alarmou, ninguém pareceu levar a cousa a sério. Aristóbulo, entregue à sua vida de expedientes,, conta voltar à sua casa e continuar na Cidade a mesma existência despreocupada. Heliodoro lá se tocou. Retemperado com uma breve estada entre os seus, retornará à sua afanosa vagabundagem, certo, por uma experiência renovada, de ir encontrar todos os lugares como os deixou, sem mudança sensível. A não acompanhar senão a vida desses dois, pareceria que o mundo repousa num equilíbrio estável, perfeito. Bem sabe que não é assim. Preparam-se grandes acontecimentos. Mas por que o mais terrífico na ocasião - e o mais difícil - haveria de fatalmente ocorre? Que tolice estar consumindo-se com uma preocupação infantil como essa!
A sua carta pode cair nas mãos de quem quer que seja, mesmo nas da polícia. O que aí diz sobre o incêndio de Roma ou não será entendido ou será tido como um gracejo. É não pensar mais nisso.
Vai tratar de prosseguir a sua viagem. Claro que, se lhe fosse possível, ficar toda a vida em Atenas. Mas não pode demorar mais. Se não se precatar, reflete num sorriso, é capaz de Aristóbulo chegar a Roma primeiro que ele. E Aristóbulo só conta lá estar para as vésperas dos idos do próximo mês. Parece que foi isso o que ele lhe disse. Ou para os próprios idos do mês.
Como foi passando o tempo! Já se está no sétimo dia das calendas de agosto. Faz portanto sete dias que deixou Tessalônica. É exato que só na viagem marítima gastou quatro dias. Pela demora nas escalas.
No dia seguinte fará a travessia do Pireu a Corinto. Deve haver uma linha regular de embarcações entre as duas cidades. Isso ele averiguará no hotel.
Mas agora, que está prestes a deixar Atenas, assalta-lhe o desejo de não perder nenhum dos aspectos da vida urbana. Vai ficar na rua a maior parte do tempo. - Mais tarde, essa sua estada em Atenas será rememorada como o maior acontecimento da sua vida...
Aliás, a sua passagem por Atenas tem-se revestido desse caráter egoístico que distingue a visita do estrangeiro: não se mesclou com a vida da cidade. Que diferente do que lhe aconteceu em Tessalônica! Ali, não tem feito mais do que ver. Talvez meditar. Em parte isso é devido à circunstância de se encontrar só. Conquanto aquela serenidade ática não convide a outro gênero de atividade senão contemplar. Uma vez ou outra, sonhar...
Entretanto, sente um desejo de comunicar com o semelhante, de entrar na corrente da vida urbana. Se a mendiga da escadaria da Acrópole tivesse sido menos triste e menos céptica, era com ela-mesma que ele iria dar começo à aplicação desse desejo, entretendo-se numa pequena conversa, por onde pudesse exprimir toda essa simpatia nova que experimentou ao desembaraçar-se dos seus receios.
Receios... Teria mesmo corrido um risco tão grande assim, para abrigar tais receios e sentir tamanho alívio quando eles se dissiparam? Talvez não.
Mas como aquela ideia do incêndio lhe foi abrindo paulatinamente um caminho na consciência! Primeiro um boato, um simples rumor, que Crisócero deixa escapar. Algum tempo depois, foi uma assertiva suspeita - a de Ascalon. Até aí ele reage, a sua razão reage. Mas uma atmosfera apocalíptica se condensa em torno a si: só respira inquietação, catástrofes. Acaba vendo aquela verdade. De forma tão real, que não tem dúvida em comunicá-la ao amigo. - Talvez dessa maneira se forme os delírios...
Chegou a anunciar o incêndio da Cidade!... Precisou-lhe a data, indicou os seus autores! Chega quase a desejar que a carta não vá ter às mãos de Evandro. Ele, um homem tão realista, tão objetivo, que é que não vai pensar de um puerilidade tão grande assim? se tivesse à mão um correio para Tessalônica, mandar-lhe-ia uma missiva, desfazendo a péssima impressão que a sua carta necessariamente lhe há de causar.
Não se incendei facilmente uma cidade. Principalmente, quando essa cidade é Roma. Ela dispõe duma forte milícia noturna - forte de sete coortes - atenta ao menor sinal de comoção.
São milhares de homens encarregados apenas em vigiá-la.
O estado, suspicaz e também vigilante, desarmou praticamente as massas, confiscando-lhes aqueles direitos tradicionais de associação e de reunião. Seu antepassado não teria mais como empregar a sua ociosidade em Roma: já não há mais a turba. Menos ainda a turba do Fórum. O próprio Fórum está, politicamente, deserto... - Não sabe onde fora parar o seu juízo, quando dera agasalho a uma tal ideia.
É essa instabilidade do Oriente, que, como uma vaga, vem bater àqueles costas. Tessalônica é o lugar mais exposto. O Oriente conspira. Além disso, o Oriente é um outro mundo. A fusão da Grécia ao Império Romano nada mais fez do que dar uma sanção política e administrativa a uma unidade que existia já: a da cultura.
Com o Oriente é outra cousa. Ele não tem nenhum traço comum com o mundo ocidental. A sua reunião ao Império não representa adesão: é a sujeição pela força, a dominação militar.
São dois mundos que nunca se compreenderão. Não admira que aí fermentem ideias de revolta. Não admira também que essa revolta latente acabe por trazer um sentimento de inquietação aos que se acham em contato mais direto com ela. É o caso da Grécia, mais particularmente de Tessalônica.
Há, certamente, a inquietação econômica. Evandro poderia estar apenas divagando, envenenado por um ideal utópico, tão do gosto e feitio dum intelectual como ele. Mas o mesmo não se pode dizer dum homem do trabalho, como aquele agricultor da Lócrida.
Essa inquietação, é certo, ainda não tomou corpo. Delineia-se tão somente. Um trabalho prévio, miudinho e pertinaz, ainda se faz necessário, para que ela venha a se manifestar por atos. Evandro sabe disso. Daí ser ele contrário a qualquer ato de força.
Ele teme mesmo que um ato de força, que é o remato obrigatório de toda luta, corra o risco de nunca vir a realizar-se, pela intervenção desses místicos, como os Terapeutas do Egito, os cristãos, que estão arregimentando as massas para uma luta passiva e para a conquista de bens irreais, quiméricos, situados num outro mundo - no reino do céu. Como admitir então a deflagração dum movimento insurrecional nesse momento?
A possibilidade dum acontecimento dessa natureza é a tese de Ascalon. Mas Ascalon ou é um discípulo de Régulo, um delator, um simples agente provocador pois, ou é um irresponsável, - um desses palradores de praça pública. Não duvida que em torno de César se articule uma conspiração, para derrubá-lo. Talvez mesmo Sêneca não seja estranho a ela. A tese porém duma luta armada entre o Oriente e o Ocidente, com a finalidade de estabelecer um Império asiático tendo Jerusalém como capital, não passa duma concepção maldosa ou insana.
Nem é certo que o governo tenha penetrado o sentido oculto desses movimentos religiosos do Oriente.
Até agora, não se viu a menor perseguição contra cristãos. Judeus, anacoretas do deserto. Os cristãos hão de encontrar embaraços, quando quiserem exercer publicamente o seu culto. As leis do estado são formais. Mas o que é exato é que o Príncipe vem-se mostrando um céptico e, portanto, um tolerante. Não se importa senão com os seus dotes artísticos. Crisócero tem razão: se alguém deve estar inquieto, são os artistas...
Roma está no seu lugar. E por muito tempo ainda. O mundo moderno toca ao seu fim, isso é real. Mas não o mundo material. Todas as forças que hão de lhe promover a destruição já se acham alinhadas para a batalha: os miseráveis, os descontentes, os espoliados. Mas ainda não se lançaram ao corpo-a-corpo. A batalha decisiva talvez demore mesmo mais do que se possa pensar. Há de haver primeiro operações de flanco. Já está havendo: a vida de abstenção e de renúncia dos anacoretas do Egito e dos cristãos é tipicamente um ataque de flanco. Lançam-se contra a cidadela onde se concentram os deuses. Como se esse constituísse um reduto importante. Ninguém se importa com os deuses! O próprio chefe de estado urina em cima dum deles. Os cristãos podem suscitar odiosidade ou malquerença exatamente por levar a sua luta para um terreno irrisório, sem objetivo prático, como é esse de combate à idolatria.
Resta a convicção de que os adeptos do Cristo são inimigos do gênero humano. O ideal apocalíptico do fim do mundo pode ser tomado nesse sentido, - principalmente por aquelas classes que fizeram deste mundo um lugar de gozo e de volúpia para si mesmas. Desprezar o mundo atual, com todos os seus confortos, já constituiria um crime. Muito mais ainda o desejo ou a esperança de substituí-lo por um outro, onde só eles terão entrada. É uma competição, a excitar à luta.
Além disso, os sentimentos de fraternidade ampla dos cristãos chocam-se com o princípio limitado e egoístico da família romana, sempre unida interiormente e sempre pronta a considerar a outra família como um elemento hostil. Foi decepcionantes o modo como Soêmio se referiu a seu próprio pai e a facilidade com que lhe deu um substituto, embora situado no céu. Tais cousas não entraram ainda nos costumes do Ocidente, - conquanto, e a pensar melhor, eles é que estejam com o verdadeiro amor pela humanidade, porque ultrapassaram os círculos estreitos do parentesco segundo a carne e fizeram do gênero humano, como os estoicos, uma só família.
A sua carta pode continuar a sua jornada. Não deixa de constituir, até certo ponto, um documento leviano. Mas não é um perigo, não. Tem disso, agora, uma certeza absoluta. Antes assim, pois ela quase que lhe envenena aqueles dias de Atenas, ao mesmo tempo serenos e gloriosos...
A propósito: vai entrar numa livraria, comprar os livros de Evandro. É uma maneira de estabelecer um convívio com alguém. Quer conversar. Não seja senão com o livreiro. Enquanto repassa os cofres de pergaminhos e papiros que o homem lhe vai buscar nos seus plúteos, troca algumas palavras, - enceta aquela pequena conversa que ele estava disposto mesmo a entreter com a mendiga da escadaria dos propileus. Os Gregos são expansivos, - palradores. Talvez se deixe ficar algum tempo a palestrar, na atmosfera fresca da loja, sorvendo aquele ar onde erra esse cheiro característico e agradável que denuncia a presença do pergaminho e do papiro, violados pelo atramento...
*
Sílvio retorna à hospedaria, depois de haver em vão procurado as obras de Evandro. Ninguém o conhece. Numa das livrarias, teve um instante de satisfação, uma esperança: ao pedir as obras de Evandro, o livreiro pensou um momento, depois foi até uma das estantes, trazendo daí vários rolos de pergaminho e de papiro. Mas eram os trabalhos dum certo Evandro Susígenes, um matemático, isto é: um astrólogo. Para não voltar com as mãos abanando, Sílvio adquiriu um livro, que vira na vitrina, ao entrar. Era um trabalho de divulgação científica, recém-editado em Alexandria e da autoria de Aristóteles. Sílvio achou estranho que só agora aparecesse um trabalho inédito de Aristóteles... Mas desenrolou o livro, leu-lhe algumas passagens, gostou. O livro de resto era barato: o que deu por ele, convertido o dinheiro grego em moeda romana, não excedia dez sestércios.
- Está tendo muita saída - informa-lhe o livreiro, enquanto Sílvio vai enrolando o manuscrito, depois de o ter pago.
Mas era realmente lastimável que não pudesse levar nenhuma das obras de Evandro.
- Não tem a menor ideia onde eu as possa encontrar? - pergunta ele ao livreiro.
- Já procurou em Corinto?
- Será que Corinto tem?
Como observa o homem, Corinto era o maior empório de livros na Grécia. Se lá não as achasse, só mesmo talvez se dirigindo ao próprio autor.
- Donde é ele?
- De Tessalônica.
Então, talvez, em Tessalônica.
- Mas é quase certo que vai encontrar esse trabalhos em Corinto.
O livreiro quer saber sobre o que versam essas obras.
- Questões econômicas. O problema do trabalho escravo.
Muito interessante, diz o outro. Platão e Xenofonte já escreveram sobre isso, reclamando um tratamento mais humano para o escravo, com vistas a um maior rendimento do seu trabalho e no interesse, portanto, do proprietário.
- E a questão não parece esgotada, realmente - conclui.
Reflete uma momento, depois acrescenta, num meio sorriso:
- Não sei se esse seu autor...
- Ele é meu amigo! - interrompe Sílvio.
- Ah! Não sei se ele aborda os aspectos práticos do problema. Há muita cousa a dizer sobre o trabalho escravo. Cousas que talvez não tentem os escritores e que só sejam sentidas pelos homens de comércio. Por exemplo, na nossa profissão, a concorrência que nos fazem os senhores de escravos já se vai tornando um caso alarmante.
Sílvio presta-lhe uma atenção aguda.
- Qualquer amador, que disponha de muitos escravos a seu serviço, arvora-se em editor, faz livros na sua própria casas e os distribui de mão em mão, tirando às vezes disso um grande rendimento. Foi o que fez Ático com muitos dos livros de Cícero. E não são obrigados a manter um estabelecimento como nós, no centro, onde os alugueis são altos, com instalações dispendiosas. É preciso mesmo que alguém se volte para essas questões. E os livros feitos assim, por escravos sem a supervisão dum profissional, deixam muito a desejar. Apresentam muitas incorreções, além de outras imperfeições técnicas.
- Talvez seja necessário mesmo abolir a escravatura.
- Não digo isso. Mas regulamentar a profissão do livreiro. Criar-lhe direitos, que compensem as obrigações e os deveres.
Já no seu quarto de hotel, reclinado à espera do banho que Demétrio lhe está preparando, Sílvio repassa o livro que comprou. É mesmo um resumo, um compêndio. Mas interessante.
Repete as velhas noções sobre a teoria dos cinco elementos: o éter, o fogo, o ar, a terra, a água. Enumera os planetas na sua ordem: primeiro, lá no fundo do espaço, a Estrela Brilhante ou Saturno; depois Faetonte ou Júpiter; a seguir a Estrela Flamejante, também chamada Hércules ou Marte; vem ainda a Estrela Cintilante, que a tradição consagra ora a Mercúrio, ora a Apolo; por fim Lúcifer, conhecida também por Juno ou Vênus, Ministra alguns dados gerais sobre geografia.
Mas, ao passar ao estudo da natureza de deus, o folheto não esconde a sua origem de classe. Sendo o mundo constituído de princípios contrários - o seco e o úmido, o frio e o quente - por que há muito já não foi destruído? Uma cidade também, que é composta de classes opostas - os pobres e os ricos, os moços e os velhos, os fracos e os fortes, os bons e os maus - continua a subsistir indefinidamente. Esse antagonismo mesmo é o elemento mais poderoso da concórdia cívica. É que a natureza se compraz com os contrários e se desvia dos semelhantes. Não é por estes, mas por aqueles que ela atinge a concórdia original e a harmonia.
Sílvio sorri. A classe capitalista vem incutindo essas ideias, que visam a manter o atual estado de cousas, como se ele dependesse mesmo da ordem geral que reina na natureza. A presença dos pobres ao lado dos ricos é tão necessária para o equilíbrio social, como a do quente e do frio, a do seco e do úmido, para a estabilidade do mundo físico. Farsantes! E esses ricos, que vão buscar à cosmologia os sofismas com que entorpecem o desejo de luta dos espoliados, encontram sempre intelectuais prontos a fazer o seu jogo, a apresentar o drama desumano da diversidade das fortunas como uma fatalidade benéfica, desejada por deus e por ele prolongada até a perpetuidade.
Eis um outro setor a atacar: a ciência. É preciso refundi-la. Ela está ao serviço dos escravocratas. Vai guardar o opúsculo. Ele tem tido muita saída, afirmara-lhe o livreiro. Não tardará muito para que ele se difunda em Roma, no original ou em tradução. Ele-Sílvio lhe vai preparar uns comentários... E os lerá em praça pública, como os poetas sem editores fazem com seus poemas. Talvez comece por aí a sua campanha...
Enrola-o de novo. Guarda-o na sua bagagem, junto com outros livros e alguns papeis. Aí está também o endereço de Aristóbulo, no Janículo: seguir a via Aurélia, passando o Velabro e a ponte. Reúne tudo num só maço.
Está resolvido a mandar Demétrio ao Pireu, talvez essa tarde ainda. É preciso averiguar exatamente essa questão da travessia até Corinto. E também quer que ele lhe compre um pouco de vinho, para mandar ao pai. Daquele que eles tomaram no termopólio. E não esquecer a raiz do heléboro.
Crisócero não acredita nessas fórmulas complicadas - os antídotos dos deuses. É lamentável que o pai de Domitila haja gastado tanto nessas peregrinações pelos templos de Esculápio, de Ísis, de Serápis e não se tenha lembrado de consultar um desses grandes médicos da Grécia. Vai aconselhar que ele dê um pulo a Tessalônica, converse com Crisócero. Crisócero anunciou uma viagem ainda para esse verão. Talvez vá até Roma. Se assim for, ele podia ver a doente aí. Por intermédio de Evandro não é difícil saber se Crisócero fará mesmo uma estadia em Roma, e quando.
Seu plano de ação imediata já está traçado. De chegada a Roma, procura Aristóbulo. Se ainda não tiver chegado, tenta avistar-se com a família, para efeitos da sua instalação da Cidade. Despacha definitivamente Demétrio para a Gália, levando uma carta contemporizadora ao pai, o vinho, o heléboro, mais qualquer outra cousa que ele ainda venha a adquirir, como lembrança para a mãe e para a irmã. Quer ficar sozinho em Roma. De resto, quando se lança numa campanha abolicionista, não admite mais a ideia de ter escravos ao seu serviço. Se precisar dum fâmulo, emprega algum rapaz, com salário - salário digno dum ser humano. Talvez que no começo tenha de viver muito modestamente. Não lhe será difícil. Evandro, ao que lhe informou Tarsita, desmontou a sua casa, desfez-se das suas cousas. É uma vida austera assim, quase ascética, a que ele também quer levar.
Num quadro de vida modesto como esse que planeja para si, bem caberia uma mulher como Tarsita. As diferenças de classe - o obstáculo mais a semelhante união - estão naturalmente eliminadas, desde que ele renuncia aos privilégios da sua classe. Mas interessante: e ele que a tinha por virgem! - Um mistério qualquer envolve a vida da jovem...
O que sucedeu entre eles foi mais do que uma aventura, mais do que uma aventura do tipo da que lhe ocorreu com a puela da estalagem. A avidez que sentiu por Tarsita facilmente se transformaria num sentimento mais profundo. Porque ela tem predicados para isso. Pena é que não seja unívira - mulher dum só homem.
Que bom se, ao chegar em Roma, já o esperasse uma carta de Evandro! Deverá procurá-la no endereço de Aristóbulo.
É quase certo não encontrar ainda Aristóbulo na Cidade, quando lá chegar. Mas isso não tem importância: se avistará com a família, a mulher (pois certamente é afamiliado). Mostra o endereço, traçado de próprio punho. Aliás, o que ele quer de Aristóbulo ou da sua gente é muito pouco: que lhe indiquem um lugar onde possa viver, sem grandes despesas, pelo menos nos primeiros tempos. E, até possuir um alojamento definitivo, o endereço para a correspondência.
Passando o Velabro... O encanto desse nomes sonoros, ouvidos sempre através dos fastos da grande Urbs! Antes de iniciar a luta, vai percorrê-la toda, amorosamente. A sua ânsia de transformação do mundo atual não atinge a Cidade, lugar venerável, onde cada pedra evoca um passado para sempre incorporado à história da humanidade...
Como um relâmpago, uma ideia angustiosa atravessa-lhe a consciência! Ele vê Roma consumida, em ruínas! E, estudada gravemente por homens que têm no rosto a palidez do ódio e da vingança, a sua carta com aquelas palavras terríveis... Eles se interrogam, delineiam o seu plano de ação. O missivista é um desconhecido, mas, desde aí, uma personagem importante, - porque comprometida naquilo, em ligação com os criminosos... - Sílvio enche-se dum desgosto que o paralisa, como se gelasse todo o seu ser, com o gelo implacável da morte...
Não lhe resta outro caminho senão conformar-se. Não é de dentro do seu espírito que vai tirar os elementos para a sua tranquilização ou para a sua desesperação.
Imaginou o pior: que Roma houvesse mesmo sido incendiada nas circunstâncias que ele anunciou na carta a Evandro, que essa carta não chegue ao seu destino, que venha até a ser interceptada pela polícia. Reuniu o maior número de condições desesperantes. Tinha razões para isso? Tinha-as, infelizmente, Roma tem seus inimigos, implacáveis. A carta - uma carta conspirativa! - lá seguiu à aventura, em mãos desconhecidas, para um endereço incerto.
Tudo pode estar em calma. Roma no seu velho e sólido embasamento, na sua animação, no seu burburinho. A carta, confundido com a multidão de missivas que despreocupadamente cruzam o território do Império, pode ter ido trivialmente encontrar o destinatário, que a lê, reflexivamente, no silêncio do seu gabinete.
Mas, ao invés disso, o incêndio e o horror podiam ter-se desencadeado num lugar, que esses fanáticos consideram como a fonte de todos os males e que eles não vacilam em admitir que só uma cousa poderá purificar: o fogo. Qualquer circunstância imprevista poderia levar alguém a violar a sua carta. A gravidade e importância do fato que ela anuncia com tamanha precisão impediriam que ela ficasse como uma simples conversa íntima entre dois amigos. Seria propalada, depois encaminhada à autoridade. Já aí, guardá-la seria arriscado, - uma espécie de cumplicidade. Além do que, numa ocasião dessas, todos se congregam contra os delinquentes, - o inimigo. O próprio Evandro sentir-se-ia mal em ter sido escolhido para depositário dum segredo desses...
A única cousa que tem a fazer é esperar. Sabe bem como lhe vai custar passar todos esses dias, até o momento em que entre em Roma, desfaça, na contemplação da Cidade intacta - triunfalmente intacta - aquela mortificante inquietação. Mas, desgraçadamente, tem de ser assim...
*
Sílvio acaba de deixar o banho. Não sabe se mandará mesmo Demétrio ao Pireu. Está-se fazendo tarde. Talvez o mais acertado seja cear, atirar-se no leito. À hora matutina, levanta-se, toca-se diretamente para o porto. O trânsito entre Pireu e Corinto há de ser uma cousa tão fácil e regular, que ele encontre a qualquer momento uma embarcação com que possa fazer a travessia. Se surgir o imprevisto, retorna a Atenas. Ou fica mesmo por lá, aguardando uma oportunidade.
Talvez esteja cansado (tem caminhado muito, naquele afã de beber a cidade, agora que está prestes a deixá-la). Ou então se ache um tanto deprimido. É possível que seja isso.
O caso é que não se sente com ânimo de se movimentar, traçar planos, combinar, tomar qualquer iniciativa, - nem mesmo a iniciativa tão singela de preparar a sua viagem. No dia seguinte fará todas essas cousas. E talvez com outra disposição e melhor resultado: um novo dia traz sempre a ilusão duma vida nova.
Não adianta agora estar-se mortificando com aquele seu erro. Na melhor das hipóteses, foi mesmo um erro imperdoável, - embora não suceda absolutamente nada. Podia ter anunciado o fato, ter mesmo apontado os seus autores. Isso (se o fato viesse a se consumar) só podia traduzir perspicácia. Seria até levado a seu crédito. Quem sabe mesmo se não seria tido como um sinal de vigilância. Quando Ascalon quer conhecer os boatos que correm - os boatos que chegaram aos ouvidos de Crisócero - é naturalmente para os transmitir a quem de direito. A polícia o procuraria, a ele-Sílvio, mas como aliado, - para sugerir uma colaboração. Estaria integrado na Ordem, nos altos deveres para com a Ordem. No final, haveria de deixar uma impressão pouco lisonjeira, porque na realidade ele não tinha nenhum autor qualificado a apontar.
Dera guarida a boatos, interpretara apocaliticamente palavras que talvez não possuíssem outro sentido senão as preocupações místicas que aparentavam. Os homens positivos da polícia o considerariam um leviano. Talvez de cara fechada, lhe fizessem uma advertência. Podia justificar-se com o argumento de Ascalon: num momento desses, qualquer rumor tem a sua importância.
Mas ele aludira às suas ligações com eles, com os incendiários! Ligações equivale a conivência. Nunca ninguém poderia interpretar isso doutra maneira. - Esse o seu erro.
Poderá alegar que tais ligações não têm outro sentido senão ligações pessoais. Mas, ainda aí, iria cair em contradições, - e isso, para a polícia, é um sinal de culpabilidade. Qual o incendiário que ele conhece pessoalmente? Soêmio? O pobre do rapaz se limitou àquela esperança mística do fim do mundo. Roma queimará, todo o o universo queimará quando chegar o fim dos tempos. Mas nenhum ato concreto. Um desejo apenas, talvez. Terá então de dizer que as suas ligações não se fizeram com pessoas, mas com as ideias que animam um movimento cujo objetivo imediato seria o incêndio de Roma. Mas todo o mundo sabe que um pensamento desses não se exprime por aquela forma. Quando escreveu: Estou capacitado a apontar os seus autores, tantas são as minhas ligações com eles, o pensamento que lhe viera à mente era esse mesmo: imaginava o fato consumado e por obra dos cristãos. Traduzira a confiança deles no fim do mundo como significando um trabalho ativo de subversão da ordem. O Dia do Senhor, tão ansiosamente esperado por eles, parecia-lhe ser o dia designado para a explosão do movimento. Toda a doutrina cristã mesmo ressumava fogo, incêndio. Cristo deverá vir numa chama de fogo. Ele não deve ter outra missão senão a de trazer o fogo à terra. Tendo travado um conhecimento tão íntimo com as finalidade do movimento, não equivalia isso a uma verdadeira ligação, quer dizer: a um desvendamento de propósitos, a uma familiaridade com tais desígnios? Foi isso o que quis revelar a Evandro. - E é isso o que dirá à polícia.
Dirá à polícia!...
Como é horrível admitir que vai ser intimado, talvez detido, que terá de se explicar perante a polícia, defender-se de acusações, provar a sua inocência!... O que daria para que Roma não tivesse ardido, para que nada tivesse acontecido à Cidade!
E decerto não aconteceu mesmo. Senão, tinha-se sabido já. Conquanto as notícias dependessem dos meios de transporte. Mas esses já eram rápidos na atualidade. Uma notícia dessas voaria.
Não tem uma noção precisa do tempo que gastaria uma comunicação para vir de Roma a Atenas. Mas já se está no sétimo dia das calendas de agosto. Isto é: sete dias exatamente depois do fato. Seria que sete dias não fosse tempo suficiente para trazer de Roma ao menos uma comunicação oficial?
Atenas não é a residência do governador. Ouviu dizer que era Corinto. Mas, recebida a qualquer momento em Corinto, uma tal comunicação, mesmo estritamente oficial, em poucas horas teria atingido Atenas e se divulgaria. Talvez deva sair novamente à rua, ver se há ajuntamento, se se comenta algum fato extraordinário.
A falta que lhe está fazendo Heliodoro... O Grego tem uma enorme capacidade para se derramar no ambiente, saturar-se dele. Enquanto ele não aludisse ao fato, é que o fato não era conhecido mesmo de ninguém.
Deve aproveitar a tarde para fazer a sua exploração às ruas centrais de Atenas? às praças? Sílvio não se decide. É um espécie de pudor, uma vergonha de empreender uma investigação sem objeto, que ele sabe que não passa, no fundo, duma puerilidade... - Mas então, por que se mortifica dessa maneira?
Cansado desse debate, em que se sucedem e alternam receios e esperanças, mas que infelizmente não o conduz a uma situação estável, ele vê abrir-se o reposteiro à entrada do seu quarto. Aparece primeiro Demétrio, que, imediatamente, e todo ele traduzindo certa surpresa, introduz no aposento um desconhecido.
Que será?...
Sílvio depõe no recém-chegado uns olhos inquisitivos, contaminados quiça duma ansiosa expectação, e que flamejam numa face de estranha palidez...
É um fâmulo. Traz na mão uma mensagem, - gravada a estilete numa pequena tábua untada de cera e presa (formando charneira) a uma tabuinha irmã, para a resposta. Abatendo uma sobre a outra - fechando-as - tem-se um pequeno estojo, sem profundidade.
Sílvio não atina quem possa ser o missivista.
- Venho da parte de Etéocles, o meu amo - declara o sujeito, com uma reverência, depondo o bilhete nas mãos de Sílvio.
O rapaz vai lendo a missiva. É uma mensagem de gentileza, de cortesia. A primeira cortesia é estar redigida em latim - a língua do destinatário - como tão bem reconhece aquele meio-sorriso, - um meio-sorriso que, nesse momento, só a Grécia e esses Gregos incomparáveis poderiam ter arrancado de dentro da sua angústia, e que entretanto vai nascendo e se fixando na sua face, - já agora com outra cor.
Por que em latim? Só mesmo por uma amabilidade. O missivista - Etéocles - começa invocando uma velha amizade com Heliodoro. Transmite-lhe uma saudação do amigo e convida-o para cear. Falaram sobre ele portanto. Não devia pois ignorar que o grego é a sua segunda língua.
- Etéocles Olinto pede a tua resposta, Lúcio Sílvio.
O convite é para a ceia dessa tarde.
- Dize-lhe que vou.
- Ficaria mais grato meu amo se recebesse essa fausta notícia, da tua própria letra.
A pragmática ateniense... Nero tem razão: só os Gregos são sensíveis - ou vulneráveis - às cousas da civilização. Mesmo às mais singelas. Ainda meio sorrindo, Sílvio toma dum estilete, grava na tabuinha ao lado uma palavra amável, aceitando o convite, agradecendo.
- À nona hora virei buscar-te.
Diz-lhe isso o fâmulo, saúda-o e retira-se.
Evidentemente antes de partir, Heliodoro o recomendara àquele amigo. Para que ele-Sílvio não se sentisse tão só. Entretanto, não o avisara. Não tem importância. O importante é que ele vai ter algumas horas de conversação. Um jantar em Atenas é uma competição esportiva. O triclínio é uma arena, os comensais uns atletas. Atletas dum novo gênero... Crisócero quis armar uma disputa assim em Tessalônica.
Como os Gregos gostam de conversar! Estariam lá todos eles: o médico, com a sua simpatia penetrante, Soêmio, Ascalon. E Evandro.
E já não seriam uns desconhecidos. Talvez nem mesmo uns antagonistas. Em torno duma mesa, na comunhão material, dionisíaca, do pão e do vinho, um certo fluido fraternal os envolveria, - um fluido que nada mais é senão essa cousa bem positiva, nada mágica: a média aritmética das opiniões.
É evidente que não se trata dum jantar de cerimônia. Foi o que pudera depreender dos termos familiares do bilhete. E o bilhete estava datado, como se não se tratasse duma simples tábula, destinada a ir voltar pela mesma mão: Sétimo dia das calendas de agosto (abreviado, naturalmente). Atenas. Qual teria sido a intenção do missivista ao datar o seu recado efêmero? A pragmática, ainda?...
Ele-Sílvio não tem um traje de gala, - essas sínteses vaporosas, de musselina de Alexandria, que se mudam várias vezes durante a ceia. A um viajante facilmente se perdoa uma falta dessas. E nem será propriamente uma falta, - isto é: uma falta de atenção ao hospedeiro e aos seus convidados. Vestirá a sua túnica de linho. Por cima dela, o amíctus.
*
Quando entra, algum tempo depois, na sala do banquete, um homem ainda moço vem até ele. Saúda-o, dizendo-lhe:
- Heliodoro, que teve a bondade de me receber em Mégara, falou-me de ti, Lúcio Sílvio. Ao chegar aqui, tive a esperança de que ainda pudesse encontrar-te. Sei que estás de passagem por Atenas. Teu destino é Roma, a senhora do mundo...
Etéocles Olinto (porque era ele - o dono da casa) sorria o seu tanto ironicamente ao pronunciar as últimas palavras, - essas palavras graves.
Nessa ocasião, havia na sala mais duas pessoas: um homem, mais ou menos da idade de Etéocles e, como ele, de fisionomia austera - talvez até mais austera - e um mulher.
Ela era jovem e bela. Seus cabelos, dum louro pálido, combinavam, numa gradação insensível, com o amarelo resedá das suas vestes, talhadas nas sedas que os misteriosos Seres teciam, utilizando industriosamente as secreções dum inseto, ao que parecia só deles conhecido. Sílvio teve ali uma confirmação prática daquela verdade, que tanto escandalizava os Catões lá da província e que os levava a clamar por novas leis suntuárias, - novas leis contra o luxo: não havia negar - a seda animal já começava a ser transportada da região mais oriental, mais fabulosa da Índia, para o Ocidente.
Um escravo veio desembaraçá-lo do calçado e lavar-lhe os pés. O próprio Etéocles, familiarmente, como um simples nomenclátor, havia-lhe indicado o seu leito, - num dos lados. Um dos lugares do leito mediano foi ocupado pelo homem de fisionomia austera. O dono da casa sentou-se um momento no seu triclínio - o da esquerda - tendo antes feito a mulher reclinar-se junto dele, à sua direita. Ele não dá a ordem aos fâmulos de começar. Vê-se que ele espera alguma cousa. Ou alguém.
Então, com o seu ar de afabilidade hospitaleira, enquanto esperam, observam:
- Não vamos ter um número de comensais superior ao das musas, estejam tranquilos. Nem mesmo igual, infelizmente. Mas ainda falta um. Olhem: ele aí vem! - E o Areopagita entra.
Todos se acomodam. O último chegado recosta-se à direta do indivíduo de rosto grave, no mesmo triclínio, porque é esse o lugar de honra. Estão todos coroados de flores. Os escravos dão início ao serviço. Faz-se então a libação ritual.
Enquanto a famulagem serve, Etéocles por seu lado distribui os assuntos, como também servindo. Fala-se sobre a sua última viagem, a sua recente estada no Istmo. Etéocles, que possui um veleiro de turismo - uma trirreme lusória - estava igualmente ansioso pela abertura do canal. Essa conversa traz à baila o assunto do dia: o navio da classe do Ácatus, que tocara o Pireu, como outros portos da Grécia.
- Tu vieste nele, eu soube - diz Etéocles, virando-se para Sílvio.
Os demais convivas põem no rapaz um olhar de curiosidade discreta, medida.
A palestra porém não se mantém, não progride: é que eles comem.
Comem com a mão, com a qual vão escolher e pescar num grande prato colocado sobre a mesa, ao alcance de cada um, as iguarias delicadas com que a ceia se inicia. Um dos frios chama a atenção de Sílvio: são ameixas de Damasco recheadas com sementes de romã. Um escravo, silencioso, fazendo continuamente a volta dos leitos, despeja sobre os dedos de cada um, para os purificar, uma água perfumada, que enxuga depois com um guardanapo, alvo e fresco. Aliás, dos corpos lavados, das vestes claras, das coroas de flores que enfeitam e perfumam as frontes, dum ou doutro busto de mármore que se erguem nas suas peanhas, irradia uma atmosfera - de tranquila frescura também.
Colocado bem no centro sobre o grande prato de frios, um asnozinho pende sobre as iguarias do gustácio uma cabeça meiga, que fareja e aprova tudo. Foi talhado em bronze, em Corinto, com diligente habilidade. Entre as pratas da baixela, ele põe ao mesmo tempo uma nota grave e campestre. O que acorda em Sílvio um começo de devaneio, - com a casa, com os extensos vergéis do Pado... Por cima do dorso do burrinho dobra-se o seu pequeno alforje: para as azeitonas que estão sendo servidas no jantar. - Num lado as azeitonas brancas, no outro as pretas.
Trincando uma delas, o Areopagita explica o seu atraso: um processo sobre crime de falsidade o retivera no tribunal por um tempo maior do que o esperado. É o mal da época: “Dá um testemunho a meu favor e eu não deixarei de fazer outro tanto por ti” - já denunciava Cícero. Por toda parte, a corrupção, que invadiu mesmo as esferas governamentais. Apesar da moralidade introduzida na administração pelo Império, os funcionários desonestos não haviam sido totalmente eliminados. Talvez devido ao regime, infelizmente ainda em vigor, do filhotismo.
- É processo contra algum funcionário? - pergunta-lhe Etéocles.
Ele abana negativamente a cabeça e prossegue no seu tema: o favoritismo.
- E nós somos os culpados.
Faz-se um silêncio maior. O perpassar leve dos serviçais sobre o mosaico liso e polido do chão tem um pequeno murmúrio descontínuo de água, que só serve para tornar mais presente o silêncio.
O Areopagita expõe as suas razões:
- Nós concorremos indiretamente para isso. Vejam vocês: quanta gente introduzimos na administração pública que não tem outra prova de habilitação a não ser o fato de serem amigos nossos ou filhos de amigos. Eu todos os dias escrevo cartas de recomendação para candidatos aos empregos do estado.
- Isso é exato - concorda Etéocles.
É que, segundo o membro do Areópago, ainda não se cuidou seriamente da administração pública como uma carreira, com ambições, sacrifícios, postos de acesso.
- Como a militar por exemplo - observa ele. - Apesar das reformas de Cláudio e da elevação dum Torgo Pompeu à chefia duma secretaria de estado, o serviço administrativo permanece um trabalho de libertos e de escravos.
A argumentação do magistrado não encontra oposição. Passado um momento ele continua:
- Não é segredo para ninguém que o serviço do Tribunal, despojado hoje da maior parte das suas antigas atribuições, nos deixa algum tempo disponível. Eu o emprego de diversas maneiras, por certo. Mas ultimamente, venho-me dedicando a pesquisas históricas. Amo o passado, tanto como o presente e, mesmo, o futuro. Mas, não filosofemos ainda...
- Realmente é cedo - interrompe Etéocles: - ainda estamos a bem dizer no aperitivo...
Sorrisos.
- Pois bem, coligindo dados para a minha História dos Lágidas, encontrei um documento muito interessante, em que o primeiro Evérgeto recomenda como principal dever do bispo governamental ptolomaico agir com zelo e honestidade, em seguida comporta-se com retidão e abster-se das más companhias.
- Realmente: a grande arma dum governo é a moralidade - sentencia o indivíduo de face austera, que ocupa o lugar à esquerda no mesmo leito do Areopagita.
Sílvio presta-lhe atenção. Ele pouco bebe. Ainda não renovou a sua taça na grande cratera colocada ao seu alcance. Possivelmente é um estoico. Ele abundam nas altas classes.
O membro do Areópago de Atenas retruca-lhe:
- A grande arma dos governos é a arma mesmo: o gládio, o pílum de Mário.
- Isso lhes dá somente força, não autoridade - martela o seu companheiro de leito.
Ao aludir à velha arma de arremesso, atualizada pelo gênio militar de Mário, o Areopagita relanceara o olhar para Sílvio. E, sem fazer caso da objeção que acabava de ser levantada, recomeça:
- Não se conquista nenhum povo senão pela força. E de preferência com as modernas armas do exército romano. É claro: quem comanda quarenta legiões bem apetrechadas tem o dever de agir bem. E quando não o faça na realidade, sempre há de nos parecer que agiu de acordo com a razão, quando mais não seja com a razão de estado... É a maior e a mais imanente virtude que eu encontro na força das armas...
O estoico olha um instante para o rosto sorridente do magistrado, mas nada acrescente. Etéocles, desviando a atenção por momentos dos seus hóspedes, mergulha o dedo indicador no molho dum assado de ave que acabava de fazer a sua aparição. Chupa-o, provando. Fazendo um gesto breve para o escravo encarregado de trinchar, volta-se então para o Areopagita. O fâmulo começa a desarticular a ave metodicamente.
- As armas - diz Etéocles - claro que as armas de guerra, já não têm mais serventia. O mundo está em paz.
- Resta a inquietação das massas, do plétos - pondera o estoico, recebendo das maõs do escravo o seu pedaço de franga assada.
A conversa envereda no ruma das questões econômicas. Sílvio refere-se a Evandro. Conta como, nessa tarde, procurara em vão as suas obras.
- Mas há em Atenas as obras de Evandro - assegura Etéocles.
- Como esses estudos progrediram! - exclama o Areopagita.
- O tratado de economia de Xenofonte - observa o estoico - quando se compara com os trabalhos de Evandro, desce às proporções modestas dum guia prático dum dono de casa.
Etéocles, que conversava em intimidade com a companheira que tinha a seu lado, mas que não despegara de todo a atenção do assunto da conversação geral, observa, numa convicção débil, cortês:
- Os livros de Evandro vão ficar entre as obras de Platão, de Aristóteles. Daqui a dois mil anos vai-se falar deles.
Decerto não os tinha lido...
- Engano: os seus livros - retruca o estoico - vão ser queimados em praça pública pela polícia. A posteridade não vai ter notícia deles.
Sílvio nota com prazer que não só Evandro, como as ideias que ele prega, são bastantes familiares àquela roda ali. Aliás, sabe pelo próprio Evandro que ele a princípio fizera conferências. Com toda a certeza falou em Atenas também.
O estoico, passado um momento e como a sua observação não houvesse levantado nenhum comentário, salvo um rápido e cintilante relancear de olhos de hetaira de Etéocles, continua:
- O problema do momento não é econômico, mas simplesmente moral. É isso que faz a debilidade da tese de Evandro. O filósofo agora que colhe maiores sucessos é o que se propõe a moralizar. E com razão.
O Areopagita sorri. E interroga, meio teatralmente:
- Será que nós sabemos mesmo qual é o problema do momento? São tantos...
Sílvio sente como que um pequeno turbilhão nas suas ideias. Propõe-se a falar. Essa decisão deve estar-se traduzindo por uma reação física, alguma cousa qualquer que tenha subido à sua face. Talvez um rubor. Porque todos olham para ele.
- A seu ver, qual o nosso problema atual? - indaga-lhe a mulher.
- O da escravatura - diz finalmente ele, vencida uma leve hesitação.
O dono da casa manda preparar outro vinho. Abre-se uma nova ânfora. A etiqueta é trazida até a sua mão por um dos escravos. Enquanto os serviçais emulsionam cuidadosamente a bebida, reata-se a conversação. Agora é sobre a debatida questão dos escravos.
A hetaira:
- Os homens afetam considerar os escravos como uma simples cousa: um soma, à margem da humanidade. É que isso lhes convêm. Eles esquecem que Platão foi vendido como escravo, que Hécuba, mulher de Príamo, foi escrava de Agamênon. Como foram escravos a mãe de Dario, Creso, Diógenes.
Segue-se um breve silêncio. Ela, erguendo a fronte curta, mas pura e inteligente, pergunta - pergunta a si mesma principalmente:
- Que poderia conter o letreiro que necessariamente pendia do pescoço de Platão no mercado de escravos, dando-lhe os qualificativos, gabando-lhe as habilidades...
Ninguém responde.
O Areopagita, depois dum momento:
- Eu me recordo de ter ouvido Evandro no Pécile. É um tese fria a sua, tese destituída de piedade. Quem sabe mesmo se não uma tese cruel: abolis os escravos, substituindo-os no trabalho pelos homens livres. Os meus Lágidas fizeram isso no Egito, difundindo o trabalho assalariado, colocando-o quase que exclusivamente nas mãos de homens livres. O que quer dizer: escravizando também a estes. Porque o trabalho tem que ser feito. Enquanto os navios não navegarem sozinhos e os plectros sozinhos não fizerem ressoar as cítaras, teremos necessidade de quem trabalhe. É uma reflexão de Aristóteles. Ora, tanto faz, sob o ponto de vista humano, que esse serviço seja executado por um escravo como queria Aristóteles, como por um cidadão como deseja Evandro. Do momento em que o homem não pôde ou não quis mais sair a sós para a caça e a pesca - a única forma natural e filosófica do trabalho humano - desde esse momento está instituído o trabalho social, com o anel de ferro da escravidão fechando-se à volta do nosso tornozelo.
Veem-se um que outro sorriso nas faces. O Areopagita baixa os olhos sobre o prato e continua a comer.
- Com que então - pergunta Etéocles ainda sorrindo - foi assim que a cousa começou?
- Que cousa? - faz o outro, levantando novamente os olhos.
- A produção... a indústria... o comércio... A economia pública, em suma.
Ele inclina a cabeça num assentimento.
O estoico:
- Esse raciocínio está certo.
- Ah... - faz o Areopagita. E depõe-lhe uns olhos tranquilos.
- Mas não abrange absolutamente todo o campo da questão. Enquanto todos os homens vão coletivamente à caça e à pesca...
Interrompe-se momentaneamente:
- Adotemos esse binômio simplificador.
- Ele é exato - observa o magistrado.
- Talvez. Enquanto todos os indivíduos saem em bando para a procura do alimento, há uma igualdade, que torna a escravidão suportável. É o estágio eminentemente social dessa economia pública do nosso caro anfitrião. O caso porém é que hoje só uma parte se vê obrigada a sair todas as madrugadas para caçar e pescar. Estou falando alegoricamente, como o nosso ilustre interlocutor... Um grande número de indivíduos privilegiados, dizia, deixa-se ficar em casa, à espera dos produtos daquela pilhagem. Não vamos muito longe: vejam esse bando de escravos silenciosos - silenciosos porque, mesmo sob o teto acolhedor de Etéocles, falar enquanto servem constituiria crime. Eles trabalharm, para que nós possamos comer e filosofar. É que cada um dos homens da nossa classe declinou num outro homem, escravo ou cidadão, a tarefa de caçar ou pescar para ele.
- E isso não é sem alguma vantagem para os escravos - observa Etéocles.
- Não duvido - confessa o estoico.
- Todavia, você comete um erro de interpretação - observa o Areopagita. - No meu sistema, ninguém foge à servidão. Veja o que ocorre comigo. O meu trabalho é sentar no tribunal, nesse glorioso Areópago de Atenas, que nem César, com todo o seu poder, se atreveu a suprimir, a minha função, estava dizendo, é tomar assento no tribunal e julgar. Pois bem, toda vez que entro no Areópago e que vejo aquela atividade - escribas e juízes curvados sobre os seus papeis, desenhando, uns, caracteres que outros deverão interpretar e aplicar - sempre que me defronto com situação tão excêntrica, eu me faço esta reflexão, que não deixa de ser um tanto desconsoladora: a que transformação última chegou o ato simples, natural e bucólico da caça e da pesca...
E, voltando-se para o anfitrião, no meio do sorriso geral:
- Eu quero me servir dum outro pedaço daquela ave.
Etéocles faz um gesto para um dos escravos.
Prossegue o Areopagita:
- Estou de acordo que o tratado de economia de Xenofonte há de parecer elementar quando comparado com o sistema de Evandro de Tessalônica. Na parte prática, é mesmo quase que apenas um guia do agricultor. Também, Xenofonte é uma autor antigo, Evandro vivem em plena inquietação econômica moderna. Mas, ao lado das regras de bem plantar uma árvore, aparecem no livro ideias socráticas que definem o problema e que o resolvem. Uma vez aplicadas, naturalmente. Por exemplo: “Se te mostro aqui, diz Sócrates, servos quase todos acorrentados e que muitíssimas vezes escapam; ali, escravos que, livres de todas as cadeias, consentem em trabalhar e em ficar, não te exponho com isso um fato econômico?”
Relanceia um olhar para todos. Esse olhar abrange mesmo os escravos que serviam, muitos dos quais, de pé e encostados às paredes revestidas de pinturas, esperavam ordens, calados e de braços encruzados.
- É esse o grande pensamento científico do livro. A economia não é, em que pese a opinião de Critóbulo, simplesmente a ciência de governar uma casa, própria ou alheia. Sócrates parece aderir à opinião do seu amigo, mas ironicamente, como é do seu feito. Economia é a aplicação do sentimento de humanidade no ato muito complexo de fazer prosperar uma casa. É sobretudo um problema de moral.
- Então Sócrates está conosco - comenta o estoico.
- Conosco quem?
- Com Sêneca e os seus discípulos.
O magistrado retoma o discurso:
- Na verdade, todo trabalho, mesmo o mais sutil, mesmo o mais intelectual, traz o seu selo originário: é um trabalho extrativo. E está distribuído entre todos os homens, a despeito do que possa pensar Heraclides, o discípulo de Sêneca...
Heraclides, o estoico, deixa sem contestação a assertiva.
- Não procuremos criar novas relações econômicas entre os indivíduos - continua o outro. - Elas nunca poderão suprimir a necessidade fundamental: o trabalho. Isto é: a servidão.
Pára um instante. Olha para a hetaira e prossegue:
- Há pouco Damálide queria saber o que estaria escrito no cartas que pendia do pescoço musculoso de Platão, quando o venderam como escravo. É fácil responder. Mas para isso teríamos de entrar no segredo duma transação comercial e violá-lo. Não me fica bem como juiz... O que importa é isso: Platão não é mais escravo quando se vê apregoado num mercado de escravos e vendido ao maior lance, que orçou por três mil dracmas, do que quando filosofa na Academia. Ali, à sombra daquelas árvores veneráveis, sabem o que ele está fazendo?...
- Não me diga que ele está caçando - graceja Etéocles.
- Pois é isso mesmo. Não riam. E nem se inquietem os pássaros que chilreiam entre os ramos dos plátanos. Quando se volta para cima e para o céu, o divino filósofo não os está mirando para lhes assestar uma flecha certeira. Ele está visando os silogismos, as ideias, sobretudo as ideias platônicas. - seres reais, mas que vagavam por aí como caça esquiva, antes que um venátor especializado a pudesse abater para aplacar o apetite voraz do homem que pensa.
Emborca a sua taça de vinho, adoçado e suavizado pelo hidromel.
- Onde é que você consegue isto? - pergunta a Etéocles.
- Bom... É um vinho de Khios... Veja a etiqueta.
E o dono da casa passa-lhe o selo que garante a pureza da bebida e que o escravo instantes atrás lhe depusera nas mãos.
- Como devemos tratar esse caçador, antigo escravo, a quem a Fortuna reservou como lote, dentre todos os bosques, o pequeno bosque urbano de Acadêmus? - indaga, não sem um nuança de pedanteria oratória, o magistrado.
Heraclides, o estoico, obtempera:
- Bem... Platão recebeu a sua crítica, que foi a consagração, no dia mesmo da sua morte. Como escravo entretanto ele realizara todas as condições para merecer a consideração que o seu resgate tão bem assinalou. Escravo, diria Sêneca, fazia jus a um tratamento humano.
Nem seria outra a opinião de Sócrates, segundo o Areopagita. Tamanha identidade de pontos de vista, pela sua inata eloquência, para ele resolve a questão.
- Olhem - prossegue: - aí estão todos esses servos.
E aponta para a chusma de escravos, adstritos ao serviço do banquete.
- São eles - interroga - amigos do seu senhos? São inimigos? Catão responde que são inimigos.
- Totidem esse hostes, quot servos - aparteia Heraclides.
- Etéocles em particular pois que se cuide - adverte Flégia. - Com os rigores do ergástulo? Isso provou já o quanto é ineficiente.
- Sêneca aconselha que façamos dos escravos amigos nossos. Foi como procedeu Marco Túlio, o orador, entre muitos.
- Tu dizes bem, Heraclides. Sem professar a tua doutrina, que Sêneca tanto ilustra, o estoicismo, eu penso da mesma maneira. Assim pensavam Sócrates, Platão, Xenofonte. Eu ainda estou com eles. Estou envelhecendo: pouco entusiasmo pelas mudanças. Se aplicarmos o pensamento eminentemente dialético de tratar os escravos com bondade, teremos inclusive tirado as razões para que vicejem teses tais como as de Evandro de Tessalônica. Agora, se esquecermos aquele princípio, então sim: a tese de Evandro vingará. Porque ela é dialética também.
*
As relações entre senhor e escravo, inclusive as relações de dependência mútua, parecem interessar muito o Areopagita. De resto, segundo ele ( e isso cabe dentro do seus sistema) no trabalho não há diferenças fundamentais. Logo, não se podem alegar diferenças de base noutras esferas. A antítese entre soma e psique, que vem entretendo a moral escravocrata, cai por antinatural. Como consequência pensa ele que o senho deve-se considerar tão dependente do seu escravo, como este daquele.
O estoico sentencia:
- Viver com o teu inferior, como tu quererias ver o teu superior viver contigo, no-lo ensina Sêneca.
- É uma grande sentença, à altura do talento literário do seu autor. Mas comporta uma objeção, desde que, com o reconhecimento da superioridade de uns e a inferioridade de outros, proclama uma desigualdade que a natureza nega. E não é original.
Procura soerguer-se no leito. Seu olhar busca atingir algo para além do corpo de Etéocles, que lhe está barrando a vista para esse lado. Há um movimento de atenção. A própria hetaira volta a face para ele.
- Na cestinha de trabalhos manuais de Damálide ainda há de estar um pedaço de papiro, que eu li, com este aforismo, que se propõe sintetizar o ensinamento moral de certo filósofo da Baixa Galileia: Faze aos outros o que querias que eles te fizessem a ti.
- Belo pensamento - diz o estoico. - Já o vi citado. De Hílel?
- De Jesus de Nazaré, também chamado o Cristo. Você falou em Hílel?... Bem me parecia já ter lido isso, ou cousa parecida, noutra parte.
- Nalguma citação de Hílel. Mas, mesmo assim, é muito estranho um pensamento desses num Oriental - observa Heraclides.
- Pensamento eminentemente grego - continua o Areopagita. - Aliás não admira: pelo menos no que respeita a Cristo Jesus, ele parece ter sido muito influenciado por um Judeu grego de Alexandria, - Fílon.
Faz-se um breve silêncio, depois do qual Etéocles indaga:
- Mas, afinal, quem é esse Cristo Jesus? Um simples filósofo? Já ouvi dizer que ele é adorado como uma divindade...
- Cristo Jesus - esclarece Damálide - não é nenhum Eon, gerado nas mais altas regiões do céu, como alguns creem. Foi um homem, nascido duma mulher.
- Mas essa mulher apresenta a sua peculiaridade, parece - observa o Areopagita.
Sim, é uma princesa, da casa real de Davi, como informa Damálide. Teve outros filhos, além de Jesus, um dos quais se chamava Tiago. Mas, apesar da sua descendência dinástica, Jesus foi pobre, humilde. Encantador isso, não? Reuniu em torno de si outros indivíduos simples como ele, em número de doze, e que se denominam apóstolos. O mais importantes é Cefas, também conhecido pelo nome de Pedro - Rochedo. Mas um dos apóstolos o traiu. Na noite desse dia, instituiu uma ceia, que desde aí ficou sagrada e que é repetida pelos fieis como um ritual. Traído e ameaçado de prisão, atravessou uma imensa agonia da alma. Foi realmente detido, ultrajado. Sofreu o suplício, fora de portas, em Jerusalém, sob Herodes, o rei, e Pilatos, o procurador da Judeia. Sepultaram-no. Mas, como estava escrito, no terceiro dia ressuscitou dentre os mortos. Ainda pareceu a muita gente. Depois, subiu ao céu inferior.
- De modo que - diz Etéocles - esteve morte apenas três dias...
- Nem isso: segundo se fala - esclarece o magistrado - andou pelos Infernos esses três dias. Tal como Diônisos e Orfeu.
- Então - exclama o outro - o Cristo é também um deus catatônico!
- Não só isso - acode o Areopagita: - Jesus de Nazaré é essencialmente o deus dos mortos. Seu reino não é daqui, - é um reino infernal. Um verdadeiro cristão, e já há muitos, considera-se desde agora morto para o nosso mundo, que eles desprezam e chegam mesmo a odiar.
- Não será de estranhar se eles suscitarem odiosidade também - diz o dono da casa, reflexivamente.
E, dirigindo-se à cortesã:
- Você sabia tudo isso sobre o Cristo e não me tinha dito nada. Onde aprendeu essa espécie de... cristologia?
- Em Paulo de Tarso.
Silêncio. Etéocles, passado um instante:
- Paulo, o Ciliciano, andou por aqui, embora Atenas, parece, nunca tenha sido propícia ao cristianismo. Dizem que pregou perante o Areópago. Você o ouviu, Flégia? Que tal o homem?
O Areopagita não responde imediatamente. Isso deixa o outro um pouco suspenso, inseguro. Percorre com o olhar os circunstantes. É um olhar vivo, mas sem conteúdo muito definido, - como de quem estivesse meio a sonhar. Dá com a cara séria de Heraclides, o estoico, que o contempla também e lhe faz um leve movimento de cabeça.
- Ah! bem. E ele foi recebido, como dizem, no tribunal de justiça?
A pergunta é dirigida de novo a Flégia, o Areopagita.
Recebido?...
- Creio que aí compareceu como acusado. Não teria tido oportunidade de fazer um discurso propriamente... Mas falou no Pécile. Eu não sei bem. Nessa ocasião encontrava-me em Alexandria.
- Talvez tenha falado também na sinagoga - intervém Sílvio.
Todos olham para ele.
- Não é de admirar: é o que fazem habitualmente os rabinos judeus - adianta Heraclides. E continua: - Paulo de Tarso feria sempre a mesma corda: a Anástase de Jesus, isto é: a ressurreição do Cristo, ponto tão caro ao doutrinador, como muito bem sabe Damálide...
Suspende-se um breve momento à espera quiça dum aparte. A outra porém nada diz.
- Mas os ouvintes, que não conheciam o dogma - prossegue - supuseram tratar-se de dois nomes próprios: Jesus e Anastácia. Uma dupla divina, como Castor e Pólux, por exemplo.
Risos.
O estoico, continuando:
- Ele foi por todos considerado um pateta, um palrador, oferecendo a uma assistência um tanto culta como é o nosso povo, em lugar duma dissertação filosófica, tão do gosto ateniense, uma simples parolice, - uma espermologia. Perante os magistrados, fez uma declaração surpreendente e que muito interessava à administração municipal.
- Foi mesmo?... Que declaração? - quer saber Etéocles.
- Vinha revelar, lisonjeando o auditório com uma citação de Arátus, quem era a divindade misteriosa que habitava esses altares que a cidade faz erguer ao deus desconhecido.
- Imagino a atenção com que não foi ouvido... - comenta o outro com um sorriso.
E ao mesmo tempo, com um gesto dá ordens para que os triclinários levem a mesa do banquete e a substituam por uma outra, com os doces e as frutas: é a segunda mesa. Depois do que, Etéocles pergunta:
- E quem era esse deus, até então jamais identificado e que possui tantos altares na região de Atenas?
- Cristo.
Risos.
Os escravos fazem a substituição ordenada pelo anfitrião. Entre as frutas da sobremesa, aparecem uvas de várias qualidades, de vários tamanhos, transparentes. Algumas são dum verde esmaecido, leitoso. Poderiam ser comparadas a grandes pérolas. E formam montes sobre as salvas de prata. A neve pulverizada por sobre os grandes cachos de uvas pretas dá-lhes um aspectos foscos, que as torna quase azuis.
- Há alguma cousa aproveitável na doutrina de Paulo de Tarso? - pergunta Etéocles, depois que os seus hóspedes começaram a se servir da sobremesa. - Pouco se sabe disso entre nós.
- muita cousa aproveitável - vai informando o estoico, ao mesmo tempo que vai mordiscando o que tem na mão. - Embora sem originalidade. Paulo, o tapeceiro, prega a moral estoica. Talvez tenha privado com Sêneca ou mantido com ele alguma correspondência filosófica: ambos gostam do gênero epistolar. Como Sêneca, considera o homem objeto sagrado para o outro homem: Homo, sacra res homini.
- Como Sêneca sabe dizer as cousas! - exclama o Areopagita. - Essa frase é lapidar. Talvez fique.
- Sêneca é um filho espiritual dos Gregos, da ciência e da literatura gregas - observa Heraclides, lisonjeado, ao parecer.
- Entretanto é um Espanhol, um Bárbaro - faz Etéocles, meditativamente. - Quem haveria de dizer!...
- Mas, como estava acentuando - prossegue o estoico - Paulo e Sêneca dão muita importância à morte. Não a temem. Desejam-na até.
Flégia, o magistrado do Areópago, tem um sorriso:
- Sêneca vive registrando, volutuosamente, os casos em que o indivíduo morre bem. Como Catão de Útica...
Graceja Etéocles:
- Não demora, ele acrescentará mais um caso à sua coleção...
- Qual?
- Ele próprio.
- A cousa está tão feia assim?
Etéocles, o informante, faz lenta, séria e reflexivamente que “sim” com a cabeça. Depois volta-se para o jovem Romano:
- Lúcio Sílvio há de saber.
Mas Sílvio não se envolve em política. De resto, vive numa terra bárbara também: na província... Não pode informar nada, porque nada sabe.
- Donde você é?
- Da Gália Cispadana.
Belo lugar, grandes planícies, muita riqueza agrícola e pastoril. E também muita ânsia de saber, uma cultura talvez mais do que incipiente. - Como se reconhece ali, em opiniões breves, que se cruzam, informativas.
- Como estava dizendo - prossegue finalmente Heraclides, o estoico: - o que mais avulta na doutrina de Paulo de Tarso é a morte. Primeiro a morte de Cristo...
- E essa sua ressurreição, não esqueça... - atalha o dono da casa, sorrindo.
- Você acha graça. Realmente, é o grande absurdo do paulinismo. Quando se percebeu que a anástasis não era, como se supunha, uma outra divindade - a deusa-consorte - mas o processo mágico de tornar de novo à vida, ninguém mais quis ouvir o acusado. Os juízes mandaram-no embora: estavam diante dum imbecil, dum irresponsável.
- Dum espermólogo... Eu gosto muito desse termozinho nosso - completa Etéocles.
- É essa a tua opinião, Heraclides? - pergunta a mulher.
- Bem, eu só vejo o lado moral.
- É a tua especialidade... - observa o Areopagita. - És um homem do Pórtico.
- Sou. O mundo não tem outro problema a resolver senão o problema moral.
- Vai dizer isso a Evandro... - insinua o outro.
- Já lho disse. Evandro não viu isso na sua Apologética. Daí o fato dessa obra, tão sedutora por vários aspectos, não estar destinada à perpetuidade, ao lado da República de Platão ou da Política de Aristóteles.
- As obras de Evandro de Tessalônica não beneficiarão a posteridade - comenta, de modo frio, o Areopagita - porque vão ser queimadas em praça pública pela polícia. Não foi o que você vaticinou e que aliás eu também desejo?...
O estoico não replica.
- Mas depois? - faz Etéocles, dirigindo-se ao discípulo do Pórtico.
Etéocles, que já parou de comer como a maioria dos convivas, acha-se quase alçado sobre o triclínio, com um dos cotovelos firmemente apoiado no pulvinar.
- Você nos estava expondo a doutrina paulínica...
- Sim. Paulo é um verdadeiro inimigo da vida - continua o estoico. - Dá a morte alegórica a todos os catecúmenos, mergulhando-os, para os batizar, numa cuba cheia d’água. Pela primeira vez, a água lustral tem um papel necrótico.
- Mas então ele é o seu tanto original... - admite Etéocles.
- Mas só nos aspeto litúrgico. Mas não é isso o que importa para o homem moderno. Nós queremos ideias. Ora, as ideias de Paulo são antigas, pois foram todas tiradas do estoicismo.
Damálide:
- Para ti então são boas: tu és um partidário de Zênon...
- Claro. O que eu quero dizer é que esse missionário não nos vem anunciar nenhuma novidade, muito menos uma Boa Nova - um Evangelho - como ele charlatanescamente apregoa.
- Abusa-se muito desta palavra Evangelhos. Ela já figura no calendário de Priena, para exprimir as boas novas que o dia do nascimento do Divino Augusto augurava - recorda Flégia. - Mas, naturalmente não era possível esperar nenhuma revelação dum Bárbaro da Ásia. Tanto mais, depois que ele foi convicto, perante o Areópago, de patetice.
Prossegue Heraclides:
- Sêneca valoriza muito a vida gregária, a vida em rebanho. Naturalmente com todas as suas implicações niveladoras... Que nome se poderia dar a isso? - interroga, depois de breve reflexão. - Inventem um termo novo e adequado para esse pensamento do filósofo.
- O próprio Sêneca não formula em palavras as inovações que prega? - pergunta o Areopagita.
- Formula-as sim. Mas não as define.
- Como se expressa ele?
- In commune nati sumus.
É: nascemos para uma vida em comum, sem diferenciações. Não é isso porém o que a natureza ensina, quando erige, como seu grande princípio de aperfeiçoamento, a emulação e a luta, como observa o magistrado. Ora, luta pressupõe - ou gera - desigualdade.
- Deve-se também contar com os dotes de cada um, congênitos ou adquiridos. Não é fácil partilhar isso. Necessariamente, nessa bizarríssima fratria, os bens materiais seriam utilizados em comum. Que aberração econômica! Que um escravo, um pobretão pense assim, não admira. Mas não um Sêneca, que além de tudo é rico - conclui.
- Não esquecer - lembra Heraclides - que para um estoico todos os homens são iguais.
Etéocles:
- A cousa é outra...
Olha para os lados. Os escravos percebem o seu gesto e meio que se afastam. Ele baixa a voz e informa:
- Sêneca conspira. Certo. Agora mesmo, em viagem, tive confirmação disso. Conspira contra o Príncipe, logo: contra o estado. Sabe que, se for pegado, hão de aplicar-lhe a lei privando-o do fogo e da água. Isso corresponde ao banimento ou à morte. Além do confisco dos seus bens. Tanto faz portanto que ele os deixe a César como à turba das praças.
- Eu logo vi que um sujeito assim não ia longe - observa o Areopagita. - E Paulo de Tarso também preconiza a mesma cousa? Ele pelo visto não tem nada a perder...
- Nada.
- É, pois, um inimigo do estado, um inimigo social. Não devia andar solto.
- Ele está preso em Roma, há três anos - informa Sílvio.
Mesmo movimento de interesse pelo jovem, já antes manifestado.
- Ah! bem.
- Mas há outros pontos de analogia entre ambas as doutrinas - retoma Heraclides. - O fim do mundo por exemplo. Sêneca, como sabem, acredita que os astros que se movem na esfera sideral, que a própria terra, tão firme e sólida sob os nossos pés, que todas essas cousas um dia acabarão. Seremos arrasados pelo fogo. Ou sob a ação de outros cataclismos: tragados pelas águas, abismados nas profundezas da terra, com a formação catastrófica de grandes brechas no solo, de enormes cavernas.
- Ele decerto pensa assim - diz Etéocles - sob a influência da catástrofe de Pompeia. Seu amigo Lucílio é de lá. Talvez tenha sido até uma das vítimas do terremoto.
- E os cristãos também vaticinam um terremoto com maremoto? - quer saber Flégia.
- Não: a sua concepção é puramente pirológica. Só contam com o fogo, exterminador e justiceiro...
Novo silêncio.
- Mas escutem! - acorde o Areopagita, com uma certa vivacidade - Sêneca é um transformista, um aristotélico. Acredita no homem cósmico e na imortalidade. Nós suportaremos mais virilmente a nossa morte e a dos nossos, diz ele, se admitirmos que tudo quanto existe está submetido compulsivamente às alternativas da vida e da morte e que um corpo composto se desagrega para se recompor de novo, indefinidamente. Isso não representa absolutamente um fim para o universo: é uma simples transmutação.
- Como não representa um fim para Lucrécio - acrescenta Sílvio, empolgado igualmente pelo assunto - quando, em maravilhoso verso nos tranquiliza: Nullius exitium patitur natura videri, jamais a natureza nos deixa ver o fim.
- Para os cristãos também - esclarece o estoico - o fim deste mundo é o começo do outro. Esse seu batismo tão original os vem acostumando a semelhante ideia: entram na cuba cheia d’água - morrem; saem de lá redivivos, ressuscitados.
- Tem isso alguma ligação material ou circunstancial com o gênero de morte infligido a Cristo Jesus? - indaga Etéocles.
- Cristo teve morte de escravo - informa tranquilamente Damálide. - Ressuscitou ao terceiro dia.
- Já no-lo disseste - faz Etéocles.
- O que eu não posso esquecer é que Sêneca, um proprietário, um ministro do Divino Nero, venha propugnar a comunhão de pessoas e dos bens. In commune natis sumus - nascemos para viver na promiscuidade. Isso ofende o aticismo do Ateniense! - exclama o Areopagita.
- E esse... Como se deve chamar? - retoma Heraclides. - Comunhão não diz tudo, porque só exprime o resultado último. Precisa um termo novo para definir o postulado novo. Possuir todos os bens em comum, como aliás já fazem os cristãos, ia-me esquecendo de vo-lo informar; como quer Sêneca... Eu tenho horror às palavras apressadamente criadas. Vocês conhecem o fundamento do sistema econômico de Sêneca. Ele não o denominou: não vamos ser mais radicais do que o próprio reformador. Passemos adiante. Mas um vocábulo para exprimir isso talvez fosse interessante...
Um vocábulo... Necessariamente na língua do autor, - essa língua latina, duma pobreza proverbial para termos de filosofia, como já tem-se queixado Lucrécio, como se queixa o próprio Sêneca...
- Um momento! - interrompe Sílvio.
Todos prestam atenção.
- Eu fiquei pensando nisso e na pobreza vocabular do latim. Sêneca não é tão culpado, como parece, pela omissão. Talvez tenha procurado a palavra na língua grega, onde também não há. Para a linguagem técnica, os nossos escritores só têm uma saída: vivem da tradução...
A sátira do jovem, traduzindo uma certa cultura e muita ironia, deliciou os presente.
Mas Heraclides retoma o seu assunto, para concluir:
- Se eu tivesse de resumir numa fórmula a impressão que Paulo de Tarso me causou, diria que ele, fazendo do fim do mundo o centro da sua evangelização, é predominantemente um apocalíptico. E, pela sua concepção estoica da igualdade dos homens, um mensageiro de Sêneca, - de Sêneca Soter.
Então a hetaira, que, ao lado de Etéocles, se soerguera e acabara mesmo por sentar no leito, pronuncia estas palavras:
- Eu também acredito que todos vimos ao mundo para gozar duma igualdade. Chamem vocês a isso como quiserem. Qualquer palavra, no original ou tradução, proferida aqui, entre duas taçãs de vinho de Khios, iria extinguir-se, tão rapidamente como os vapores do próprio vinho. E se não nos deixarem usufruir essa igualdade neste mundo, que ele se acabe e que venha um outro, na terra, no céu ou nos infernos. Como vês, Heraclides, não somente o apóstolo Paulo é apocalíptico... O importante é que esse reino venha a nós. Não protesto só por mim, mas por todas as mulheres. No fundo dos gineceus elas estão procurando a companhia de outros deuses, que não são precisamente os deuses dos maridos. Já isso é uma infidelidade conjugal... Não é mesmo? E sabem quais os deuses mais cotados?... Iavé Sabaó e seu primogênito Cristo...
Nesse momento, entram dois escravos e começam a aspergir o chão de mosaico com serragem tingida de açafrão.
O sol já entrou, mas ainda é dia quando Sílvio deixa a casa de Etéocles. Está-se em pleno verão. Todavia, aquele fim de tarde em Atenas apresenta-se tépido, prenunciando uma noite agradável, talvez fresca mesmo. Um clima muito diferente do de Tessalônica. Pelo menos daquele único e inolvidável dia que passou em Tessalônica.
Ele é o primeiro a sair. A liteira o aguarda, junto da porta da rua, - porta aliás duma linha nobre e antiga, em forma de trapézio, mais estreita em cima. Sílvio porém dispensa a condução. Quer ir a pé, dono dos seus passos.
A rua é estreita, tortuosa, como em geral todas as ruas ali. O Ateniense não se deixa levar pela inovações, pelo modernismo: não adotou ainda, e parece que nunca o irá fazer, as longas e largas perspectivas, ladeadas de arcarias. Todo o seu urbanismo concentra-se na Acrópole, - e na Acrópole do passado, bem entendido. Porque, apesar duma certa satisfação de Romano exilado, foi com o desprazer de “colecionador” que querem intrujar, que ele-Sílvio viu entre os mármores veneráveis esses simulacros novos, representando os principais figurões políticos do seu país: cônsules, procônsules, Imperadores e seus familiares. Até Nero tinha lá a sua imagem. E tudo isso, dum trabalho medíocre. Gabaram-lhe muito no hotel algumas obras modernas, como o pórtico de Atenas Arquégeta, o relógio de Andrônico Cirresto. Ele os visitou. Claro: têm a sua importância. Mas não merecem durar. Destoam daquele conjunto. Para o seu gosto, naturalmente.
Ainda não chegou à primeira esquina, quando ouve um raspar precipitado de sandálias atrás de si. Volta-se. É Heraclides, o estoico.
Sílvio havia simpatizado com o homem. Mas ele é um... utópico. A verdadeiro utopia não é preconizar uma saída puramente economística para o caso do mundo contemporâneo, como quer Evandro com tamanha audácia e obstinação. Utopia é essa solução moral de Sêneca, em que o problema fica exclusivamente subordinado ao arbítrio de cada um. A aplicação da bondade, da humanidade no trato do escravo ficará na dependência apenas da vontade do senhor. Sem nenhuma obrigação ou controle. Claro, com o tempo e um progressivo aperfeiçoamento ético do Homem, esse ideal poderá ser atingido. Mas, nessa altura da questão, ninguém irá em segurança confiar numa evolução, de si mesma lenta e aleatória. Ela é possível em teoria. Ou quando se consideram grandes trechos da história da Vida sobre a terra. A tese científica de Anaximandro o provou, quando ele desvendou o mistério da origem das espécies.
A prática porém está aí para demonstrar que há fatores, até certo ponto imprevisíveis, capazes de imprimir rumos retrógrados à marcha ascensional para a humanização - e uma volta virtual ao peixe primitivo, à vasa originária. Como enfim as relações mais profundas que contraem entre si o senhor e o escravo decorrem fundamentalmente da produção e são portanto de ordem econômica, será mais simples e mais viável, recorrer também, para conjurar a crise, a remédios econômicos.
Ao chegar ao seu lado, Heraclides vai-lhe dizendo:
- Eu quero ir junto com você.
Seguem.
- Dá-se com Etéocles há muito tempo? - indaga Heraclides. - Tive a impressão de que se viam hoje pela primeira vez.
- É verdade.
- Ah!...
O estoico cala-se. Vão caminhando lentamente. Apesar de estarem no centro da cidade, o movimento de transeuntes é mínimo. De quando em quando, uma liteira, precedida de escravos. Duma rua transversal chega-lhes um ruído surdo de carruagem, que se avoluma progressivamente. No entroncamento das duas ruas, eles têm de se deter um instante, para deixar o veículo passar. Dirige-se para o lado oeste da cidade, provavelmente no caminho de Elêusis ou de Mégara. Àquela hora, Atenas é bem a cidade vazia, como a tinha visto Horácio.
- Você não conhece a história de Damálide, a hetaira de Etéocles... Ou estou enganado? - pergunta Heraclides.
- Não.
O outro reflete um momento. Depois continua, como que se propõe a contar mesmo uma história:
- Faz algum tempo, Damálide já não é a mesma. Ainda se veste bem, como vimos. A censura que provocou o ato de Etéocles, mandando vir do longínquo país dos Seres as sedas que ela usa e que são tecidas com um fio desconhecido do Ocidente e de origem animal! Ainda está bela e moça. Estes dois predicados escapam ao seu arbítrio, parece. Talvez por isso teimem em durar...
Sorri de leve. Sílvio mete-lhe, de lado, uns olhos inquisitivos.
- Vocês está sabendo aonde eu quero chegar... - diz-lhe Heraclides.
- Não muito exatamente.
- Damálide é cristã.
Alça os olhos. Leva o olhar para longe. Parece não querer ler na cara do rapaz o efeito que esse dardo lançado assim de surpresa poderá causar. Como o outro nada comenta, ele prossegue:
- Ainda no último dia de reunião, ela esteve na assembleia - na igreja - dos cristãos. Tomou parte no ágape que eles celebram no Dia do Senhor. Porque é interessante: embora Judeus, eles santificaram um outro dia que não é o sábado tradicional. Como se explica isso?
Sílvio nota que Heraclides revolve por um instante na sua mente esse mistério. Mas ele logo acrescenta:
- O caso de Damálide é complicado. Ela é filha, legítima ou adotiva, duma das primeiras mulheres que adotaram o cristianismo entre nós, senão a primeira. Uma certa Dámaris. Muita gente duvida que ela fosse Grega de nascimento. Na verdade, Dámaris não é palavra grega. Mas talvez a mulher se chamasse Dámalis. Donde: Damálide.
- Supunha outra cousa: um apelido caseiro, na forma dum diminutivo de carinho.
- Bem pode ser.
Há um outro silêncio. Sílvio sente um leve torpor. Talvez da digestão, do vinho. Embora não houvesse comido muito nem bebido demais. Fora, mesmo, uma ceia comedida. Etéocles, um homem fino, desses Gregos ricos, viajados, - cidadãos do mundo. Talvez tenha entrada no Palatino. Só um instante estivera na iminência de perder a compostura: quando Damálide fizera a sua profissão de fé... cristã. Conquanto essa profissão de fé tivesse sido feita duma maneira discreta, verdadeiramente ática.
- A mãe de Damálide teria privado com Paulo de Tarso quando ele andou por aqui. Damálide era então uma adolescente. Isso faz uns dez anos - informa o estoico.
Assume de novo uma atitude reflexiva.
- Como as cousas mudam! - exclama. - Paulo de Tarso hoje está inteiramente esquecido. Ninguém mais fala nele. A não ser talvez a polícia.
Sílvio continua calado. Seu leve torpor tem algo de repousante, - de volutuoso mesmo. A tepidez da bela noite de verão que cai parece envolvê-lo carinhosa e maternalmente num agasalho, como, quando criança, se preparava para dormir. As palavras serenas de Heraclides o embalam, como se a própria Cuba as tivesse murmurando junto do ouvido, para o acalentar. Talvez esteja com sono mesmo. E já é hora de deitar. Além do quê, no dia seguinte vai viajar, - viajar cedo. Para ir dali ao Pireu não vai tomar uma carruagem, nem mesmo uma liteira: projeta seguir a pé.
Sorri à ideia de se ver na estrada, vestindo um manto curto, deixando descobertos os joelhos, o pétaso caído às costas, - sinal do viajantes... Não. Num traje citadino (Pireu é a bem dizer um arrabalde de Atenas) deixará o hotel, como quem apenas sai dum bairro para ir a outro bairro. Como quando fazia as suas excursões aos jardins da Academia, sobre o Cefiso, para além da porta Dípilo e do Cerâmico.
- Em Roma mesmo ele é quase desconhecido - diz-lhe a seu lado Heraclides.
Ele?... Sílvio retorna do seu devaneio. Ah! Sim: Paulo de Tarso.
- E lá eles têm uma comunidade, uma igreja - continua o outro. - Desiludido dos homens, talvez mesmo do deus que ele anunciou com tamanho fervor, está-lhe reservado um fim bem melancólico: Paulo de Tarso vai morrer incrédulo. Talvez mesmo ateu. Não ateu no sentido oficial: isso, para a lei, todos os cristãos já são. Mas descrente, céptico.
Sílvio não diz cousa alguma. No íntimo porém duvida que um tal vaticínio venha a se cumprir. Pelo que conhece desse homem, ele é uma natureza ardente. Não é num estofo assim que se talha o cepticismo.
Mas Heraclides parece bem informado. Ele continua:
- A aproximação entre Sêneca e Paulo de Tarso, que eu tenho como certa, representou algum papel nessa reviravolta das suas ideias? Sêneca é o único Romano liberado da superstição.
- O único?... - pergunta Sílvio, sorrindo.
- Bem. Você também me parece um espírito racionalista. Apesar da sua mocidade.
- Nós amadurecemos cedo...
- É fato: o Divino Augusto já aos vinte anos pleiteava o consulado. E não era absolutamente um caso de precocidade. Mesmo esse senso realístico não exclui a superstição. Ao passo que Sêneca...
- Você esquece Lucrécio - interrompe Sílvio, com o seu sorriso divertido.
- Já vi que Lucrécio conta com a sua admiração... Ele é uma materialista, sim, um iconoclasta. Parte dum princípio ingrato: Nada pode ser tirado do nada por uma força divina. Eu queria vê-lo aliar, como Sêneca, o pensamento deístico mais elevado à mais pura Razão. Mas, como ia dizendo, Paulo, o missionário, parece ter abjurado a fé em Jesus de Nazaré. O que não admira: ele já mudou uma vez. Quem muda uma vez, de maneira espetacular como fez Paulo no caminho de Damasco, mudará sempre. O próprio tom do seus escritos o está prenunciando. Posso dizê-lo, porque os li quase todos. Esse homem me interessa. Tal qual Sêneca, ele prega a Economia, com a partilha equitativa duma fabulosa riqueza, até então inacessível a toda investigação - anexikhníastos ploûtos - protegida por um mistério que desafiava os séculos. Julgou ter encontrado em Cristo Jesus o Deus Econômico. Quer dizer: o deus dispensador, o deus munificente. O deus tesoureiro e sua arca. Na verdade, há um plano divino de Economia, com base na distribuição, por igual para todos, dos bens deste mundo, e que o seu amigo Lucrécio não podia ver.
Sílvio deixa passar a provocação. Enquanto o outro continua:
- Esse plano é anterior às idades. Quem o traçou, segundo as ideias de Paulo? Iavé. Quem o viria executar? Jesus. Esse o seu erro. Tal plano existe realmente. Foi concebido e traçado no céu pela Divindade Suprema. Diante da sua complexidade, como uma construção de tijolo e de pedra que um só arquiteto não pode erguer, trabalharam nele alguns Obreiros. Os mais importantes foram Posidônio e Jesus. Isso, no passado. Quem lhe vai pôr o frontão e rematá-lo é Sêneca. É o que eu espero que Paulo de Tarso já esteja vendo. Porque Paulo e Sêneca se comunicam, fique certo.
Sem dar ocasião a que Sílvio possa levantar o mínimo protesto, conclui:
- Diônisos, Orfeu, Iavé Sabaó, Posidônio, Jesus e Sêneca, para não falar senão nos principais, são Heróis, Demônicos ou Deuses Econômicos. Todos eles prometem esse cousa grandiosa: a Salvação, pela Economia. Mas o maior de todos é Sêneca.
Dizendo isso, despede-se de Sílvio e desaparece.
*
Mas o fato é que, lá pelo meio da noite, ele- Sílvio vê Demétrio, que lhe serve igualmente de cubiculário, à entrada do quarto, uma expressão de surpresa na fisionomia. E vem introduzindo - imagine-se quem! - Heraclides.
A essa hora?... E o estoico não está só: acompanha-o um indivíduo de ar severo, trazendo uma tabuinha na mão, - dessas tabuinhas untadas de cera e que servem para gravar uma mensagem rápida. Sílvio fica tomado de horror: a sua carta!
Conquanto caiba, todavia, uma averiguação: sua carta era escrita em papiro, com uma tinta especial, - uma tinta vermelha, usada na escrita hierática e que por um capricho de intelectual mandara vir do Egito. Como é que aparece agora transformada numa simples tábula, - tão fácil de violar? - Mas deve ser ela. E, pelo visto, aquele sujeito é da polícia.
Diz-lhe Heraclides:
- Eu quero, Lúcio Sílvio, profligar o erro a que te induziu Lucrécio. Ele - e designa o sujeito que o acompanha - vem confundir-te, as provas na mão.
Com a segurança que dá a posse duma prova material, irrefutável, o indivíduo bate com o indicador na tabuinha, triunfante.
É o que se vai ver... E, para tanto, o melhor é levantar-se. Desce do leito, põe os pés sobre o toral. Demétrio vem calçar-lhe as sandálias.
Ele pede ao indivíduo a tabuinha, para ver o que é que havia escrito. Abre-a, pois na realidade ela se compõe de duas partes, que giram num eixo, formando charneira, e que, quando fechadas, simulam um pequeno estojo, - sem profundidade. Queda-se muito tempo a fitar o que escreveu, sem poder apreender-lhe o sentido. Cansado do esforço, devolve os pugilares ao indivíduo de ar severo. Enquanto ninguém mais ficar comprometido no caso, a não ser ele próprio, tudo correrá bem. Será a sua preocupação primeira, nessa situação verdadeiramente grave, fugir a ciladas de interrogatórios com propósito de forçar delações. Pois não tem ilusões: já vai sair dali preso. - A surpresa de Heliodoro quando souber de tudo isso!...
- Mas, em suma: quem é você? - pergunta Sílvio, reagindo e dirigindo-se ao desconhecido.
O interpelado responde:
- Sêneca.
E o rapaz acorda.
Tenta dormir de novo.
Outras fantasias oníricas enchem um sono agitado, onde as sensações do dia formam uma tecedura incongruente e extenuante. Vê Heliodoro, excitado. Veio comunicar-lhe uma notícia sensacional: o veleiro alexandrino, em que viajaram, e que levava grande carregamento de papel, pegou fogo.
“- Sabe? O seu papel foi destruído no incêndio!”
Ah! sim: a etiqueta. O pitácio que o escravo de Etéocles retirara da ânfora. A etiqueta porém não era em pergaminho? Lembra-se que a escrevera do próprio punho para a enviar ao pai, servindo-se da tinta vermelha que se usa na escrita hierática e que ele mandara vir do Egito por um capricho de intelectual. - A etiqueta era comprometedora...
- Sabe-se quem foi que ateou fogo no navio?
- Os cristãos. Dois marinheiros cristãos que se achavam a bordo.
Como um relâmpago, uma luz se faz na mente de Sílvio: vai ser presto! O preigo o deixa num grande angústia. E ele acorda outra vez.
Ainda deve ser noite alta. E está cansado. Mas sabe que, se dormir de novo, vai ter outra vez esses pesadelos. Fica um momento de olhos abertos. Um torpor pesa-lhe sobre o corpo. Sente-se também com sede. Uma preguiça porém impede-o de levantar, beber um copo d’água. Vem-lhe então à consciência a imagem de Aristóbulo, grande, gordo, indo com ares imponentes até o fundo do cubículo de Soêmio beber o copo d’água da manhã. Revê Tarsita. As três Tarsitas: a bela desconhecida do manto púrpura-escuro que cruzara com ele na rua, a Tarsita sofredora e paciente, como um pequeno cão indefeso, a outra Tarsita que se entregara a ele, pálida e sofredora também, mas, aí, sofrendo dum outro mal: o mal do amor...
Evoca a sua caminhada ao lado da moça, em demanda do edifício de cenáculos, para além do bairro judeu, sobre a via que conduz a Bereia. Esquisito aqueles seu olhar, terno e lânguido, que pousava sobre ele e que se transformava num pequeno olhar atento e vigilante quando se desviava dele e caía sobre o caminho que seguiam. Ao passar o largo dos três caminhos e ao pender para o sul, descobriam-se renques de álamos, que pareciam margear arroios ou estradas. Um lugar bucólico. Demora-se nessas imagens. Com elas mesmo compõe um devaneio: imagina-se voltando a Tessalônica e espantando Tarsita com um pedido lírico para se unir a ele. Por que não? Com o novo gênero de vida que pretende levar, um passo desses perdia toda a sua ousadia. Agora mesmo, asneia pela presença dela ali a seu lado, ali no seu leito. Recorda-se que, ao chegar àquela estalagem, estava também inquieto, - inquieto com as cousas novas que se lhe defrontavam. A presença do corpo da puela colado ao seu, trazendo-lhe a segurança duma companhia, confortara-o e - o que é mais - apaziguara-o.
Entretém-se por algum tempo ainda com essas imagens da evocação e com essas fantasias, quando em certo momento, seus conhos tomam corpo, fazem-se reais. Está mesmo com Tarsita. É num estrada, ao longo dumas muralhas desmanteladas. A estrada do Pireu? Tem todo o jeito. Sílvio procura cingi-la nos braços, protegê-la, porque vão... fugindo, - ela, no seu passo elástico. - O mais interessante é que vão fugindo - incompreensivelmente! - de Heliodoro e de Hiponax. Desse Hiponax, que aliás já cobrira um caminho igual, com o passo fácil e elástico dos povos andadores da Líbia. Sílvio vê o perigo acercar-se. Vai enfrentar os perseguidores, quando se abre o reposteiro da entrada do quarto e surge Demétrio, que vem acordá-lo.
É de manhã.
Sílvio vem vindo da ágora. Apesar de ter levantado cedo, pouco fizera. Seu sono, mais de uma vez interrompido, não o restaurou. É exato que adquiriu o vinho para o pai, a raiz do heléboro que a maẽ encomendara. Mas foi tudo: a travessia para Corinto, matéria importante e urgente, a ser encaminhada com antecedência, não saíra ainda da esfera das cogitações... E ele se acusa por isso.
O plano agora é tocar-se para o Pireu. Manda Demétrio postar-se de guarda no molhe, enquanto espera nalguma hospedaria. Parece-lhe o mais acertado.
Atenas, que ele vai deixar dentro de uns momentos, já é um lugar que ficou para trás. Sua atenção não se fixa mais nas cousas com aquele grande conteúdo afetivo com que as viera bebendo. Sua pressa é abordar Corinto, revirá-la rapidamente, fazer algumas compras e partir. Quer ver-se em Roma.
De chegada lá, ambienta-se primeiro. A sua instalação vai tomar-lhe algum tempo. Talvez longo, porque não se trata apenas de conseguir uma casa para morar: quer dar-se uma situação definida e estável. Muitas cousas estão na dependência disso. Quem sabe mesmo se não aquela fantasia, aquele projeto... lírico com Tarsita?...
A rua está cheia de gente. É a hora das compras, dos negócios.
Conquanto Atenas não tenha grande propensão para os negócios. Poderia ter aproveitado a sua estadia ali para seguir algum curso. A verdade é que o interesse puramente acadêmico pelo saber desapareceu-lhe. E estão no período das férias escolares. Todavia, desde que projeta dedicar-se ao ensino, deveria ter ouvido um mestre de eloquência.
Não pode julgar do nível filosófico atual de Atenas pela dissertação de Flégia no banquete. Nem pela doutrina de Heraclides, o estoico. Na verdade, o Areopagita quase que só se limitou a satirizar, ironicamente e, às vezes, com alguma graça. Quanto à doutrina do estoico, é Sêneca, tão somente. Não vai negar os méritos literários de Sêneca. Muito da sua ciência ele o bebeu nos seus livros. Mas o fato de haver encontrado em Atenas tão difundida a sua teoria - difundida e completada... - prova bem a decadência da mentalidade filosófica da Grécia. Evidentemente, a Grécia hoje só tem um pensador: Evandro.
A Apologética deve ser a sua obra principal. Pouco sabe das obras de Evandro. Tencionava esclarecer-se sobre isso com calma e método. A sua partida precipitada de Tessalônica não lho consentiu. O livro que manuseou ligeiramente no quarto de Tarsita era indubitavelmente uma obra menor, sob a forma de diálogo. Tinha mesmo por título este nome simples: Diálogos. Em Corinto tudo se regularizará.
Deseja fazer a travessia com calma também. Não se há de meter numa navícula qualquer. Um veleiro de carga lhe serviria: uma holkás, uma embarcação onerária. - Não vai fazer questão, naturalmente, dum navio da classe do Ácatus...
A irmã vai casar no mês que vem! Passado o último dia nefasto de agosto... Quantas vezes ouviu isso em casa, nesses últimos tempos!...
E ele não estará lá... Quem sabe! Pouco lhe há de custar dar o seu pulo à Gália. Mas já quando tudo estiver na sua ordem. Em Corinto, precisa comprar uma cousa boa para a irmã. Pensou numa cratera, que é um objeto de utilidade. Pensou também num burrinho para as azeitonas. Já o conhecia, antes de o ter visto, porque adereçara a mesa na ceia de Trimalkhião. Aquele de Etéocles é uma verdadeira obra de arte.
- Ave, Sílvio!
Ele é arrancado mais ou menos violentamente do seu devaneio por essa saudação, até certo ponto familiar. Vira a cabeça para o lado donde ela partiu e dá com os olhos no seu hospedeiro da véspera, Etéocles, que vem acompanhado de escravos. Devia ter ido também à ágora.
Interessante, haver pensado no amigo ele aparecer. Essas cousas acontecem. E devem ter uma motivação qualquer, dentro dum mistério decifrável... É outro problema curioso: o da nossa vida mental. Haja visto o caso dos seus sonhos à noite passada. Quando tiver oportunidade vai ler Hipócrates, ver o que ele diz sobre a interpretação dos sonhos...
Etéocles vai também no seu caminho. Seguem juntos portanto.
Etéocles Olinto foi à ágora à procura dum amigo, - um advogado. Está com um problema mais ou menos urgente.
- Essas cousas que surgem à última hora. Porque eu vou viajar hoje.
Sílvio meio que soergue a testa, numa ruga interrogativa.
- Seguimos para Alexandria - responde o Grego. - Quero levar Damálide a espairecer um pouco. Na verdade, o nosso veraneio vai começar tarde este ano. Tive muitas viagens, mas de negócio. Esta viagem a Alexandria, com uma larga estada naturalmente em Canopo, é em pura intenção dela... - remata sorrindo.
Sílvio guarda uma reserva discreta.
Etéocles explica o caso urgente, de última hora: uma cousa boba, ligada a um dos seus libertos, que, na sua ausência, terá de gerir alguma cousa sua.
- No fundo trata-se de mera formalidade, que, todavia, vai exigir mais um papel.
Um pensamento - um gracejo - forma-se automaticamente no espírito de Sílvio: ia repetir a sua observação satírica, feita a Heliodoro e ao agricultor da Lócrida, quando conversavam no termopólio do porto, no Pireu, segundo a qual o próximo fim do mundo traria uma considerável redução no consumo do papel... Subitamente, sente uma angústia. Por felicidade, não dura mais do que um instante.
A seu lado, Etéocles acrescente:
- Mas o homem não estava lá. Tenho de procurá-lo noutra parte.
Quer saber quando Sílvio retomará a viagem.
- Pretendo embarcar hoje. Também...
- Segue então por mar?
- Sim.
Etéocles põe-lhe uns olhos brilhantes, meio divertidos, carinhosos.
- Por que não vai conosco? A trirreme é segura. Damálide haveria de gostar. Eu o deixaria em Corinto. Você decerto faz escala em Corinto. Lá toma um navio direto para um dos grandes portos que servem a Roma.
Em rigor, não há nenhum motivo para ele-Sílvio não aceitar o oferecimento. Tudo assim ficaria solucionado. E para Etéocles isso não representa nenhum incômodo. Talvez nem para a sua companheira.
- O teu convite me sensibiliza, Etéocles Olinto.
- Vem conosco então?
- Sim.
- Ótimo.
Sílvio segue com o amigo. Ele vai à procura do advogado, - que, por sua vez, é um liberto também. Mas muito hábil, segundo Etéocles:
- Verdadeiro especialista na matéria.
Para mostrar esse interesse que a cortesia impõe, Sílvio intervém, fazendo votos para que a questão se resolva com facilidade e no menor tempo possível.
- Ah! - observa Etéocles: - deve-se contar com a demora inevitável da burocracia. Mas, mesmo essa, com a sua habilidade e um pouco de dinheiro, sabe Celadonte como vencer...
Combina-se a viagem. Encontrar-se-ão no Pireu.
- À hora sexta - recomenda Etéocles.
Seria necessário pois fazer um jentáculo mais sóbrio, mais à maneira romana, pensa Sílvio.
- Está certo: à hora sexta me encontrarás no porto.
- Então até lá!
- Vale.
*
Absolutamente não há motivo para sua angústia. Tudo ali está em paz, o Império está em paz. Celadonte - o especialista - com a sua agência montada para a compra de rescritos imperiais... Etéocles tirando por sua iniciativa umas férias, para as encher com os prazeres que Canopo lhe reserva... Não são, esses, sinais duma vida trivial, desconcertante à força de tão trivial?...
A grande inquietação existe apenas nas cabeças - nalgumas cabeças - por enquanto. Não duvida que do outro lado do Egeu - na Síria ou na Palestina - esses povos semibárbaros do Oriente se agitem. Mas lá estão os Epítropos - os Procuradores - bem assentados no seu pretório, com cinco coortes aguerridas e disciplinadas a seu serviço, prontas, ao menor sinal seu, a entrar em ação. Que não dizer então de Roma, - o centro mesmo, a cabeça de toda essa esmagadora organização militar e policial?... Quem, no vasto território do Império, se atreveria a um ato de força nesse momento?
E ainda há um outro aspecto: a liberdade de que goza o mundo é um fato real. Ninguém é perseguido pelas suas ideias ou pelas suas crenças. Ainda na véspera, em torno da mesa de Etéocles Olinto, enquanto se mastigavam iguarias finas, finamente preparadas, todas as opiniões tiveram curso. Não se libou em homenagem ao Imperador ou à sua Divindade. E esse Imperador é Nero, - um maníaco truculento. Só se falou nele, ao que lhe lembra, uma vez: para acentuar-lhe a longanimidade (ou a fraqueza), - quando se recordou o fato de nem ele nem os seus antecessores terem tido a ousadia ou a força de fechar o Areópago de Atenas. Ora, o Areópago não é apenas um tribunal judiciário: é um verdadeiro senado - um corpo político.
E então os pobres dos cristãos, que, trinta anos depois da primeira pregação da Boa Nova - do Evangelho - só contam em Atenas com meia dúzia de fieis, talvez todos mulheres, como Damálide, como a problemática mãe de Damálide!... A sua assembleia - a sua eclésia - tinha-se reunido havia poucos dias. Talvez Heraclides estivesse forjando involuntariamente uma mentira. É possível que nem haja igreja em Atenas. E não acredita que Etéocles Olinto consentisse que Damálide fosse à tal reunião. E, sem que ele o soubesse, era difícil ir: o homem vive num encanto pela mulher. Decerto não a larga nunca.
O fogo... o fogo... A ciência ressuma fogo. As religiões também. Não admira que o próprio cristianismo. Todos os deuses falam por meio do raio - que é o fogo do céu. O raio mesmo gera um deus pirógenos, um deus de fogo por excelência: Diônisos...
Roma há de queimar. Queima todos os dias. Uma cidade grande, mal construída, sem plano urbanístico, com habitações na maioria empregando a madeira nas partes vitais da construção. Mas são incêndio ocasionais, - ordinários. Já ninguém, ao que ouviu falar, se inquieta com isso. Os próprio flagelados vão buscar a água do lugar mais próximo e extinguir o seu incêndio. E água é que não falta na capital do mundo. Se outro título não tivesse Roma de que se orgulhar, tinha esse: é a cidade do universo que possui as melhores obras de hidráulica.
Sua inquietação deve ter fim nesse momento e para sempre. Não é uma decisão que toma: é a consequência natural, o resultado último da própria realidade. Tratar dos aprestos da viagem. Fazer uma refeição, - leve, naturalmente. Antecipar a hora da toalete. E, como está mesmo no caminho da livraria onde adquiriu aquele tratado atribuído a Aristóteles Sobre o Mundo, arranjar tempo para voltar lá, comprar a Economia de Xenofonte. Numa edição de tamanho reduzido, nesse formato especial, próprio para ler em viagem. Deve haver em Atenas essa cousa que se encontra mesmo na Gália, que, entretanto é um país de Bárbaros, em que pesem os rapapés que fizeram no banquete à sua cultura... incipiente.
E Sílvio sorri. É um sorriso libertado, - de jovem.
Ele prometeu a Etéocles estar dentro de três horas no cais. A sorte é que, nessa época do ano, as horas são mais longas. Não quer renunciar ao seu propósito de entrar numa livraria, ao menos para levar o seu Xenofonte. E ainda tem os aprestos da viagem. O jentáculo, ele o fará de pé, o alimento entre o polegar e o indicador. Exatamente à maneira da sua terra. Com um cubiculário e um tônsor como Demétrio, sua toalete não demandará mais do que um leve deslocamento da sombra do gnômon sobre o quadrante solar.
Sílvio apresse o passo, sem desfazer, mesmo que o quisesse, aquela gravidade do andar, que é também outra cousa própria da sua gente. Ao contemplar, na pequena jornada do Pireu à cidade, os joelhos elásticos de Hiponax, refletiu nas limitações que um atributo exterior, como o vestuário, pode trazer ao homem. O patrício, para se impor, deveria ter querido se deslocar dum modo compassado, - processional. Mais ou menos como um ser sagrado. Nenhum aparelho melhor para isso do que a toga. O seu peso, a sua vastidão já estão exigindo só por si uma lentidão de movimentos. E ainda tem que se atender a outras imposições, que nascem do cuidado em não lhe desfazer as pregas nem macular-lhe a pulcritude. O mundo moderno está reclamando outras roupas, mais consentâneas com a democracia. E com o próprio clima.
Não sabe por que mecanismo meteu Hiponax no seu sonho...
Corinto há de ser uma combinação de Tessalônica, Atenas, Roma. Há de ter muito menos de Atenas do que de Roma. Atenas não é apenas a cidade vazia de Horácio: é uma cidade embalsamada. Estranhos mumificadores, como esses necrófilos do Egito, conservaram a forma a um corpo donde a vida já escapou. Ao que parece, toda a Grécia peninsular está assim. Um outra Grécia surgiu mais além: em Rodes, no Egito, na Ásia. Ainda perdurará por muito tempo, perpetuando em certa medida o seu gênio. Mas, pelo visto, Corinto não participa desse trabalho. É uma cidade romana, num solo grego, com um porto em cada flanco, como duas bocas tragando toda a vasa que traz o mar de todas as partes do mundo. Viu um pouco disso em Tessalônica. Bastou-lhe apenas um dia para ver isso lá. E nem foi preciso mergulhar nos bairros cosmopolitas da cidade. O estreito cenáculo de Jair ben Jared possuía, não obstante, todas as vastas proporções necessárias para conter tudo quanto um mar pejado de destroços pode querer lançar às costas. É doloroso confessar, no dia mesmo em que abandona Atenas, talvez para sempre: se a sua passagem pela Atenas da Acrópole, da Academia, do Pécile há de um dia ser rememorada como a maior façanha da sua vida, não experimentou aí nenhuma sensação que se possa comparar à profunda impressão que lhe deixou Tessalônica, - Tessalônica, que, apesar da importância inesperada que lhe trouxe a dominação romana, nada mais é do que um simples lugarejo, a bem dizer perdido nesse limbo do Império, para além do qual só se divisam os campos, as florestas, os rios, as montanhas onde demoram os Bárbaros.
Esse vazio mesmo de Atenas é um convite à serenidade. Suas montanhas são familiares, porque ainda habitadas, - habitadas pelos gênios e os demônios que vieram velando paternalmente pelo crescimento desse povo, pela sua eterna adolescência. Mas a verdade é que, se algum dia ele-Sílvio haveria de deixar de ser um adolescente, foi em Tessalônica que esse dia dealbou. Não foi às margens do seu Pado que um dia, o mais solene da sua vida, trocou a pretexta pela toga viril e abandonou a bula de ouro que lhe pendia do pescoço sobre o peito, para consagrá-la às divindades tutelares da sua casa: foi em Tessalônica. Aí se fez homem, - duma maneira crítica e para sempre.
Essa crise, como toda mudança brusca na evolução dum organismo, traz consigo morte e vida. Que é que dentro de si morreu? Era mesmo necessário estar em Atenas para sentir isso em toda a sua força: o que morreu dentro de si foi o homem do ábaco e dos livros. Estranho que chegue a essa verdade, quando ainda vai de passo precipitado em demanda dum livreiro e dum livro... e quando só aplacará a sua fome de leitura noutros livros, que espera poder encontrar em Corinto... Mas a realidade é que os livros só agora lhe revelam aquilo que eles no fundo são e que ainda não lhe fora dado ver em toda a sua clareza: uma parte - uma boa parte - da ação.
A essa luz, talvez que a sua própria imprudência perca um pouco o caráter dum erro. Se a sua revelação pudesse atirá-lo nas vicissitudes que imaginou, que outra cousa isso representaria se não um começo de ação? Viu nebulosamente isso quando traçou aquelas terríveis linhas da sua epístola a Evandro. A decisão, a desenvoltura, a convicção que acompanharam o seu comentário e o seu vaticínio traduziam a audácia serena e confiante dos que se lança à ação. Veio-lhe depois uma vacilação: a vacilação do adolescente antigo que teimava em ressuscitar dentro do homem que nascera e que lhe estava servindo de estranha e precária amadríade... Nem tudo devia ser medo nesse adolescente: uma saudade também, - dum mundo para sempre perdido...
Nem por sombras quer se converter à ideia terrífica de que Roma ardeu e que a carta em que ele anuncia o fato com uma espécie de antecedência, possa cair nas mãos da polícia. Não está preparado para enfrentar uma situação dessa ordem. Não está preparado, porque um ato de violência como esse não foi pensamento seu. Nunca entraria nas suas cogitações. Não duvida que, uma vez jogado à luta, não vá a todas as práticas, mesmo a extremos. Não lhe passou pela cabeça aquela fantasia de tomar Tarsita como sua mulher?.... Que ato mais extremos, no círculo regular e tradicional da família, poderia praticar? Não deve iludir-se a si mesmo: tem-se espantado com a mudança que - sente - vem-se operando subterraneamente no seu ser...
Quando tudo lhe prova que o termo que experimento é uma puerilidade, por que a sua consciência se obstina em voltar sobre esse mesmo pensamento? Deve haver qualquer cousa a lhe demonstrar que ele tem fundamento. Quê? Pois já não submeteu a uma crítica rigorosa todos os elementos que tornam esse ato impossível? Como poderia queimar uma cidade como Roma? Só quando presa subjugada nas mãos dum inimigo, - como aconteceu com os Gauleses. Porque nem por acaso. Um foco ocasional de incêndio não teria probabilidade de se propagar e arrasar uma cidade, com habitantes que estão livres e aptos portanto para extingui-lo. Para que os cristãos comodamente a incendiassem, seria necessário que, antes, Roma houvesse caído em suas mãos, como resultado duma operação militar. Ora, essa eventualidade não é apenas remota: é risível...
Roma será sempre teatro de incêndios: é da sua própria constituição. Mas incêndios que nunca poderão fazer muitos progressos, porque todos os elementos, para os circunscrever, são produzidos no ato. Isso é um espetáculo de todos os dias. Um incêndio arrasador pressupõe uma vontade e a força capaz de a pôr em ação. Quem tem essa vontade? Os adeptos de Cristo? Talvez. Mas o que eles absolutamente não possuem é a força para realizar os seus desígnios.
O Imperador poderia querer arrasar Roma pelo fogo. Mas então seria, esse, um ato de administração. Ato administrativo muito estranho, que nenhum governo do seu país ainda cogitou de introduzir na gestão da cousa pública. Mas a constituição da república é outra agora: repousa na vontade do Príncipe. E poucos sabem, segundo o próprio Nero, até onde pode ir a vontade, o arbítrio e o poder dum Príncipe...
Assim, se Roma tiver queimado por obra do Palatino, as suas palavras proféticas podem ser mesmo comunicadas ao chefe do estado: no meio do regozijo cortesanesco que há de se seguir à devastação oficial - tão legal como um senatusconsulto - o vaticínio terá todo o semblante duma solidariedade. Conquanto solidariedade é que não faltaria a uma deliberação imperial, por mais monstruosa que fosse...
Portanto, é pôr fim a essas reflexões, - angústia roaz que não o abandona nem mesmo no sono. É ir apanhar o seu Xenofonte, refrescar a memória das cousas que teria dito Sócrates sobre a escravidão. Sócrates, Sêneca, Evandro. Como material doutrinário, já tem aí o suficiente para apoiar uma campanha. A parte prática e concreta resulta do exame minucioso da situação. Esse não é difícil. Muita gente há de sentir como o agricultor da Lócrida, como o livreiro. Será preciso ouvir essa gente toda. O próprio trabalho, até certo ponto reacionário de místicos tais como os Terapeutas do Egito, os cristãos, os Judeus em geral, poderá ser canalizado para a boa causa, à condição de ser encontrada a fórmula que tenha a virtude de coligar as reivindicações comuns. Os cristãos querem a Salvação, - implícita na economia mágica dos desígnios da divindade. Evandro também não quer outra cousa, apenas com um alcance terreno. Na Dispensação, Cristo-Jesus é um deus econômico. - Dessa maneira, a Terra e o Céu, este e o outro mundo unem-se...
Entregue, essa manhã, no seu quarto, a uma espécie de elocubração, enquanto Demétrio lhe propiciava alguma claridade abrindo-lhe uma janela, ele revivera as peripécias por que havia passado nos seus sonhos e pensara em Heraclides. Refletira em tudo quanto ele lhe dissera, - sobre Cristo, os cristãos, Paulo de Tarso. Claro que Heraclides é um sonhador. E um tanto ingênuo, o coitado. Mas das suas palavras lhe viera uma ideia: ter um contato pessoal com o tapeceiro de Tarso. Ou promover um encontro entre ele e Evandro. Se o homem está desiludido - e pode ser - tanto melhor: ter-se-á desembaraçado do seu iluminismo, a caminho portanto de um objetivo mais realístico.
Porque ele deve ser um homem prático. Tudo o indica. Aquelas instruções que Soêmio devia copiar e algumas das quais ele leu, provaram-lhe isso. Paulo de Tarso está detido num quartel. Isso não é a prisão. À prisão - ao calabouço - só se vai uma vez, descido por uma corda: para morrer. Há de haver pois oportunidade de abordá-lo, como, entre outros, o fizeram os Judeus, a acreditar nas provocações de Ascalon.
Paulo de Tarso não é um conspirador contra o estado. Evandro e ele-Sílvio também não. Por outro lado, o cesarismo afasta-se do patriciado, isso é negável. Nero sobretudo. É sintomática aquela decisão do Lócrio de fazer o Príncipe participante duma luta contra o latifúndio. Empurrado pela força da opinião - pela força da massa - o poder imperial talvez ainda venha a formar na mesma legião dos que querem a igualdade dos homens, - dos homens, que nasceram para viver em comum. Quantas vezes Nero, desde a infância, não há de ter ouvido daquele que foi primeiro seu preceptor, depois seu ministro, a sentença: In commune nati sumus? - O pensamento pois não lhe é estranho...
O seu tanto entusiasmado com a perspectiva, Sílvio entra na livraria, em busca do seu livro.
*
Poucas horas depois, está ele-Sílvio bem no centro daquele mar, que, de tão sereno, nessa iluminada tarde de verão, mais parece um lago. Corinto, à sua frente, ergue o seu novo casario em torno dum maciço que ele já divisara de Atenas: a cidadela, - a Acrocorinto.
Virando-se um pouco, ele ainda pode distinguir, lá longe, o Pireu, que acaba de deixar, talvez para sempre.
Pireu é uma cidade morta. Como Atenas. Ao contrário de Atenas, que está morta mas embalsamada, portanto com a sua forma, Pireu, a cidade que Hipódamos traçou, está-se desfazendo, - pulverizando-se.
É triste isso. Como também é triste aquele outro espetáculo que ele tem bem à sua direita: mais uma cidade em escombros. Mégara provavelmente. Sem falar em Egina, cujas ruínas essas águas igualmente sepultam, como um libitinário em seu ofício de morte.
Dentro daquele quadro de montanha e de mar, imutável e sem idade, dentro duma natureza que não conhece a decrepitude, esses blocos caídos, despedaçados, esse mármores solitários e brancos como ossadas, querem comunicar alguma cousa aos que passam como ele. Quê?...
A seu lado alguém lhe fala. Alguém que lhe faz uma pergunta de cortesia:
- Encantando-se com a paisagem?
É Damálide. Ele volta-se.
- Eu estava interrogando as ruínas - diz-lhe ele com um sorriso. - Ver o que é que eles querem nos comunicar...
À beira do mar, ao pé dos montes, esses restos tocam-se duma beleza última antes de afundar para sempre no aniquilamento. Os dois jovens põem-se a contemplá-los. E guardam silêncio um momento, depois do que, Damálide observa:
- Realmente: parecem estar aí para nos comunicar alguma cousa. Você tinha razão em querer interrogar essas ruínas.
Sílvio acentua o seu sorriso:
- Talvez não queiram dizer senão isso, que aliás nós estamos vendo com tanta facilidade: que morrem, simplesmente.
- Sim, talvez...
Como é encantadora, Damálide! Como é inteligente! Uma nova Aspásia. Mas uma Aspásia triste. Isso talvez lhe venha do seu... cristianismo - dessa religião de morte. Se é mesmo que ela é cristã. Até agora só conheceu um cristão de verdade: Soêmio. - E ele também era um pouco triste.
- Sabe?... - diz-lhe Damálide, despegando-se da contemplação daquele quadro, belo apesar de triste. - A trirreme lusória vai permanecer em Cencras apenas o tempo necessário para desembarcá-lo. Vamos seguir adiante hoje mesmo.
- Mas então eu vim constituir um certo estorvo. Mudei a rota de vocês. Talvez que, se não fosse por mim, nem tocassem em Corinto...
Não. Como Damálide explica, era projeto fazer mesmo uma escala em Corinto. Mas o celeuste - o chefe dos marinheiros e remadores - tinha aconselhado aproveitar o bom tempo e o vento de feição para seguirem adiante.
- Com isso, chegamos mais cedo ao nosso destino.
- E você há de estar com pressa de aportar em Alexandria... - insinua Sílvio, com malícia.
- Por que julga isso?
E Damálide ergue-lhe a face. Sílvio vê uma pequena ruga de concentração naquela sua testa curta e pura.
Por quê?... Ele próprio se interroga e não sabe responder. Damálide é uma cortesã. Alexandria (sobretudo Canopo) deve constituir uma enorme atração para uma cortesã. - Conquanto ela seja um pouco triste.
Com essa familiaridade, essa licença que a gente se pode permitir com as cortesãs, vendo nelas um semelhante, isto é: um outro homem, Sílvio confessa-lhe:
- Esta viagem de vocês é uma viagem de prazer. E sei mais: é em sua intenção...
Damálide volta a olhar para a paisagem. A sua testa alva e pura está lisa outra vez. Sílvio não lhe vê o olhar. Ou o vê apenas de lado, que é uma forma imperfeita de ver o olhar de alguém. Mesmo assim, sente que o olhar de Damálide tem a extensão e a inobjetividade dum olhar que devaneia. Diz-lhe, com um sorriso malicioso:
- Como você está longe! Já desembarcou em Alexandria?...
Ela vira-se lentamente para ele. Esboça também um sorriso Encantadora... Que mulher encantadora!
- Desta vez você se enganou. Estou bem perto...
E, dizendo isso, avança mesmo um meio passo para ele.
Uma leve dedilhação percorre a epiderme de Sílvio. Pela primeira vez desde que conheceu Damálide, tem consciência da presença dela como um corpo, um corpo encantador de mulher. E que parece ensaiar um oferecimento... Mas a sensação não dura mais do que um instante. Mesmo porque a moça volta a falar. É outra vez o semelhante, - um rapaz, como ele.
- Talvez eu tenha desembarcado, como você disse. Mas ali. - E ela aponta com a mão as ruínas que se vão afastando e já estão quase desparecendo à direita deles.
- Aquilo é Mégara, não?
Ela faz que sim com a sua cabeça fina.
Não fazia muitos dias estivera lá. Heliodoro possui em Mégara uma vila, de cujo terraço se descortina o mar. Etéocles tem alguns negócios com ele. Fora visitá-lo. Ela fizera companhia a Etéocles naturalmente. Heliodoro falara sobre ele, Sílvio. Nunca supusera que o viesse a conhecer. - Estava pensando justamente nisso nesse momento.
O rapaz sente-se um tanto ridículo, com aquele seu jogo fútil duma conversação de duplo sentido.
- Heliodoro ficou impressionado com você - acrescenta ela.
Sílvio, que já atingira o limiar do encalistramento, está a ponto de enrubecer.
- Você chegou a meter-lhe medo.
Relatando isso, Damálide tem uma pequena risada tilitante. Uma risada curta e um tanto cáustica. Risada de mulher, como ele reconhece, um nadinha ofendido. Está com raiva dela. Mas Damálide acode, inconsciente dos sentimentos que está provocando:
- Ora, não repare: os velhos sempre têm medo dos moços.
Sílvio, de cara fechada e amuada, querendo saber:
- No que é que eu lhe meti medo?
- Bem. - Damálide assume um ar de seriedade. - Ele me resumiu a cena da ágora em Tessalônica. Acha que você deu muita atenção às ideias de Evandro. E teve um confirmação final disso quando você lhe escreveu.
Um rubor franco toma o rosto alvo e juvenil de Sílvio. O rubor que assaltasse por exemplo um menino apanhado num ato proibido. E ao mesmo tempo uma sensação de desprazer. Não chega a ser receio. Mas é de intranquilizar o fato de alguém estar notando a sua... ligação com Evandro. Principalmente um sujeito inteligente e ocioso como Heliodoro.
- Eu podia alegar que foi ele próprio, ele-Heliodoro, quem me aconselhou a escrever a Evandro. Uma carta de despedida...
- Não precisa se justificar.
Sílvio quer protestar. Mas ela continua:
- Você talvez não conheça Evandro tão bem como eu. Fui uma das suas ouvinte, quando ele deu uma série de conferências em Atenas. Naturalmente aproximei-me dele. Ele é fascinante. Depois, temos qualquer cousa em comum: somo ambos produtos disso que você está vendo.
- Disso quê?
- Das ruínas da Grécia.
- Mas - pondera Sílvio, já animado, já arrastado pelo entusiasmo do debate. - O arrebatamento crédulo de Evandro é fecundo e realizador, porque otimista. O seu é desse tipo?...
Se realmente cristã, Damálide há de cultuar, de preferência, a morte. Seu deus, o Cristo-Jesus, é um dos deus dos mortos.
O entusiasmo dela?... Poderá traçar-lhe as linhas gerais da sua filosofia, sem o escandalizar? Estará ele inclinado à tolerância, cousa rara na juventude, e em situação portanto de penetrar o sentido da sua... crença?
Esboça um sorriso e diz-lhe, respondendo à sua questão:
- Olhe: eu ainda acredito nos demônios.
- Está brincando...
- Não: é um fato. Claro, eu já não me perturbo mais nas noites de luar. Ao menos não sinto a mesma perturbação de antes, quando, apesar de saber que eles são reais mas transparentes como o ar e portanto invisíveis, eu seria capaz de jurar que os estava vendo descer do disco branco da lua, onde têm a sua morada. Nessas ocasiões sentia-me amparada por uma força demoníaca, - sentia-me pois tranquila...
Ela cala-se um momento. Sílvio nada diz.
- Sabe?... - acrescenta depois. - Falo-lhe seriamente. Eu fiz uma distinção importante entre os demônios: eles dividem-se em duas classes.
- Os demonólogos reconhecem muitas classes de demônios - diz Sílvio sorrindo: - demônios de origem humana, demônios que nunca foram encarnados, demônios de forma animal...
- Você esqueceu o fato fundamental: os demônios dividem-se em bons e maléficos. A minha maior descoberta foi que a classe dos maléficos predomina.
- Não duvido.
- E só assim se explica que haja tanta infelicidade neste mundo.
Damálide parece falar a sério. Sílvio põe-lhe um olhar inquisitivo. Pergunta-lhe ela:
- Você teve oportunidade de ouvir Paulo de Tarso?
- Por quê? - faz Sílvio, meio intrigado com a pergunta.
- Estou-lhe perguntando se você o ouviu alguma vez.
- Não.
- Ah! Então não sabe da existência dum demônio malfazejo, o deus do século - Satã ou Apólion - que governa o mundo. E não sabe talvez, ou sabe muito imperfeitamente, que nasceu de uma mulher, não um Eon, concebido nas mais altas regiões celestes, mas um homem, que veio ao mundo para dar combate às forças do mal, personificadas em Apólion ou Satã. Pois esse homem é um demônio também. Um demônio daquela sua primeira categoria: um demônio de origem humana.
- Você se refere a Cristo...
Ela tem um gesto afirmativo, - um gesto compenetrado, o que obriga Sílvio a manter uma atitude mais ou menos discreta.
Damálide:
- Naturalmente, Paulo de Tarso não põe a questão desse modo. Mas é esse o certo. E eu me regozijo com uma conclusão que não vem negar a minha antiga crença, que a completa apenas. Além do que, como um demônio, Cristo-Jesus estaria mais próximo dos desgraçados do que como um deus.
Sílvio reflete um momento e depois observa-lhe:
- Então é certo o que me disseram de você.
- Que é que lhe disseram a meu respeito?
- Que você é cristã.
Damálide pensa um momento.
- Olhe - diz logo após: - Quando, lá no banquete, eu alertei os maridos sobre essa espécie de infidelidade conjugal que as suas esposas estão praticando no fundo dos gineceus com deuses que a cidade não reconhece, eu estava premunindo a todas nós, as mulheres, mesmo as da minha condição, contra um risco que já levou Sócrates à morte. Você vê que, em princípio, eu me cinjo à demonologia nacional. Eu bebi os fundamentos da minha fé em Platão, - em Arístocles. É a vantagem da ignomínia: nós participamos da vida dos homens, portanto da sua cultura. Bem sei que não sou culta. Mas li, ouvi. E continuo aprendendo. Não abandono uma religião séria e verdadeira por uma superstição originada nesse confins bárbaros do Oriente. Dou apenas uma interpretação mais ampla a fatos que só o gênio grego pode bem apreciar e discernir. Eu vou a Alexandria. Você pensa que estou ansiosa por vogar nesse canal que conduz de Alexandria a Canopo, num pequeno veleiro, entre danças lascivas e músicas. Vou fazer isso também, por certo. É como Etéocles Olinto descansa dos seus trabalhos, dos seus negócios. Quero proporcionar-lhe esse prazer. Mas o que me atrai neste momento em Alexandria é outra cousa.
- Os Terapeutas do Egito? - pergunta Sílvio, avidamente.
Damálide hesita:
- Não tanto... Eles habitam o deserto. Seria um desconforto ir até eles. Conquanto eu saiba que eles atraem a curiosidade dos estrangeiros. Eu quero tomar um contato com a escola de Fílon. Mais do que em Paulo de Tarso, espero encontrar em Fílon a explicação última da minha fé.
- A fé nos demônios...
Crença complicada, a de Damálide...
Mas Sílvio não estranha. Desde que, em Tessalônica, se sentiu jogado violentamente para essa cuba onde, como um mosto espesso, fermentam todas as ideias do século, achou tudo isso natural. É a inquietação. Na base, a inquietação econômica, lógico. A anarquia no pensamento filosófico é o seu colorário. E essa teologia abstrusa, que tenta conciliar o misticismo asiático com as grandes construções ideológicas do mundo helênico, só prova uma cousa por desgraça: a invasão do Oriente, a invasão dos Bárbaros...
Damálide volta a dar um último olhar às ruínas de Mégara.
- Esses mármores partido estão revertendo ao nada. Como isso é consolador! - exclama ela. - Entram na bem-aventurança. Apenas nos precedem de algumas horas no fim. Mas mesmo essa pequena dianteira que nos levam torna-os naturalmente mais felizes do que nós.
Repentinamente Sílvio pergunta-lhe:
- Paulo de Tarso vai pôr mesmo fogo a Roma?
- Ele está na Espanha.
Na Espanha?... É uma novidade. Livre, portanto. Interessante é que Damálide, lá no banquete, não procurou refutar-lhe a asserção, quando ele assegurou que o homem estava preso em Roma. Essas raparigas são prudentes... Mas então ele anda longe! Que é da conspiração? Roma não lhe foi propícia. Talvez Heraclides tenha razão: ele está esquecido mesmo. Restringe-se a uma tarefa secundária: a evangelização dos Bárbaros. E conforma-se com um papel subalterno: dum apóstolo provinciano. Abandona a capital do Império, quiçá desiludido. Uma prova de que não conta com elementos por lá. Tanto melhor...
- Já esteve alguma vez em Corinto? - pergunta-lhe Damálide.
- Nunca.
- Vai ver como progride. Isso é obra da sua gente. Aliás, Corinto é uma cidade mais romana do que grega.
Cencras, o seu porto oriental, está a bem dizer ao alcance duma remada. Etéocles Olinto aparece na coberta. Aproxima-se deles. Fitando os grandes blocos de casas que vão surgindo por toda a parte ali, ele observa:
- Ao se contemplar esse gigantesco trabalho do ressurgimento duma cidade, cria-se uma nova fé no destino e na força do homem. Sobretudo do homem romano... - acrescenta com o seu sorriso em que pesponta uma nuança de ironia e que ele dirige especialmente a Sílvio.
- Já sei que se faz de vela hoje mesmo rumo a Alexandria - diz-lhe o rapaz.
- É um fato. A não ser - e tem um sorriso de amabilidade para a companheira - que Damálide prefira passar a noite aqui. Em Corinto não faltam diversões. Tem vida notura. É uma cidade moderna.
- Ela ergue-lhe o rosto. E, com singeleza, responde:
- O celeuste acha conveniente aproveitar o favor do tempo. Talvez seja melhor seguir o seu parecer.
- Com efeito, como a estação vem sendo propícia à navegação! Veja isso, Lúcio Sílvio: veja como a rada está coalhada de embarcações.
Junto deles, um molhe avança para o mar, limitando a entrada do porto. À sua extremidade, ergue-se a estátua em bronze de Poséidon, - como um farol. Eles ficam por um momento contemplando aquela animação dum ativo porto marítimo, verdadeiro lugar de enlace entre o Ocidente e o Oriente. E uma sensação de angústia toma o peito de Sílvio, como se o apertasse um instrumento de tortura. Aquele grande centro lá longe - Corinto - animado e barulhento, aquela cidade importante e mal afamada, meio que o assusta. Assusta-lhe uma experiência que a cidade lhe reserva e que não sabe qual seja. Tudo é vago... Talvez isso tudo não passe dum retalho de evocação, da evocação do seu dia de Tessalônica, que a calma e o vazio clássicos de Atenas haviam feito adormecer por um instante. Voltando-se para Etéocles, ele pergunta:
- Como se vai de Cencras à cidade?
- Ah! de qualquer jeito. É muito perto. Ovídio andou por aqui a pé - acrescenta sorrindo.
Assume imediatamente porém um ar de seriedade e acrescenta:
- O melhor é tomar uma carruagem, fora de portas.
Damálide observa:
- Mas terá de aguardar o cair da tarde para entrar de carruagem em Corinto.
- Eu já sei disso - retruca Sílvio, sorridente - fiz a minha iniciação em Tessalônica.
Etéocles:
- Bom, com a demora natural do desembarque, mesmo que quisesse, Lúcio Sílvio não chegaria em Corinto antes da noite.
Diz isso e fica observando o céu, o sol, a altura do sol, como para se certificar do seu vaticínio, - conferi-lo.
O celeuste, nesse momento, vem fazer uma consulta a Etéocles. Como o porto está cheio e o mar calma, vem propor ficar ao largo e estabelecerem comunicação com a terra por meio dum pequeno escaler. O passageiro desembarcaria desse forma.
- Isso abreviaria o tempo, o que é importante - observa Etéocles Olinto. - Não por nós, claro: o tempo só aproveita a Lúcio Sílvio, que tem a sua pressa. A pressa de chegar, que assalta a todo viajante, e que só é comparável à pressa de partir...
Risos.
Pressa?... Sim: tudo está realmente fazendo como se tivesse uma grande pressa. A pressa de chegar?... É o que parece: de chegar em Roma... de enfrentar Roma....
O celeuste vinha propor justamente isso, porque poupava um tempo enorme de atracação. Talvez nem fosse certo que pudessem atracar naquela tarde. Quiça tivesse de esperar pelo dia seguinte.
- Ah! isso não convém a ninguém - exclama Etéocles. - Você terá paciência, Sílvio, de aceitar essa alternativa.
E, gracejando:
- Nem foi de outra maneira que o Grande Pompeu deixou a sua trirreme de guerra, à entrada de Pelusa. Mas que a Fortuna lhe reserve, dentro do seu pequeno barco, uma sorte diferente daquele que teve Pompeu no fatídico barco de pesca...
- Os teus desejos portanto, Etéocles Olinto - replica Sílvio, também com afabilidade - é que eu não seja morto durante a curta travessia...
- Exatamente.
- Então dá as devidas contra-ordens aos teus homens...
Momentos depois começam as despedidas. Etéocles manifesta a esperança de que ainda venham a se encontrar outra vez. Talvez mesmo em Alexandria.
- É possível que você se decida a fazer uma pequena estação de repouso por lá, ainda este verão. Ou em Rodes. Num ou noutro lugar nos encontrará. Porque eu não me recolho a Atenas sem antes pagar o meu pequeno tributo a Rodes... Não é também do teu agrado isso, Damálide?
- Sim, é.
Todavia, como Sílvio pondera, ele, para uma primeira experiência, já fez uma viagem bem longa, bem demorada. O que agora almeja é parar...
- Quando pretende estar na Gália? - pergunta-lhe Etéocles.
- Vou fixar-me Roma.
- Ah!
Já o escaler - uma navícula a remos - espera Sílvio, balouçando docemente no costado do navio. Aplicam uma escada de corda. Demétrio desce primeiro, carregando uma bagagem, com bastante antecedência aliás condicionada a uma viagem marítima. Com a mesma antecedência Sílvio providenciara a remessa do vinho ao pai. Os presente e encomendas, sendo de pouco peso e ocupando escasso lugar, cabem na sua marsúpia.
Rebatendo a pênula sobre os ombros como se fosse uma abola, o jovem decide-se a deixar finalmente a trirreme. Ao firmar os pés na primeira travessa da escada, apoia a mão esquerda sobre uma das grossas cordas que lhe servem de barras, e, erguendo o outro braço, saúde Etéocles, Damálide, o celeuste, que, na coberta, acompanham a descida.
- Ave!
- Boa sorte! - desejam-lhe.
Quando ele já vai no meio da travessia, como uma mancha branca destacando-se contra o bronzeado dos remadores, Etéocles diz à companheira:
- Ele decerto fica em Roma a estudar. Heliodoro me falou do pai. Tem uma grande propriedade nas planícies do Pado. Região muito rica. Preciso conhecê-la.
Damálide descansa as mão nas amurada. Lá longe, da pequena embarcação, parece que viu Sílvio fazer um sinal, uma última saudação. Mas a distância e os reflexos que o sol arranca das pás molhadas dos remos, como faíscas, não lhe deixam enxergar direito.
Vendo-a pensativa, a olhar para as águas calmas dos Sarônico, Etéocles pergunta-lhe:
- Não te tenta também um pequeno desembarque? O teu veraneio poderia começar aqui...
Ela endireita o busto. Coloca o olhar num ou noutro ponto das águas. Por fim, mete-o bem sobre o fundo do mar, numa linha que se arqueia como se fosse a superfície duma esfera. E diz:
- Não. Eu quero seguir adiante.
- Então, é partir.
E Etéocles, voltando-se para o chefe dos marinheiros e remadores, ordena-lhe:
- Tão pronto regressem os nossos homens, à manobra!
Ainda no barco, pouco antes dele atracar, Sílvio diz a Demétrio:
- Preciso dar alguma cousa a estes homens.
Como quer também escrever umas linhas a Damálide e fornecer-lhe o seu endereço em Roma, é melhor fazer o patrão descer junto. Uma vez todos em terra, Sílvio põe-se a remexer na sua bagagem à procura dumas tabuinhas - duns pugilares - e do estilete. Desencava também o pedaço de papiro com o endereço de Aristóbulo no Janículo.
De pé sobre o cais, redige a sua mensagem. Começa agradecendo a Etéocles e a Damálide a hospitalidade. Tem mesmo um gracejo: alude à sua curta travessia, num barco que lhe dava todas as aparências dum Pompeu, menos os riscos... Termina pedindo que lhe escrevam para aquele endereço: VII angiporto à direita, partindo da ponte Emília, sobre a via Aurélia, região XIV, no Janículo, III casa além da taberna de Diógenes, o tintureiro.
- É claro e simples - diz ele depois, ao ler alto o que escreveu, voltando-se para Demétrio.
O escravo e o patrão da embarcação, ao lado dele, em silêncio, esperam. Sílvio abre a bolsa, tira as moedas da espórtula:
- Isto é para vocês - diz ele ao marinheiro.
O indivíduo agradece, com uma saudação, e parte levando a mensagem.
Sílvio e Demétrio acham-se numa espécie de praça - uma área - para onde dá diretamente o cais. Grandes blocos de alvenaria envolvem o largo por todas as faces e ainda fogem nas perspectivas das ruas que daí partem. São os depósitos, os armazéns. Sobre uma das esquinas, na fachada dum sobrado de ar vetusto, maltratado, Sílvio distingue a insígnia duma hospedaria. Cencras não há de ser mesmo outra cousa, reflete ele, senão um lugar de passagem, - um albergue temporário para mercadorias e para pessoas. Daí esses dois tipos de casas, que parecem resumir toda a sua urbanística: armazéns e estalagens.
A bordo, Etéocles falara-lhe da grande atração de Cencras: os banhos de Helena, fonte abundante que se despenca do alto duma penedia sobre o mar. A sua água é salgada, e quente como se tivesse sido previamente tratada num hipocausto. Mas ele não tem vagares para apreciar essas maravilhas. Quer ficar essa noite mesma em Corinto.
- Vamos procurar uma carruagem.
O escravo apanha-lhe a bagagem e eles começam a se franquear uma passagem através da praça.
Há muita gente ali. Alguns indivíduos, com o ar duma curiosidade vadia, fazem círculo em torno dalgum vendedor ambulante. Pela diversidade dos tipos e dos trajes, vê-se que são forasteiros. Alguns, em pequenos grupos, como todo o aspecto de marinheiros, entretêm-se numa conversa ao parecer lenta, repousada. Uma ou outra cousa que dizem vem ferir os ouvidos de Sílvio. Mas são palavras estrangeiras, ininteligíveis. Um pouco à direita, um grande veleiro alexandrino (que Sílvio identifica pelo velame) está no trabalho de desamarrar e zarpar. Pessoas no cais acompanham a manobra, ao mesmo tempo tranquilas e curiosas. Antes de deixar a praça e enveredar por uma rua que lhe parece a principal, ele se volta e procura com os olhos a trirreme lusória. - Lá está ela, imóvel, no fundo da rada, para além do molhe em cuja extremidade se ergue, como um farol, a estátua fulva de Poséidon.
Ao defrontar a hospedaria, Sílvio lança-lhe um olhar através da porta. O rés do chão da estalagem é uma popina e um termopólio, com muita gente bebendo e comendo. Inclusive mulheres. Faz menção de entrar, mas hesita.
- Vai lá dentro se informar - ordena ele a Demétrio. - Pergunta onde poderíamos encontrar um carro que nos pudesse deixar ainda hoje em Corinto.
Sílvio deixa-se ficar ali na rua, vendo o movimento. Tem ainda no corpo o balanço das ondas que arfavam contra o casco da trirreme na travessia, nos ouvidos o canto da flauta ritmando a voga, sob as ordens do celeuste.
Demétrio volta. Acompanha-o um outro sujeito. Ele enverga a túnica dum operários. Sua apresentação e seu desembaraço bem mereceriam o benefício do anel de outro dos cavaleiros. E vem falando. Vem explicando a Demétrio que eles estão mesmo no caminho da estação de carruagens, - a qual fica logo no fim da rua, além da porta, na estrada que conduz a Corinto. Um romano? Tudo o leva a crer.
Fora a primeira pessoa a quem Demétrio se dirigira. E tivera sorte, porque era um sujeito solícito, além de bem informado. Como Demétrio faça ainda uma pergunta, procurando precisar bem o trajeto que deverão seguir, o indivíduo sugere:
- Talvez seja melhor acompanhá-los.
- Não é preciso.
Isso em nada o prejudica. Ele está também de partida para a cidade. Tencionava partir no dia seguinte pela manhã. Mas não se lhe dava antecipar a jornada e fazer-lhes companhia, à condição naturalmente de encontrarem um veículo que os pudesse transportar. O que não era cousa fácil naquela estação do ano, com toda essa gente desembarcando em Cencras e rumando como loucos para Corinto. Geralmente ele costumava fazer aquele trajeto a pé.
Terminadas essas explicações prolixas, que ele dá principalmente a Demétrio, mas dirigindo às vezes o olhar a Sílvio, o sujeito apresenta-se. Declina a sua condição: é um grafeu, - um gráfico.
Sílvio tem uma interrogação de surpresa:
- Um gráfico?
- Um operário gráfico. Trabalho numa casa editora em Corinto.
Sílvio fica um momento refletindo. Depois convida:
- Vamos então.
Seguem. O gráfico - o grafeu - que se chama Círcilo, faz-lhe algumas perguntas, enquanto caminham. Ao saber que Sílvio vem vindo de volta duma longa jornada, lamenta a sua condição de artífice selulário, sempre chumbado à sua banca, fadado a viver e morrer em Corinto. Faz algum tempo, esteve também em Atenas. Mas, na sua profissão, não há outro lugar na Grécia para trabalhar senão Corinto. E ele é Grego: não quer deixar a pátria.
- Pensei que fosse Romano...
Descende de Romanos. Um dos seus antepassados tinha tomado parte na reconstrução da cidade. Havia antes servido com Júlio César.
- Mas eu nasci em Corinto.
Círcilo tem uns quarenta anos mais ou menos. Aquele desembaraço com que a princípio se apresentou, que o assemelhava no jeito a um cavaleiro em pleno afã dos negócios e que se poderia confundir com uma certa vivacidade irônica, o seu primitivo desembaraço deu agora lugar a uma placidez de maneiras e a um ar repousado e comedido, que tem a sua nobreza. Sílvio já está gostando dele. É a primeira vez aliás que vê um gráfico, - um desses homens de cujas mãos ágeis e leves sai essa cousa preciosa: o livro. Sempre os julgou um pouco intelectuais. E o selulário que caminha com ele naquela movimentada rua de Cencras não parece ter vindo desmanchar aquela antiga opinião.
- Preciso fazer uma certa provisão de livros em Corinto - diz-lhe Sílvio, pondo já na voz um acento de intimidade.
- Que gênero? Literatura?
Na verdade, responde Sílvio corando um pouco, ele procura as obras dum filósofo, amigo seu: Evandro...
- Evandro de Tessalônica?
Círcilo meio se detém. Depõe os olhos fixos no rosto do rapaz.
- Conhece?... - pergunta-lhe este.
O outro faz que sim com a cabeça.
Põem-se a caminhar de novo, calados agora. Ao passarem defronte duma estalagem, um homem, que palestrava num grupo ali formado, se destaca da sua roda, vem direito a eles. Traja à maneira dos diogmitas. Um policial portanto.
Círcilo avança um passo e ficam os dois conversando. Sílvio, que se colocou a uma distância discreta, não pode ouvi-los. Nota porém que o indivíduo que traz o uniforme dos diogmitas tem gestos vivos, a fisionomia carrancuda. Círcilo conserva a sua placidez, - uma placidez a que não falta dignidade. Ao cabo dum certo tempo, volta, trazendo consigo o policial.
- Quero apresentar-lhes aqui um amigo. Da polícia de Corinto.
Há troca de cumprimentos.
- Vai para aquele lado? - pergunta Círcilo ao policial. - Quer ir conosco?
O homem acede em princípio.
- Deixem me despedir ali dos amigos.
Volta um momento para a roda. Depois vem reunir-se ao operário e a Sílvio. Tocam então todos juntos.
Sílvio fica sabendo que ele está ali a serviço. E serviço aborrecido. A cousa que mais o impaciente é ter de tratar com Sírios, com Judeus. E, com pequenas exceções, não se encontra em Cencras outra gente senão essa. De resto, não poderia fugir deles, porque o assunto que traz em mãos diz mesmo respeito aos Judeus.
- Um caso complicado - remata ele.
O homem parece que tem um desejo vivo de se abrir, contar. Talvez isso constitua uma canal de escape para a sua raiva, - a raiva (como Sílvio não tem dificuldade em reconhecer, libertado como pensa se achar dos preconceitos raciais dos seus compatriotas) a raiva de Romano contra esses povos bárbaros da Ásia, mais desprezíveis do que os Bárbaros da Panônia ou da Sarmácia.
- Volta hoje para Corinto? - pergunta-lhe o gráfico, após o breve silêncio que se seguiu.
Assim pudesse ele! Ainda essa noite tem de pôr à tortura dois ou três suspeitos. E não fossem os amigos julgar que constituísse isso um passatempo muito divertido.
- Para os suspeitos, acredito - concorda Círcilo com um sorriso.
- Podem-me crer - diz o sujeito: - o pessoal que mais trabalho dá à polícia são esses Asiáticos.
Sílvio está apreensivo com a hora. Procura enxergar o sol, que abandona Esqueno, a nordeste, e descamba em busca do istmo e de Lequeu.
- Que é? - indaga-lhe o gráfico.
- Tenho medo de chegar tarde.
- Onde? - quer saber o indivíduo.
Círcilo explica que eles vão indo à procura dum redário que os leve até Corinto ainda essa tarde.
- Ah! é fácil! - assegura o sujeito. - Deixem, que eu me encarrego disso. Eu vou com vocês.
É que ele tem um jumentário seu conhecido, mesmo ao pé da porta.
- Quem é? - indaga Círcilo.
- O Hermacreonte. Você não conhece.
Em último caso, acrescenta com um ar meditativo, eles iriam no carro da polícia, - a reda meritória, contratada para o serviço oficial.
- Mas então você ainda se demora por aqui? - pergunta-lhe Círcilo, voltando ao caso do indivíduo.
- Até acabar com os meus homens.
- Do que é que se trata? Cousa grave?
- Um crime de morte.
A velha história desses Asiáticos. Uma mulher moça, casada com um homem muito mais velho do que ela (um pequeno negociante de Corinto) vivia em concubinato com o enteado, um rapagão.
- Isso ela não confessa, mas é o que a polícia apurou.
E o amante era cristão.
- Ah!
- Uma seita de antropófagos. Praticam a antropofagia mística.
- Eu sei...
Pois bem: um dia, o escândalo é levado ao conhecimento da seita e tratado na assembleia dos fieis - na igreja. Mas paira uma certa indecisão sobre o que se deve fazer na conjuntura. Os costumes dos cristãos legitima, não importa que licenciosidade... Consulta entretanto o chefe, que na ocasião se encontra em Éfeso. A resposta não tarda: numa carta, lida num dia de reunião, o chefe pronuncia contra o culpado uma condenação à morte.
- Estranha severidade.
- Nós investigamos alguma cousa sobre o passado desse chefe de seita. Apurou-se que ele é Grego de nascimento, mas se faz passar por Judeu por motivos não suficientemente esclarecidos. Sabe-se todavia que ele desfruta de grande prestígio entre os seus correligionários, submetidos a uma cega obediência, por sinal.
- Bem. E a sentença de morte foi executada?
- Espere.
O culpado, como explica o policial, ouve a sentença com um sorriso de superioridade nos lábios. Abandona nessa noite a igreja sem ser molestado. Volta ainda uma ou outra vez. Certo dia porém desaparece. Não é visto nem em casa nem nas reuniões da comunidade.
- Tinha sido liquidado...
- Foi o que a queixosa, a amante, suspeitou.
Ela dá-se pressa em interpelar os correligionários dele, muitos dos quais são pessoas das suas relações. Ninguém lhe ministra uma informação precisa, que a tranquilize. Não lhe resta então mais dúvida: o rapaz foi assassinado. E pode apontar o autor intelectual do crime, o mandante: o chefe que se encontrava em Éfeso.
- Ela procurou informar-se de tudo: o nome desse indivíduo é Paulo. Aliás, ele já residiu em Corinto, onde esteve estabelecido com uma pequena fábrica de produtos têxteis e se tornou conhecido da polícia. Arruaças. Atracou-se com um Judeu.
Evidentemente, Paulo de Tarso, conclui Sílvio para si, espantado com esses novos detalhes, essas revelações...
Executou-se mesmo a sentença ou a cousa não passa duma intriga? Não foi possível averiguá-lo, esclarece o indivíduo. O caso é que o rapaz nunca mais apareceu.
- Caso curioso.
Continua o policial:
- A polícia tem-se ocupado periodicamente do caso nestes últimos sete anos. No começo, com uma certa atividade. Mas em vão: essa gente não fala, nem debaixo da tortura.
O negócio tendia a cair no esquecimento, como ele acrescenta, mesmo porque a queixosa, que era quem incitava a polícia nas suas pesquisas, encontrou um outro amante e desinteressou-se totalmente do assunto.
- O caso porém tomou outra feição, quando foi detido e conduzido a Roma um sujeito de nome Paulo, um agitador, que a todos os aspectos responde aos dados que a polícia possui sobre o mandante daquele crime. Recebemos então ordem de abrir de novo as investigações. E eu estou aqui neste buraco de Cencras, onde também se encontram desses antropófagos místicos, a serviço desse malfadado negócio.
- E vocês não têm outras indicações senão estas? - pergunta Círcilo. - Estas são um tanto vagas...
Temos. Falta-nos porém pôr a mão no executor da sentença. Esse ponto é capital.
- Naturalmente. E há esperança de o localizarem?
- Há. Parece mesmo que ele foi visto por aqui.
Pára. Os outros fazem o mesmo. Retira então de dentro das vestes um papel. Com ele na mão, informa, numa voz tranquila:
- A peça mais importante no processo era a carta contendo a condenação formal e cominando a pena de morte para o incestuoso. A mulherzinha conseguiu, por meios que não declara e que alías não interessam à polícia, a cópia do trecho em questão. Ele talvez nos possa revelar esse ponto. Ei-lo aqui. - E passa o papel a Sílvio.
O jovem hesita em desenrolar o papiro.
- Abra! Eu não leio bem o grego - continua o sujeito. - Além disso, o missivista exprime-se em termos obscuros. Mas creio que este escrito contém a chave do mistério.
À medida que vai percorrendo com os olhos o pedaço de papiro, Sílvio vai sendo tomado dum irresistível desejo de rir. Um sorriso mesmo aflora-lhe aos lábios.
- Leia alto - pede Círcilo, curioso.
- Por que é que sorri? - pergunta-lhe o policial.
- É que eu penso que não há mistério nenhum aqui...
- Não é possível! Acha então que a indicação que ele nos dá não tem nenhum valor?
- Mais ou menos.
- Que é que diz afinal esse papel? Leia em voz alta - insiste Círcilo.
- Bom: ele diz o seguinte...
Redobra-se de atenção. Sílvio começa a ler alto o escrito. Dá mais ênfase a uma passagem: Paradoûnai tòn toioûton tôi Satanâi eis ôlethron tês sarkós.
Cai um silêncio. Depois, o policial:
- Que é que está exatamente escrito aí nesse lugar? nesse trecho?
- Assim, seja entregue a Satanás, para a destruição da sua carne - responde tranquilamente Sílvio, devolvendo-lhe o manuscrito.
- E que é que isso representa?
- Uma fórmula ritual talvez. O que posso garantir-lhe é que Satanás é um demônio. Eu pensei que os cristãos o combatessem. Mas talvez seja um aliado, como essa passagem nos leva a presumir.
O homem não parece convencido. E a ideia de que a polícia possa estar vendo aí uma pista pessoal, traz outra vez aos lábios de Sílvio o mesmo sorriso.
O policial ficou amuado. Guarda cuidadosamente o documento. O pequeno incidente gera uma situação de constrangimento. Daí em diante seguem calados. Poucos passos à sua frente, abre-se a porta que dá para a estrada de Corinto. Um aviso de sinalização urbana em grego e em latim, pintado sobre uma das paredes, advertia os estrangeiros que era aquela a saída do porto para os que demandassem Corinto. A porta dispõe de três passagens abobadadas: uma no centro para os veículos, duas laterais para os pedestres.
Só a passagem do centro é munida de portas propriamente, - dois pesados batentes chapeados de bronze. Ao franquear a primeira galeira em abóbada, acham-se eles num pátio quadrangular, donde saem para uma nova passagem, idêntica à anterior, e daí para a estrada. Sílvio não descobre nesse conjunto nenhum baluarte, nenhuma dessas obras de defesa que fazem da entrada duma cidade um posto militar. É um monumento, apenas.
A sua inspeção é rápida, feita ao passar, no meio dum trânsito intenso. Seu amigo, o policial, a cara ainda fechada, seguiu adiante, em busca de Hermacreonte, o jumentário. Sílvio então observa para Círcilo:
- O homem ficou desapontado com a minha opinião. Ele pensa ter encontrado naquele Satanás o carrasco da seita que a polícia procura...
- Claro.
- São formidáveis...
- O melhor é não discutir com eles.
Momentos depois o homem volta. Já está mais desanuviado. Hermacreonte, que o acompanha, é um Grego maneiroso, servil. Tem nos lábios um sorriso cortesanesco.
- Está tudo arranjado - vai adiantando o outro, triunfante.
E dirigindo-se a Sílvio:
- Olhe, moço, eu vou continuar procurando o meu homem. Ele talvez se disfarce num nome suposto, - um nome de guerra.
E é agora com um sorriso de finura que remata:
- Isso, o meu amiguinho não viu...
Já dá à sua palavra um semblante de bonomia. Seu bom humor voltou inteiramente. Ali mesmo se despede deles, depois de recomendar ao jumentário que proporcione uma jornada aprazível àqueles amigos.
- Serão atendidos da melhor forma.
- Pois então, adeus! Boa viagem!
- Vale.
Em poucos instantes ultimam-se os preparativos da jornada, e eles partem.
A estrada ocupa um vale, entre colinas. Abundam os pinheirais. Talvez que essas árvores esbeltas, vai refletindo Sílvio, tenham decidido poderosamente sobre o destino dos Gregos, - que são sobretudo navegadores. Arrastadas das altas montanhas para o mar, elas se fizeram navios, flutuando sobre as ondas. Quando lia isso, naquele poeta que andou por ali a pé, não imaginava que um dia pudesse estar contemplando as terras elevadas onde crescem os pinheiros que se transformam em quilhas...
À sua frente alteia-se o gigantesco maciço da Acrocorinto, moradia sagrada de Afrodite, regada de água por todos os lados. Enquanto a carruagem avança, Sílvio, o olhar embebido no penhasco que domina dois mares e donde se avista o Parnaso, fica sonhando com Eurípedes e recitando-lhe mentalmente os versos.
- Então você se dá com Evandro? - pergunta-lhe Círcilo - Onde o conheceu?
- Em Tessalônica.
- Ele não disse quando iria aparecer por cá?
- Eu saí sem me despedir dele. Não tivemos muito tempo para conversar sobre essas cousas.
- Um grande homem, Evandro. Mas um errado - observa Círcilo. - Já lhe tive ocasião de dizer isso mesmo.
Sílvio surpreende-se. Com a teoria proletária que Evandro sustentava, imaginava que o gráfico se mostrasse um adepto da sua doutrina. E comunica-lhe o seu pensamento.
- Justamente porque sou um proletário, um selulário, é que estou em condições de julgar do sistema de Evandro. A apreciação dialética que ele faz da situação é correta. Nem se podia esperar outra cousa dum discípulo de Sócrates. Estou a História, e a História é ainda a grande mestra. Mas escapam-lhe alguns aspectos da atualidade. Não domina bem o momento presente. Daí derivam todos os seus erros.
- Ouvi em Atenas - observa Sílvio - que o problema do momento não é econômico, mas simplesmente moral, e que é isso que faz a debilidade da tese de Evandro. Só obtém sucesso agora quem se propõe a moralizar. É também o seu parecer?
Círcilo volta-se no assento da carruagem e depõe no jovem um olhar de interrogação e de surpresa.
- Não é econômico?... Onde poderá haver um problema, já não digo humano, mas dos seres em geral, que deixe de ter como principal fundamento um fator econômico? Não, não é aí onde está a nossa divergência. Nesse ponto nos achamos de pleno acordo. Começamos a nos separar no capítulo das soluções... - E Círcilo sorri. Um sorriso um tanto melancólico, como nota Sílvio. Um sorriso filosófico...
- Você vai ler na obra de Evandro a apologia do trabalho livre. Ele quer robustecer, quantitativa e qualitativamente, o setor operário, como já foi tentado no Egito ptolomaico. Com que objetivo? O de entregar-lhe por fim o governo da sociedade. Uma forma depurada de oclocracia, - esse governo da massa, tão execrado pelos teóricos gregos. A minha questão é a seguinte, que eu tantas vezes debati com ele: o operário mostra alguma aspiração nesse sentido? E a minha resposta é pela negativa. Sou um operário, convivo com operários. Nenhum deles quer ficar com a fábrica do patrão. Até hoje nenhum movimento se operou nesse sentido. Muito menos para a tomada do poder, - para grande satisfação dos sequazes de Políbio, que foi quem introduziu em política o termo oclocracia e a considera a forma bastarda da democracia.
Segue-se um breve silêncio. Pela estrada, como pelo leito dum rio, continua a passar a vaga humana. Carros, liteiras. Mas a maioria viaja a pé.
- Quanta gente! - exclama Sílvio.
- Não é o que eu lhe dizia?...
- Mas - obtempera Sílvio - Evandro pensa que esse estágio último - a formação de uma verdadeira consciência comum a toda a classe - é o resultado obrigatório da elevação do nível econômico do trabalhador.
- Será mesmo?... Um trabalhador que prospere quer ficar por sua vez capitalista e patrão.
- Então - interrompe Sílvio - aspira a isso que você nega: ficar de dono da fábrica...
- Sim, do ponto de vista individual, mas renegando a sua classe, adotando a classe do seu explorador, transformando-se em explorador também. Não porém com a fábrica elevada a uma propriedade coletiva, operária. É preciso saber o que é que o homem em geral e o homem pobre em particular mais desejam. Onde é que está a sua fome. Não nego que o operário tenha fome da fábrica. Ele vê os gozos que ela dá ao patrão. Mas essa fome não se compara, não com a fome de terra que tem o camponês. A revolução tem de começar pelo campo.
Detém-se um momento e depois prossegue:
- Quais são os lugares onde se tem sentido mais aguda a inquietação das massas? Éfeso, com a sua grande indústria de tendas? Alexandria, que detém o monopólio da fabricação do vidro, do papel? Corinto mesmo, com os seus bronzes? Não! É Roma, que praticamente não tem indústria alguma e vive parasitariamente daquilo que o resto do mundo produz.
- Eu em parte descendo da turba do Fórum - diz Sílvio, num sorriso. - Porque um dos meus antepassados foi um desses agitadores de praça pública. O que ele queriam era a abolição das dívidas.
- Parte deles, para salvar as suas propriedades hipotecadas, o que era uma forma eloquente de pedir terra. Todos os grande revolucionários reconhecem isso. A começar pelos Gracos.
Sílvio não acha o que dizer. O operário remata:
- É urgente arregimentar primeiro o camponês pobre, que, crivado de dívidas, vê a terra pulverizar-se nas suas mãos. Dar-lhe essa consciência coletiva que Evandro ambiciona para a classe operária. Aproveitar-lhe o espírito da luta, que ele tem, e grande, porque o seu desejo de terra é tão obrigatoriamente imperioso como a fome. É mesmo uma fome. É o primeiro estágio. Fazer mais tarde, ou mesmo paralelamente, igual trabalho com os operários urbanos. Unir a fábrica e o campo, se possível. Mas trabalhar o campo. E isso Evandro ainda não se decidiu a realizar. Enquanto não o faça, ficará em pleno domínio da utopia. Você queria saber qual era o meu parecer. É esse.
- Eu desejo visitar algumas livraria em Corinto - diz Sílvio momentos depois. - Você poderia me dizer onde é que eu tenho de ir?
- Olhe: esta estrada vai terminar no centro mesmo da cidade. Ali, sob os pórticos, você encontrará tudo. Até a fonte de Pirene, ao pé dos propileus, se está muito sequioso de tradições heroicas... Mas, falando sério: é um lugar estratégico. Você há de querer subir à Acrocorinto. É dali também que parte a estrada em caracol que leva ao ápice da penedia. E quando for tomar o seu navio em Lequeu, saíra também dali por um caminho direto que vai até o porto. É muito fácil orientar-se em Corinto.
Já está à vista a porta da cidade.
- Que é aquilo lá, junto da porta? - pergunta Sílvio.
- O lugar onde sepultaram o corpo de Diógenes de Sinope, que os Gregos cognominaram o Cão.
*
O dia praticamente já se extinguiu, quando Sílvio e Demétrio chegam à praça principal de Corinto. Abandonaram a carruagem à entrada da muralha, - vasta obra de alvenaria, que protege a cidade por toda a parte menos na região sul, onde a montanha da Acrocorinto constitui uma defesa natural. Parece que, outrora, a exemplo de Antióquia e de Tessalônica, os muros de defesa escalavam mesmo a montanha. E quem subir aí poderá ver os restos dessas construções. É o que ele-Sílvio terá ainda oportunidade de verificar. Porque decerto se demorará em Corinto. A menos que tenha a ventura de encontrar no porto de Lequeu algum navio para a Itália.
Círcilo separou-se deles logo depois da porta. Mas combinou com Sílvio um encontro para odia seguinte. Interessante, a sua tática de luta.
Em que mãos foram parar a vigilância e o policiamento da sociedade! E isso, que a polícia romana é considerada modelar, com a sua polícia política organizada à maneira da polícia secreta dos Persas, - a mais eficiente do mundo.
Os cristãos praticam uma antropofagia mística... É a interpretação que a polícia dá ao mistério da ceia, em que se come o corpo de Cristo-Jesus, em que se bebe o seu sangue. Pelo jeito, muito vai custar aos cristãos provar a inocência do seu rito... E eles legitimam não importa que licenciosidade! Será mesmo?...
Sílvio detém-se momentaneamente junto dum templo, que ele quer identificar com o de Artêmis de Éfeso, e procura orientar-se. Já está quase escuro. Entretanto, a praça conserva-se cheia de gente, que conversa, aos grupos. Tanto quanto ele pode discernir, pela observação dos grupos que lhe estão mais próximos, não é uma conversa franca, aberta, mas apresenta-se antes com o caráter de um conciliábulo, duma confabulação sombria. Uma conspiração?...
Avança alguns passos. A atitude daquela gente é muito estranha. Dá-lhe vontade de interpelar alguém.
- Que será que está havendo, Demétrio?
Porque - não lhe resta dúvida - algo sucedeu. O aspecto da praça está a denunciá-lo. Mas Demétrio não responde. Parece mesmo não haver notado nada de anormal.
Num dado momento, chega aos ouvidos de Sílvio um fragmento de frase, em que ele distingue as palavras Procônsul... ato criminoso... Será que ocorreu alguma cousa com o governador? Não hesita nem mais um instante: aproxima-se dum daqueles grupos e indaga:
- Que é que aconteceu? Algum fato de importância?
A conversa, ali, suspende-se um momento. O interpelado pergunta por sua vez:
- É Romano?
- Sim...
- Então talvez considere de importância a notícia que vou lhe dar: Roma já não existe.
Sílvio tem um movimento brusco:
- Como é?!
- Roma foi devorada pelo fogo.
Uma violenta reação toma o corpo de Sílvio, como se sofresse o impacto dalguma cousa sólida, dum calhau por exemplo arremessado contra ele por uma catapulta. E antes que possa proferir qualquer palavra, um outro componente do grupo, um sujeito calmo, observa para o companheiro que despejara aquele raio:
- Você não pode falar assim. Ainda não se sabe se Roma foi mesmo destruída.
Mas tudo levava a supor que o tivesse sido e que a essa hora a poderosa Urbs já não existisse mais. O navio chegado essa tarde em Lequeu com o correio de Roma dava conta do pavoroso incêndio, começado havia oito dias e que, pelo visto, só se deteria quando não encontrasse no meio dos escombros nada mais com que se alimentar.
- Eu não exagero: Roma foi-se, espero que me acreditem.
Tomado dum quase desespero, Sílvio não obstante quer serenar-se, obter dados seguros. O homem parece-lhe um tanto versátil, um tanto dramático. Mas sabe que nenhum dado que venha a obter, por mais lisonjeiro que seja, pode desfazer aquele horror!
- Mas que é que sabem de positivo?
Bem: de positivo o que se sabia - responde o sujeito calmo - era o comunicado oficial chegado essa tarde para o Procônsul, dando a notícia da catástrofe. Viajantes, marinheiros tinham completado as informações: sete ou oito dias atrás...
- Oito dias - afirma o sujeito dramático.
- Sete ou oito - repete o sujeito calmo, dessa vez reforçando um pouco a voz.
De forma laboriosa e atabalhoada, Sílvio entrega-se a um cálculo rápido, - comovente pela esperança que ele aí está buscando... e que logo se desfaz.
- Exatamente oito dias - insiste o outro: - estamos hoje no sexto dia das calendas de agosto. O incêndio manifestou-se precisamente à duodécima hora do décimo-quarto dia das calendas de agosto. Não me passou despercebida a data. Portanto há oito dias como eu dizia.
- Não sei se foi no décimo-quarto dia das calendas de agosto...
- Tenho certeza. Como disse, a data me chamou atenção, porque assinala um outro incêndio de Roma: o dos Gauleses.
Décimo-quarto dia antes das calendas de agosto! Foram os cristãos!
Está perdido! Sílvio sabe que está perdido. Por mais profunda que seja a emoção que o toma nesse momento, vê que o pior apenas se anuncia: é para quando estiver sozinho, longe daqueles homens, que afinal constituem uma companhia, ruminando a sua desgraça, fechado no seu segredo. Apega-se a uma ilusão: como poderia ter-se dado isso? Um incêndio ocasional? Será que aqueles homens sabem que o incêndio foi provadamente ocasional? Reúne todas as suas forças e pergunta:
- Já se sabe alguma cousa das origens do incêndio? Foi ocasional?
- Eu tenho para mim que se trata dum ato criminoso - responde o sujeito loquaz. - Começou nas tabernas que rodeiam o Circo Máximo, nas vizinhanças da Porta Capena. Daí se irradiou para o Palatino, o Velabro, enquanto outros focos surgiam noutras partes. Só esse detalhe prova que se trata dum ato premeditado.
O grupo que eles formam, e donde saem informações aparentemente dignas de crédito, está constituindo um centro de novo ajuntamento. A presença ali dum Romano, como é evidente, traz uma atração a mais.
- E não se conhecem os seus autores?
Sílvio faz a pergunta com voz trêmula, na esperança de ouvir a resposta tranquilizadora:
Pois claro: foi Nero, para poder ligar o seu nome à Cidade, reconstruída com a denominação de Nerópolis.
Mas o que lhe dizem não é nada disso, naturalmente:
- Estas primeiras notícias ainda não apontam os seus autores.
Na sua angústia, só um pensamento ocorre a Sílvio: Tessalônica! Voltar para Tessalônica. Numa emergência dessas, não pode ficar sozinho. Precisa de alguém. Para ajudá-lo a ver a situação, a sair dessa situação terrificante, - se isso ainda é possível. Quem poderá ser essa pessoa? Apesar da sua turbação, enxerga uma: Evandro!
*
Mais tarde ele haveria de arrepender-se de não ter seguido essa primeira inspiração.
Passada a ponte, Roma encontrava-se a si mesma. O rio opusera um obstáculo intransponível ao fogo. É confortador sentir debaixo dos pés essas velhas pedras da via Aurélia, sabendo que nenhuma força puder nada contra elas. O caráter pouco urbanístico do bairro, que abriga habitualmente uma população pobre e cosmopolita, sem nenhum traço que denote a raça, nem sequer isso vem desmanchar aquele... encanto. Ao menos ali. Roma existe.
O seu alojamento fica longe, no pardieiro de Aristóbulo. A moradia de Aristóbulo é uma loja, simplesmente, - o que quer dizer que não tem átrio. O átrio dos pobres é o Fórum. E para Aristóbulo a expressão toma um sentido muito literal, muito real, - porque ele na verdade passa os dias nas praças, trabalhando. Seu trabalho é flanar. Enquanto flana, colhe novidades, que depois, ajudado pela família, transfere para o papel e expede para a província.
Todas as casas da quadra são praticamente iguais: uma grande loja, dando diretamente para a rua. É assim a oficina do jornalista. Ele se refere a ela com gravidade, que não deixa de assumir um certo ar cômico, quando se sabe dos seus hábitos de trabalho... Mas, enfim, é uma oficina mesmo, porque aí está a mesa - a banca - com o atramentário para tinta, o cálamo, os volumes de papiro no seu cofre cilíndrico. Aí senta ele, para escrever. Ou a filha, que escrever por ele, sob o seu ditado, como mero artífice selular. Jucunda, quando a lida da casa não a esfalta em demasia, colabora, enrolando a folha, selando-a. O casal dorme aí mesmo. Uma peça nos fundos é o dormitório dos filhos.
Mas a casa, como em geral todas do seu tipo, dispõe dum sobrado - uma mansarda. E muito cômoda, porque possui entrada independente. Ela faz saliência sobre a rua, numa espécie de balcão - o meniano. A mansarda sempre tivera a sua utilidade, mas fora servir principalmente quando se verificara aquela crise aguda de habitações. Alojara-se nela primeiro um dos amigos de Aristóbulo. E pagou. Viu então a mulher que um negócio - um biscate - se lhe oferecia. Pelo menos durante aqueles tempos excepcionais. Mesmo na ausência do marido, que andava por longe - pela Macedônia e a Grécia - a mansarda foi arranjada para receber hóspedes, à maneira de albergue provisório. Quando, munido do endereço, Sílvio se apresentou à mulher, esta lhe deu o último lugar disponível. E, como Aristóbulo chegou também naqueles dias, Sílvio foi alojado com uma deferência toda especial. Jucunda é uma mulher do povo. Pela primeira vez ele se defrontava em intimidade social com uma pessoa dessa classe. Muito afanosa, meio arrelienta com os filhos, às vezes com o marido. Mas boa. Muito boa mesmo. Ele se agradou da simplicidade que reinava ali, e foi ficando, - temporariamente. O resultado é que já está em Roma há algumas semanas e ainda não cogitou do seu alojamento definitivo.
Sem ter sobre isso um plano bem estabelecido, ele aguarda entretanto a vinda de Evandro para resolver várias cousas, inclusive a questão da sua instalação definitiva na Cidade.
Às vezes, reflete no absurdo, quase pueril, dos seus vagos projetos. É que nem ter certeza, a menor indicação, quanto a uma provável vinda de Evandro a Roma. Ao menos uma vez na vida, todo o mundo, de toda parte, há de vir ali, dissera-lhe Caio Flavo. Era a bem dizer um aforismo. E quem sabe se os últimos acontecimentos não tornaram mais imperioso o aforismo...
Sem falar naturalmente no fato fundamentalmente grave - o seu erro - e que foi consequência direta daquele partida precipitada de Tessalônica, quantos pequenos inconvenientes derivaram daí! Não se despediu de Evandro: não combinou portanto nada de concreto com ele. Agora, nem mesmo sabe se o amigo virá encontrá-lo em Roma. Implicitamente, há esse compromisso. E é essa quase certeza que alimenta a sua esperança. A cada momento está a ver o seu navio entrando num desses grandes portos que servem a Cidade.
A família parece já estar acomodada quando recolhe. Vai diretamente para o seu cubículo.
Está só em Roma. Lá seguiu Demétrio, há muito tempo, com a sua carta contemporizadora ao pai, as encomendas, os presente. Imagina como o pai não estará amuado ainda. Apenas amuado. Isso passa. Não compareceu ao casamento da irmã. Na ocasião não podia. Coincidiu com um momento em que se lhe ofereciam vários negócios à vista. Não lhe era dada a faculdade de os negligenciar. Não representavam mais do que promessas. Mas uma promessa de trabalho podia-se transformar num trabalho real. Entre elas se encontrava a de Hegesipo, o Judeu. Foi pois muito oportuno ter ficado ali: é quase certo - vê-se o enorme interesse de Hegesipo no caso - é quase certo que há de trabalhar com ele.
Pena não o ter podido satisfazer naquele projeto de ir acompanhar algum curso de eloquência em Rodes.
Tem agora um plano mais completo: aguarda ainda alguns dias a vinda de Evandro. Instala-se noutra parte, no próprio bairro da escola, para ficar mais próximo do seu local de trabalho - porque o problema das distâncias é mesmo sério em Roma.
Afortunadamente, o Viminal foi também poupado da calamidade.
Quando tudo estiver ultimado, dá um pulo à Gália. Será a despedida. Antes de terminado o ano letivo, é vir então definitivamente para Roma. O que lhe irá acontecer só os deuses sabe...
Desenrola o papiro teneótico que Leo lhe havia passado.
À luz da lâmpada de azeite, põe-se a decifrá-lo. Essas cópias, esses exemplares de segunda mão, são terríveis de ler, principalmente à noite, com luz artificial. Nenhum cuidado técnico, nada que lembre a leitura mesma dum livro. - O livreiro de Atenas tinha razão...
Paulos Doûlos, Kletós’ Apóstolos.
A sonoridade da língua grega!
Sempre falara o grego, em casa, com o seu preceptor, seu dulo, - o escravo Asiata.
Mas essa travessia pela Grécia desamarrou-lhe completamente a língua.
Nunca mais vai deixar de praticar o grego, que é a língua internacional.
Não será difícil para ele: tem Aristóbulo, agora Teófanes. Aristóbulo porém é muito desorganizado: quase não se veem. E Teófanes - disse-lhe Caio - fez o propósito de adotar o latim como língua materna. Cidadão romano... Em tudo. Uma lástima.
Paulo, o servo, chamado apóstolo...
E Paulo de Tarso é cidadão, também. Mais do que Teófanes, cujos papeis ainda não estão regularizados. Falta-lhe pois a cousa mais importante - o certificado de cidadania, passado pelo Imperador. Por que se chamar servo? Servo duma ideia?... Dalguma das suas divindades? O cristianismo reconhece pelo menos três. Dos homens, - seus irmãos e seus senhores?....
Ao lado das ideias de superioridade e duma vida de grandezas, existe uma ânsia de inferiorização, - de escravização, com todos os caracteres duma verdadeira volúpia.
Um homem que, dirigindo-se solenemente a alguém, começa por se chamar escravo, está valorizando demasiadamente a escravidão. Ou a ironizando.
Como Evandro tem o senso do grande problema do momento!
A escravidão está mesmo na ordem do dia. E Evandro não viu tudo, isto é: os lados práticos e ocorrentes das cousas. Não sabe ainda da existência do cristianismo! É possível uma cousa dessas? Tessalônica deve ser um foco. - É exato que el pouco pára em Tessalônica.
Não era de esperar tamanha separação entre cristãos e Judeus, dado que as suas doutrinas a bem dizer se confundem. Mas os Judeus não querem saber dos cristãos. Viu isso, primeiro em Tessalônica, com o rabi Judas Nabateu. Acaba de ter mais uma prova agora ali, no tom de mordacidade com que Hegesipo se referiu aos cristãos, ao Cristo, na conversa da pérgula de aula.
E fato característico: os Judeus não foram importunados pela polícia no caso do incêndio de Roma...
Ao ver a rua do seu hotel em Tessalônica pela última vez, naquela partida de manhã, tivera um pressentimento. Vinha do enorme pardieiro onde os Jared possuem o seu miserável apartamento. Vinha sobretudo daquela noite inolvidável...
Contra a indiferença afetiva dum vagabundo erradicado como Heliodoro, que a nada e a nenhum lugar do mundo se fixa, ele vira que ia ter saudade dali. Se ia ter!... Quantas vezes não desejou retornar a Tessalônica!
E não era para se dar isso: porque todo o seu sofrimento de hoje - essa angústia que ora sobe e toma conta de todo o seu ser, ora permanece no fundo como uma vasa, invisível mas presente, todo esse desgosto sem remédio - é por ter estado em Tessalônica...
Já partira um tanto inquieto. Mesmo assim, feliz. Seu corpo guardara a lembrança da pressão sobre o corpo de Tarsita, os lábios conservavam ainda o calor úmido dos seus lábios. Feliz também pela felicidade infantil de Heliodoro, que queria por força viajar num navio da classe do Ácatus e fazê-lo participante da sua alegria...
Nem é bom recordar o horror que experimentou em Corinto, à noite da sua chegada, quando recebeu aquela notícia do incêndio de Roma!
Como?! Vir atormentando-se com uma ideia, com um temor. Julgar, finalmente, essa ideia - absurda, por demasiado terrífica. De chofre, como sob o impacto dum calhau lançado por uma catapulta, saber que ela é um fato - plenamente realizado! - Seu primeiro impulso foi de se juntar a Evandro em Tessalônica.
A ânsia com que se misturava à população - apinhada nas praças, sob os pórticos - em busca de detalhes! Fez mais de uma viagem a Lequeu, a pé, à sombra das arcarias que cobrem o caminho, para estar junto ao cais quando chegasse o navio da Itália com novas informações, informações complementares.
Pouca atenção dava a Círcilo, que, conforme combinado, logo no dia seguinte o procurou.
Escutava aquelas observações interessante do gráfico sobre a luta, a melhor tática de luta, com uma atenção dramaticamente erradia: erradia porque todo o resto desaparecera do campo da sua consciência. Só ficara um fato: anunciara um grande crime, que acabava de se praticar. Confessava-se dum certo modo ligado a ele, conivente com os seus autores...
Vendo-o com o pensamento de tal maneira polarizado na catástrofe, e emocionado a tal ponto com acontecimentos que aliás se desenrolavam tão longe, Círcilo foi levado a supor que ele talvez se inquietasse com a sorte de alguém - um parente, um amigo - que lá se achara, - ou residindo ou de passagem. E Sílvio via-se coagido a tranquilizá-lo com uma resposta lacônica, pungente na sua cruel ironia:
- Nada pessoal...
Quando, justamente, nada havia, para ele, de mais pessoal do que isso... Essa ocorrência, - impessoal de sua natureza...
Nesse momento teve a convicção de que a sua carta -a carta contendo aquelas palavras fatais: estou capacitado a apontar os autores do incêndio de Roma, tantas são as minhas ligações com eles - teve a inabalável certeza de que essa carta imprudente e inconcebível não havia mesmo ido parar às mãos de Evandro. Seguira à aventura, com um endereço incerto... E, quanto mais não fosse, porque Evandro pouco pára em Tessalônica...
Foi quando começou a se avolumar em Corinto um rumor - um boato - trazido mesmo dos escombros fumegantes da grande Urbs: Nero fora o incendiário. Que alívio! Passar-se-ia uma esponja sobre o acontecimento. Talvez até o senado lhe rendesse um tributo pelo feito, como quando ele mandou matar a mãe... Era como se consignava oficialmente o crime: premiando-o.
Isso o decidiu a continuar a viagem.
Quando deixou Corinto, já se havia verificado a hecatombe das calendas de agosto: os refinamentos sangrentos do circo de Calígula, a noitada macabra dos jardins do imperador. Os cristãos pagavam aí aquele crime, - o crime a quele ele estava de algum modo associado...
Mas, metido num navio, que tocava em cada porto, qual uma orária navis, para descarregar, sem a menor comunicação humana, ignorava essas monstruosas ocorrências. Só veio a conhecê-las - e foi novo horror - quando afinal desembarcou em terra firme e já se achava virtualmente em Roma, - duas semanas depois.
Não gostou nada duma cousa que lhe havia dito Caio: Leo fora visto regozijando-se publicamente com a desgraça que se abatia sobre a Cidade.
Necessariamente está assinalado.
Esses encontros fortuitos que ele-Sílvio tem tido com ele - como aquele em que o indivíduo lhe passou o livro - têm de acabar.
O certo é que não simpatizou com o sujeito. Acha-o um tanto escandaloso, um tanto barulhento. Ele costuma aparecer pela casa de Aristóbulo. Não duvida que haja se servido uma vez ou outra da oficina do diurnário, para levar a efeito as suas cópias clandestinas.
Certa vez, lá mesmo, suscitou-se uma discussão sobre essas questões do dia. Leo se propôs a comunicar-lhe aquele trabalho, que, segundo ele, abria novos rumos à questão.
Não acredita: vazada sob uma forma mística, num grego que deixa o seu tanto a desejar e escrita num papel de ínfima categoria, vai encontrar uma reivindicação econômica, nada mais.
*
Uma das torturas de Sílvio é não ter como encher o tempo. Não tem nada que fazer. Sem saber quando isso terminará!
Às vezes fica a maior parte do dia no quarto, lendo. Mas essa ociosidade faz um contraste chocantes com a atividade que ele sente em torno, mesmo dentro da casa, com as duas mulheres (Jucunda e Zena, a filha) a manejar o fuso; a dar combate à poeira, bucolicamente armadas com a escopa, feita do mirto dos campos; a reanimar - vestais domésticas - o fogo do lar, soprando-o com a própria boca.
Toda a lida da casa é feita por elas. Sílvio as escuta tagarelar enquanto trabalham.
Envergonha-se de estar ali, inativo. Para dar uma ilusão de que uma ocupação qualquer o possa reter na rua, sai. E a sua vagabundagem toma um caráter mais pesado e laborioso ainda, porque não tem aonde ir.
Já a essa altura, visitou tudo quanto o fogo poupou e vale a pena ser visitado: o Capitólio, os jardins públicos do Janículo e do Campo de Marte; alguns bairros residenciais nas Esquílias; mesmo no Aventino; aquelas grandes vias que escapam da Cidade, e onde se podem admirar os monumentos funerários.
Não é raro ficar longo tempo olhando para as obras, - vendo os pedreiros trabalhar.
*
Ao voltar para casa no dia seguinte ao da conversa na pérgula de Hegesipo, o Judeu, fatigado desse perambular sem destino, encontra Aristóbulo à porta.
É de tarde - uma bela tarde outonal de setembro. Precisamente o décimo-oitavo dia antes das calendas de outubro. O senhoria vai sair de novo. Mas está todo alterado.
- Alguma novidade?...
A pergunta tem um tom de gracejo, pois Sílvio já conhece bastante Aristóbulo para poder impressionar-se com os seus ares imponentes e graves.
Aristóbulo fita-o porém com olhar preocupado. Por sua vez, toda a pessoa do jovem assume uma expressão interrogativa, a que não falta um leve toque de ansiedade. O outro dirige a face para cima, - para o balcão que é, em resumo, a moradia do seu inquilino.
Depois toma o rapaz pelo braço, e leva-o até o fundo do angiporto, - do beco.
- Que foi que houve?
Parece que custa a Aristóbulo decidir-se a fazer a revelação. Que cousa grave não há de ser...
- Um daqueles seus amigos de Tessalônica está lá em cima, há horas, à sua espera.
Evandro! Uma alegria extraordinária toma conta de Sílvio. Pergunta:
- Evandro?...
- Quem?... Não: Soêmio. Aquele rapaz sírio com quem eu parei em Tessalônica.
Ainda assim, a satisfação de Sílvio não deixa de ser grande. O jovem vem de lá, traz na sua pessoa um pouco das pessoas de Evandro, Tarsita, - daquela gente que ele tanto desejaria ver.
- Vamos lá então!
- Espere.
Aristóbulo segura-o por um dos panos do amicto.
Em voz baixa, cuidando-se de possíveis escutas que se dissimulem nos menianos das casa vizinhas, confessa a sua preocupação: não desejava ver Soêmio, nesse momento, na sua casa.
- Ele está parando aí?
- Não: foi hospedar-se na cada duns parentes, aqui mesmo no bairro.
- Quando chegou?
- Ontem.
Mas o rapaz está muito comprometido com a seita, prossegue Aristóbulo. E vem a Roma a serviço da organização.
- Não diga a ele que eu lhe falei: mas ele traz dinheiro.
Sílvio enruga a testa numa prega de interrogação.
- Dinheiro sim - diz Aristóbulo, imprimindo à cabeça gestos afirmativos. - Um auxílio em dinheiro que manda a igreja de Tessalônica aos fieis de Roma.
- Eu tenho tido muitas preocupações neste momento nunca imaginado - continua Aristóbulo. - Só o trabalho que me dá a folha! Não quero envolver-me mais nessa. Eu não posso impedir que venham à minha casa. Agora, já proibi que Leo se servisse da oficina!
Breve silêncio. Depois, Aristóbulo retoma o assunto. A situação está horrível. Suspeitas, buscas, prisões, tortura. Ele não quer - ninguém há de querer! - estar hoje tranquilamente em casa e amanhã na prisão Mamertina.
- Ou no circo1 Estrebuchando numa cruz, como um escravo...
- Não apareceu na sua enumeração a túnica molesta... - observa Sílvio, num sorriso que é um esgar, cheio de maldições.
Como apareça alguém justo por cima das suas cabeças, sobre um dos balcões que fazem saliência ali, ele arrasta Sílvio para a entrada do beco. Param de fronte da loja de Diógenes, o tintureiro. Estofos recém-tingidos secam em armações de madeira sobre a calçada. Da rua, avista-se o pessoal dentro da loja trabalhando.
- São uns aproveitadores! Este liberto, quando chegou aqui, não dispunha mais do que dos seus braços, aviltados por tantos anos de servidão.
Aristóbulo está, além de preocupado, irritado, - o que não deixa de ser um tanto esdrúxulo.
- Veja agora quantos escravos se pisoteiam em torno das cubas das tintas!
Sílvio guarda um silêncio irônico.
Aristóbulo não pára de falar:
- Até bem pouco, tudo parecia um festival no Império. César compunha versos e cantava. Agora tudo mudou. Paira uma atmosfera sombria sobre a Cidade. Sabe que já nem se conversa mais?
E, repentinamente:
- Eu me admiro de você, com família na sua bela província gaulesa, vir meter-se aqui!...
Sílvio põe-lhe uns olhos verrumantes. E quer saber:
- Que é que há comigo?
Em rigor, nada. Simples medida de precaução.
- Mas por que é que eu hei de tomar medidas de precaução?
Por quê?...
Aristóbulo olha para os lados. Ninguém perto, salvo lá dentro da loja do tintureiro os escravos trabalhando em torno dos tanques, nus da cintura para cima.
- Você passou por mim na rua sem me ver, quando vinha com Caio Flavo. Eu estava conversando com um amigo no vícus Jugárius, quase à entrada do Fórum. Ele não perdeu o gesto de Leo, passando-lhe o opúsculo. Literatura incendiária, comentou. Você não haveria de gostar do adjetivo. Muito menos dum sorriso que ele teve. Esse meu amigo mantém ligações com a polícia.
É: tem de isolar completamente Leo. Ele é elemento visado. E muito imprudente. Não é sem razão que não conseguira simpatizar com o sujeito.
Sílvio reflete um momento e depois diz:
- Você está cheio de dificuldades e de preocupações, Aristóbulo. Só o trabalho que tem com a folha...
- Não! a folha é o de menos.
Sílvio suspende-se um instante e fica olhando o senhoria com os mesmo olhos irônicos. E a seguir:
- De qualquer forma, você está enfrentando uma situação desagradável. E eu não quero aumentar-lhe os dissabores. Se deseja que eu me mude, hoje mesmo abandono a sua casa.
- Mas pra onde é que você vai ir? Pra algum túmulo?...
Para qualquer parte, pensa Sílvio. Mesmo para esses barracões que o governo mandou levantar às pressas para os flagelados. O que não quer - e isso mesmo faz sentir a Aristóbulo - é, de forma mínima embora, comprometê-lo.
- Você não me compromete! Conheço a sua conduta.
- Fico então sem entender as suas... insinuações.
- São apenas conselhos. Faça por onde eles não o possam comprometer. Soêmio é muito bom rapaz. Devo-lhe até favores. Mas anda numa missão altamente perigosa!
Com isso, despede-se. Sílvio volta, encaminhando-se para o seu quarto. As dificuldades estão começando...
E já não vem mais com aquela satisfação quase infantil que experimentou ao saber que, lá na sua mansarda, o esperava alguém que trazia na sua pessoa alguma cousa das pessoas de Evandro, Tarsita, - dessa gente em suma que ele tanto queria ver num momento desses... Sobe os degraus da escada com aqueles passos morosos, cismadores, únicos passos de que parecem dispor os seus pés cansados, mortificados...
Aristóbulo tem razão: quando diz não deixe que o comprometam, ele lhe está dando um conselho grandemente proveitoso. É como se dissesse: conviva apenas com gente da sua classe. Gente tão refratária a essas ideias estranhas e comprometedoras, como é refratária ao fogo a velha pedra que calça a sua rua...
E ele tem aquela roda que se reuniu ainda na véspera na escola de Hegesipo.
Não há de haver em Roma cousa melhor: inteligentes, cultos, finos. O tempo relativamente agradável que passou lá! No entusiasmo do debate, a sua angústia como que adormecia. Desgraçadamente, a despeito das aparências, nada ou quase nada mais tem de comum com eles. Tendo vindo daquela escola ígnea, sulfúrea de Tessalônica, como dum Inferno, parece que não pode mais conviver com seres naturais...
Ao chegar em cima e ao ver a cara delicada, um tanto feminil, de Soêmio, exclama:
- Que satisfação você me dá! E que surpresa!...
O jovem havia-se levantado à sua chegada.
- Sente-se! Aristóbulo me disse que você está à minha espera há muito tempo.
- De fato.
O próprio Sílvio acomoda-se no leito. Quer notícias - as notícias mais amplas - de Tessalônica, mas não ousa pedir-lhas. Em primeiro lugar sobre o Terapeuta: teria morrido? Formula uma questão geral:
- Como ficaram todos por lá?...
- Mais ou menos.
Soêmio tem aquele mesmo ar tranquilo, o olhar sonhador. Vai contando: já havia dado os passos mais importantes sobre o assunto que o trouxera ali. De passagem, viera fazer uma visita a Aristóbulo. Soubera então que ele-Sílvio estava alojado na sua casa, e resolvera esperar para vê-lo. Mas fora uma surpresa: ninguém em Tessalônica supunha que ele estivesse em Roma.
Como? Ele escrevera, em viagem, uma carta a Evandro, dizendo que ficava em Roma, e dando-lhe esse endereço. Será que Evandro não a havia recebido?
Ah! não sabia... Evandro nunca mais fora visto, desde aquele dia em que estivera com ele-Sílvio no cenáculo de Jair ben Jared. Talvez andasse viajando:
- Evandro pouco pára em Tessalônica.
- Eu sei disso...
Sílvio tem, para si mesmo, um sorriso amargo... Como estava certo... terrificamente certo: sua carta ainda não fora parar às mãos de Evandro!... Crisócero ainda não puder entregar-lhar.
- E Crisócero?... Você o tem visto?
- Crisócero naqueles dias mesmo seguiu viagem. Parece que agora se acha em Alexandria.
Um frio - o frio do medo - apodera-se de Sílvio. Já quase tem certeza de que a sua carta - a carta terrível! - está irremediavelmente extraviada, e se acha rolando, perdida, levando consigo, com a indiferença dum rio a conduzir suas águas, as palavras fatais que escreveu numa espécie de arroubo e que o hão de arrastar à morte...
Quanto a Jair ben Jared, acrescenta Soêmio, acumulando mais uma informação, restabeleceu-se inteiramente.
- Ah! sim? Extraordinário!...
- Foi uma grande vitória de Crisócero. Ficou ainda alguns dias em Tessalônica, depois lá se tocou para o deserto do lago Mareótis.
- E Tarsita?... Voltou com o irmão?
Soêmio não responde no momento. Baixa os olhos. Ante essa atitude, que traduz constrangimento e se reveste duma discrição educada e feminina, Sílvio sente uma apreensão. Alguma cousa aconteceu à moça...
- Que é que aconteceu com Tarsita, Soêmio?
O jovem Sírio ergue-lhe então uns olhos doces, sem pressa. Que é que lhe poderia ter acontecido? A suavidade dos seus modos não exclui uma certa censura. Simplesmente o escândalo... Sílvio, mesmo sem compreender, toma-se duma ansiedade, que a falta dum objeto determinado torna ainda mais opressiva. O marido, completa o rapaz, havia chegado inesperadamente a Tessalônica.
- O marido?! Aquela menina é casada?...
- E por que não?
Ninguém o esperava lá. Mas ofereceu-se-lhe a oportunidade duma viagem de negócios a Tessalônica. As viagens estão na essência mesma do seu gênero de atividades: o marido de Tarsita nunca se ocupou doutra cousa. Ultimamente montou uma estação de carruagens nas saídas do Pireu:
- É um jumentário.
Fazia um ano ou mais que se achava longe da mulher - de Tarsita - que havia deixado em Alexandria e que supunha ainda se encontrasse por lá. Conhecia a moradia da sogra. Encaminhou seus passos para aí. Encontrou a esposa:
- E... grávida.
O estômago de Sílvio dá uma volta. Com medo de vomitar, engole a saliva. - uma saliva aquosa, fluida. Tem de vencer um certo esforço físico: seus músculos da face estão repuxados. O olhar doce e pertinaz de Soêmio continua pregado na sua cara. Então essa vergonha incontrolável dos jovens, como alavanca dum novo gênero, desloca-lhe a cabeça, tira-a da sua posição de equilíbrio. Nem é outra a sensação que experimenta ao não atinar onde colocá-la. Soêmio há de estar vendo o violento rubor que agora lhe pinta o rosto, como se lhe houvessem pincelado uma camada de fogo. - Quão insuportável foi isso! Mas passou.
Soêmio dá outros detalhes:
O marido quis perdoar-lhe o ocorrido, levá-la consigo. Mas ela se opôs. O seu negócio havia-se ultimado. Ele então voltou. Sozinho. Tarsita lá ficou. Sozinha também.
Durante alguns instantes, Sílvio permanece em silêncio. Depois ergue a cabeça e pergunta a Soêmio, levado por uma premonição:
- Como é o nome desse homem?
- Hiponax.
Estranha e brutal coincidência, reflete Sílvio. No ponto alto do drama, suas vísceras, com mais eloquência, falaram por ele...
Sílvio ergue-se. Dá alguns passos na pequena peça. Aquela sensação esquisita não se renovou. Mas que cousa estúpida... Soêmio, que já nada mais tem a dizer, conserva-se calado agora, com aquele seu antigo ar tranquilo, sonhador. Parando então à sua frente, Sílvio interroga-o:
- Para quando é a sua volta?
Para breve. Pelo menos é o seu projeto. Mas ainda não está marcado o dia.
Sílvio recomeça o seu passeio no cubículo. No meio duma situação tão nova e tão... complicada, é preciso encontrar um rumo exato. Pobre Tarsita! E seu filho não lhe produziu, no primeiro momento, senão uma sensação de... náusea! Será que não o ama?... Não é bom pensar nisso. Sabe porém, de ciência certa, que, mais do que o dever, um sentimento profundo o liga desde esse instante àquela abnegada menina, que está longe, anonimamente e sozinha, incubando o fruto duma vontade conjunta, - o que os torna reciprocamente presente, e com uma realidade maior. Ambos sentiram-se atraídos, em igual dose, sob o império dum impulso misterioso que os jogava um para o outro, e em que o atrativo da novidade ou, ao contrário, a vontade e o desejo nenhum lugar teriam, numa situação que demorava acima dessa frivolidades do prazer. Sílvio chegou a pensar que é a crise de suas vidas, que tocam seu instante crucial, que os uniu. Esse filho duma única noite, que se gera sob o signo da fatalidade, aponta aos pais o caminho certo:
- Soêmio!
Pára de novo, o ar decidido, na frente do rapaz. Este lhe volta os olhos cismadores, quiçá tocados de curiosidade.
- Vou mandar buscar Tarsita!
No primeiro instante, havia pensado em reunir-se a ela em Tessalônica. Mas essa solução é melhor.
- Você me leva uma carta para ela. E um pouco de dinheiro.
- Perfeitamente.
Tomada a decisão, Sílvio sente-se mais libertado. Fica até com licença para cogitar duma cousa que tanto o vem mortificando. E desmoralizando, pelo caráter de clandestinidade que possui a angústia:
- Quero um outro obséquio seu...
Esboça-se uma certa hesitação. Não é fácil vencer uma antiga resistência. Mas é esse o caminho. De rosto erguido para o seu rosto, Soêmio está esperando.
- Eu escrevi uma carta a Evandro, - uma carta confidencial. Como não sabia o seu endereço...
- A rua onde ele mora fica logo passando a Rua Nova.
- Ah! não sabia. Por isso - continua - enviei-a aos cuidados de Crisócero. Quero que você vá até a casa dele, recupere a carta e a entregue a Tarsita para ela me trazer quando vier. Se ocorrer qualquer contratempo, queimem essa carta.
Soêmio arregala-lhe uns olhos agrandados, embasbacados.
Um enorme peso foi retirado de cima do seu corpo com todos esses arranjos. É do que Sílvio se dá perfeitamente conta.
E então um contentamento o invade. Contentamento de adolescente, - emocionante e paroxístico. Ao mesmo tempo que misteriosa fome, até aí contida, o avassala, - como testemunho visceral e arcaico da sua libertação.
O Sírio prepara-se para sair.
- Não vá ainda! Eu vou sair com você: vamos comer!
Já em baixo, no passeio:
- Quem sabe - insinua Sílvio, sorridente - não serio o caso de celebrar este dia com uma bebida ritual?...
O que Sílvio tem em mente, nessa fantasia relâmpago, é um vinho de Prâmnio, tratado à maneira de Circe: com seus condimentos mágicos que trazem esquecimento.
Não passa porém duma fantasia.